quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Quinta das Tecedeiras — Touriga Nacional '2003

Quando abri esta garrafa, as expectativas eram elevadas. Sempre gostei muito dos vinhos da Quinta das Tecedeiras. Sempre gostei muito de varietais Touriga Nacional. Então, como poderia um Touriga Nacional das Tecedeiras deixar-me mal?




Não poderia nem desiludiu. Nem pouco mais ou menos.

Muito escuro no copo, com grande orla violeta, deixando adivinhar grande concentração. De aromas, começa fechado, duro e austero — alcatrão — que se desdobra em grandes aromas químicos, sugerindo uma panóplia de solventes aromáticos, traduzíveis em cheiros que vão da velha cola multiusos transparente ao verniz com que se cobrem as pinturas a óleo — que vão, por sua vez, abrindo em aromas mais frescos e naturais, de clara índole balsâmica e floral: resinas de pinheiro e eucalipto, sândalo, mentolados, violetas — e no fim, a fruta preta, solene, difícil — mas persistente, envolta numa ligeira brisa mineral de contornos peculiares, ora salgada como uma brisa do mar ao nascer da manhã, ora doce e terrosa, a evocar vapores de âmbar cinzento — Por todo o lado na boca, aliada aos já de si bem presentes balsâmicos, e tornando-a fresquíssima — surgindo a fruta, agora mais perceptível e muito bem entrelaçada com as madeiras — sempre discretas — a emprestar um toque de doçura, de naturalidade, àquela amálgama de químico fresco e almiscarado de taninos imensos e muito álcool — que ainda assim não sobressai, embora se note que está lá — que quase se consegue mastigar e que teima em ficar na boca, sugerindo ainda novas nuances, bem depois de o vinho já ter ido embora.

Meu Deus, que concentração! Que força! Que pujante torrente química! — E tinha logo de ser esta, precisamente, a faceta que mais aprecio nos monocasta Touriga Nacional! Como bem diz o rótulo, é um vinho de superlativos. Equilibrado, mas a um passo do exagero. Um vinho... para putos que gostam de snifar cola!

Escusado será dizer que adorei. Custa à volta de 25€.

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P.S. — Levou 91 pontos da Wine Spectator.

P.P.S. — Sim, estou ciente q.b. de que, citando, «Ethyl acetate is formed in wine by the esterification of ethanol and acetic acid. Therefore wines with high acetic acid levels are more likely to see ethyl acetate formation, but the compound does not contribute to the volatile acidity. It is a common microbial fault produced by wine spoilage yeasts, particularly Pichia anomala, Kloeckera apiculata, and Hanseniaspora uvarum. High levels of ethyl acetate are also produced by lactic acid bacteria and acetic acid bacteria. The sensory threshold for ethyl acetate is 150-200 mg/L. Levels below this can give an added richness and sweetness, whereas levels above impart nail polish remover, glue, or varnish type aromas.» Link para o artigo da Wikipedia acerca das «Wines Faults», aqui. Nestes casos, o limiar sensorial de cada um é quase tudo. E assim, repito: este vinho foi uma pujante torrente química — que não ofendeu, encantou.