terça-feira, 22 de novembro de 2016

Há dias, tomei dez sementes de Argyreia nervosa, planta talvez mais conhecida como hawaiian baby woodrose ou trepadeira-elefante. Limpas mas não descascadas, esmagadas e empurradas pelas goelas abaixo por um copo de sumo de laranja. Sendo uma estreia, a S. optou por uma porção menor. Cromo como sou, tentando não cerebralizar, evitar a auto-referência, "tenho de pensar em como estou para o registar tão precisamente quanto possível e isso vai influenciar como estou ... ok, nota x", fui apontando umas coisas, que à falta de melhor tema, aqui partilho com os eventuais interessados.

Desde já, um primeiro reparo: apesar de, na altura, ter tido essa impressão, não me parece que tenha perdido lucidez durante a experiência.

. . .

Manhã sem pequeno-almoço, eles dizem que é importante tomar isto em jejum.

Quinze minutos após a toma, um ligeiro peso na cabeça, logo seguido de desequilíbrio.

As cores ficam mais interessantes. Não mais vivas, intrinsecamente mais interessantes.

O banho, quase normal, mas estranho. Começo a sentir-me esquisito. Acentuado o desequilíbrio, relevada a acção da gravidade.

Depois a náusea. Lembro-me de ler sobre ela.

Deito-me. Ilusões visuais, ligeiras e só de olhos fechados.

Música: O Winterreise, muito agressivo; o Requiem de Mozart, idem. AIR, tão seco. Esta não é moca para música. Desligo-a.

Entretanto, as primeiras alucinações perceptíveis de olhos abertos. Ténues: padrões geométricos sobre o branco liso da parede; um passarinho etéreo que se solta do vermelho da toalha de banho estendida na porta do quarto e o atravessa a voar, em linha recta, antes de se evaporar.

O gato vem ter comigo. Pego no gato. O toque do gato é bom. Ronron. Mas não dura. Afasto o gato.

Irrequietude.

Pronunciado desconforto físico. Sinto-me envenenado. Que luta para não vomitar! Num primeiro juízo de valor, arriscaria que a carga exercida sobre o corpo por esta droga é demasiada para as contrapartidas.

Pão com Cheddar. Custa a engolir. Mas antes, cheira bem, e depois, sabe bem.

Depois de comer, o pico da náusea. Torpor, movimentos quebrados e imprecisos. Como se o meu corpo não me pertencesse. Deito-me outra vez, muito queitinho. De phones nos ouvidos e toda tapada, S não se mexe.

Os olhos fechados trazem-me linhas de luz, nas cores do arco-íris, que formam superfícies ondulantes, como Béziers em movimento lento, harmónico. Duas horas ou duas horas e meia após a toma, a náusea vai-se desvanecendo.

Os binaural beats (calhou ser isto) sugeridos pela S para a ocasião, em volume moderado, entram bem. Ligam bem com os visuais.

Torpe, mas sem peso. Fundido no toque das coisas. Tocar com as pontas dos dedos igual a fundir-me na coxa macia da S. A sensação de ser fluido. Mal comparando, aquilo que as claras em castelo sentiriam quando adicionadas ao creme de chocolate, na preparação de uma mousse. Que curiosa sensação de unidade! Sinestesias fixes.

Finalmente, algo fixe.

Ainda assim, da experiência enteogénica relatada por muitos no Erowid e afins, nem vislumbres. Terá sido o incómodo físico demasiado distractivo? Demasiado fodido para pensar o sonhar? Ou demasiado preguiçoso?

Adormeço.

Acordo. Mais binaurais. Engraçado como o tempo foi passando mais e mais depressa, importando menos e menos.

Adormeço de novo.

Sete horas após a toma, ainda me sinto adoentado. Não apetece comer, mas faço esse esforço. Em todo o caso, já razoavelmente lúcido.

Dez horas após a toma, passou. Estou cansado, moído, depois de praticamente ter passado o dia deitado.

Gloriosa, a sensação de ausência de peso e toda a carga sinestésica, depois de a náusea passar, sobretudo em t+3 ou t+4 horas após a toma.

Antes disso, porra...

