sábado, 17 de junho de 2017

Pérez Barquero — Gran Barquero, Amontillado

100% Pedro Ximénez. A respeito do seu processo de produção, ficam as informações constantes da ficha técnica que o produtor disponibiliza online:

"Selección de mostos de “yema”, fermentación natural a temperatura controlada y sin necesidad de encabezado. (Similar a la del Fino ya que, en definitiva, es un Fino viejo que tras un largo periodo de crianza biológica bajo velo de flor, ha realizado otra etapa, aún mayor, de crianza oxidativa)"

e "Crianza Biológica bajo velo de flor (>10 años) seguida de envejecimiento oxidativo (>15 años). Los dos procesos tienen lugar en botas de roble americano de 500/600 litros de capacidad y mediante el sistema de criaderas y soleras. En conjunto, su tiempo de crianza y envejecimiento es de 25/30 años".

O processo de elaboração destes vinhos é um mundo — um link de qualidade para os eventuais interessados.

Mais espesso e glicerinado que este, mas igualmente cheio de presença, é um vinho singularmente intenso, longo e amplo, de complexidade difícil de descrever. Aqui, há que notar que o termo de comparação dado é um Palomino de Jerez, casta com menos açúcar e criada em zona de clima mais mediterrâneo, menos continental, sujeita a menores variações térmicas que o PX de Montilla-Moriles do presente, e que isso leva, por norma, a que estes segundos vinhos precisem de menor porção de álcool adicionado aquando do encabezado, o que, acredito, justificará, pelo menos em parte, a diferença sentida.

De qualquer forma, e passando ao momento importante, que foi bebê-lo, sem exagerar, penso que me tenha trazido um pouco de tudo aquilo que entendo concebível encontrar num vinho . . . Vernizes, lacas, gasolina e outros etéreos, incensos, flores, mel, caramelo, frutos secos, tostados, forno de pastelaria, fruta cristalizada — mas qual ou quais? — e maresia, ranço, vinagrinho . . . Um indivíduo perde-se.

Servido a temperatura sempre ligeiramente inferior aos 15ºC que o produtor recomenda como mínimo, nunca deixou de se mostrar extremamente sápido, com a salinidade característica do género a surgir contida, embrulhada na secura suave que lhe define a boca. Leve toque de calidez em crescendo com a passagem do tempo no copo — são 19% de teor alcoólico.

Numa palavra, grande! E o derradeiro vinho para acompanhar presuntos espectaculares!

A 18€ por garrafa de 75cl, possui uma relação qualidade/preço brutal (coisa comum no mundo do Xerez). Mas consta já ter sido substancialmente mais barato.

18,5

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Boards of Canada — Geogaddi

O segundo álbum dos Boards of Canada foi lançado em Fevereiro de 2002.




Não deixando de ser, sem dúvida, um exemplo da melhor IDM que já foi feita, electrónica que não envelhece, justo merecedor dos muitos elogios que lhe têm vindo a ser dirigidos . . .

. . . Contém vários artifícios e singularidades que terão, certamente, ajudado a reforçar a sua mística.

Talvez a minha favorita seja a oitava faixa do disco, que aqui partilho:

Julie and Candy,

Como em Julie Ponder & Candy Newmaker?

Aw :)

domingo, 11 de junho de 2017

Casas do Côro — Tonel do Vizinho '2010

Casas do Côro é um conjunto de infraestruturas turísticas que inclui casas tradicionais, hotel e spa, localizados na aldeia histórica de Marialva, concelho de Mêda. A componente vínica do projecto tem razoável projecção há anos, com os seus produtos amplamente disponíveis na grande distribuição.

Este monocasta Touriga Nacional foi comprado no Pingo Doce e o seu contra-rótulo diz tratar-se de "um lote adquirido a um vizinho que o produziu com a sua mestria, que o cuidou, mas que tinha uma dificuldade difícil de explicar em escoá-lo".

A caminho dos 7 anos de idade, está sério, diria mesmo algo tímido, com intensidade e volume apenas medianos, mas equilibrado nas suas proporções.

