quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Má Partilha — Merlot '2006

Varietal Merlot, uvas originárias da zona de Azeitão, parcialmente fermentado e posteriormente estagiado em barricas novas de carvalho francês. É um produto da Bacalhôa Vinhos de Portugal.

Macio, suave e equilibrado. A fruta, di-la-ia quase certamente negra, porventura em ligeira compota, vai-se mostrando mais e mais com o tempo de abertura. Sem exageros de doçura ou concentração, sempre acompanhada de boas notas especiadas, cravinho e canela, características da casta. E de barrica, bem medida, que traz ao conjunto um bocadinho de complexidade adicional sem se sobrepor à sua natureza. A boca é surpreendentemente redonda e elegante, tendo em conta que este vinho possui 14,5% de álcool e uma acidez não negligenciável. Ampla, com um lado discretamente terroso e vegetal que não posso deixar de achar muito engraçado, por vezes a fazer lembrar um bom Carmenére. O final é interessante, mas podia perdurar mais.

Custou 14€.

16,5

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Epic Fail. . .

Epic Fail,

the highest form of fail known to man. Reaching this level of fail means only one thing: You must die, or the world will fail itself due to such an extreme level of failage.

Este post colige as minhas impressões sobre o pior que me passou pelas goelas nestes últimos dias.


Vila Santa — Syrah '2007

Para começar em beleza, um aclamado varietal da autoria do famoso João Portugal Ramos. Syrah alentejano, uvas colhidas em excelente estado de maturação (diz o contra-rótulo) e fermentadas a temperatura controlada, tendo o projecto de vinho resultante sido sujeito a uma longa maceração pós-fermentativa — ideia: extrair das cascas e engaços uma maior quantidade de taninos, dado que estes se solubilizam facilmente em meios alcoólicos. Estagiou durante meio ano em meias pipas de carvalho francês e americano. Depois de tanto bem ter ouvido dizer dele, resolvi experimentar. Inicialmente verti o vinho directamente para dentro do copo. Decerto a não mais de 18ºC, que nestas coisas costumo ter cuidado. Vi-o escurão, de tom violáceo carregado. Prometia. Logo de seguida, levo-o ao nariz e... Que quente! Que álcool a tudo o mais abafar! Claro que sob o dito detectei fruta doce, apelativa; e talvez um bocadinho de madeira. Mas tudo muito tímido, muito acanhado. Na boca, muita acidez e ainda mais álcool; pouco corpo, pouca fruta para tamanho picor. Terminou razoavelmente longo, mas tal atributo jamais chegaria para me convencer depois do que acabara de presenciar. Meti-o num decantador e levei-o ao frigorífico. Mais ou menos 45 minutos depois, encontrava-se a 14ºC: o álcool um bocado menos ofensivo, mas presente; a fruta, mais visível, fixe mas relativamente plana... e algo amadeirado... ou especiado... indistinto. Na boca, passada boa parte da anestesia alcoólica, deu para notar que os taninos eram pouco longos e algo farinhentos. Puah. Como o vinho estava jovem, ainda tive esperanças de que melhorasse durante a noite. Enganei-me. Passadas talvez 12 horas, ao almoço do dia seguinte, continuava gulosão e extremamente alcoólico. A fazer lembrar um LBV fracote, quase completamente destituído de doçura. Ainda ligeiros alicorados — já?! OK, este pode não ter sido o pior vinho que alguma vez provei. Mas, sem paninhos quentes, para os 12€ que custou, achei-o uma merda. 13,5


.com '2008

O flop que o vinho anterior constituiu acabou por minimizar a decepção face ao que encontrei neste. Corria o mês de Abril deste ano quando provei a edição de 2007 deste vinho de Tiago Cabaço. E gostei. Bastante. A fruta era franca, o corpo cheiinho e redondo, o sabor surgia agradavelmente pouco doce: para 3€ ou coisa que o valha, um mimo. Infelizmente, este '2008 não me pareceu tão bom. Não que divirja muito do da colheita anterior em peso ou volume, índole aromática ou sapidez — nada disso. O que mais o diferencia do seu antecessor, tanto quanto percebi, é que as notas vegetais, certamente do Cabernet Sauvignon, que naquele apareciam vincadas (embora bem integradas), neste como que vêm mascaradas, escusas sob flores e compota. Também na boca está diferente. Onde antes apareciam notas vegetais que moderavam a doçura do conjunto, aparece agora um travozinho adocicado, novamente a sugerir compota... E que diferença isso faz! Para pior. 3€. 14


