terça-feira, 15 de maio de 2018

FOR THE SAKE OF A SINGLE POEM

... Ah, poems amount to so little when you write them too early in your life. You ought to wait and gather sense and sweetness for a whole lifetime, and a long one if possible, and then, at the very end, you might perhaps be able to write ten good lines. For poems are not, as people think, simply emotions (one has emotions early enough) — they are experiences. For the sake of a single poem, you must see many cities, many people and Things, you must understand animals, must feel how birds fly, and know the gesture which small flowers make when they open in the morning. You must be able to think back to streets in unknown neighborhoods, to unexpected encounters, and to partings you had long seen coming; to days of childhood whose mystery is still unexplained, to parents whom you had to hurt when they brought in a joy and you didn’t pick it up (it was a joy meant for somebody else —); to childhood illnesses that began so strangely with so many profound and difficult transformations, to days in quiet, restrained rooms and to mornings by the sea, to the sea itself, to seas, to nights of travel that rushed along high overhead and went flying with all the stars, — and it is still not enough to be able to think of all that. You must have memories of many nights of love, each one different from all the others, memories of women screaming in labor, and of light, pale, sleeping girls who have just given birth and are closing again. But you must also have been beside the dying, must have sat beside the dead in the room with the open window and the scattered noises. And it is not yet enough to have memories. You must be able to forget them when they are many, and you must have the immense patience to wait until they return. For the memories themselves are not important. Only when they have changed into our very blood, into glance and gesture, and are nameless, no longer to be distinguished from ourselves — only then can it happen that in some very rare hour the first word of a poem arises in their midst and goes forth from them.
Rainer Maria Rilke

sábado, 12 de maio de 2018

Blanche de Namur

Blanche de Namur, que viveu entre 1320 e 1363, foi rainha consorte da Suécia e Noruega por casamento com Magnus IV. Filha mais velha do marquês Jean I de Namur e de Marie d'Artois, ficou na história como uma rainha a valer: política e socialmente activa, gira e esperta.

É também o nome de uma Witbier — cerveja branca, feita com trigo e aromatizada com casca de laranja e sementes de coentro, entre outras especiarias — belga, produzida pela Brasserie du Bocq, empresa familiar que labora em em Purnode, perto de Yvoir, desde 1858.

Para além do habitual e, até certo ponto, expectável — cereal e levedura, fruta e amargor —, mostrou certo "punch" cítrico interessante: mais distinto que o presente numa Hoegaarden, mas menos que o de uma Hoegaarden servida com rodela de limão.

Outro aspecto que me agradou (que cervejas é que, aqui, têm direito a post?) foi evidenciar, com uma clareza de que não estava à espera, as especiarias com que foi feita. E tudo isto sem magoar o equilíbrio, de tal forma que, agora mesmo, ao escrever sobre ela, noto querer referir o "qualificativo dos piços", digo, a palavra "suave", que talvez aqui não caísse como uma vagueza desnecessária. Também por só ter 4,5% de álcool, mas, definitivamente, não só.

Apesar de relativamente leve de corpo, a sua espuma cremosa e boa carbonatação tornam-na capaz de acompanhar mais que apenas futebol na TV. No meu caso, foi com sushi, e não considero que me possa queixar, muito pelo contrário. Melhor enquanto bem fria, entre 2 e 4 ºC.

Custou 3,99€/33cl no ECI.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Odelouca '2013

Situada não muito longe de Silves, no Sítio da Dobra, junto à ribeira de Odelouca e à povoação com o mesmo nome, a Quinta do Francês inclui 8 hectares de vinha, plantada em 2002 e que assenta sobre vários tipos de solo, da argila/calcário ao xisto. O clima, Mediterrâneo continental, com propensão a dias quentes e noites comparativamente frias, é influenciado pela brisa marítima do Atlântico, cuja acção "refrescante" ajuda a evitar sobrematurações.

Este Odelouca é uma espécie de "segundo vinho" da casa, nascido a partir de Cabernet Sauvignon, Trincadeira, Syrah e Aragonês. De acordo com a informação disponibilizada pelo produtor, a vinificação deste 2013 incluiu 18 dias de maceração e 8 de fermentação, em inox, a 30 ºC. O estágio prévio ao engarrafamento foi em barricas de carvalho francês, "9 a 12 meses".

