sexta-feira, 10 de julho de 2009

Velharias (12)



Inédita,

E valha-me Agares, o linguista, aquele que destrói dignidades, que gela no tempo os que correm e que pode fazer regressar os fugitivos.





19-11-2005



Parvónia, 16h48

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16h49



O comboio vai ganhando velocidade.



16h50



Através da tarde carregada, céu cinzento-húmido, cor de chumbo.



16h53



16h54



Um repetitivo bater metálico corta o falso silêncio da carruagem meio cheia. Faltam mais ou menos quatro horas para o meu destino.



16h58



A cidade da chuva onde todos os caminhos são sempre a subir.



16h59



O telemóvel fica sem rede. Aumenta a sensação de isolamento. Também ela falsa, tal como a solidão.



17h00



Não sei que escrever. Escrevo porque me pediram. A bateria do computador a 89%. Em estimativa, duas horas e cinquenta minutos de vida.



17h03



A prazo, a vida. A dele e as de todos nós. Num momento andamos cá e, no instante seguinte, nada. Nem luz nem sombras. O pseudo-deus desintegra-se. Fica com o aspecto de uma estátua de cera, se o cuidarem. Inerte. Olhamos e percebemos que ali já não habita nada.



17h07



O pseudo-deus pode ter mudado o mundo, mas a sua morte, para o mundo, constitui uma perturbação mínima. O pseudo-deus pode ter mostrado novos mundos dentro do mundo. Mas morreu. Todo o universo que em si habitava se tornou nada num instante.



17h11



Viajo a uma janela virada para o rio. Cor de mercúrio. Na margem, árvores esqueléticas que se debruçam sobre o abismo. Rendilhados de contornos negros que passam num segundo. Elas mesmas já sobreviveram a muita gente. Mas, um dia, o próprio rio perecerá e nem as pedras serão as mesmas.



17h16



As coisas são nada em potência. Pilhas de nada.



17h17



Esperarei pelas 17h40 para fumar o próximo cigarro. Compreende-se, mas é uma pena que tenham acabado com as carruagens para fumadores.



17h18



Não me apetece fumar, há que dizê-lo em abono da verdade. Mas estou aqui, daqui não posso sair, e espero. Não me apetece escrever. Também não me apetece comer, beber, ouvir música ou tomar café. Não me apetece foder. Não me apetece estar aqui, mas este é o caminho. A espera é o caminho. O veículo não tem de ser uma plataforma rolante. Qualquer lugar é a via e o veículo. Qualquer instante é de, ou melhor, a espera. E depois morremos.



17h22



Voltei a ter rede no telefone celular.



17h23



Voltei a ficar sem rede no telefone celular. Está bastante calor aqui dentro.



17h24



O meu irmão fez-me companhia enquanto esperava pelo comboio. Tornou-se um homem. Não devia, mas fiquei bastante surpreendido ao vê-lo um homem feito. Pensava que, para mim, ele seria o eterno puto mais novo. Enganei-me. E a culpa é da distância. Não dos quilómetros ou dos dias, mas da distracção, do esquecimento. Gostei de estar com ele. Pareceu-me um homem bom. Que assim seja.



17h30



A distracção e o esquecimento são, aliás, culpados de muitas coisas. Mas só daquilo de que os culpamos. E sempre aceitam as nossas culpas, tornando-nos mais fácil desculparmo-nos. Sem qualquer queixume ou objecção. São coisas de deus. Ou do diabo.



17h33



Desde as 17h30 que penso que está quase na hora de ir fumar.



17h35



Logo à noite vou querer beber, drogar-me e foder. Talvez venha a querer jantar, mas comi tanto que, de momento, isso ainda não me passa pela cabeça.



17h36



Depois de fumar, vou ao bar tomar café. E Pedras. E depois outro cigarro.



17h37



Penso em lamber-lhe o rabo. E comer uns camarões ou qualquer outra coisa ligeira e do mar, talvez. Ainda ontem lhe descrevia ao pormenor o minete, comparando-o à degustação de uma ostra crua, servida no seu próprio suco, com sumo de limão. Desta vez, porém, caso nos drunfemos, será conveniente lembrar-me de que é má ideia morder-lhe o clítoris. E um pensamento acessório, mas talvez não de todo escusado: a mãe dela conhece o paradeiro destas notas. Será que as lê?



17h40



The time is now!



17h56



Abrantes. Em breve chegará a altura de mudar de comboio, descansar. Paguei no bar com uma nota de vinte e em troca recebi dezoito moedas de um euro. Trago uma tonelada no rabo. A cadela Kika a mijar no meio das urtigas numa praça em Espanha. A cona, inchada, parecia um morango ainda verde. Foi a minha quase sogra que no-lo mostrou. Aconteceu há uma fracção de eternidade — enorme para tão insignificante acontecimento. Ontem também me lembrei disto. E antes, há dias. Mais uma coisa a conversar com o psiquiatra.