Pingo Doce — Palmela «Reserva» '2007

Outra meia desilusão. Meia porque já o de 2006 não me tinha agradado muito, principalmente por ser tão alcoólico... Enfim. Como esse, trata-se de um monocasta Castelão da Casa Ermelinda Freitas. Algo carregado na cor. Mas de aroma muito mais fiel à casta — o '2006 pareceu-me um bocado atípico. Pena que, na boca, se o outro pecava por excesso, com um álcool que tapava tudo, este peca por certo vazio de sabor: a fruta surge como que esmaecida. Também de equilíbrio podia ser melhor, muito ácido e áspero para a profundidade que tem. 3€. 13,5


Krohn — (Porto) Senador

Da Wiese & Krohn. Tawny escuro. Cheiro de intensidade discreta e muito simples, a passas açucaradas, com toques de anis e funcho. E queijo. Bafientas notas de queijo, nada agradáveis. Quase plano na boca, pobrezinho, com sabor a passas pouco doces. Para cúmulo, não consegui deixar de achá-lo de carácter um tanto indistinto, já que se trata de um tawny fraco que podia ser mais diferente de um ruby fraco. Custou 5€. 13

sábado, 7 de Novembro de 2009

Dom Rafael '2007

Este é o vinho de entrada de gama da Herdade do Mouchão, feito a partir de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet. Fermentado em lagares e estagiado em tonéis de carvalho, foi engarrafado um ano após a colheita.

Apesar de bastante frutado, com notas maduras de ameixa e bagas negras, barrica discreta e qualquer coisa de vegetal — a dado momento, por exemplo, fez-me lembrar rama de tomateiro; noutro, não muito depois, palha — aquilo que a meu ver mais o marcou na prova de nariz foi a quantidade de "álcool livre" que apresentou.

Na boca, de porte e comprimento medianos, rapidamente lhe percebi uma acidez considerável, tal como, novamente, o álcool um tanto impositivo. De mais, achei-o concentrado q.b., firme e um tanto austero, a amargar um pouco no final.

E, enfim, realmente é uma pena que de momento pareça algo desequilibrado... algo rústico... porque este pequeno Mouchão, apesar de bruto, consegue ser interessante, e está, sem dúvida, melhor que o do ano anterior. Dê-se-lhe tempo, que ele promete.

7€.

15,5


Com ele empurrámos um prato fácil e saboroso, que se fez assim: aqueceu-se um fundo de óleo numa panela baixa e larga e juntaram-se-lhe duas malaguetas frescas (cortadas em rodelas) e, pouco depois, 350g de alcatra picada, que se deixou dourar um pouco. Adicionou-se então molho de soja, salsa seca, alho em pó e meio caldo Knorr. Quando o dito se dissolveu, acrescentou-se cerca de 1dl de água, 4 tomates enlatados, alguns cogumelos e farinha de arroz, mexendo sempre até engrossar. Comeu-se com noodles...

E o conjunto funcionou, caiu bem, deixou-nos contentes.

Não sei que mais dizer.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Adega Cooperativa de Borba — Vinho Licoroso '2003

Este vinho licoroso foi obtido por adição de aguardente vínica ao mosto de uvas das variedades Roupeiro, Arinto, Perrum, Fernão Pires e Chardonnay. Brancas, portanto. Consta que sofreu um breve estágio em barricas de carvalho francês.

Só consigo qualificar como simples o aroma que revelou quando servido a 12ºC, em jeito de aperitivo. Simples, indefinidamente açucarado. Já na boca se mostrou mais expressivo, nítido nas notas de pêssego e alperce em compota. De mais, penso poder dizê-lo muito doce, gordo e macio, pouco ácido e razoavelmente longo, com sugestões de mel no final.

A 20ºC, temperatura recomendada para o seu consumo como vinho de sobremesa, o aroma surgiu mais pesado, mais denso, com o álcool (17,5%) a mostrar-se mais — e a trazer, naturalmente, outra profundidade à fruta. Na boca, em termos de estrutura, pareceu-me tal e qual aquilo que se mostrou a 12ºC. O aquecimento apenas dispersou a ilusão de frescor antes provocada pela baixa temperatura. E assim se revelou um vinho quente, não só na garganta mas também na boca, um tanto abafado, de índole mais melada que frutada.

