quarta-feira, 30 de maio de 2018

Filmes (87)

Malpertuis






















Belga, de 1971, realizado por Harry Kümel, baseado na novela de Jean Ray com o mesmo nome. Desta vez, não me apetece entrar em pormenores, pelo que ficaremos por a) se não acreditarem neles, os deuses morrem; b) uma vez vi dizer a respeito dele que era como se Fellini tivesse filmado uma fantasia psicótica roteirizada por Philip K. Dick. Está bem.

domingo, 27 de maio de 2018

Quinta da Nave — Colheita Seleccionada '2015

A Quinta da Nave, de Valverde, Fundão, faz vinhos potentes, em estilo directo, frutados, verdadeiramente sumarentos e tendencialmente extraídos e alcoólicos, que depois coloca à venda a preços que me parecem bastante inferiores ao que podiam ser (espero não estar a dar ideias).

E este "Colheita Seleccionada" não foi excepção. Carregado de fruta silvestre, vermelho-escura, azul, roxa e preta, não colhida, a cozer ao sol, transportada por uma acidez que, considerando o maduro que torna sumarento e o quente que refresca, só se pode considerar boa e bem colocada, é dos meus tintos jovens preferidos.

Em suma: é um grande vinho? Não. É para todos os gostos? Não. Para quem gostar ou aceitar bem o estilo, é de lamber os beiços? Sim. Ainda melhor que este, ou pelo menos como me lembro dele: afinal, foi abatido há tanto tempo...

E, pelo menos a mim, parece dado.

O contra-rótulo diz o seguinte: "A Quinta da Nave localiza-se num terroir privilegiado da Cova da Beira, estando na posse da família Almeida Garrett há quatro gerações. Caracteriza-se por apresentar uma exposição a Sul com solos argilosos, derivados de xisto, com presença de seixo. Este vinho foi elaborado a partir das castas Tinta Roriz e Touriga Nacional e estagiou em barricas de carvalho francês durante 6 meses. Consumir preferencialmente entre 16 e 18 ºC."

Quando foi, esqueci-me do que estava a fazer e bebi-o todo em menos de hora e meia, junto com uma pizza destas, inteira. Apesar de tudo, não é habitual.

3€.

16

quinta-feira, 24 de maio de 2018










Poderia não ser preservado neste frasco de éter digital o nosso passeio de 17 Km em busca da cascata seca, que culminou no ápice do monte ao lado daquele que seria o nosso destino? Os meses de atraso não importam.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Granja-Amareleja — Reserva '2013

E de repente vão quase cinco anos sobre a última vez que bebi um vinho destes. Como galopa o tempo! Assim, ainda que de causas naturais, a morte virá num instante.

Dizia eu, em 2013, a propósito do "Reserva" de 2011 linkado supra, que o produtor teria renovado a sua presença na web. Assim aconteceu: agora é inequívoco.

Na web e não só, que os vinhos da Cooperativa de Granja-Amareleja são praticamente omnipresentes nos super e hipermercados. Pelo menos naqueles onde vou. Mas vou a tantos e tão espalhados...

Os vinhos da Cooperativa de Granja-Amareleja são também daqueles que mais vezes vejo em promoção nesses supermercados, e com descontos mais significativos. Vinhos com suposto PVP de 9 ou 10€, vendidos por 3 ou 4€ em consequência de ofertas fantásticas.

Sim, que o fantástico acontece, mesmo no mundo das compras no supermercado. Por vezes, quem revende, ou quem trabalha para quem revende, troca marcas e modelos, ou comete erros de julgamento, nem que seja ao não considerar devidamente aquilo que a concorrência próxima está a pedir pelo mesmo artigo.

Mas, no mundo das compras no supermercado, o fantástico, que acontece, é também esporádico. Raro, mesmo. E certas promoções mirabolantes, se não são de carácter definitivo, andarão lá perto.

Perguntar-me-ão que poderá ter o produtor, e ainda mais este vinho em particular, a ver com isso. Não sei. Não me interessa. Associei ideias e o post foi surgindo ao sabor da pena — não, do teclado, enquanto espero que a carne descongele para ir preparar o almoço.

