quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Campolargo — Dão '2010

Segunda de duas garrafas de Campolargo do Dão, bebidas no mesmo dia, em jeito de micro-vertical.

O contra-rótulo diz o seguinte:

"Quinta vindima da nossa vinha de Lagarinhos, Gouveia. Boas condições de tempo antes e durante a vindima, feita em duas etapas separadas por cinco dias (23 e 28 de Setembro). Seguiu-se a fermentação conjunta de todas as castas em lagar aberto com pisa manual. Fermentação maloláctica em barricas usadas, de carvalho francês, onde permaneceu em estágio até ao engarrafamento".

Como o seu antecessor de 2008, é um Dão sério, mais "savoury" que "sweet", com toque terroso e acidez assertiva, às vezes quase agressiva, logo no ataque à boca. Também aqui a fruta é escura, mas menos transformada, de tal forma que se deixam perceber, razoavelmente limpas, tanto groselha como cereja. Revela, no entanto, bastantes especiarias, com a baunilha doce a fundir-se num floral alegre, que o anima.

De sabor já redondo, com ponta de evolução, está mais ligeiro e menos persistente que o outro, mas mais equilibrado, de tal maneira que acabei por preferi-lo.

Com estes vinhos, comemos bifes da vazia, maturados, preparados neste espírito, com maior inclinação para o processo indicado por Ramsey — aproveitem que desta vez o link é para um Youtube em vez de para uma qualquer coisa chata.

12€.

16,5

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Campolargo — Dão '2008

Primeira de duas garrafas de Campolargo do Dão, bebidas no mesmo dia, em jeito de micro-vertical.

O contra-rótulo diz o seguinte:

"Terceira vindima da nossa vinha de Lagarinhos, Gouveia. Boas condições de tempo até à vindima, que foi feita em duas etapas separadas por sete dias. Isso não impediu a fermentação conjunta de todas as castas [Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz] em lagar aberto com pisa manual. Fermentação maloláctica em barrica usada de carvalho francês onde permaneceu em estágio até ao enchimento de 10131 garrafas em Fevereiro de 2010".

No nariz, primeiro, frutos negros, muito maduros e indiferenciados, parcialmente compotados, fundidos com elementos balsâmicos e sanguíneos; mais lá para a frente, licores, tosta e café. Na boca, uma acidez, se não mordente, pelo menos bem vincada, taninos já perfeitamente domados e final de médio a longo.

Parecendo a acidez exagerada numa primeira abordagem, fiquei com a ideia de que, pelo menos agora, seja o ponto-chave do seu interesse: é que apesar da idade deste vinho e do seu perfil escuro e duro, que remete a mente a coisas pesadas, ele continua inquestionavelmente fresco e interessante.

Curiosamente, a S, tantos anos depois, ainda tão crítica relativamente a tinto, gostou dele.

12€.

16

sexta-feira, 12 de agosto de 2016





Fotos de há meio ano para chamar o frio.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Villa Maria — Private Bin, Sauvignon Blanc '2014

A dada altura, senti crescer certo interesse pelas coisas do novo mundo, mas a onda não teve momento suficiente. Assim, até ao presente, em todo o blogue, que conta com 947 entradas dedicadas a vinho, desde 29/4/2008, a etiqueta "Nova Zelândia" apenas devolve três resultados, tendo o último sido publicado em Janeiro de 2012, também a respeito de um Sauvignon popular, de entrada de gama, como o de que cuida este post.

Ora, todos os poucos que experimentei se mostraram propostas sólidas, varietalmente correctas e bastante agradáveis, que apesar de não maravilharem, também não defraudaram. E este vinho, bebido já a caminho da curva descendente, foi mais um que se portou assim.

Muito limpo e possuidor de marcada acidez citrina, veio todo em tons de verde, um verde alegre e macio, com muito maracujá maduro e lima a transfigurarem-se, com a permanência no copo, em toranja, carambola e abacaxi.

