quinta-feira, 10 de julho de 2008

Velharias (4)

A este chamei Escatologia Poética do Atrofio (1). Não me perguntem porquê. Começa com uma citação que sempre levei com um grão de sal. Não imaginam quantas vezes ouvi papaguear que "não somos uma ilha", "nenhum de nós é uma ilha", "sozinhos vêem-se os animais da selva, e só alguns!" e afins, ao longo da minha infância. Só deixei de conviver quase diariamente com tal cliché quando abandonei a catequese e troquei as aulas de Religião e Moral Religiosa Católica pelas de Desenvolvimento Pessoal e Social — que, como não tinham nem enquanto lá, na escolinha, andei, tiveram professor designado, eram na verdade mais uma hora livre por semana — e só deixei, de todo, de o ouvir quando os meus pais desistiram de mim... :)

Mas está sentido, está. Será que ainda existe um grande coração dentro de mim? E será que ainda palpita forte por amor e encanto? E latir, latirá?

Aí fica:


**


No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent. — John Donne (1572-1631)



Eu hoje acordei assim, a recordar
Aparência viva
O sim pelo sim.

Hoje a Lua desceu à Terra, as árvores fugiram
As sombras pintaram-se de rosa e morri mais um pouco.

Os céus ruíram
Fechei os olhos, neguei.

Cada vez mais distante de mim
Quem sou? Um simples "que"
Qualquer coisa
O que quiserem
Ou nada
O nada que quiserem.

Sou o que sou quando sou o que querem
E quando não consigo, afastam-se:
Não sou.

Excepto quando durmo. Ainda habito este mundo, mas tudo está bem.
Basta despertar para tudo ser

Passado.

Significante sem sentido,

Só o passado
Morto
Data as medidas anteriores.

Morre o passado, perdem-se os afectos.

Quando o indispensável presente só pode ser sentido sem laços
A vida perde-se
Esvai-se também a verdade
À luz,
O tom dos laços antigos.