sexta-feira, 12 de maio de 2017

Quinta da Fata — Touriga Nacional '2009

Outro velho favorito, o monocasta Touriga Nacional da Quinta da Fata, de Vilar Seco, Nelas.

Feito em lagar, com pisa a pé, estagiou, um ano, em barricas de carvalho francês. Abri a garrafa nº 1493, mas não consegui descobrir quantas foram produzidas.

Mais amplo que longo e muito macio, senhor de uma concentração a que não teve de ceder finura, apareceu ainda pouco terciário, rico em violetas e vívidas sugestões de bergamota, misturadas com fruta bem negra, a degenerar com a passagem do tempo em figos, tâmaras e frutos secos, junto com um pouco de chocolate de leite, mais presente no final.

Com oito anos, não me pareceu nada velho. Retém frescura e alegria — talvez, também, promessas para o futuro? Para já, foi pelo equilíbrio que se destacou, foi de equilíbrio a impressão que dele prevaleceu.

Empurrou um bife com batatas fritas, de acordo com esta interpretação do clássico.

18€.

17

terça-feira, 9 de maio de 2017

Filmes (80)

Fisshu sutôrî (Fish Story)





Este filme é a adaptação cinematográfica da novela de 1971 com o mesmo título, escrita por um japonês chamado Kotaro Isaka.




O contra-rótulo inclui uma breve sinopse: "Fish Story weaves together several seemingly separate storylines taking place at different points in time over a 37-year span to explain how a little punk rock song can save the world."




E aparte o bizarro, que só pode ser bom, nem que seja pela diversidade que implica, não é que funciona?




Como o melhor dele é som e movimento, preferia trazer-vo-lo numa janela de vídeo. Mas, o dinheiro, os direitos! O Youtube não deixa.

sábado, 6 de maio de 2017

Herdade do Esporão — Quatro Castas '2012

Feito com Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Touriga Franca e Tinta Miúda, 25% de cada, vinificadas em separado. O Alicante estagiou, seis meses, em inox; as demais castas, por igual período, em carvalho francês e americano.

Nariz maduro, generoso nas notas evocativas de calor e doçura — preferindo não o afirmar muito alentejano no estilo, expressão a que não falta certa perversidade, digamo-lo, pelo menos, profundamente meridional.

E complexo. À fruta que predomina, a evocar ameixa, groselha preta e outros que tais, por vezes com toque lácteo, por vezes alicorado, juntam-se floral doce e reminiscências de barrica, como baunilha e caramelo de leite.

Na boca, corpo médio, de sabor intenso, com acidez moderada e taninos doces. Em termos de persistência, estará apenas entre o médio e o longo, mas não me pareceu essa a sua característica mais lisonjeira. Em todo o caso, um vinho em boa forma!

Há muito que não abria nenhuma garrafa da Herdade do Esporão; esta serviu para me lembrar que, por norma, vale a pena.

10€.

16,5

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O homem que tinha dado o nome de Bill Plantagenet mas primeiro se anunciara como s. s. Lawhill, acordou ao menos com a certeza de uma coisa: estava num barco. Caso contrário, que barulhos espaçados podiam ser aqueles, sons assim, de ferro a malhar em ferro? Identificou o correr de água nas escotilhas, os pesados passos que martelavam por cima dele a ponte, aquele incessante Frère Jacques que é o Frère Jacques das máquinas. Estava num barco, de volta à Inglaterra de onde não devia ter saído. Depois, teve consciência do seu estiraçado, trémulo e malcheiroso corpo. A luz do dia espetou-lhe as pálpebras com setas dolorosas. E ao abri-las viu três marinheiros negros a esfregarem vigorosamente a ponte. Voltou a fechá-las. "É impossível", pensou.

Se estava num barco, e pelos vistos no castelo da proa, a coxia que tinha o seu beliche na ponta por certo atravessava o castelo inteiro. Disparate, concluiu — e fazia-se ao mesmo tempo tão forte o som de corda ferida, que começou a magicar a hipótese de se encontrar deitado em cima do veio propulsor.

À medida que avançava o dia, tornava-se mais difícil suportar aquele ruído de um comboio a andar ali, no tecto, mesmo por cima da cabeça dele. Novamente se fez noite. O ruído ia aumentando e a tripulação, coisa estranha, parecia multiplicar-se. Homens e homens magoados e feridos, sempre bêbados, iam sendo expulsos da coxia pelos contramestres e batiam com a cara no chão, aos berros, ou adormeciam repentinamente nos beliches duros.

Mantinha-se acordado. Passara a noite a fazer o quê? A tocar piano? E essa noite tinha sido, realmente, a noite anterior? Talvez não. Sentia um remorso a roer-lhe as entranhas. E uma vontade de beber desesperada. Não chegava a perceber se estava de olhos abertos ou fechados. De baixo das mantas saltavam horríveis formas entregues a um indecifrável linguajar; vinham esfregar-lhe a cara com pêlos, mas não conseguiu reagir. E sentia qualquer coisa a tentar levantar-se debaixo da tarimba, precisamente um urso. Vozes, uma prosopopeia de vozes aparecia a murmurar-lhe coisas ao ouvido e afastava-se e voltava a aproximar-se e a sussurrar, ou então dava gargalhadas, gritos e grasnidos; eram vozes que o exortavam a nunca mais beber, a morrer, a ficar amaldiçoado para sempre. Uma multidão de espantosas sombras chegava junto dele para se afastar logo de seguida. Da parede jorrou uma cascata de água que invadiu o quarto. E uma gesticulante mão vermelha espicaçava-o. No flanco devastado de um monte corria uma torrente caudalosa que arrastava corpos sem pernas, a dar berros que saíam de órbitas enormes e sem olhos, mas cheias de dentes partidos. Uma música cresceu até ao grito, e depois cessou. Num edifício de fachada totalmente destruída, um escorpião enorme violava uma negra sem braços, numa cama ensanguentada e desfeita. Por breve instante viu a sua mulher de face triste e banhada em lágrimas, que logo se transformou em Ricardo III prestes a atirar-se a ele, para o estrangular.

