domingo, 15 de Novembro de 2009

Mais dois vinhos da Quinta do Infantado

Os respectivos rótulos dizem-nos meio-secos — menos doces que o habitual. Opção de estilo que o próprio João Roseira explica muito bem numa entrevista à revista electrónica StarChefs.com:

«This has to do with several reasons. First of all, when my father and my uncle started estate bottling Porto in 1979 a pioneer move from Quinta do Infantado as there was not a single grower bottling Porto in the Douro at that time they wanted to create a family style, different from what was being made by Gaia’s shippers. For me it is really logic to make semi-dry Portos. We think of what we do as Porto wine, and a drier Porto is closer to wine you don’t have a “sugar wall” to block wine’s little things (both in the nose and the mouth) that we love in dry wines. Our Portos are drier because we let fermentation go longer, obviously consuming sugar to produce more alcohol, so we have less residual sugar and more natural alcohol and need to add smaller quantities of wine brandy to stop fermentation and make Porto. As a consequence there is more grape juice and less wine brandy in a bottle of Quinta do Infantado Porto. I think most people don’t realize that in a “normal” bottle of Porto there can be as much as 25% wine brandy! At Infantado we work with 17% or less, which is, in my opinion, much better. It also has to do with pairing our Portos and food. Is it really necessary to have so much sugar? And such heavy Portos? At Infantado we believe in balance as the most important aspect of wine (including Porto) and that’s our bottom line, to make balanced Portos and wines.»

Bonito e fluente, o inglês do Roseira. Posto isto, the booze!

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Reserva Especial «João Lopes Roseira»

Ruby. 19,5% v/v de etanol. Garrafa nº 2046... de quantas? Muito depressinha: este é um vinho simples, com aromas de frutos negros e violetas, passas e especiarias. Na boca mostra corpo mediano, macio e previsivelmente pouco doce, de comprimento satisfatório, com algumas notas achocolatadas a surgirem no final. 8,50€. 15

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Reserva Especial

O do rótulo esverdeado. Também com 19,5% de volume alcoólico. Garrafa nº 82 de 6816. Mais suave que o anterior, mas também mais rico, embora apenas marginalmente, tanto no nariz como no palato. Bem estruturado, discretamente untuoso. Ainda um certo «quê» terroso que no outro não consegui detectar. 12€. 15,5

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Má Partilha — Merlot '2006

Varietal Merlot, uvas originárias da zona de Azeitão, parcialmente fermentado e posteriormente estagiado em barricas novas de carvalho francês. É um produto da Bacalhôa Vinhos de Portugal.

Macio, suave e equilibrado. A fruta, di-la-ia quase certamente negra, porventura em ligeira compota, vai-se mostrando mais e mais com o tempo de abertura. Sem exageros de doçura ou concentração, sempre acompanhada de boas notas especiadas, cravinho e canela, características da casta. E de barrica, bem medida, que traz ao conjunto um bocadinho de complexidade adicional sem se sobrepor à sua natureza. A boca é surpreendentemente redonda e elegante, tendo em conta que este vinho possui 14,5% de álcool e uma acidez não negligenciável. Ampla, com um lado discretamente terroso e vegetal que não posso deixar de achar muito engraçado, por vezes a fazer lembrar um bom Carmenére. O final é interessante, mas podia perdurar mais.

Custou 14€.

16,5

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Epic Fail. . .

Epic Fail,

the highest form of fail known to man. Reaching this level of fail means only one thing: You must die, or the world will fail itself due to such an extreme level of failage.

Este post colige as minhas impressões sobre o pior que me passou pelas goelas nestes últimos dias.