No nariz, fruta preta em transformação . . . mirtilo, amora . . . a par de algum vegetal. Tanto as flores como a madeira do estágio se encontram presentes, mas longe da exuberância que muitas vezes a casta proporciona, no primeiro caso, e que nós, humanos, lhe forçamos, no segundo.

Afinado, macio e de boa envolvência, tem 13,5% de álcool que não sobressaem, apesar da acidez discreta, e um final agradável, essencialmente vegetal, a evocar rama de tomateiro e mato seco, sem amargar.

Posto isto, apesar da ausência de sinais objectivos de velhice, beba-se agora.

A dificuldade em escoá-lo poderá ter tido a ver com a predilecção do público por produtos de satisfação imediata, bem como um preço algo elevado, tendo em conta o padrão actual do mercado. Mas isso já sou eu a teorizar.

11€.

16

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Filmes (81)




Trinta anos depois da estreia, afirmava o seu produtor executivo ao "El Mundo" que "(...) fue un desastre para todos los que intervinimos en ella. Acabó con la carrera de Iván como director y con la mía como productor. Además, casi nadie cobró, nunca supimos adónde fue a parar el poco dinero que ha dado".

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Quinta dos Termos — Reserva "Vinhas Velhas" '2013 e '2014

Consumidos em simultâneo, mais dois exemplares da Quinta dos Termos, de Carvalhal Formoso, Belmonte. Que gama extensa eles têm!

De acordo com os respectivos contra-rótulos, que são idênticos, foram feitos com uvas de vinhas velhas das castas Trincadeira, Jaen, Rufete e Marufo, junto com 10% de Syrah de vinhas novas.


Bastante parecidos entre si — encontrado o estilo pretendido, será mais fácil manter a coesão entre colheitas? — são dois tintos longos, amplos e estruturados. Robustos, mas não brutos.

No 2013, mais morango que ameixa preta: fruta madura, macerada em álcool. Algum ligeiro floral. Muitos taninos, finos, não sedosos. A barrica, fumado discreto, bem integrado. 9€. 17.


Mais "escuro" o 2014, com sugestões de frutos pretos/roxos e madeira um pouco mais presente. 9€. 16,5. Até ver, foram os dois vinhos do produtor de que mais gostei.

sexta-feira, 2 de junho de 2017





terça-feira, 30 de maio de 2017

Fattoria di Fèlsina Berardenga — Chianti Classico Riserva "Rancia" '2010

Fèlsina está localizada no extremo sudeste da denominação Chianti Classico, entre as últimas esporas das colinas de Chianti e o início do vale de Ombrone. São 600 ha de terra, dos quais 95 plantados com vinha.

Este Rancia, proposta de categoria "reserva" do produtor, vem do vinhedo homónimo, situado na comuna de Castelnuovo Berardenga (este pdf contém um mapa que mostra as localizações das diferentes vinhas da exploração).

Trata-se de um monocasta Sangiovese, fermentado em inox, com maceração, durante 16 a 20 dias, a temperaturas entre 28 e 30°C. Em Março ou Abril do ano seguinte ao da vindima, o vinho novo é transferido para barricas novas de carvalho francês, onde estagia de 18 a 20 meses, antes de loteado e engarrafado.

Abri a garrafa e provei. Logo me passou pela mente o facto de, em função das circunstâncias, nos podermos deparar com vinhos menores que nos sabem pela vida e grandes vinhos que desapontam. Mas depois de basto arejamento, toda a tarde em decantador, as coisas mudaram.

E se, ao jantar, já não parecia o monólito de potencial por realizar que se mostrara antes, tão tenso e concentrado quanto objectivamente pobre em cheiro e sabor, exemplo perfeito de um vinho fechado, nunca deixou de parecer ter mais para dar que o mostrado no momento.

"Muito Chianti", trouxe consigo cereja amarga, framboesa e bagas pretas sobre fundo de barrica, esta sem fumo nem baunilha, coisa estranha para quem consome vinhos portugueses 99 em cada 100 vezes: estes cheiros não são cá da terra, faltam termos de comparação.

A complexidade? Anis estrelado, folha de tabaco, cabedal. Flores. Violetas, mas nada como as da nossa Touriga. Nem melhores nem piores, diferentes: mais terra, menos perfume. E moca, deliciosa, a espreitar no final.

