domingo, 21 de setembro de 2008

Coisas Para Ler em Viagem

Maidanov deu-me a morada de Zinaida. Encontrava-se no Hotel Demout. Velhas recordações se agitaram no fundo do meu coração e prometi a mim mesmo que iria fazer uma visita, logo no dia seguinte, ao objecto da minha antiga «paixão».

Tive um impedimento... e oito dias se passaram, depois mais oito. Por fim, quando me apresentei no Hotel Demout e perguntei pela senhora Dolskaia, disseram-me que tinha morrido, havia quatro dias, dando à luz uma criança.

Pareceu-me que qualquer coisa se dilacerava em mim. A ideia de que teria podido vê-la, mas que não a tinha visto nem a veria mais, apoderou-se de mim com uma força espantosa, como uma amargura de remorso.

— Morta! — repetia eu fixando o porteiro com olhos cegos...

Saí lentamente e afastei-me ao acaso, a direito na minha frente, sem saber para onde ia... Era então este o fim que estava destinado a essa vida jovem, febril e brilhante!

Pensava isto imaginando os seus traços queridos, os seus olhos, as madeixas douradas, encerradas numa caixa estreita no húmido negrume da terra... E isso tão perto de mim, que vivia ainda... a poucos passos de meu pai, que também já não era nada...

Perdia-me nestes pensamentos, forçava a imaginação e logo um verso pérfido me ressoou na alma:

Lábios impassíveis falaram da morte.

Nada pode inquietar-te, ó juventude! Tu pareces possuir todos os tesouros da terra; a própria tristeza te faz sorrir, a dor torna-te mais bela. Tu estás confiante em ti mesma e, na tua temeridade, clamas:

«Vejam, sou a única a viver!» Porém os dias passam, muitos e muitos e sem deixar sinal; a matéria de que és feita, funde-se como cera ao sol, como a neve... E — quem sabe... — se a tua ventura não viverá mais na tua fé do que na tua omnipotência? A tua felicidade está em gastar energias que não encontram qualquer fim. Cada um de nós se imagina muito pródigo e pretende ter o direito de dizer: «O que eu não teria feito, se não tivesse esbanjado o meu tempo?»

Eu também... O que não esperei? Por quanto não aguardei? Que futuro radioso eu não previa, quando saudava com um suspiro melancólico o fantasma do meu primeiro amor, ressuscitado pelo espaço de um instante?

De tudo isso o que se cumpriu? Hoje, em que as sombras da noite começam a envolver a minha vida, que me resta de mais fresco e de mais querido que a saudade desta tempestade matinal, primaveril e fugaz?

Mas faço mal em maldizer. Apesar da juventude ser sem cuidados, não fiquei surdo ao apelo dessa voz melancólica, a esse aviso solene que me chegava do túmulo... Poucos dias depois de ter sabido da morte de Zinaida, assisti, por minha livre vontade, aos últimos momentos de uma pobre velha que morava no nosso prédio. Coberta de farrapos, estendida sobre tábuas ásperas com um saco por travesseiro, ela sofria uma agonia lenta e penosa... Toda a sua existência se tinha passado a lutar amargamente contra as necessidades da vida quotidiana. Não tinha conhecido a alegria, nunca levara aos lábios o cálice da felicidade. Pois não deveria ela regozijar-se com a ideia da redenção, da liberdade, do repouso que ia enfim merecer? E contudo todo o seu corpo decrépito se debateu muito tempo e o peito só deixou de se erguer contra a mão gelada que o oprimia, quando as forças a abandonaram por completo. Então, fervorosamente, fez o sinal da cruz e murmurou:

— Senhor, perdoa-me os meus pecados!

A expressão de terror e de angústia perante a morte só se lhe extinguiu no fundo do olhar, com a última centelha de vida...

E recordo-me que foi à cabeceira desta pobre velha que, de súbito, tive medo por Zinaida e quis rezar por ela, por meu pai — e por mim.


Ivan Turgenev, Primeiro Amor — 1860.