Vila Santa — Syrah '2007

Para começar em beleza, um aclamado varietal da autoria do famoso João Portugal Ramos. Syrah alentejano, uvas colhidas em excelente estado de maturação (diz o contra-rótulo) e fermentadas a temperatura controlada, tendo o projecto de vinho resultante sido sujeito a uma longa maceração pós-fermentativa — ideia: extrair das cascas e engaços uma maior quantidade de taninos, dado que estes se solubilizam facilmente em meios alcoólicos. Estagiou durante meio ano em meias pipas de carvalho francês e americano. Depois de tanto bem ter ouvido dizer dele, resolvi experimentar. Inicialmente verti o vinho directamente para dentro do copo. Decerto a não mais de 18ºC, que nestas coisas costumo ter cuidado. Vi-o escurão, de tom violáceo carregado. Prometia. Logo de seguida, levo-o ao nariz e... Que quente! Que álcool a tudo o mais abafar! Claro que sob o dito detectei fruta doce, apelativa; e talvez um bocadinho de madeira. Mas tudo muito tímido, muito acanhado. Na boca, muita acidez e ainda mais álcool; pouco corpo, pouca fruta para tamanho picor. Terminou razoavelmente longo, mas tal atributo jamais chegaria para me convencer depois do que acabara de presenciar. Meti-o num decantador e levei-o ao frigorífico. Mais ou menos 45 minutos depois, encontrava-se a 14ºC: o álcool um bocado menos ofensivo, mas presente; a fruta, mais visível, fixe mas relativamente plana... e algo amadeirado... ou especiado... indistinto. Na boca, passada boa parte da anestesia alcoólica, deu para notar que os taninos eram pouco longos e algo farinhentos. Puah. Como o vinho estava jovem, ainda tive esperanças de que melhorasse durante a noite. Enganei-me. Passadas talvez 12 horas, ao almoço do dia seguinte, continuava gulosão e extremamente alcoólico. A fazer lembrar um LBV fracote, quase completamente destituído de doçura. Ainda ligeiros alicorados — já?! OK, este pode não ter sido o pior vinho que alguma vez provei. Mas, sem paninhos quentes, para os 12€ que custou, achei-o uma merda. 13,5


.com '2008

O flop que o vinho anterior constituiu acabou por minimizar a decepção face ao que encontrei neste. Corria o mês de Abril deste ano quando provei a edição de 2007 deste vinho de Tiago Cabaço. E gostei. Bastante. A fruta era franca, o corpo cheiinho e redondo, o sabor surgia agradavelmente pouco doce: para 3€ ou coisa que o valha, um mimo. Infelizmente, este '2008 não me pareceu tão bom. Não que divirja muito do da colheita anterior em peso ou volume, índole aromática ou sapidez — nada disso. O que mais o diferencia do seu antecessor, tanto quanto percebi, é que as notas vegetais, certamente do Cabernet Sauvignon, que naquele apareciam vincadas (embora bem integradas), neste como que vêm mascaradas, escusas sob flores e compota. Também na boca está diferente. Onde antes apareciam notas vegetais que moderavam a doçura do conjunto, aparece agora um travozinho adocicado, novamente a sugerir compota... E que diferença isso faz! Para pior. 3€. 14


Pingo Doce — Palmela «Reserva» '2007

Outra meia desilusão. Meia porque já o de 2006 não me tinha agradado muito, principalmente por ser tão alcoólico... Enfim. Como esse, trata-se de um monocasta Castelão da Casa Ermelinda Freitas. Algo carregado na cor. Mas de aroma muito mais fiel à casta — o '2006 pareceu-me um bocado atípico. Pena que, na boca, se o outro pecava por excesso, com um álcool que tapava tudo, este peca por certo vazio de sabor: a fruta surge como que esmaecida. Também de equilíbrio podia ser melhor, muito ácido e áspero para a profundidade que tem. 3€. 13,5


Krohn — (Porto) Senador

Da Wiese & Krohn. Tawny escuro. Cheiro de intensidade discreta e muito simples, a passas açucaradas, com toques de anis e funcho. E queijo. Bafientas notas de queijo, nada agradáveis. Quase plano na boca, pobrezinho, com sabor a passas pouco doces. Para cúmulo, não consegui deixar de achá-lo de carácter um tanto indistinto, já que se trata de um tawny fraco que podia ser mais diferente de um ruby fraco. Custou 5€. 13

sábado, 7 de Novembro de 2009

Dom Rafael '2007

Este é o vinho de entrada de gama da Herdade do Mouchão, feito a partir de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet. Fermentado em lagares e estagiado em tonéis de carvalho, foi engarrafado um ano após a colheita.

Apesar de bastante frutado, com notas maduras de ameixa e bagas negras, barrica discreta e qualquer coisa de vegetal — a dado momento, por exemplo, fez-me lembrar rama de tomateiro; noutro, não muito depois, palha — aquilo que a meu ver mais o marcou na prova de nariz foi a quantidade de "álcool livre" que apresentou.

Na boca, de porte e comprimento medianos, rapidamente lhe percebi uma acidez considerável, tal como, novamente, o álcool um tanto impositivo. De mais, achei-o concentrado q.b., firme e um tanto austero, a amargar um pouco no final.

