segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Lacrau '2013

Este vinho grande e saboroso, mas (provavelmente ainda) nem por isso complexo, respirou perto de uma hora, em decantador, antes de trazido para a mesa.

No nariz, proeminente o toque floral e maltado que usualmente encontro nos Douro tintos de vinhas velhas.

E barrica, cordata, suave, bem encaixada, apesar dos dezasseis meses que passou em madeira.

Na boca, persistente, bastante volume e maciez cremosa: sim, equilíbrio em jovem.

Poderei ter encontrado a fruta, preta, pouco faladora, mas também densa, bem embebida no corpo do vinho — no álcool, na acidez, nos taninos longos e finos que, se para já a mascaram um pouco, também deixam adivinhar margem de evolução ao conjunto.

Foi produzido pela G&R Consultores na adega da Quinta da Faísca, sita entre Favaios e Vale de Mendiz, com Touriga Nacional proveniente do vale do rio Torto e uvas de vinhas velhas, provenientes de diversas parcelas plantadas em "field blend", localizadas no vale do Pinhão.

Acompanhou pintada no forno.

17€.

17

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Lagoas













terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Château Sansey '2014

Este tinto produzido pelos irmãos Guignard, de Mazères, consiste num lote composto por 60% de Cabernet Sauvignon, 30% de Merlot e 10% de Cabernet Franc.

Foi aberto talvez meia hora antes de servido e acompanhou febras de porco, muito finas, grelhadas em estilo simples, junto com batatas assadas.

Mostrou bastante fruta preta aromatizada com especiarias doces — bouquet típico dos vinhos da região. De meio corpo, entrou suave na boca e persistiu razoavelmente.

A princípio, pareceu-me predominar o lado especiado do lote, com toques de torrefacção e a remeter também à baunilha, sem peso ou amargor, mas a fruta recuperou terreno com o avançar das coisas.

Espinha dorsal firme e flexível, o binómio acidez/taninos não comprometeu.

Assim encontrei este Graves "de supermercado": sem brilho, mas estruturado, equilibrado — bem prazeroso.

7€.

16

sábado, 31 de dezembro de 2016


24 horas de passagem pela terra natal antes do fim do ano. Decoração alusiva à época, simples mas engraçada, e uma feirola com farturas e carrosséis na praça principal. Mixed feelings! Os centros comerciais do meu tempo, meio mortos. Parece que, como tudo o que não é Lisboa e Porto, a cidade se plastificou para fora. Surgiram novos lugares, sobretudo na periferia, maiores e mais vistosos, que teriam constituído uma adição porreira caso não representassem o fim do que já existia. Mas as coisas são assim mesmo. As condições mudaram. O país, o mundo mudou. E uma dessas mudanças foi o abastardamento do que é dirigido às massas. Lembro-me, por exemplo, de ser puto e qualquer relojoaria de merda ter Omega e Longines na montra. E agora?


De manhã, antes de regressar, nova volta. O Praça Velha, que ficava no antigo Celeiro da Ordem de Cristo, fechou. Tinha um espaço porreiro, uma carta de vinhos bem composta, com alguns tintos de guarda no ponto ideal de consumo e não demasiado caros, tipo isto, e ficava num sítio super conveniente, mesmo ao lado do Património. Era, pois, possível jantar no melhor restaurante lá da terra, fumar uma ganza ao virar da esquina e ir logo para os copos, também no melhor bar lá da terra, sem grandes tropeções, arrumações ou outras complicações. Assim, almocei sushi de take-away, em casa, com uma cerveja. Mediano, muito mediano. O bolo xadrez, praticamente impossível de encontrar em Coimbra, continua, no entanto, bastante popular. Missão: store up, pig out.


Foi com certa mágoa que encontrei fechada a Conquilha, uma espécie de centro ocupacional para jovens que ficava na travessa Nuno Álvares e que foi onde aprendi a jogar xadrez. Já lá não passava há tantos anos, e mesmo que ainda existisse, de certeza que agora já não era "para mim", mas vejo através da porta meio escavacada aquele interior despojado, com sinais de largo abandono, e que melancolia! Na altura não o valorizava, mas terá sído dos poucos, pouquíssimos lugares onde, em pequeno, passei momentos realmente felizes. Sim, as aulinhas de xadrez ao Sábado, com o N. Abreu e depois os Wright, a par dos torneios de Magic e das reuniões do INTERACT, lol.