Bastante intenso e envolvente, mostrou ameixa preta e muitas especiarias, com uma incidência incomum, mas interessante, em aromas que remetiam a azeitona, parda e de Kalamata — talvez do Syrah, e longe de defeito, feitio e feitio vincado. A boca surgiu como continuação natural do nariz, embora sem qualquer sabor que remetesse à já mencionada azeitona. Especiarias, sim, muitas, perfeitamente integradas num quadro delineado em torno daquela maturidade peculiar que, nos vinhos capazes de durar alguns anos, antecede a velhice: com ligeira calidez e muita harmonia.

Quando o bebi, terminei o que tinha apontado sobre ele com a nota "um pequeno grande vinho". Porque não?

8€.

16,5

domingo, 6 de maio de 2018

O Open Internacional Queima das Fitas '2018 decorreu em Coimbra, entre 27/4 e 1/5/2018. Impecavelmente organizado pela SXAAC, foi jogado, como já se tornou habitual, no Hotel D. Luís.

Depois do resultado manhosito do ano passado, voltei lá, mas num registo menos escaquístico e mais de passeio. Pedi dois "byes", dos bons — são aqueles que valem o mesmo que um empate, sem ter de jogar — para a segunda e quarta rondas, o que me permitiu ter um já muito ansiado "fix" de clássicas, sem exagerar: uma partida por dia, ao anoitecer, sabe bem e não farta.

Este ano não há crónica detalhada das cinco rondas que joguei. Esta merda é basicamente para mim e não me apetece. Não obstante, no espírito do marreta que publica a sua caderneta pessoal de cromos de beber, para que o pontual visitante possa apreciar a fixeza da minha vida, e também para que eu me possa lembrar quando, daqui a uns tempos, tiver apagado as fotos e as partidas, ou espetado com elas num DVD entretanto perdido algures, aí ficam uns pós.











Base em Quiaios. Onde mais? A praia, deserta, com uma luz espectacular. Não existiu no jogo da primeira ronda nada passível de comentário e não joguei na segunda. Estando seguro de que não ia escrever sobre ela, não sabia, no entanto, o que ligar aqui a respeito da questão dos "byes". Então perguntei ao Google e acabei colado a esta discussão, o que a tornou boa o suficiente para ocupar o lugar.

Perdi o terceiro jogo, talvez o mais engraçado de todos os que fiz:



E voltei a não jogar na quarta sessão. A Bogueira lá estava, com chuva e árvores caídas. A quinta jornada foi no Domingo, 29/4. Fiz um jogo mau pra xuxu, que, de alguma forma, consegui ganhar.









Antes da penúltima sessão, leitão assado numa feira medieval — A S mexeu na cabra e na ovelha — e os montes! Inevitavelmente, como tinha mesmo, mesmo de ser! um pouco de Vale de Canas. Deixei lá um bocado da alma. Um bocado grande. O jogo, sem ser nada de especial, escapou.



A última ronda foi às 3 da tarde do dia 1/5. Uma última barrigada de sushi, no shopping. Com chá verde, doce, iec. O meu adversário, Manuel Pedro, secretário-geral da FIDE para Angola. "Não me ganhas!" Mas a dada altura, com uns etéreos por peão, pensei que me ganhava mesmo!









Acabou por não correr mal, empatámos. Afinal, aquele peão também não era assim tão perigoso. No fim, fiquei em 31º lugar, entre 119 participantes, com 4,5 pontos em 7 (ou 3,5 em 5, que foram os jogos que fiz: uma derrota, um empate e três vitórias). Meh. A ver se para o ano há mais.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Palácio da Brejoeira '2014

O Palácio da Brejoeira localiza-se na freguesia de Pinheiros, 6 Km a sul de Monção.

Terminado em 1834, foi erigido por Luís Pereira Velho de Moscoso, fidalgo da casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, e herdeiro do Morgado da Brejoeira, morgadio instituído por tradição, em 1500.

Trocou de mãos várias vezes, tendo tido momentos de prosperidade e de abandono. E consta lá se ter dempre produzido vinho, mas apenas para consumo da casa,  até 1977, ano em que é lançado no mercado o primeiro Alvarinho "Palácio da Brejoeira".

A propriedade que envolve o palácio, com 30 hectares de superfície, inclui bosques, jardins e 18 ha de vinha, plantada em solo argilo-calcário, de onde sai a matéria-prima deste branco.

Em traços gerais, a sua vinificação consistiu/consiste numa fermentação lenta, a baixa temperatura, seguida de estágio sobre as borras finas. Nas suas diversas edições, tem vindo a ser engarrafado sem passar por madeira.

Servido a 12ºC, como recomendado, surgiu fresco e portador de alguma estrutura. De toque untoso na boca e boa persistência, mostrou razoável complexidade, dividida entre o citrino e o tropical, mostrando mais do segundo que do primeiro.