O paladar está bem afinado, seco sem ser austero, e ainda tem bastante força, mas termina algo curto, com um desvio, evidentemente residual, para a doçura. É um vinho franco, na medida em que parece não guardar segredos. Feito para ser bebido jovem, estaria provavelmente melhor há um ano atrás, quando mais viçoso.

As uvas provieram de diversas parcelas do produtor, localizadas nos vales dos rios Awatere e Wairau, em Marlborough, vindimadas entre o princípio de Março e meados de Abril. O mosto fermentou a baixa temperatura, sob acção de leveduras seleccionadas, após pisa mecânica, tendo o vinho resultante sido engarrafado sem qualquer tipo de estágio.

10€.

16,5

sábado, 6 de agosto de 2016

"No Registo do Óbito, passado a 27 de Março de 1946, lê-se como causa da morte:

Asfixia por obstrução dos vasos aéreos superiores produzido por pedaço de carne.

Assinam este documento o declarante, Dr. Asdrúbal d'Aguiar, e a ajudante do Posto do Registo Civil, Maria Teresa da Costa Monteiro de Figueiredo.

O que, desde já, achamos estranho é a posição tranquila do corpo de Alekhine. Custa-nos a acreditar que uma pessoa vítima de asfixia morra com a serenidade que as fotografias mostram e os relatos confirmam. O próprio Dr. António J. Ferreira afirma que o asfixiado cai no chão. É, segundo supomos, fácil de entender que, numa situação dessas, a vítima estrebuche e se agite convulsivamente. Nada disto se nos patenteia nas fotografias.

Dispomos de duas fotografias tiradas de ângulos diferentes: uma publicada no livro de hans Müller e A. Pawelczak, Schachgenie Aljechin, Leben und Werk (foto junto da p. 272) e outra reproduzida na revista Jaque (Nueva Época, nº 319, 2a Quincena, Diciembre 1991, p. 10). Tal como vimos nas descrições já referidas, Alekhine está tranquilamente sentado num cadeirão parecendo dormir. A cabeça pende-lhe ligeiramente sobre o ombro esquerdo e não se apoia nas costas do cadeirão, que tem um naperon de renda.

(...)

Qual é a diferença de uma para a outra fotografia? Na da revista Jaque, deparamos com um jornal, ou revista, sobre o livro na prateleira do toucador onde está o copo.

Não sabemos a ordem por que foram tiradas as duas fotografias; todavia, o que é um facto indesmentível é que alguém colocou, ou retirou, um objecto, o que se nos afigura estranho, uma vez que, num caso como este, em que se suspeitou de homicídio, nada poderia ser retirado ou acrescentado."

Dagoberto L. Markl,
Xeque-mate no Estoril, A morte de Alekhine
Ed. Campo das Letras, 2001

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Morgado de Sta. Catherina — Reserva '2012

Outro vinho sobre o qual não tirava impressões há muito tempo, apesar de também ser daqueles que se repetem à minha mesa — o último que aqui comentei foi da colheita de 2009, aberto em 2013.

Monocasta Arinto, estagiado durante dez meses nas barricas de carvalho francês onde fermentou, foi produzido pela Quinta da Romeira, que se situa entre Vila de Rei e Alverca do Ribatejo, aqui.

Quinta que fazia parte do Morgadio de Santa Catherina, instituído em Bucelas por Luís de Vasconcelos e Sousa, terceiro conde de Castelo Melhor, em homenagem a D. Catarina de Bragança, uma alentejana muito bonita que foi rainha consorte de Inglaterra, uma santa de paciência e, dizem, a responsável pela instituição do costume do chá das cinco.

Está um branco com 14% de álcool, forte, fresco e persistente, com muita fruta de caroço — pêssego, alperce — e alguma barrica, ligeira, em todo o caso, a compor o conjunto.

Tão voluptuoso quanto elegante, respira distinção, mas também agrada facilmente. Encontrei-o, em definitivo, na linha dos seus predecessores, e ainda outra vez, um dos brancos incontornáveis de Portugal, se não da Península.