As viagens do "Intercidades" da Beira Baixa passaram a ser feitas exclusivamente por UTE — sim, automotoras. Parece que a CP poupa uns cobres, logo toda a gente (que importa) aprova. E não, montado nestes periquitos novos, o troço à beira Tejo não é a mesma coisa. Falta espaço, falta gosto. Em suma, uma merda.


Valha-nos que, do Entroncamento para cima, ainda é possível vir num comboio de verdade. Regresso e tanto ela como o gato me aguardam. Definitivamente, melhor que poder cabriolar ao sabor das mais amplas liberdades, é ter quem nos faça uma festa quando chegamos. Antes do recolher, aproveitamos para comprar vegetais.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quinta do Sobral — Vinha da Neta '2011

Do contra-rótulo: "Homenagem do avô Nelson para a neta Maria Simões que perpetuará a tradição dos vinhos da Quinta do Sobral".

Tinto de Santar, Nelas, consiste num lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, estagiado em barricas novas de carvalho francês.

Que vinho! Retinto, com reflexos arroxeados. Muito tourigão e ainda muito fechado também, com o alcatrão (guaiacol, 4-etil-guaiacol?!) e os fumados da barrica, os etéreos dos seus 15% de álcool e as violetas e bergamota da casta dominante a sobreporem-se à fruta, preta e surpreendentemente pouco faladora — persistente, o corpanzil troncudo é amparado por uma grande acidez.

Face a tantas coisas grandes, o primeiro impulso foi dizê-lo bom. Mas, vendo melhor as coisas, está tão fechado, tão alcoólico . . . ainda mais que o já algo difícil monocasta Touriga Nacional do mesmo ano . . . enfim, porque há-de a monumentalidade ter sempre tendência a ser sobrestimada?

Não gostando de bombas, sei que há quem as aprecie. E assim, mesmo não me tendo este vinho sabido lá muito bem — sem ir, contudo, tão longe quanto a S, quando lho dei a provar: "isto é só solvente e cascas de árvores, não é?" — o valor numérico que encerra o post volta a ser, e ainda mais que no caso do já referido Touriga, uma manifestação de fé.

14€.

16

domingo, 25 de dezembro de 2016

Filmes (76)

The Last Temptation of Christ



Adaptação da novela de Nikos Kazantzakis com o mesmo nome, este filme é um retrato (meio) alternativo da vida de Jesus Cristo, contado na primeira pessoa. Consta que a inefável Madre Angélica lhe chamou "a Holocaust movie that has the power to destroy souls eternally", avisando que a Califórnia seria submersa pelas águas do Pacífico caso viesse a ser exibido — sem especificar, no entanto, quando.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2012

A receita deste 2012 é afim da do 2009 que consta do post anterior: Baga e Touriga Nacional, com predominância da primeira, vinificação em lagar aberto e estágio em tonel avinhado.

Tal como o outro, foi servido sem cerimónias, directo da garrafa. E tal como nele, se o protagonista é fruta, vermelha mas bem doce, com rebuçado misturado e levíssimo floral e fumado que aparentam não querer separar-se, contributo provável da Touriga, o fio condutor é acidez e o espaço onde toda a acção se desenrola, mineral, ora a fazer lembrar terra seca, ora aparas de lápis.

É, pois, bastante parecido com o seu predecessor de 2009 — e já agora, 2010 — a grosso modo, pouco mais persistente que intenso, tão intenso quanto profundo e apenas um pouco mais profundo que volumoso. Não excluo a possibilidade de a observação anterior (ou a totalidade delas) poder ser vista como um valente disparate, mas foi exactamente esse o apontamento que tomei no calor do momento, com os vinhos e as carnes à frente, invadido pela pressa de comer que a gula traz e perpassado pela despreocupação de estar a fazer . . . nada. Como agora, relido dias depois, continua a fazer todo o sentido, pelo menos para mim, deixo ficar. É o meu mapa, tanto melhor se puder servir a mais alguém!