Ainda amanteigados, ligeira baunilha e curiosas sugestões de giz. O tempo em garrafa trouxe-lhe outra maturidade, mas ainda não decadência. Muito interessante.

Foi aberta a garrafa nº 44054.

17€.

17

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Quinta dos Termos — Trincadeira, Reserva '2010

Mais um tinto da Quinta dos Termos — falei aqui sobre uma data deles em finais do ano passado. No caso, um monovarietal Trincadeira da colheita de 2010, logo com quase oito anos.

O contra-rótulo diz: "Quando o ano vitícola corre de feição, a Trincadeira origina vinhos surpreendentes na Beira interior. Foi o que aconteceu na colheita de 2010, em que as uvas amadureceram de forma muito equilibrada. Uma vinificação minimalista e um breve estágio em barricas de carvalho deram-lhe o toque necessário para nos decidir engarrafá-lo estreme."

Começou meio porquito, a cheirar a suor, mas um ligeiro arejamento limpou-o e, em vez de estragado, mostrou-se um tinto muito interessante, ainda sem sinais de cansaço — imagino, no entanto, que se aproxime do limiar do plateau — aludindo à "lei da maturidade" de Clive Coates, que diz que um vinho permanecerá na sua fase ideal de consumo por tanto tempo quanto o que demorou a maturar, até atingir essa mesma fase.

Algo circunspecto, foi fácil apontar-lhe, acusá-lo de ser algo monolítico, na altura da prova, que não foi prova, mas abate de uma garrafa inteira, a empurrar daqueles hambúrgueres "Angus", do Pingo Doce, preparados, diz o YouTube, a la Gordon Ramsay Mas esses são os exageros do momento, abundantes no caderninho negro do álcool.

Ficou apontado, e lembro-me, de lhe ter apanhado muita fruta silvestre, indiferenciada, misturada e transformada, mais preta que vermelha ou roxa, e essencialmente em licor. Com ela, flores amarelas e um toque resinoso, vegetal, a fazer lembrar lenho verde. Barrica, assim, ainda? Talvez. E aquele travo "porco" de que já falei, provavelmente Brettanomyces em quantidade mesmo muito moderada.

Na boca, paladar morno, de toque macio, com reminiscências tácteis de veludo e xisto bem embrulhadas naquilo a que chamei "acidez redonda" — digo, acidez apenas suficiente para cortar o ardor e perfeitamente ligada. Algum corpo, di-lo-ia "médio mais", com certa densidade, mas não objectivamente "gordo", "pesado", nem nada que se parecesse, e um final bastante persistente.

Enfim, um vinho de boa concentração, com substância bastante para ser interessante, mas também contido e equilibrado na medida em que a finura, a leveza, o fácil apareceram a contrabalançar o intenso, o pesado, o sério, o fechado.

Sem ser divino, foi daqueles que deixaram impressão.

7€.

16,5

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Filmes (86)




É um filme turco, passado na Turquia. Uns polícias encontram, literalmente, um alçapão para o Inferno. E metem-se lá dentro. Mas os gajos lá de baixo não querem saber muito da autoridade do Erdogan...

terça-feira, 24 de abril de 2018

Abadía Retuerta — Selección Especial '2002

Outra relíquia! Este é o vinho mais conhecido de Abadía Retuerta, produtor baseado junto da localidade de Sardón de Duero — Valladolid.

Esta grande propriedade, que "abriu" tal como agora a conhecemos em 1996, inclui cerca de 710 ha de terras, dos quais 210 ha estão ocupados por vinhedos, divididos por diferentes parcelas, todas elas plantadas entre 1991 e 1994. Existe lá, de facto, uma antiga abadia Cisterciense que data do século XII.

No entanto, o foco da produção agrícola das terras que a envolviam nunca foi o vinho, mais tubérculos e cereais — a "Finca Retuerta" acaba adquirida por uma empresa de sementes, a Prodes, em 1920, e, consta, não tinha uma única cepa plantada no final dos anos 70.

Em 1990, a farmacêutica Sandoz, hoje parte do grupo Novartis, toma controlo da propriedade (movimentações de capital entre badochas, vale mesmo a pena investigar porquê?) e resolve valorizar a sua componente vínica, primeiro — afinal, a parte oriental da propriedade está a apenas 10 Km de Vega Sicilia... — e turística, com a construção de hotel e restaurante, depois.

