quinta-feira, 1 de maio de 2008

Velharias (1)

Velharias: coisas bonitas (ou não) de outro tempo e lugar, quando o estilo era outro e os interesses, talvez, também. Como se de antiquíssimos artefactos se tratassem, desenterrados de blogues antigos, abandonados. Recupero-as porque são coisas minhas que já não faço. Como se precisasse de me salientar certas diferenças para me encontrar.

Esta é a primeira que reciclo. Ou talvez só lhe tenha limpo um pouco o pó antes de a recolocar numa montra. Para os corajosos, um brinde à iniquidade! Aí vai:




5.


Conjunto de variações sobre um tema. Uma página de diário que também é um presente. Para a pessoa mais especial do mundo,

Fim de tarde à varanda. Aquele céu aquela luz, o teu sorriso que nem um milhão de anos há-de apagar.

S — Nós somos como esses brilhantes (aponta para o parapeito da varanda) que caem da droga. É uma conclusão triste, ou talvez seja triste apenas pensar nisto, mas as coisas são mesmo assim. O parapeito é a vida. Nós caímos na vida e apagamo-nos.

J — Será? Uma vez, disseram-me que o objectivo da vida era continuarmos vivos. Vivemos, não porque sim, mas para continuarmos vivos. A vida é em cada um de nós e no todo, tanto para nós como para o todo... Não somos elementos largados ao acaso num ambiente...

Vivemos para a morte.


J — A unidade, também. Acho eu. Lembro-me de que, quando andava no meu segundo psiquiatra, na consulta em que falámos disto, foi logo na primeira, me esforcei por deixar bem claro que achava que viver para a vida não diferia de viver porque sim. Ele concordou.

Devia estar distraído.


J — Talvez. Ele gostava muito de brincar com o cachimbo. Às vezes perdia-se. Pelo menos, quando falava comigo...


Esse alheamento parece-me saudável.


J — (Rio-me, rodo a unidade à S.) O melhor dos homens pode ser o pior dos cidadãos, já dizia Platão... Ou isso. Morrer para o mundo e assim chegar à verdadeira vida. Será que ele o conseguia durante as consultas?

S — Acontece connosco e somos felizes.

S — Tu julgavas que a forma mais correcta de escrever connosco era só com um "n".

J — Verdade, bebé. E verdade, vida! Não somos porcos. Estou a bem com a minha consciência.

Silêncio...

S devolve-me a unidade — Porcos são os homens maus. Os virtuosos sem princípios.


O Satã de Milton, o Zaratustra de Nietzsche... Mas Nietzsche não tinha consciência disso. Mas, enfim, são esses que fazem coisas acontecer, para bem, ou, como falávamos, para mal.


J — Ou então, não. Os parolos não têm alma, ao contrário dos homens maus. Esses possuem sempre uma certa nobreza de espírito, não importa quão anormais possam ser, e, embora nos pareça tão confortável que nos sintamos constantemente tentados a isso, poderemos julgá-los? Hum, que moca. Que tagarela, que chato fico quando isto me dá...

S — Bebé, não fumes mais. (A unidade volta para S.)

Então a Sara põe-se a discutir o estilo do LU, apaixonado e triste por amor, ou pior ainda, diz ela, pelo vazio do não-amor — e aqui transparece uma singela verdade que nem sempre quero ver: o LU é sincero, aquilo que escreve é mesmo a sua verdade — embora eu diga à Sara que não, pode ser que ele já tenha passado essa fase e consiga, afinal, dramatizar sem sentir — que é outra faceta da fina arte de inventar. Escrever o que se sente, escrever o que não se sente: descrever o que acontece, inventar o que não acontece, rever o que aconteceu, imaginar caminhos possíveis e nunca tomados. Redescobrir o que aconteceu sem saber ao certo se aconteceu ou não... Fazer coisas acontecer, eventualmente. Tudo se pode resumir a uma questão de técnica, de jeito, e de um bocadinho pequenino de filha da putice.

E ela continua a dizer que não, que se nota quando o dito é sentido, pelo que me disponho a tentar.


