sábado, 12 de julho de 2008

Le Dormeur du Val

Uma coisa bonita, daquelas que devíamos admirar melhor, com calma, nestes tempos de violência (e quais não o foram?)



Le Dormeur du Val



C’est un trou de verdure, où chante une rivière
accrochant follemente aux herbes des haillons
d’argent, où le soleil, de la montangne fière,
luit. C’est un petit val qui mousse de rayons.

Um soldat jeune, bouche ouverte, tête nue
et la muque baignant dans, le frais cresson bleu,
dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
sourirait un enfant malade, il fait un somme.
Nature, berce-le chaudement: il a froid!

Les parfums ne fond pas frissonner sa narine;
il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
tranquille. Il a deux trous rouges au côtê droit.


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Adormecido no Vale


É uma clareira verde, onde canta um riacho
prendendo alegremente às ervas seus farrapos
prateados; onde o sol da orgulhosa montanha
brilha. É um valezinho a espumar claridades.

Um jovem soldado, a boca aberta e a cabeça
descoberta a molhar-se na erva fresca, azul,
dorme; está estirado ao chão, a céu aberto,
pálido, no seu leito verde, à luz que chora.

Os pés nos lírios roxos, dorme. E sorri como
Sorriria uma criança enferma, em sono leve.
Natureza – aconchega-o bem: ele tem frio!

Os perfumes não mais lhe excitam as narinas;
dorme ao sol; tem a mão abandonada ao peito.
Dois rubros orifícios sangram-lhe à direita.


Original de Rimbaud, tradução de José Guilherme de Araújo Jorge.