sábado, 27 de dezembro de 2008

Velharias (7)

Esta foi de uma altura em que os interesses eram, definitivamente, outros. Foi, como se pode ver, uma tentativa de montar uma sextina com sentido & significado, auto-biográfica e ainda assim capaz de respeitar a forma. Como a estrutura é exigente e ainda mais o sentimento, por mais cheio que estivesse o meu coração nas noites em que a fui fazendo à luz dos clarões da televisão :P — ficou-se por uma pseudo-sextina.

Porém, já que me apostei (re)publicar aqui todas as "velharias" que conseguir desenterrar, aí fica a título de curiosidade:





Pseudo-Sextina


Menino farto de viver
Abandonava-me à morte, que temia
Doente de só: triste, vazio
Ou porque assombrado, dia após dia
Pela mesma lucidez doentia
Que tudo era um; um para nada.

Tudo passámos, não ficou nada:
Também ela cansada de viver;
A mesma falta de esperança doentia
A mesma revolta que nada temia
Ora por nada, ora esperando o dia
De a mais aspirar, espantar o vazio.

Foi duro no princípio: ou tu ou o vazio;
Fugias, fugias de mim e do nada
E tudo me escapava, até que um dia
Serias tu ou deixar de viver:
Como quem pelo que amava temia,
Sucumbiste à partida doentia.

Que ignorantes a digam doentia:
Ela que sai do monstro que é o vazio
E da dor: algum de nós a temia?
P'ra no fim, do medo não restar nada
Somente querer ainda viver
Que o céu não caiu; nasceu o dia.

Dois são um, ainda que a noite e o dia
Pena ainda a celeuma doentia:
Não posso evitar: és o meu viver!
O meu mundo depois do vazio
E ciúme é medo do Inferno e do nada,
Que quando não podia perder, não temia.

E um dia deixaremos quem temia
Partirmos antes do derradeiro dia:
Só no mundo não, antes o nada
Da morte... Ideia quiçá doentia,
Mas cheia, como de amor meu ser vazio
Que agora canta a alegria de te ter,

...meu amor! Pois mau viver teve aquele que temia
E quem teme, e por temor de coração vazio passa noite e dia
É criatura doentia que não merece nada.

14/2/2006

Iec :(