E, enfim, realmente é uma pena que de momento pareça algo desequilibrado... algo rústico... porque este pequeno Mouchão, apesar de bruto, consegue ser interessante, e está, sem dúvida, melhor que o do ano anterior. Dê-se-lhe tempo, que ele promete.

7€.

15,5


Com ele empurrámos um prato fácil e saboroso, que se fez assim: aqueceu-se um fundo de óleo numa panela baixa e larga e juntaram-se-lhe duas malaguetas frescas (cortadas em rodelas) e, pouco depois, 350g de alcatra picada, que se deixou dourar um pouco. Adicionou-se então molho de soja, salsa seca, alho em pó e meio caldo Knorr. Quando o dito se dissolveu, acrescentou-se cerca de 1dl de água, 4 tomates enlatados, alguns cogumelos e farinha de arroz, mexendo sempre até engrossar. Comeu-se com noodles...

E o conjunto funcionou, caiu bem, deixou-nos contentes.

Não sei que mais dizer.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Adega Cooperativa de Borba — Vinho Licoroso '2003

Este vinho licoroso foi obtido por adição de aguardente vínica ao mosto de uvas das variedades Roupeiro, Arinto, Perrum, Fernão Pires e Chardonnay. Brancas, portanto. Consta que sofreu um breve estágio em barricas de carvalho francês.

Só consigo qualificar como simples o aroma que revelou quando servido a 12ºC, em jeito de aperitivo. Simples, indefinidamente açucarado. Já na boca se mostrou mais expressivo, nítido nas notas de pêssego e alperce em compota. De mais, penso poder dizê-lo muito doce, gordo e macio, pouco ácido e razoavelmente longo, com sugestões de mel no final.

A 20ºC, temperatura recomendada para o seu consumo como vinho de sobremesa, o aroma surgiu mais pesado, mais denso, com o álcool (17,5%) a mostrar-se mais — e a trazer, naturalmente, outra profundidade à fruta. Na boca, em termos de estrutura, pareceu-me tal e qual aquilo que se mostrou a 12ºC. O aquecimento apenas dispersou a ilusão de frescor antes provocada pela baixa temperatura. E assim se revelou um vinho quente, não só na garganta mas também na boca, um tanto abafado, de índole mais melada que frutada.

Se me pareceu correcto e bem feito? Sim, sem dúvida. Se gostei? Nem por sombras.

Custou pouco mais de 5€.

15

sábado, 31 de Outubro de 2009

Tiara '2008 e coisas com camarões

Este vinho consiste numa ampla mistura de uvas de castas típicas do Douro — Códega do Larinho, Rabigato, Donzelinho, Viosinho e Cercial, entre outras — provenientes de vinhas velhas, plantadas a mais de 600m de altitude. Foi vinificado e estagiado em inox.


Servido a 12ºC,

Mostrou típica cor de branco jovem — citrina, com laivos esverdeados (pois).

E claros aromas florais e cítricos — lima e raspa de limão — a envolverem sugestões de frutos de polpa branca, ligeiramente ácidos — maçã verde e abacate.

Corpo delicado, sápido e vagamente untuoso, muito fresco. Agulha mínima, porventura consequência de não se ter realizado a fermentação maloláctica aquando da vinificação. Final seco, um pouco curto. Deixou um retrogosto persistente, a fazer lembrar amendoim torrado.

Com o uso — digo, exposição ao ar mais subida de temperatura — abriu para pêra e palha.

18€.

17

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Ligou bastante bem com uns camarões salteados em manteiga e alho, a que depois juntámos só um bocadinho de whisky.

Ora, acontece que já há algum tempo andávamos a planear fazer caldo de camarão. E foi por isso que salteámos os camarões já sem as cabeças. . .

Cujo peso perfazia à volta de 800g e que posteriormente refogámos em azeite, junto com os seguintes ingredientes: um alho francês, um limão (com casca) partido em quartos, quatro tomates bem maduros, três cebolas picadas, três dentes de alho, cinco cenouras e manjericão, coentros, estragão, salsa, sal e pimenta preta a gosto.

Tendo deixado cozinhar uns cinco minutos, juntámos água ao refogado: numa grande panela de paredes direitas, o triplo do volume necessário para o cobrir. E deixámo-lo cozer mais hora e meia.