Então, a maior juventude deste vinho face ao de 2009 traduziu-se essencialmente num pouco mais de aresta e um pouco menos de harmonia, o que também o terá feito parecer mais forte. O tempo que passou exposto aos elementos, no copo, trouxe-lhe uns achocolatados que não detectei no outro, sempre mais balsâmico. Tudo diferenças pequenas. Relevante é serem dois Bairrada perfeitamente adultos, ao mesmo tempo simples, no bom sentido da palavra, e alegres, evidentemente com vários anos pela frente.

Para terminar: a) a comida foi javali estufado e pão com meia dúzia de tipos de queijo; b) a produtora mantém activa a sua página no Facebook, mas deixou cair o sítio que tinha em casadesaima.com, e que poderia ser boa ideia trazer de volta, mesmo com conteúdo redundante ou praticamente sem ele, caso a experiência do passado tenha mostrado não advir retorno de o desenvolver. Sempre dá um aspecto mais profissional e cosmopolita que uma presença em rede social com hiperligação para um sítio "clássico" que já não existe.

6€.

16

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2009

Abri recentemente, em paralelo, duas garrafas de Casa de Saima "Reserva" que servirão de mote para este e o próximo post: um exemplar da colheita de 2009, já com sete anos de existência, e outro de 2012. Ora, exige o rigor que esclareça, desde já, que nem o Saima mais antigo está velho ou qualquer coisa que se pareça, nem o mais recente é um vinho novo. Aliás, pareceu-me notável a proximidade verificada entre estas duas garrafas, que se encontram, claramente, no mesmo patamar de evolução, apesar da diferença de idades.

Long story short, este 2009 fez-se de fruta vermelha — cereja, framboesa — e mineral — grafite, terra — só com um toque balsâmico, algum tipo de resina. De volume mediano e persistência satisfatória, está super fácil de beber, a idade bem mais sugerida (está tão fresco que não me atrevo a dizer denunciada) pela coesão do conjunto que pelas poucas, se algumas, notas de evolução apresentadas.

Será ainda digno de nota o facto de este vinho me ter parecido mais ligeiro e jovial que os "Reserva", por assim dizer, antigos da casa, aqueles do rótulo branco, produzidos aí até meados da década de 2000, quando o Dr. Carlos Almeida e Silva, ex-marido da actual proprietária, ainda integrava o projecto — coisa que já tinha notado neste 2010, quando o bebi, novinho, em 2013.

Os 18ha de vinha desta produtora não são contíguos, encontrando-se dispersos por várias propriedades da Bairrada, localizadas entre Fogueira, Paraimo, Ancas e S. Mateus, e não aferi de qual ou quais proveio a matéria-prima deste vinho. Facilmente acessível está a informação de ter sido criado a partir de Baga (60%) e Touriga Nacional, vinificadas de maneira clássica, com fermentação em pequenos lagares abertos seguida de um ano de estágio em tonéis antigos, de madeira de carvalho.

6€.

16,5

sábado, 17 de dezembro de 2016

Estufado de Vaca à Russa

Não é de todo habitual que aqui reproduza receitas de terceiros, mas o "Russian Beef Stew" do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, que acompanhou, num dos dias, o vinho do post anterior — num dos dias: a S tornou-se furiosamente vegana, já há mais de um ano, e estas coisinhas maiores, só para mim, duram várias refeições — impressionou-me tanto que tive de abrir uma excepção.

Traduzido às três pancadas, este estufado leva:

1,3 Kg de carne de vaca "para cozer", cortada em pedaços de 5 cm,
4 chávenas (1 US cup = 236,59 ml) de cebola Vidalia, picada,
1 chávena de cenoura "baby", ralada fina,
1 chávena de caldo de carne,
1 chávena de vinho branco,
½ chávena de preparado de preparado de raiz-forte,
½ chávena de creme azedo,
6 colheres, de sopa, de manteiga,
3 colheres, de sopa, de farinha,
2 colheres, de sopa, de mostarda de Dijon,
4 colheres, de chá, de alho picado,
2 folhas de louro,
sal, pimenta preta e salsa fresca.