Malcolm Lowry, "Lunar Caustic"
Trad. de Aníbal Fernandes
Assírio e Alvim, 1985

domingo, 30 de abril de 2017

Bonjardim '2014 (Branco)

Garrafa nº 2563 de 3000.

Cor evoluída.

Menos intenso na acidez que o seu congénere de 2015; mais macio, mais maduro, ainda muito senhor de si.

Abatido na margem do Ceira, com sushi, fez lembrar flores silvestres, jasmim, baunilha e chocolate branco.

Sobrou talvez um terço da garrafa, que à noite surgiu transformada: pedra, humidade, oxidação.

É um vinho bonito, mas menor que o de 2015 e que, provavelmente, não durará.

Quando procurava saber mais sobre o produtor, online, não desgostei da reportagem que encontrei aqui.

7€.

16

quinta-feira, 27 de abril de 2017







segunda-feira, 24 de abril de 2017

Bonjardim '2015 (Branco)

Animado pela descoberta dos vinhos do post anterior, não tardei a procurar mais exemplares originários da quinta que lhe deu origem.

Encontrei dois brancos secos, de 2014 e 2015, ambos de produção ainda mais reduzida que o tinto: dizem os respectivos contra-rótulos terem sido enchidas, do primeiro, 3000 garrafas de 75cl, e do segundo, apenas 1970 garrafas de meio litro.

Comecemos pelo mais recente. Fernão Pires e Alvarinho, amadurecido "sur lie", em contacto com as leveduras mortas, após a fermentação, e não filtrado.

Primeiro flores silvestres, brancas e amarelas, depois pastelaria, a untuosidade subtil de massas folhadas.

Largo, sério, conduzido por excelente acidez que o refresca e lhe traz profundidade, mesmo já depois de "quente" no copo.

De final amanteigado, com toque de noz de pecan, foi a garrafa nº 1111.

A acompanhar, salada de polvo. O molusco, depois de cozido, foi ao forno num pyrex fechado, 20 minutos, a 140ºC, com azeite, paprika e tomilho seco. Virou-se a meio da assadura.

Misturado com feijão frade, pimento assado, azeitona verde, cebola doce e salsa, tudo cortado relativamente miúdo, constituiu um jantar fácil e agradável, companhia perfeita para um branco muito, muito bonito.

7€.

17

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Bonjardim '2012 e '2013

Feitos, de acordo com os respectivos contra-rótulos, com Touriga Nacional e Syrah, fermentados em lagar e estagiados em barrica, estes são dois dos vinhos biológicos da Quinta da Portela, sita na aldeia do Nesperal, concelho da Sertã.

A quinta, do século XVIII, adquirida pelos actuais proprietários em 1989, além da actividade vinícola, inclui uma unidade de turismo rural, o Albergue do Bonjardim. O enólogo é António Maçanita.

Em 2012, foram produzidas 7200 garrafas deste tinto, das quais abri a nº 4131. Escuro, mas relativamente pouco opaco, não se mostrou o vinho extraído e madurão que, talvez por preconceito, esperava encontrar. Pelo contrário: surgiu muito fino, cheio de boa fruta silvestre, com ponto de frescura balsâmica e bergamota. Sem se poder considerar realmente profundo ou complexo, foi, no entanto, longo, macio e concentrado o suficiente para impressionar. Custou à volta de 8€. 16

Maior surpresa ainda foi o de 2013, ano de produção substancialmente mais reduzida: abri a garrafa nº 2924 de 3700. De novo, frutos do bosque, mais vermelhos que negros, flores, muita bergamota, pimenta preta e ligeira barrica. Parecido com o de 2012, mas algo melhor em todos os aspectos. 8€. 17

Estes tintos constituem, definitivamente, dois belos representante da zona do Pinhal Interior, onde a produção de vinho, apesar de antiga, nunca teve projecção.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Filmes (79)



"I have existed from the morning of the world and I shall exist until the last star falls from the night. Although I have taken the form of Gaius Caligula, I am all men as I am no man and therefore I am a God."

sábado, 15 de abril de 2017

Domini Plus '2011

A colheita de 2011 na Quinta de Mós, propriedade da José Mª da Fonseca no Douro, rendeu 5800 litros deste vinho, engarrafado em Abril de 2014.

68% Touriga Francesa, 22% Tinta Roriz e 10% Touriga Nacional; estagiou 23 meses em madeira nova.

Inicialmente fechado de aroma, melhora tomado algum ar: frutos negros, barrica fina, flores e cola "Dragão". Vaga percepção de doçura. Longo, concentrado; elegante na forma como distribui coisas grandes.

Algo monolítico, é certo, mas muito polido, tem tudo o que se espera de um vinho de gama alta, oriundo de um produtor de referência, que começa a estar realmente pronto a ser bebido.

E agradou, de tal maneira que uma das notas rabiscadas aquando da prova até diz "delicioso". Mas não houve entre nós click que justificasse maiores observações.

Coisas da alma! Se da dele, se da minha, não sei.

35€.

17,5