18h02



Pausa forçada, mas bem-vinda.



19h16



Novo comboio, mais merda da mesma. Estas "primeiras" classes já eram relativamente desconfortáveis. Têm vindo a piorar.



19h19



A privacidade também piorou, pelos vistos. Não compreendo o mecanismo que me leva a retrair-me face à possibilidade de alguém olhar para este... relatório de viagem. Mas, como o sinto! Com o tempo, perdi a estaleca. Lembro-me de viajar ao lado de um juiz obeso, feio, feio, feio!, aparentemente escandalizado com o meu logbook. Também me lembro de ir escrevendo mais e pior merda (merda?) e de achar a sua indignação tão cómica. Foi há muitos anos. Enfim.



19h24



O revisor. Lugar 26, carruagem 11. Não lhe olhei para a cara. Mais um estorvo. A ansiedade social não mata, mas mói.



19h25



Sem bateria. Merda. Não contava com isto. De meia carga para 3%, standby automático. A putinha ter-se-á viciado? É pena. Não vou poder elaborar sobre como ela . . . uma travessa de ostras. Fica para outra altura.



19h30



Embrenhar-me em (ainda mais) auto-referências. Isso é de evitar.



19h34



Chegarei em cinquenta minutos, mais coisa menos coisa. A bateria ainda vive. Talvez não esteja anémica, afinal. Apenas... Como o dono.



19h36



Escrevo. Ora curtinho, ora como um paneleiro de letras. De onde saiu esta ideia?



19h39



Lembrei-me de um sonho antigo. Na minha outra casa. Persianas escancaradas. Tarde cinzenta, daquele cinzento. Ele (e quem era ele?) jogava com uma consola ou computador qualquer que não existe. Só nos sonhos. Atirei dois copos pela janela, não sei porquê. Não sei onde fui, mas regressei. Olhei pela janela e vi que alguém varria os cacos lá em baixo. Conseguia ouvir o barulho, apesar da distância. Desinteressei-me. Deitei-me, adormeci.



19h40



Acordei na minha cama, cabeça diante do computador. Tarde igualmente carregada. Como a de hoje. Mas algo estava simplesmente errado. Programas errados, software alienígena. Chamei-o e ele não veio. O messenger tinha sido modificado. Interface para crianças. Desenhos naive, estilizados, ursinhos, patos de banda desenhada. O nick do culpado (sim, eu SABIA que era ele o culpado) surge, na janela, em gordas letras brancas colocadas sobre uma pomba idêntica à da IURD, em azul-bebé.



19h42



Tento apagá-lo, mas o programa não possui essa função. Saio por ele. Ainda joga, tudo parece em ordem no quarto dele. Afinal, parece que tenho visitas. Regresso, ou talvez tenha acordado de novo. Copos partidos, cada vez mais cacos de vidro pelo chão do meu quarto. Tarde cinzenta. Sinto, SEI que fui amaldiçoado. Acordo (terei acordado?) em sobressalto.



19h44



Tudo em ordem. Acordo na minha cama, cara voltada para o computador. Em ordem. Levanto-me. ELE, recolhido no seu quarto, vê ténis na TV. Cravo-lhe um cigarro, regresso. Persianas escancaradas, tarde cinzenta, daquele cinzento. Atiro dois copos pela janela. ELE, um estranho dentro de mim, atira dois copos pela janela, um de cada vez. Assisto a tudo de dentro.



19h44



O ciclo recomeça. Alguém varre os cacos lá em baixo. Ouço o estilhaçar arrastado do vidro pelo chão com uma proximidade sobrenatural. Que coisa tão estranha. Acordei. Engraçado ter-me lembrado de tantas voltas no mesmo sonho ao ponto de conseguir escrevê-lo.



19h45



Já só falta uma estação, creio. Ainda escrevo. Tinha-lhe prometido um quadro pornográfico. Ou porquito. Mas isto é bizarro de péssima qualidade.



19h49



Acho que vou fumar para o caixotinho dos fumadores. Aquele bocadinho de corredor sem cinzeiros que também — e acima de tudo — funciona como zona de passagem — a única — entre carruagens, para as retretes e para o exterior. Que digo? Que escrevo? Incongruências. Em suma, o lugarzinho a que me refiro é uma merda, mas estou prestes a ir para lá e até me sinto bem com isso.



Fim do "relatório".
Talvez se deva manter privado, afinal.





Ela foi buscar-me à estação. Levava uma rosa e uma cadela.