E faz-se assim:

Derretem-se 4 das 6 colheres de manteiga numa frigideira antiaderente, grande, sobre lume médio, e lá se doura a carne, ao de leve, uns 30 segundos por lado, antes de se retirar para um prato e temperar com sal e pimenta a gosto.

Adiciona-se o alho, a cebola e a cenoura à frigideira, sem a limpar, e refoga-se, mexendo ocasionalmente, durante 5 minutos. Tempera-se, também, esta mistura com sal e pimenta.

Transferem-se os vegetais para dentro do recipiente do slow cooker (a receita refere um com 4 quarts de volume, o que dá aproximadamente 3,8 litros; presumo que não haja qualquer problema se for utilizado um maior) e deposita-se a carne por cima deles.

Misturam-se o caldo e o vinho e despejam-se sobre a carne. Junta-se o louro e deixa-se cozinhar, em "low", durante 7 horas, até a carne ficar macia, sem que, contudo, se desfaça.

Passado este tempo, transferem-se a carne e os vegetais para dentro de um qualquer outro recipiente, com uma escumadeira. Passa-se o líquido que ficou no fundo do slow cooker por uma peneira de cozinha, e reserva-se, juntando à carne todas as partes sólidas que lá tenham ficado retidas. Devolve-se a carne e os vegetais ao recipiente do crockpot, que se tapa para não perder calor.

Derretem-se as restante 2 colheres de manteiga, numa caçarola, em lume médio-baixo. Junta-se-lhes primeiro a farinha, como quem faz um roux, e depois os sucos da cozedura que se tinham reservado. Começando a mistura a ferver, reduz-se o lume para o mínimo e deixa-se cozinhar, mexendo constantemente, até o molho espessar, o que deverá demorar uns 10 minutos. Adiciona-se então o preparado de raiz-forte e a mostarda, e tempera-se com sal e pimenta.

Cobre-se a carne com este molho e deixa-se integrar, com o slow cooker ligado, no mínimo, mais 1 a 3 horas.

Antes de servir, junta-se creme azedo ao estufado até o molho ficar cremoso. Transfere-se tudo para uma travessa e polvilha-se com salsa cortada de fresco. Acompanha-se com batatas vermelhas, novas, ou, diz a autora, com "wide egg noodles". Ainda que possa ficar bem, descartei esta segunda possibilidade.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quinta do Monte d’Oiro — Têmpera '2004

Segunda edição do varietal Tinta Roriz do produtor de Freixial de Cima, fermentou em cubas de inox, com maceração prolongada, e estagiou durante 15 meses, em barricas de carvalho francês, das quais três quartos novas, antes de engarrafado.

Não o provei em novo. Neste momento, e nesta garrafa em concreto, volvidos mais de doze anos sobre a data da colheita, encontrei um vinho limpo, fragrante q.b. e bem dimensionado — mas, acima de tudo, coeso.

De perfil cálido, não capitoso, conduzido por fruta escura, com generosa porção de notas terrosas e apimentadas à mistura, mostrou-se um caldo de cuja complexidade não consegui, no entanto, destrinçar muita coisa.

Não duvido ter-lhe encontrado compota e licor, bem como cacau, café, tabaco, baunilha, pimenta preta e fumo. No entanto, face ao conjunto e presumindo que o objectivo é tentar caracterizar esse mesmo conjunto, a nenhum desses descritores encontrei real interesse. Sem ir mais longe, por como variaram, no tempo, tanto a sua expressão (que baunilha, que tabaco) como a sua aparente quantidade.

Parece-me, então, mais útil comparar o presente retrato deste vinho àqueles estufados que levam basta variedade de ingredientes, mas onde, no final, não apanhamos o conjunto dos seus aromas/sabores isolados, antes uma mescla que apenas a grosso modo corresponde à soma das partes, e de onde, pontualmente, como que se evidencia ora uma, ora outra.

De taninos polidos e já perfeitamente integrados, retém vida (e aqui a acidez é só uma parte) suficiente para se preservar da mornidão. Ainda assim, guardá-lo mais tempo, só por curiosidade.

Acompanhou o "Russian Beef Stew" que consta do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, e que fica para o próximo post.

20€.

17