Mas o conteúdo desta eventual — eventual — fuga ao que deveria, ou poderia, se eu assim quisesse, ser o foco do post, que normalmente não passa de uma nota de prova, não deixa de ser pertinente. Ou verdade.

Quanto ao vinho que serviu de mote para outras coisas, cumpre afirmar, antes de tudo o mais, que gostei dele. Ainda não bebi um destes "Reserva" que achasse mau, ou até assim-assim. Gosto sempre. E é normal que goste sempre, que tanto o perfil como a qualidade global do produto me pareceram, também sempre, bastante consistentes, pese a esporadicidade com que os bebo.

Temos então um vinho tipicamente alentejano, maduro mas não quente nem chocho, com fruta preta, alguma transformação — tem 5 anos —, algum vegetal seco, um toque de cabedal, especiarias e, sobretudo quando a temperatura a que é bebido sobe, tabaco e café.

Bonito e bem proporcionado, mais comprido que amplo e saboroso dentro daquilo que poderia oferecer, está muito macio, mas ainda dotado de estrutura, ainda possuidor de espinha dorsal. Não brilha, de facto, mas também não defrauda as expectativas, que no caso dele nunca são baixas.

É um tinto que retém certa flama, flama no sentido de estar vivo, não no de arder, e que, numa idade "madura", ainda se come, ou melhor, bebe bem.

10€.

16

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Dom Rafel '2011

Muitos anos depois do último aqui abordado, uma actualização mega extemporânea àquele que inicialmente foi ideado com segundo vinho da Herdade do Mouchão, mas agora é apenas um entrada de gama, dado terem entretanto surgido referências de calibre superior.

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As castas são típicas do Alentejo: Aragonês, Trincadeira e, presente em maior quantidade que as demais, Alicante Bouschet. As uvas fizeram a fermentação alcoólica em lagar, após pisa a pé, para não esmagar as sementes, e o vinho fez a maloláctica e estagiou em grandes tonéis de carvalho português, de 5000 litros, e em barricas de carvalho francês, durante, "pelo menos", diz o produtor, um ano.

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Cor granada, escura. Traz consigo cerejas e frutos do bosque, framboesas, amoras, groselhas, todas a cair de maduras, meio cozidas pelo sol, mas sem por um momento sonegar a frescura. E mato seco, tabaco, café. . . Tem especiarias, mas não é um almofariz. Tem madeira, mas não cheira nem sabe a pau, ou côco, e mesmo a baunilha só muito timidamente dá um ar de sua graça.

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Poderá não passar da medianidade, ainda que uma medianidade avantajada, vá, em termos de longueur e volume. Poderá não ser super concentrado: só o bastante. E está completamente macio, sedoso mesmo, mas não dá qualquer sinal de estar prestes a cair. Pelo contrário: diria que ainda tem muito pela frente e que, bem guardado, poderá vir a resultar, daqui a muitos anos, numa curiosidade engraçada para os apreciadores de vinhos velhos. Enfim! É sóbrio, é fino, é sólido. É elegante. É um vinho de entrada que prova que os vinhos de entrada não são todos iguais — e os produtores também não.

8€.

16,5

terça-feira, 15 de maio de 2018

FOR THE SAKE OF A SINGLE POEM

... Ah, poems amount to so little when you write them too early in your life. You ought to wait and gather sense and sweetness for a whole lifetime, and a long one if possible, and then, at the very end, you might perhaps be able to write ten good lines. For poems are not, as people think, simply emotions (one has emotions early enough) — they are experiences. For the sake of a single poem, you must see many cities, many people and Things, you must understand animals, must feel how birds fly, and know the gesture which small flowers make when they open in the morning. You must be able to think back to streets in unknown neighborhoods, to unexpected encounters, and to partings you had long seen coming; to days of childhood whose mystery is still unexplained, to parents whom you had to hurt when they brought in a joy and you didn’t pick it up (it was a joy meant for somebody else —); to childhood illnesses that began so strangely with so many profound and difficult transformations, to days in quiet, restrained rooms and to mornings by the sea, to the sea itself, to seas, to nights of travel that rushed along high overhead and went flying with all the stars, — and it is still not enough to be able to think of all that. You must have memories of many nights of love, each one different from all the others, memories of women screaming in labor, and of light, pale, sleeping girls who have just given birth and are closing again. But you must also have been beside the dying, must have sat beside the dead in the room with the open window and the scattered noises. And it is not yet enough to have memories. You must be able to forget them when they are many, and you must have the immense patience to wait until they return. For the memories themselves are not important. Only when they have changed into our very blood, into glance and gesture, and are nameless, no longer to be distinguished from ourselves — only then can it happen that in some very rare hour the first word of a poem arises in their midst and goes forth from them.
Rainer Maria Rilke