Reverso "Night & Day", Diálogo de Opostos Deslizantes e Mudanças de Fase:


Imaginemos, pois, que um belo meio de tarde desperto lúcido, regressado de uma estranha estrada que sobe uma colina rente ao mar, assombrada por um não mais acabar de vagas e nuvens negras e chuva. Paralela às fachadas a pique de prédios enormes cujas traseiras dão para o Paraíso e que parecem pirâmides aztecas com escadas e corredores ajardinados em todos os degraus, e a cada degrau corresponde um andar, e aí há sol, tão perto da tempestade. O tempo é de guerra e caem coisas estranhas do céu, dos aviões militares que largam pedaços de motores J-85 e anéis moderadores de neutrões que parecem chupa-chupas gigantescos e muito leves, desenhados por algum génio louco com uma fixação pela Hello Kitty. Acordo com a impressão de já ter estado naquele lugar — acordo assim tantas vezes, e um sonho é apenas um sonho, não preciso de inventar premonições. Basta-me sentir, para lá do susto de um mau acordar, o nada. A doçura do nada, mas um nada fértil, uma névoa que ganha forma à medida que vou ficando mais e mais desperto, o retorno à vida, depois a consciência, "bebé", dizes..., e assim regresso ao mundo, com um sorriso, entre beijinhos e um abraço teu.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto... Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras - acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo — porque podemos. Antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já, mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto. Contudo, sei também que só posso morrer, morrer já, mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Nada está objectivamente mal, mas podia sentir-me melhor. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. E se me iludir? E se, por dentro, já estivermos mortos? Pergunta-me novamente o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras — acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Porventura teremos pensado que sim. E se nos enganámos? Para que lado nos enganámos? Estaremos mesmo enganados? Afinal, que sinto? Afinal, que sentes tu, meu amor? Dúvidas... tão profundamente humanas. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a premissa maior do nós. Juntos, sempre. Faz calor: destapo-me. Apenas o brilho do televisor ilumina o quarto.

Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar, duro, negro, pesado. Hoje sei que só posso morrer, morrer já,mas não consigo sentir o mais leve incómodo porque está tudo bem. Desperto lúcido. Abraçado a ela, mas lúcido despertar. Uma leveza imensa, doce perfume, sinal da nossa aliança. Hoje, tudo está bem. Somos para sempre, livres de qualquer dúvida, dois e um só. E amo-te tanto... E já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, o negro não se trata de um sonho nem das reminiscências de algum sonho, e ela sabe que algo se passa, sente-me diferente, mas não sabe o quê porque, em concreto, não se passa nada de errado, nem isto. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois, consciência da minha própria mortalidade e digo-lhe outra vez que não é nada, bebé. Enfim, já estamos os dois bem acordados. Sei que, hoje, tudo vale a pena e a vida é bela, não importa quão amargos certos momentos, necessários, o sal dos dias. Hoje, os sonhos maus são letra morta. Paira qualquer coisa no ar. Pergunta-me o que tenho e primeiro chamo-lhe nada, depois sorrio: não há palavras — acordámos num jardim de Outono. "Bebé?", chamo. A resposta não se faz tardar (Muah). Não posso sentir-me feliz. Faz-me esquecer de quem sou. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Iludo-me. Porque nós estamos mortos. Já estávamos mortos quando nos conhecemos. Não vale a pena pensar que alguma vez podia ter sido diferente. Porventura teremos pensado que sim. Mas sempre que um de nós tentou viver por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver o mal que estamos e que é cada um de nós. Não te culpo mais do que a mim mesmo. Não culpo o destino nem o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar. Culpo a estupidez dos outros e, mais do que tudo, as nossas próprias naturezas. Já só podemos morrer para os outros. Talvez algum deles venha a sentir-se revoltado por nós e a chorar-nos, talvez durante as primeiras duas ou três semanas. Essa mesma pessoa que, daqui a um ano ou dois, já só nos recordará muito de vez em quando. Nos aniversários, no Natal, nos espaços de melancolia em que a sua vida lhe parecer tomar os contornos de onde a nossa acabou. Depois, um dia, nem isso. Custa pensar em pormo-nos fim, quanto mais desenhá-lo e cumpri-lo. Mas, mesmo assim, devemos fazê-lo juntos. Sempre foi essa a permissa maior do nós. No princípio, era só isso que queria... Não podia sentir-me melhor. Acabei de acordar e o quarto escuro parece iluminado por uma luz mágica. Penso que posso pensar nós — a nossa vida — como um belo não mais acabar. Viver contigo, um sonho de que não se acorda, uma sucessão de momentos bons sem fim à vista. Olho para trás e tudo me diz que sim. Porque nos temos. Apaixonados, sempre, desde o princípio. Na verdade, a dada altura, tudo levava a crer que isto viria a ser bem diferente. Talvez um fiasco, ambos tínhamos medo. Mas não. Sempre que um de nós se sentiu morrer por dentro um bocadinho mais, logo surgiu algo que nos fizesse acordar, ver que podíamos contar um com o outro, uma espécie de simbiose perfeita. Talvez tenhamos tido sorte. Não me sinto livre de culpa: quase consegui fazer com que acabasse mal... mais que um par de vezes. Mas o nosso amor está destinado a prevalecer, mau grado o que desejarem o destino ou o acaso: não interessa se tivemos ou temos azar, ganharemos sempre. Que venham os outros, obsidientes antigos. Que venham as nossas birras, os nossos maus sentimentos... Também as almas deitam fora lixo, às vezes. Faz parte de se ser humano, e ainda bem que o somos. Mas não há antídoto como o amor. E que interessam os outros, que poderão vir a interessar, se nos temos sempre? Sirvamos de exemplo — porque podemos. E antes de te conhecer, nunca imaginei... Não é pecado pensar que, talvez um dia, tenhamos de nos pôr um fim. Mas, aí, só a morte. Não posso viver sem ti, eis a permissa maior do nós. Vamos ficar juntos para sempre.

