sábado, 28 de março de 2009

Velharias (9)

De 9 de Setembro de 2005.






Há dias fomos dar uma volta para os lados de Almeida.






Podia deter-me para falar um pouco de tão interessante lugar, de uma ou outra das suas histórias, do seu ambiente, até da agradável pousadinha, tão acolhedora. Podia falar do vento tão forte lá no alto ou das primeiras chuvas depois do Verão; de uma estrada que serpenteia por entre árvores e pedras, muros de quinta, vegetação calcinada... Cortelhos que não se vêem da estrada, percebe-se mais ou menos onde ficam por causa dos carros que, aqui e ali, surgem parados na berma, naquele lugar ermo, em fim de tarde chuvoso. "Estes carros... parezinhos da queca?" E ela responde-me que não, que são pessoas que vêm recolher o gado, e continua: "Aqui, o lugar do comilanço é a zona industrial. Não estou a gozar, bebé".




De uma cortada de terra batida que dá para o Côa. Um cafézito de hippies, fechado, grades de cerveja e garrafas de gás amontoadas no exterior, os boches velhos e porcos e o resto da trupe estarão a charrar-se em alguma das casitas de pedra que se avistam do outro lado do rio...

De uma caravana (só para evitar utilizar roulotte) psicadélica, de pedras e cada vez mais chuva, da ponte da estrada antiga e, no fim, do imponente viaduto da auto-estrada a cortar o horizonte.




Podia, mas não o farei. Há três ou quatro dias que as manhãs acordam cinzentas. Embora não tenha voltado a chover, sinto-me triste outra vez. E penso que, se estivesse sozinho, passaria o dia de hoje a drogar-me sem pensar sequer em comer, persianas corridas até ao fundo, bule de chá preto e talvez um livro sobre a secretária.

O amargor adocicado que me cresce na boca que, aliás, me atravessa de uma ponta à outra quando recordo tantos outros dias que podiam ter sido hoje, se não fosse a S, a mãe dela, até as cadelas e a gata...

Assim aguento-me. Mas constato, sem sombra de dúvida, que não estou curado. Poderei mitigá-la, mantendo-me distraído, mas esta
malaise é um prego da minha cruz. Vai ficar comigo até ao fim.





Os animais morreram quase todos...