No final, tudo considerado, meh. Comprámos 500 sementes, deixá-las repousar no frigorífico até novo surto de coragem.

sábado, 19 de novembro de 2016

Pasos de San Martín '2012

De manhãzinha, minutos depois de o sol nascer, o passeio diário pelo bosque. Voltar a casa, fazer a cama, preparar o embate com a civilização. Depois, tentar sempre regressar cedo, comer cedo. Almoço tardio, jantar precoce ou lanche avultado, como preferirem. Este formoso tinto foi o vinho dessa refeição, no dia em que o haxixe acabou. Acompanhou um estufado de carne de vaca que tinha feito no dia anterior, involuntariamente próximo de um calderillo bejarano.

Comecei a beber assim que abri a garrafa e não dei uso ao decantador. Encontrei um Garnacha tão sério quanto elegante e vivaz. O aroma, ainda muito primário, mostrou predomínio de frutos do bosque, bagas de vários tipos, maduras e em licor, mas também q.b. de mato seco e alcaçuz. Com o tempo, ganharam definição fumados e tostados, em todo o caso, sempre muito suaves, bem como aromas de gianduia e café. Na boca, entrada fresca, corpo mediano, bem macio, e final prolongado, com toque de amargor. Não sobrou nenhum para o segundo dia.

Menos bombom que qualquer dos Garnacha de Gredos que já experimentei, mas bem mais que o Porrera que abati em Janeiro, está um vinho muito bonito, pelo que, não obstante viva, e por conseguinte evolua, facilmente, mais meia dúzia de anos, não me parece que exista qualquer bom motivo para não se beber já.

Vino de pueblo de San Martín de Unx, terra de forte tradição vinícola, situada 45Km a sul de Pamplona, proveio de vinhedos com 35 anos de idade, implantados numa ladeira de solo argilo-calcário. Produzido pelas Bodegas y Viñedos Artazu, ramo navarro do Grupo Artadi, foi vinificado em depósitos abertos e fez a maloláctica em barricas, onde permaneceu até ser engarrafado, em Março de 2014.

17€.

18

quarta-feira, 16 de novembro de 2016







domingo, 13 de novembro de 2016

Château Moulin Bellegrave '2012

Tinto de Saint-Émilion, traz a assinatura de Antoine Mabileau, de Vignonet, e é mais um dos muitos franceses "genéricos", de gama média-baixa, que desde há alguns anos se encontram amplamente disponíveis da distribuição.

Procurando saber mais sobre ele, constatei que o produtor apresenta no seu sítio da internet um outro Château Moulin Bellegrave, também da colheita de 2012, mas possuidor de um rótulo diferente e da denominação "Grand Cru" que a este falta.

Isto, junto com a indicação, presente no contra-rótulo deste, de ter sido "mis en bouteille au Château par LPT à F.33650", levou-me a concluir tratar-se, provavelmente, de um lote de vinho "menos premium", oriundo das terras do Sr. Mabileau ou comprado por ele, que tratou depois de o engarrafar (via La Passion des Terroirs, um grande négociant de Arsac) com o mesmo nome, mas uma imagem diferente e um preço três a seis vezes inferior ao do seu vinho estandarte.

Hmm.

Claro que o que acabei de referir não implica, necessariamente, que o vinho não preste. Mas, já à partida, quão honesto?

Presumo que se trate de um lote de Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, como habitual na região. Não apurei mais.

Em todo o caso, servido directamente da garrafa, a acompanhar churrasco, mostrou um nariz surpreendentemente generoso, com cerejas e outros frutos do bosque, pretos, bem maduros, a abeirar a compota, permeados de sugestões terrosas, especiado indistinto, doce, e um pouco, pouquinho, de baunilha. Na boca, sabores em consentaneidade com os cheiros, algum corpo, redondez e final curto, mas agradável.

Estava eu a comer, beber e tirar notas — má ideia — quando, de repente, foi como se o vinho me dissesse "se não conseguires destacar-te pelo talento, vence pelo esforço, foi o que fiz!" E, meu deus, que adágio de merda, mas, encontrando-lhe propriedade, lá o registei.

É que, não obstante a sua origem humilde e os caminhos que teve de trilhar até eu escolher, entre tantas alternativas próximas, levá-lo, a ele, para o grande além, os aromas estavam em equilíbrio, o sabor era agradável — enfim, um conjunto prazeroso, tanto sozinho como acompanhado, e que deixou, para cúmulo, no ar a promessa de poder evoluir mais um ou dois anos em garrafa. Assim sendo...