Se me pareceu correcto e bem feito? Sim, sem dúvida. Se gostei? Nem por sombras.

Custou pouco mais de 5€.

15

sábado, 31 de Outubro de 2009

Tiara '2008 e coisas com camarões

Este vinho consiste numa ampla mistura de uvas de castas típicas do Douro — Códega do Larinho, Rabigato, Donzelinho, Viosinho e Cercial, entre outras — provenientes de vinhas velhas, plantadas a mais de 600m de altitude. Foi vinificado e estagiado em inox.


Servido a 12ºC,

Mostrou típica cor de branco jovem — citrina, com laivos esverdeados (pois).

E claros aromas florais e cítricos — lima e raspa de limão — a envolverem sugestões de frutos de polpa branca, ligeiramente ácidos — maçã verde e abacate.

Corpo delicado, sápido e vagamente untuoso, muito fresco. Agulha mínima, porventura consequência de não se ter realizado a fermentação maloláctica aquando da vinificação. Final seco, um pouco curto. Deixou um retrogosto persistente, a fazer lembrar amendoim torrado.

Com o uso — digo, exposição ao ar mais subida de temperatura — abriu para pêra e palha.

18€.

17

.
.
.

Ligou bastante bem com uns camarões salteados em manteiga e alho, a que depois juntámos só um bocadinho de whisky.

Ora, acontece que já há algum tempo andávamos a planear fazer caldo de camarão. E foi por isso que salteámos os camarões já sem as cabeças. . .

Cujo peso perfazia à volta de 800g e que posteriormente refogámos em azeite, junto com os seguintes ingredientes: um alho francês, um limão (com casca) partido em quartos, quatro tomates bem maduros, três cebolas picadas, três dentes de alho, cinco cenouras e manjericão, coentros, estragão, salsa, sal e pimenta preta a gosto.

Tendo deixado cozinhar uns cinco minutos, juntámos água ao refogado: numa grande panela de paredes direitas, o triplo do volume necessário para o cobrir. E deixámo-lo cozer mais hora e meia.

Depois filtrámo-lo com um coador de rede, tendo havido o cuidado de prensar bem o entulho. Aproveitou-se o filtrado. . .

E com ele fizemos sopa. Adicionámos-lhe cinco cenouras, três tomates e, por cada litro de caldo, 30g de farinha de trigo. Rectificámos o sal e deixámos cozer até a cenoura ter amolecido: talvez meia hora. Triturámos aquilo a que já se podia chamar sopa e enriquecêmo-la com miolo de camarão. Generosamente. Antes de, por fim, a levarmos ao lume por mais uns breves minutos, antes de a servirmos.

Acompanhada, claro está, de tostinhas e outro branco. Mas esse fica (talvez) para o próximo post.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Velharias (16)

Straightfromhell, mais um bocadinho de quando o blog se centrava mais no puto do que naquilo que ele bebia.

«Não basta dizer lágrimas — não são cantos — uivos, gemidos, gritos (tantos) — no vento lá fora — no vento lá fora só — não basta dizer que o sol é quadrado e a lua, azul — e entre as árvores, na neve, não basta dizer.»

7/2004



Já vos dou mais vinho; com licença.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Poças — Coroa D' Ouro «Reserva» '2004

Mais um post. Mais uma nota de prova. Pouco esforçada. Parca de inspiração. Seca. Trivial. Provavelmente desinteressante.

Este vinho é tinto. Veio do Douro. Foi classificado como DOC. O produtor, a Manuel D. Poças Júnior. O lote, típico da região: Tourigas Nacional e Francesa, Tintas Roriz e Barroca e Tinto Cão. Consta que sofreu um breve estágio em cubas de inox.

A cor, rubi.

O nariz, predominantemente frutado. Ameixa e cereja. Maduras. E reminiscências de mato e resinas. Velhas — doces, pesadas, abafadas.

O sabor, simples. Um tanto curto. Com a concentração que usualmente se associa aos vinhos desta gama. De preços. Boa acidez, taninos firmes. Apenas parcialmente integrados. E 13% de álcool. Que não aquece nem arrefece. No fim, nem robusto nem elegante. Mas gostosinho, fácil de beber.

A meu ver, é o que é, vale o que custa. Tem tudo para ser amado lá para as Américas. Aqui...

4€.