Depois filtrámo-lo com um coador de rede, tendo havido o cuidado de prensar bem o entulho. Aproveitou-se o filtrado. . .

E com ele fizemos sopa. Adicionámos-lhe cinco cenouras, três tomates e, por cada litro de caldo, 30g de farinha de trigo. Rectificámos o sal e deixámos cozer até a cenoura ter amolecido: talvez meia hora. Triturámos aquilo a que já se podia chamar sopa e enriquecêmo-la com miolo de camarão. Generosamente. Antes de, por fim, a levarmos ao lume por mais uns breves minutos, antes de a servirmos.

Acompanhada, claro está, de tostinhas e outro branco. Mas esse fica (talvez) para o próximo post.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Velharias (16)

Straightfromhell, mais um bocadinho de quando o blog se centrava mais no puto do que naquilo que ele bebia.

«Não basta dizer lágrimas — não são cantos — uivos, gemidos, gritos (tantos) — no vento lá fora — no vento lá fora só — não basta dizer que o sol é quadrado e a lua, azul — e entre as árvores, na neve, não basta dizer.»

7/2004



Já vos dou mais vinho; com licença.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Poças — Coroa D' Ouro «Reserva» '2004

Mais um post. Mais uma nota de prova. Pouco esforçada. Parca de inspiração. Seca. Trivial. Provavelmente desinteressante.

Este vinho é tinto. Veio do Douro. Foi classificado como DOC. O produtor, a Manuel D. Poças Júnior. O lote, típico da região: Tourigas Nacional e Francesa, Tintas Roriz e Barroca e Tinto Cão. Consta que sofreu um breve estágio em cubas de inox.

A cor, rubi.

O nariz, predominantemente frutado. Ameixa e cereja. Maduras. E reminiscências de mato e resinas. Velhas — doces, pesadas, abafadas.

O sabor, simples. Um tanto curto. Com a concentração que usualmente se associa aos vinhos desta gama. De preços. Boa acidez, taninos firmes. Apenas parcialmente integrados. E 13% de álcool. Que não aquece nem arrefece. No fim, nem robusto nem elegante. Mas gostosinho, fácil de beber.

A meu ver, é o que é, vale o que custa. Tem tudo para ser amado lá para as Américas. Aqui...

4€.

14,5

domingo, 25 de Outubro de 2009

René Barbier — Reserva '2001

Aragonês e Cabernet Sauvignon com estágio em madeira.

Cor acobreada. O aroma, achei-o marcadamente vegetal, notando-se perfeitamente a influência do Cabernet Sauvignon no lote. Tanto que acabei por me interrogar se o dito contará, de facto, com apenas 15% de uvas da referida casta, à semelhança do seu maninho de '98, isto segundo informações contidas na página do produtor.

Marcadamente vegetal e quase sem ponta de doçura; a fruta ia surgindo tímida e imprecisa. No mais, ainda lhe encontrei sugestões de pêlo e especiarias. Mas tudo muito indiferenciado, simples, mofino...

A boca, fresca e seca, de persistência algo fraca, mostrou no entanto uma untuosidade agradável. Com o tempo, aparentou ir ganhando doçura e um certo «quê» almiscarado. E em jeito de retrogosto, a partir de dada altura, começou a deixar sugestões de sabor a cona.

Após quatro dias no frigorífico, vedado apenas com a sua rolha voltada ao contrário, estava parcialmente oxidado, repleto de café e alicorados. Oxidado mas perfeitamente bebível. E por incrível que possa parecer, agradável.

Provavelmente, a graça que lhe fui achando terá crescido mais com o tempo de abertura que o vinho em si. Que, de qualquer forma, não compromete.

Custou 6,50€.

14,5

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Chaminé '2008

Regional Alentejano da Casa Agrícola Cortes de Cima, lote de Syrah e Aragonês com uns pozinhos de Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot. Ficha técnica, aqui.

Ora bem... deste não tenho muito a dizer. É guloso e macio. Simples e equilibrado, muito redondinho, feito para ser fácil de beber. Porventura para ser bebido sem pensar. Predomina a fruta: negra, bem madura, docinha, com toques compotados. Também se lhe nota algo mais, ainda que indefinido: notas vegetais? Tostadas? Vegetais e tostadas?

O que for.

Posto isto, talvez só reste dizer que é curto e morno — parecidíssimo com o de 2007.

E como esse, não encanta, mas acaba por convencer. E às vezes apetece.

Custou cerca de 5€.

14,5