4€.

16

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Destaque-se, na distribuição das culturas, a importância da vinha e do olival. Pelo menos desde o século XVIII que sabemos de Castelo Branco produzindo azeite e vinho.
É o que se depreende das actas camarárias da época e o que expressamente consta na Corografia do P. Carvalho Costa e, também, na resposta ao quesito 25 do inquérito ordenado pelo Marquês de Pombal e destinado a completar o Dicionário Geográfico do P. Luiz Cardoso.

Na acta camarária de 9 de Setembro de 1768 (S. II. 175) refere-se que os vinhos albicastrenses, muitas vezes, se transformavam em "quási vinagre" pelo facto de as vindimas se fazerem antes das uvas estarem maduras.

A esta antecipação da colheita não deviam ser alheias a escassez de pessoal e consequente alta de salários na época da vindima.
A hipótese que se formula parece obter confirmação no facto de a câmara nos aparecer a tabelar os jornais dos trabalhadores da vinha. Cardoso, "Vida Municipal", S. II. 169.

Na exposição de Paris de 1889, o azeite de Castelo Branco foi distinguido com seis medalhas de ouro, cabendo três à cidade, duas ao concelho e uma ao resto do distrito.


Na exposição industrial portuguesa de 1888 — secção agrícola — dos 26 expositores do concelho de Castelo Branco, 17 apresentaram vinhos tintos ou brancos.

Os vinhos do expositor Domingos José Roballo já tinham ganho prémios nas exposições de Viena de Áustria de 1873 e de Filadélfia de 1876. Exposição Industrial Portuguesa, Catálogo da secção agrícola, Imprensa Nacional, Lisboa, 1888, pag 269 e sgs..
Quanto a prémios obtidos nesta exposição agrícola de 1888, apenas sabemos que ao conjunto de vinhos da Casa Agrícola Abrunhosa foi atribuída uma medalha de cobre.

No concurso nacional "O Melhor Vinho" — produção de 1970 — foram concedidos prémios aos seguintes produtores do concelho de Castelo Branco: D. Maria Alda Godinho Pinheiro Dias Coutinho Vaz Preto — 1º prémio, vinho branco, classe B; Joaquim Domingos, vinho tinto, 2º prémio, classe A; João Esteves Lourenço Pereira, vinho tinto, 3º prémio, classe A; D. maria Alda Godinho Pinheiro Dias Coutinho vaz preto, vinho tinto, 2º prémio, classe B; e, na classe A, menções honrosas a Hrs. do Dr. José Nicolau Nunes de Oliveira e António Goulão Folgado.

No ano de 1929 ainda a vinha era numerosa, havendo tendência para aumentar a sua plantação. O vinho era muito alcoólico.
Tenente Elias da Costa, "Castelo Branco no Trabalho", Edição do A. Lisboa, 1929, pag 207.

José Vasco Mendes de Matos, "Esquema Para Uma Biografia da Cidade de Castelo Branco",
Edição do autor, Castelo Branco, 1972.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Quinta dos Termos — Fonte Cal, Reserva '2014

Fonte Cal é uma casta branca, autóctone da Beira Interior. Mais comum na zona de Pinhel, onde algumas fontes lhe apontam a origem, será na Quinta dos Termos, de Carvalhal Formoso, concelho de Belmonte — no mapa, fica aqui — que, actualmente, dá o seu melhor, traduzido naquele que, provavelmente, será o seu único varietal em comercialização.

Foi servido fresco, sem qualquer tipo de decantação ou arejamento prévio, a acompanhar um stir fry de inspiração chinesa, substancial mas de sabores suaves, que, entre outras coisas, levou generosa porção de bambu fresco e cogumelos orelha de judas e shiitake, frescos e maduros; a carne, vazia de vitela, grelhada no ferro e fatiada fina, só foi misturada no fim.

Mais expansivo na boca que no nariz, abriu com florzitas do campo, daquelas rasteiras, brancas e amarelas, a que se juntaram suaves notas verdes, herbáceas e limonadas, bem como muitas sugestões minerais, a evocar calcário e giz.

Mostrou-se gordinho e possuidor de boa acidez, viva mas madura, perfeitamente integrada no sabor, seco (de açúcar) e vagamente amanteigado, que terminou a fazer lembrar o amargor residual característico da camomila, em jeito de nota de fundo.