Frases sobrepostas. Coisas que pensamos, dizemos, fazemos. Colamo-las de maneiras diferentes, pintamos quadros diferentes. Momentos diferentes. Já nos sentimos assim. Já nos sentimos de muitas outras formas. Não passa de um esboço planeado em jeito de exercício por um menino inseguro acerca do tributo a prestar a quem mais ama. Podia (poderia?) ter escrito melhor. Podia não ter corrido o risco de te magoar, bebé. Mas preferi assim. Por sabê-las limitadas, quis estas linhas especiais. Quis escrever algo vivo. Como? Assim. Num esboço auto-referente, capaz de se descobrir. Como? Combinando de formas diferentes uma mão cheia de expressões do que somos ou fomos em dados momentos. Estas linhas somos nós. Estas linhas que podemos misturar tanto quanto quisermos. O número de combinações é imenso. Imenso o número de quadros por pintar — aquilo que até agora leram não passa de uns quantos exemplos. Este texto podia nunca mais acabar. Como nós. Como nós, saudavelmente bipolares. Inegável que existe algo de patológico nestas linhas. Dia e noite, uma infinidade de reversos. Um modesto ricercare inflamado, ora pelo amor, ora pela cólera, ora pelo desânimo, ora pela mais transluzente esperança. No fim, constato mais uma vez o evidente. Somos uns malucos, mas uns malucos fixes. Poderia haver melhor?

Por vezes ocorrem-me coisas estúpidas que, no momento, parecem demasiado verdadeiras. Lembro-me dos dias que passava só e de copo cheio no meu lobby favorito: debicar as batatas fritas e deixar metade da tosta, ler o FT de uma ponta à outra, entretanto beber dois ou três capuccinos e sentir-me mal e salvar-me. Mas essas são lides a que já não posso, não quero regressar. Matei os meus maus amigos, desamores deslavados — enterrei as frustrações, renasci contigo. E o mau gosto de outros frustrados matou o meu lobby bar de estimação. Fui lá pela última vez há alguns meses, no Verão passado. A sala permanecia intacta, mas os homens de negócios e os de aspecto literato tinham sido substituídos por turistas sexagenários vestidos de florões em cores berrantes, túnicas, camisas jamaicanas, sandálias. O Pedro das visitas guiadas e freepasses inventados para os lugares da noite já lá não trabalhava há muito. O barman, um velho detestável, de fraque e rabo-de-cavalo grisalho à Pacheco Pereira "século XXI e meio"... Foi nesse último dia que descobri que a cidade já não tinha mais nada para me oferecer. Visitei os sítios da praxe mais uma vez, um por um, como se procurasse alguém. Não encontrei a diversão pretendida, mas compreendi o que se passava. Não conseguia ter paz. Era a minha culpa. E a falta. A minha velha vida, omnipresente falta. Falta de amor verdadeiro, de quem aceitasse os meus defeitos e me desse a provar os seus sem querer esconder. Falta de um objectivo para a vida, o eterno regresso ao nada. Dantes, não importava muito se só ou acompanhado — tudo era solidão, tudo era Eu. Um pobre Eu transbordante de orgulho — e tão só — que tu salvaste! Assim enterrei parte de mim, a pior de todas elas. Estava podre, estagnado, não havia amanhã. Enquanto fui louco, ou me quis parecê-lo, nunca pensei que pudesse haver vida nova num outro dia. Ainda bem. Cresci desapaixonado, lúcido. Horrendamente lúcido. Tinha de tornar-me humano, enterrar essa lucidez podre para aspirar a uma vida nova. E com ela, tantos outros lugares.