sábado, 12 de maio de 2018

Blanche de Namur

Blanche de Namur, que viveu entre 1320 e 1363, foi rainha consorte da Suécia e Noruega por casamento com Magnus IV. Filha mais velha do marquês Jean I de Namur e de Marie d'Artois, ficou na história como uma rainha a valer: política e socialmente activa, gira e esperta.

É também o nome de uma Witbier — cerveja branca, feita com trigo e aromatizada com casca de laranja e sementes de coentro, entre outras especiarias — belga, produzida pela Brasserie du Bocq, empresa familiar que labora em em Purnode, perto de Yvoir, desde 1858.

Para além do habitual e, até certo ponto, expectável — cereal e levedura, fruta e amargor —, mostrou certo "punch" cítrico interessante: mais distinto que o presente numa Hoegaarden, mas menos que o de uma Hoegaarden servida com rodela de limão.

Outro aspecto que me agradou (que cervejas é que, aqui, têm direito a post?) foi evidenciar, com uma clareza de que não estava à espera, as especiarias com que foi feita. E tudo isto sem magoar o equilíbrio, de tal forma que, agora mesmo, ao escrever sobre ela, noto querer referir o "qualificativo dos piços", digo, a palavra "suave", que talvez aqui não caísse como uma vagueza desnecessária. Também por só ter 4,5% de álcool, mas, definitivamente, não só.

Apesar de relativamente leve de corpo, a sua espuma cremosa e boa carbonatação tornam-na capaz de acompanhar mais que apenas futebol na TV. No meu caso, foi com sushi, e não considero que me possa queixar, muito pelo contrário. Melhor enquanto bem fria, entre 2 e 4 ºC.

Custou 3,99€/33cl no ECI.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Odelouca '2013

Situada não muito longe de Silves, no Sítio da Dobra, junto à ribeira de Odelouca e à povoação com o mesmo nome, a Quinta do Francês inclui 8 hectares de vinha, plantada em 2002 e que assenta sobre vários tipos de solo, da argila/calcário ao xisto. O clima, Mediterrâneo continental, com propensão a dias quentes e noites comparativamente frias, é influenciado pela brisa marítima do Atlântico, cuja acção "refrescante" ajuda a evitar sobrematurações.

Este Odelouca é uma espécie de "segundo vinho" da casa, nascido a partir de Cabernet Sauvignon, Trincadeira, Syrah e Aragonês. De acordo com a informação disponibilizada pelo produtor, a vinificação deste 2013 incluiu 18 dias de maceração e 8 de fermentação, em inox, a 30 ºC. O estágio prévio ao engarrafamento foi em barricas de carvalho francês, "9 a 12 meses".

Bastante intenso e envolvente, mostrou ameixa preta e muitas especiarias, com uma incidência incomum, mas interessante, em aromas que remetiam a azeitona, parda e de Kalamata — talvez do Syrah, e longe de defeito, feitio e feitio vincado. A boca surgiu como continuação natural do nariz, embora sem qualquer sabor que remetesse à já mencionada azeitona. Especiarias, sim, muitas, perfeitamente integradas num quadro delineado em torno daquela maturidade peculiar que, nos vinhos capazes de durar alguns anos, antecede a velhice: com ligeira calidez e muita harmonia.

Quando o bebi, terminei o que tinha apontado sobre ele com a nota "um pequeno grande vinho". Porque não?

8€.

16,5

domingo, 6 de maio de 2018

O Open Internacional Queima das Fitas '2018 decorreu em Coimbra, entre 27/4 e 1/5/2018. Impecavelmente organizado pela SXAAC, foi jogado, como já se tornou habitual, no Hotel D. Luís.