Foi assim que este vinho longo e super limpo, com a acidez considerável que se espera dos bons exemplares do género, acabou por me cativar, apesar de ser daqueles vinhos que, reitero-o, não têm tendência para arrancar exclamações de espanto.

Ademais, apesar de ainda ter muitos anos pela frente, encontra-se já numa fase bastante abordável, dê-se-lhe tempo para se soltar — e esquecidas as expectativas, projecções pessoais para o futuro que, como aqui me pareceu ser o caso, muitas vezes não têm muito de concreto a que se agarrar. . . indubitavelmente agradável.

A S. não lhe perdoou a circunspecção, mas a S. gosta de alentejanos ricos.

35€.

18

sábado, 27 de maio de 2017

2.

Terá a manhã sempre que voltar? Não terminará jamais o poder da Terra? Agitação nefasta consome o celeste poisar das asas da Noite. Jamais ficará a arder sem fim a secreta oferenda do amor? O tempo da Luz é mensurável; mas o império da Noite é sem tempo e sem espaço. — Perene é a duração do sono. Sagrado sono, não sejas avaro de teus benefícios para todos os que nesta jornada terrena se consagram à Noite. Só os loucos te desconhecem, não sabendo de outro sono que a sombra que tu misericordiosamente sobre nós lanças no crepúsculo desta vera Noite. Eles não te sentem no dourado caudal das uvas — na maravilha do óleo de amêndoas, no suco escuro da papoila. Não sabem que és tu que pairando no contorno dos seios das tenras donzelas tornas o seu regaço o Céu — não supõem que tu, vindo de histórias antiquíssimas ao nosso encontro, vens para abrires o Céu e trazeres contigo as chaves das moradas dos bem-aventurados, mensageiro silente de infindáveis segredos.

Novalis, "Os Hinos à Noite"
Trad. de Fiama H. P. Brandão
Assírio & Alvim, 1988

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Quinta dos Termos — Colheita Seleccionada '2008

Diz o Prof. Virgílio Loureiro no contra-rótulo deste seu vinho que "... juntei à Touriga Nacional um pouco do melhor vinho de Trincadeira, depois acrescentei o Rufete e, por fim, um bocado de Tinta Roriz, que, em anos bons, fica com um aroma encantador".

Começou algo preso, insistente nas reminiscências de fumo, pimenta preta, coco e baunilha, tudo a apontar para um estágio em carvalho americano, que, sem assoberbarem o conjunto, acabaram por ganhar em definição, e assim sobrepor a sua presença ao "cheiro a vinho" predominante, coisa séria, austera, nada terciária, que só bastante tempo após a abertura começou a deixar perceber a alegria de certa frutinha negra, bonita, é certo, mas de expressão muito suave. Entretanto, cacau, em crescendo.

Na boca, se o volume e o comprimento não se poderiam qualificar como mais que apenas "bonzinhos", era notória a substância, e talvez mais ainda, a coesão evidenciada. Como se, não obstante os quase nove anos volvidos sobre a data da colheita, este vinho ainda estivesse realmente por abrir — e a deixar as sementes da questão sobre se irá realmente fazê-lo . . . Por norma, os tintos de taninos firmes embirram com a acidez e gordura do queijo que, por sua vez, costuma entrar em rota de colisão com a fruta. Mas aqui pareceu-me já existir macieza suficiente e o seu intenso sabor, em concordância com o nariz, era de vinho, vinho mesmo, sem grande fruta, sem pingo de açúcar. Como se de um pequeno Vintage seco se tratasse.

Então resolvi consumir com ele uns quantos queijos maduros que por aí tinha: Stilton, Manchego e da Serra da Estrela, e não me pareceu que a ligação tenha corrido mal, de modo algum. Estava, enfim, contente. Mas quando vieram uns pãezinhos com patê de veado e Pedro Ximenez, de La Cacereña, deste, não consegui mais escapar à forma como o sabor do vinho, sem o ser, puxava maravilhosamente pelo animal, gamy, da carne. E foi como ver a luz.

9€.

16,5

domingo, 21 de maio de 2017