Os solos são heterogéneos, com areia, argila e cascalho nas partes mais próximas do rio Duero/Douro, a cerca de 640 metros de altitude, e pedra calcária nos altos, que atingem os 850 metros sobre o nível do mar. O clima é continental, com grandes amplitudes térmicas e tendencialmente seco, mas estando o produtor fora da DO Ribera del Duero — todos os seus vinhos saem sob a denominação de Vino de la Tierra de Castilla y León — utiliza rega gota-a-gota quando necessário.

O vinho, bem, este ainda vivia. Muito mais escuro que o "Riserva Ducale" e muito menos atijolado também, trouxe consigo frutos pretos no limite da madurez, em compota e em licor, tabaco, especiarias indefinidas, mas quentes, e cacau. Na boca, mostrou uma redondez consentânea com o carácter "quente" dos seus aromas. A acidez está bem integrada e os taninos, finos, perfeitamente cobertos. O fim de boca pode considerar-se longo. Como não há post que não inclua esta informação, aí fica: lote de Tempranillo, Merlot e Cabernet Sauvignon provenientes das várias parcelas da quinta, estagia "de 16 a 22 meses", diz o produtor, em barricas francesas e americanas.

Enfim, este e o vinho do post anterior, dois velhos senhores que ainda mexem! Mas se o italiano, apesar de reter alguma dignidade, não conseguiu esconder estar com os pés para a cova, neste ainda perdura aquela fase bonita da maturidade plácida e elegante... Mas não nos enganemos: também não é para guardar.

As garrafas de 75cl das colheitas mais recentes custam à volta de 25€, mas o produtor ainda vende este 2002, a 58€. A oferta do produtor na sua loja virtual vai, aliás, até 1995!

16,5

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Ruffino — Riserva Ducale '2001

O blog é um monstro sedento de tempo, disponibilidade e energia! O blog converte vida interior em cangalhadas para outros verem e a análise do tráfego por ele gerado conjura a partir do éter, do aparente nada, satisfação para o ego. No fim, nada sobre nada. Não, exagero. Muito pouco sobre muito pouco, a tender para nada — assim é mais correcto.

Mas apesar de o seu dono saber disso, tanto que o escreve, o blog ainda vive: de tal maneira que é nele, para ele, e para mim também, através dele, que escrevo isto. E não se preocupe o monstrinho com a queda nas listas de agregadores e motores de busca que os períodos de fome consigo trazem: estou decidido a actualizá-lo e, junto com o meu tempo e alma, terá também o vinho a que o habituei. Simplesmente, desta vez, que empurre com ele um bocadito escangalhado de meta-análise.

Para começar, umas notas a respeito da minha última garrafa (originalmente eram três) da colheita de 2001 de Ruffino "Riserva Ducale". O produtor é dos mais conhecidos de Itália e este Chianti Classico é talvez o seu vinho-bandeira, embora não o absoluto topo de gama. A gama "Riserva Ducale" existe desde 1927, nomeada em homenagem ao duque de Aosta, presumo que o segundo, que em 1890 tornou a então jovem casa Ruffino fornecedor oficial da família real italiana, contam que depois de ter atravessado os Alpes, numa viagem que não terá sido das mais simples e/ou suaves, especificamente para provar estes já na altura afamados vinhos, pétalas no galho preto e molhado que então era a produção de Chianti — que, salvo algumas honrosas exepções, continuou a ser um vinho horrível até bem dentro do século XX.

80% Sangiovese e 20% Merlot e Cabernet Sauvignon, este tinto estagiou durante dois anos em madeira, inox e cimento. Não me surpreendeu que ainda estivesse vivo porque a última garrafa aberta, há cerca de meio ano atrás, estava num momento muito bonito. Assim, pelo contrário, surpreendeu-me encontrá-lo muito mais velhinho e cansado do que aquilo que esperava.

Mas perfeitamente bebível e ainda bom. De cor granada, acastanhada, surgiu muito terciário, com aromas a terra, licor de cereja e café. Talvez uma ponta de volátil. Na boca, mostrou acidez ainda capaz de fazer salivar e, mau grado o "meio" um pouco magro, taninos... — eis um vinho, literalmente, taninoso até à morte! Some-se a isto um final razoável e temos um tinto velho que ainda mexe, apesar de, naturalmente, se encontrar já em decadência. Considerando o que os utilizadores do Cellartracker dizem dele, talvez não tenha sido, apesar de tudo, uma má garrafa.

Custou à volta de 20€, back in the time, e continua a ser esse o preço das colheitas mais recentes.

Há quem ache que classificar vinhos velhos é veadagem, mas velho não é morto e o numerozinho da qualidade tem razão de ser, pelo menos para mim. Pelo que 14,5