É, em simultâneo, um vinho discreto, peculiar e bom! Mas não teria conseguido desfrutar dele convenientemente, se não tivesse existido da minha parte algum esforço para o entender. Teremos, então, um vinho que, apesar de todas as qualidades já referidas, se presta a ser mal interpretado? Magnífico!

7€.

16,5

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Invulgar '2010

O vinho de hoje é um lote de Touriga Nacional e Alfrocheiro, estagiado durante um ano em barricas de carvalho Allier, produzido pela UDACA, que o introduz assim: "Invulgar é reunir 5 enólogos do Dão e criar em conjunto um único vinho. É reunir a magnitude dos vinhos das adegas cooperativas de Mangualde, Penalva do Castelo, Silgueiros e de Vila Nova de Tazém em torno da UDACA".

Abriu com montes de aroma sintético de uva, qual caneta ou champô fortemente aromatizado com antranilato de metilo, mas já sabemos que essa não pode ser a substância responsável.

Melhor percebido, o bouquet alargou-se para um floral "genérico", com bergamota pelo meio — o linalol é o mais representativo dos terpenos livres presentes na Touriga Nacional — e algo balsâmico também, combinado com bagas silvestres, bem doces, mas a manter sempre o enfoque em coisas azuis e roxas. Sweet, not savoury, e já conta com seis anos sobre a data da colheita.

Enfim, roxo e doce. Depois vieram frutos pretos. E na boca mostrou-se surpreendentemente sério, quase em choque com a jovialidade do nariz, com boa acidez. É um vinho cheio de impacto, de massa crítica, mau grado apresentar um volume bom, mas não excepcional, e uma persistência apenas mediana.

Não obstante a iniciativa que levou à sua elaboração me parecer bem mais invulgar que o produto acabado, este resultou porreiro e isso é o que mais importa.

6€.

16

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Filmes (75)

The Witch: A New-England Folktale





Estreia de Robert Eggers, que o escreveu e realizou, e da protagonista, Anya Taylor-Joy, que é qualquer coisa e aqui aparece com Ralph Ineson, o "Finch" de "The Office" convertido numa espécie de imitação de Cristo, Kate Dickie a fazer de esposa dele e três outras criancinhas, tão empenhadas quanto irritantes.




Passado na Nova Inglaterra do princípio do século XVII, mostra como o demónio se instala numa família puritana que se arriscara, sozinha, a desbravar os bosques, após abandonar a plantação que habitava, por divergências de fé.




Mas as colheitas falham, os animais apresentam comportamentos bizarros, um bebé desaparece. . . a dúvida alimenta a desunião. Realçam-se os podres que, afinal, já há muito existiam.




Em jeito de curiosidade: este filme foi oficialmente sancionado "a transformative Satanic experience" pelo Templo Satânico. Para aqueles que exigem que tudo traga um carimbo de certificação estampado no rabinho, aí está.

domingo, 30 de outubro de 2016

Vallis Queyras '2013

Lote de Grenache e Syrah, de terra calcária e cascalhenta, este vinho é o representante da região de Vaucluse no portefólio dos Domaines Pierre Chavin.

Fermentado, nos dizeres do produtor, com uma extracção "bem controlada", estagiou em tanques de aço, de grandes dimensões, durante meio ano, a que se seguiu uma breve passagem por barris de carvalho.

Refrescou no frigorífico, a garrafa ainda fechada, tendo depois repousado no copo até atingir os 14ºC indicados no contra-rótulo como início do intervalo de temperatura ideal para se beber.

Encontrei-o muito Grenache, tanto na cor, escura mas pouco saturada, como no nariz, acima de tudo, doce, com fruta silvestre, escura, carregada, passas misturadas e também flores, caramelo e Ceregumil — o clássico, que me obrigavam a tomar em criança e nunca mais esqueci.

Ainda alguma terrosidade, discreta mas inequívoca, mais em pano de fundo que a envolver o que quer que fosse, e notas de oxidação, a fazerem lembrar, ao longe, xerez.

Fresco, macio e equilibrado na boca, apenas me pareceu pecar, não pela ligeireza, que será feitio, mas por certa fugacidade. E para mim, pessoalmente, por confirmar o estilo oxidado que já lhe tinha notado ao cheirar, com doçura residual.

5€.

14,5

sexta-feira, 28 de outubro de 2016