Como qualquer branco que se preze, é para beber à vontade, com ou sem mastigação pretensamente compatível. Mas com queijo Brie . . .

10€.

17

domingo, 31 de julho de 2016

Barão de Figueira '2014 (Branco)

100% Síria de Figueira de Castelo Rodrigo, produzido pela Quinta do Cardo.

Do contra-rótulo: "Reza a lenda que numa das vinhas mais altas de Portugal (...) o Barão de Figueira, tendo ficado preso pelo estribo do seu cavalo, enquanto passeava, fez a promessa de construir uma capela no local onde o cavalo parasse. E assim aconteceu..."

Pesquisando, não consegui confirmar ou desmentir a história.

Ademais, o produtor adianat que em 2014, o Inverno da região foi longo e rigoroso, a Primavera quase inexistente e o Verão, quente e seco, como é habitual. Isto levou a uma vindima precoce, logo no princípio de Setembro.

As uvas foram prensadas inteiras, com engaço, e após a fermentação, que durou 4 semanas, o vinho daí resultante estagiou sobre as borras, com bâtonnage semanal, até ao engarrafamento.

Ora, comparando as notas do produtor na ficha técnica deste vinho com as que constam na do Quinta do Cardo Síria do mesmo ano, aqui, não detectei diferenças. Estarão elas escondidas nas generalidades referidas, terão sido vinhos produzidos da mesma forma, mas a partir de uvas de talhões diferentes, ou outra coisa qualquer?

Adiante. O vinho, servido directamente da garrafa, após um par de horas na porta do frigorífico, trouxe consigo generosa porção de frescura citrina e verde, junto com muitas flores silvestres, rasteiras, a maioria brancas, mas algumas amarelas também.

Curto, mas dotado de razoável presença, a par de algum peso, alguma cremosidade.

Com quase dois anos, está bom, bonzinho, a saber pela vida quando o calor aperta. Mas muito apagado quando comparado com o do próximo post, abatido na mesma tarde.

3€.

15

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Filmes (72)

Przesluchanie (Interrogation)



Tonia é uma artista de cabaret na Polónia estalinista dos anos 50. É presa após uma noite de pândega, sem que ninguém lhe diga porquê. E começa a odisseia . . . Se filme do último post que aqui dediquei ao tema é uma exploração mais teórica, este já poderá constituir um retrato de algo que efectivamente tenha acontecido . . . muitas vezes. Tanto se lutou para que assim deixasse de ser, mas é para lá que caminhamos outra vez. Mudarão as cores, se tivermos sorte.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Joaquín Rebolledo — Godello '2015

Joaquín Rebolledo elabora o seu monocasta Godello, provavelmente o mesmo que a portuguesa Gouveio, a partir dos frutos desengaçados de vinhas com mais de 30 anos, implantadas em ladeiras de solos xistosos e argilosos, orientadas a Sul, nas imediações do município de A Rúa, na margem direita do Sil, aquele que em tempos foi o "rio da areia dourada" e hoje em dia é dos mais maltratados da Península: veja-se isto, por exemplo.

O vinho, fermentado a 16ºC, em depósitos de inox, foi engarrafado após breve estágio em contacto com as películas, sem passagem por barrica.

Servido directamente da garrafa, a primeira impressão que transmitiu manteve-se até à última gota: clarinho e suave, arredondado, sem qualquer sinal de agulha ou aresta, mostrou-se regular q.b. num registo essencialmene floral e limonado, agradável mas nem por isso expressivo.

Melhor quando frio, não aguentou o aumento de temperatura que veio com a permanência no copo — acachapou-se. . . Acompanhou sashimi e suhi ligeiro, todo ele cru.

Para beber jovem, por via das dúvidas.

Definida em 1945, a D.O. Valdeorras está situada a noroeste da província de Ourense. Os seus vinhedos encontram-se a uma altitude média de 500m sobre o nível do mar e o clima é continental, com influências atlânticas.

7€.

15

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Eu vs Comp. (12)