14,5

domingo, 25 de Outubro de 2009

René Barbier — Reserva '2001

Aragonês e Cabernet Sauvignon com estágio em madeira.

Cor acobreada. O aroma, achei-o marcadamente vegetal, notando-se perfeitamente a influência do Cabernet Sauvignon no lote. Tanto que acabei por me interrogar se o dito contará, de facto, com apenas 15% de uvas da referida casta, à semelhança do seu maninho de '98, isto segundo informações contidas na página do produtor.

Marcadamente vegetal e quase sem ponta de doçura; a fruta ia surgindo tímida e imprecisa. No mais, ainda lhe encontrei sugestões de pêlo e especiarias. Mas tudo muito indiferenciado, simples, mofino...

A boca, fresca e seca, de persistência algo fraca, mostrou no entanto uma untuosidade agradável. Com o tempo, aparentou ir ganhando doçura e um certo «quê» almiscarado. E em jeito de retrogosto, a partir de dada altura, começou a deixar sugestões de sabor a cona.

Após quatro dias no frigorífico, vedado apenas com a sua rolha voltada ao contrário, estava parcialmente oxidado, repleto de café e alicorados. Oxidado mas perfeitamente bebível. E por incrível que possa parecer, agradável.

Provavelmente, a graça que lhe fui achando terá crescido mais com o tempo de abertura que o vinho em si. Que, de qualquer forma, não compromete.

Custou 6,50€.

14,5

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Chaminé '2008

Regional Alentejano da Casa Agrícola Cortes de Cima, lote de Syrah e Aragonês com uns pozinhos de Touriga Nacional, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Petit Verdot. Ficha técnica, aqui.

Ora bem... deste não tenho muito a dizer. É guloso e macio. Simples e equilibrado, muito redondinho, feito para ser fácil de beber. Porventura para ser bebido sem pensar. Predomina a fruta: negra, bem madura, docinha, com toques compotados. Também se lhe nota algo mais, ainda que indefinido: notas vegetais? Tostadas? Vegetais e tostadas?

O que for.

Posto isto, talvez só reste dizer que é curto e morno — parecidíssimo com o de 2007.

E como esse, não encanta, mas acaba por convencer. E às vezes apetece.

Custou cerca de 5€.

14,5

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Private Joke

«A pobre rapariga tinha seis anos: era filha do carcereiro. Era loira, com grandes olhos lúcidos. Desde a madrugada ia pelos pátios, pelas enxovias, pelas gradarias leve como uma seda e sã como o sol.

Levava braçadas de ervas aos presos e clematites.

Na cadeia chamavam-lhe a cotovia. Tinha pombas.

Tinha um riso transparente e bom, e quando os miseráveis sujos e chorosos iam para os degredos — ela cantarolava entre eles, serena e gloriosa. Cresceu. A mãe era lavadeira e morreu no rio, entre os musgos e os canaviais. O pai teve um mal e ficou entrevado.

Vieram os Invernos. Ela lidava. Cuidava dos irmãos pequenos. Lavava ao sol. Costurava à lareira sonolenta.

De madrugada ia atirar grãos e migalhas às pombas: depois vinha dar ao pai engelhado, triste, doloroso, as sopas e o caldo.

Um dia entrou na cadeia um bêbedo, um covarde, um assassino, que tinha espancado o pai. Era um lindo rapaz, branco com um corpo delgado. A rapariga viu-o, e fugiu com ele de noite embrulhada num cobertor.

Todo o dia seguinte, as crianças não comeram. O pai gritou, chorou e arrastou-se até à lareira. Ninguém. As pombas voavam à tarde inquietas, fugitivas e medrosas. O pai ficou toda a noite ao pé da lareira a roer um bocado de pão duro. No outro dia ainda as crianças ficaram sem comer. Todas as pombas fugiram. O pai arrastou-se até ao casebre; e esfomeado, batia de encontro à porta. Por fim vieram. Passados dias. Havia pela vizinhança um cheiro de podridão. As crianças tinham morrido: o pai tinha morrido. Tinha sido a fome, a míngua, a sede, o frio.

A que fugiu é hoje velha. Embebeda-se com aguardente: e quando na taberna as esfarrapadas e os miseráveis lhe falam desta história, ela diz com voz rouca:

— Ai que noite aquela, filhas! Ele tinha um modo de dar beijos!»


J. M. Eça de Queirós — Prosas Bárbaras (1866/1867)