Frases curtas: ideias breves e poderosas, sentidas como facadas: a tensão da verdade dolorosa que só aos poucos vai conseguindo sair. Frases longas, orações encaixadas entre vírgulas e space dashes... a paz de espírito sempre provoca certa languidez a quem conta... e tudo está OK, mas fica sempre algo em suspenso... há mais por debaixo do véu. O silêncio. Espaços em branco. Algo vazio, mas tanto nos diz... há qualquer coisa que morre em cada ponto final. Do ânimo, quanto melhor, mais fluido o discurso. Nova vitória de Eros, yee!... E daí por diante... Sorrio-te, bebé — digo. Bebé lerá estas linhas e acabará também por sorrir. Afinal, que é isto, este texto, eu a escrevê-lo? Será arte? Isso apenas depende das emoções. E aposto que serão fortes. Evocações que ajudam a instalar a dúvida. Ora tudo parece bem, ora mal. Mas a vida é mesmo assim. Para poder ser sincero, tenho de me ver ao espelho. Não posso desculpar-me perante a minha própria pessoa para que a imagem transmitida não seja uma verdade que implora. A verdade não deve nada a ninguém senão a si mesma e estas linhas querem-se verdadeiras. E quem disse que a auto-referência tinha de ser um labirinto circular? Se só nós vamos duvidar de certas coisas e sentirmo-nos mal com isso por via desta mensagem, também o prazer de termos superado esse "mal" (em todo o caso, antigo e já conhecido), de o vermos como assunto encerrado, como algo para aqui chamado, ao fim e ao cabo, para divertir, bem como o cocktail de substâncias que segregaremos quando estivermos ora a atrofiar, ora a desatrofiar, e que nos farão sentir estranhos... Serão prazeres apenas nossos. As endorfinas não são nada de desprezar. E eu segreguei umas quantas à medida que ia escrevendo isto. Atrofiei. Acho que estou "velho" para fazer de mim cobaia mais uma vez, para experimentar de novo em mim próprio a ténue linha entre o génio e a loucura. Se me sinto inseguro? Comparado com como era dantes, sim. Porquê? Porque agora tenho algo a perder, e não quero. Mas isso não significa, precisamente, que, entretanto, ganhei algo? Pois claro que sim. Ora... E é só por causa disto que é porreiro escrever apenas para mim e para os meus, ou, melhor dizendo, para a minha one and only. Deixei de ter queridos leitores. Para eles, vós, a história acabou. Ou talvez acabe aqui, caso a minha doce menina aceda a que se publique tamanha colecção de incertezas para quem se quiser dar ao trabalho de pensar em mim e nela. Mas não o façam, não precisamos. Pensem antes em vós: um acto de coragem. Não vos devo nada. Vocês jamais nos ajudariam se precisássemos. Porque hei-de entreter-vos mais, então? Bebam estas palavras... Daqui, eu aceno a uns, levanto o punho a outros, mas estou-me borrifando para todos.. Pois bem, hoje faz anos que nasceu aquela que me livrou de um pesadelo que aparentava não mais terminar. Não pensem que "temos" sido um mar de rosas. Às vezes sofremos. No princípio, amávamo-nos, mas tive de apostar a minha vida contra a tua timidez, meu amor. Correu bem, juntámo-nos. E nunca mais nos largámos, nunca mais sobrou uma aberta para algo que não o irresistível, infindável, incondicional amor que tenho por ti. E é doce, tão doce, saber que posso esperar o mesmo de ti, sempre. * No dia da vida, falo da morte. Até de nós, mortos. Que pretenderei? A explicação mais simples costuma, também, ser a verdadeira. Ou, enunciando, one should not increase, beyond what is necessary, the number of entities required to explain anything. William of Occam. E agora? A chave está nas coisas simples... o filme não se deve deixar crescer para além do estritamente necessário à sua existência. Na maioria das vezes... Ora. As dúvidas fazem sofrer. E este texto tresanda a dúvida, mas, afinal, onde está ela? Nas nossas cabeças? Na verdade, é simples. Somos pessoas simples, queremo-nos assim. E no dia em que, para celebrar a vida, desenterrei tanta morte, termino com um sorriso nos lábios. Porque, como alguém disse há muito tempo, os mortos não mandam; quem manda é a vida, e depois da vida o amor.

Para a Sara, que para sempre possamos sonhar juntos.

Maio de 2005




Ao ler isto novamente senti-me como aqueles adolescentes que levam a namorada lá a casa pela primeira vez e vai daí acabam no sofá com a mãe a mostrar à menina a quem mais querem parecer galifões mauzões os álbuns de fotografias de quando eram pequeninos: bebés roliços, birras, sovas, joelhos rasgados, aparelhos nos dentes, mijadas... Só que em vez de protestar "Oh mãe!" e tentar afastar-me do perigo, republiquei.