Depois do resultado manhosito do ano passado, voltei lá, mas num registo menos escaquístico e mais de passeio. Pedi dois "byes", dos bons — são aqueles que valem o mesmo que um empate, sem ter de jogar — para a segunda e quarta rondas, o que me permitiu ter um já muito ansiado "fix" de clássicas, sem exagerar: uma partida por dia, ao anoitecer, sabe bem e não farta.

Este ano não há crónica detalhada das cinco rondas que joguei. Esta merda é basicamente para mim e não me apetece. Não obstante, no espírito do marreta que publica a sua caderneta pessoal de cromos de beber, para que o pontual visitante possa apreciar a fixeza da minha vida, e também para que eu me possa lembrar quando, daqui a uns tempos, tiver apagado as fotos e as partidas, ou espetado com elas num DVD entretanto perdido algures, aí ficam uns pós.











Base em Quiaios. Onde mais? A praia, deserta, com uma luz espectacular. Não existiu no jogo da primeira ronda nada passível de comentário e não joguei na segunda. Estando seguro de que não ia escrever sobre ela, não sabia, no entanto, o que ligar aqui a respeito da questão dos "byes". Então perguntei ao Google e acabei colado a esta discussão, o que a tornou boa o suficiente para ocupar o lugar.

Perdi o terceiro jogo, talvez o mais engraçado de todos os que fiz:



E voltei a não jogar na quarta sessão. A Bogueira lá estava, com chuva e árvores caídas. A quinta jornada foi no Domingo, 29/4. Fiz um jogo mau pra xuxu, que, de alguma forma, consegui ganhar.









Antes da penúltima sessão, leitão assado numa feira medieval — A S mexeu na cabra e na ovelha — e os montes! Inevitavelmente, como tinha mesmo, mesmo de ser! um pouco de Vale de Canas. Deixei lá um bocado da alma. Um bocado grande. O jogo, sem ser nada de especial, escapou.



A última ronda foi às 3 da tarde do dia 1/5. Uma última barrigada de sushi, no shopping. Com chá verde, doce, iec. O meu adversário, Manuel Pedro, secretário-geral da FIDE para Angola. "Não me ganhas!" Mas a dada altura, com uns etéreos por peão, pensei que me ganhava mesmo!









Acabou por não correr mal, empatámos. Afinal, aquele peão também não era assim tão perigoso. No fim, fiquei em 31º lugar, entre 119 participantes, com 4,5 pontos em 7 (ou 3,5 em 5, que foram os jogos que fiz: uma derrota, um empate e três vitórias). Meh. A ver se para o ano há mais.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Palácio da Brejoeira '2014

O Palácio da Brejoeira localiza-se na freguesia de Pinheiros, 6 Km a sul de Monção.

Terminado em 1834, foi erigido por Luís Pereira Velho de Moscoso, fidalgo da casa Real, Comendador da Ordem de Cristo, e herdeiro do Morgado da Brejoeira, morgadio instituído por tradição, em 1500.

Trocou de mãos várias vezes, tendo tido momentos de prosperidade e de abandono. E consta lá se ter sempre produzido vinho, mas apenas para consumo da casa,  até 1977, ano em que é lançado no mercado o primeiro Alvarinho "Palácio da Brejoeira".

A propriedade que envolve o palácio, com 30 hectares de superfície, inclui bosques, jardins e 18 ha de vinha, plantada em solo argilo-calcário, de onde sai a matéria-prima deste branco.

Em traços gerais, a sua vinificação consistiu/consiste numa fermentação lenta, a baixa temperatura, seguida de estágio sobre as borras finas. Nas suas diversas edições, tem vindo a ser engarrafado sem passar por madeira.

Servido a 12ºC, como recomendado, surgiu fresco e portador de alguma estrutura. De toque untoso na boca e boa persistência, mostrou razoável complexidade, dividida entre o citrino e o tropical, mostrando mais do segundo que do primeiro.

Ainda amanteigados, ligeira baunilha e curiosas sugestões de giz. O tempo em garrafa trouxe-lhe outra maturidade, mas ainda não decadência. Muito interessante.

Foi aberta a garrafa nº 44054.

17€.

17