quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Velharias (13)

De há três anos menos vinte dias.


Hoje acordei contente por a ter.

Lembro-me de antes lhe elogiar o olhar amiudadas vezes. Depois perdi o hábito.

Hoje acordei com remorsos. Os olhos mais bonitos do mundo: tendo-os sempre comigo, poderia tê-los esquecido?

Os olhos da minha bebé transmitem uma paz doce. Podem levar quem ela quiser num passeio por uma tarde de Outono depois de chover. Ou para outros mundos. Outros quadros, tão pessoais quanto o desejarmos.

Às vezes, parece que sentimos aquilo que imaginamos terem sido momentos de outros. Coisas que vimos, coisas que nos contaram, coisas construídas, informação acabada e distribuída em massa. Cada um aproveita o que pode. Abre a embalagem, instala e recompila. Nem sempre se sonha, mas essa é sempre uma possibilidade legítima. Cada um reconstrói a beleza que lhe é acessível.

A minha bebé mostrou-me uma nova beleza em todas as coisas.

Hoje acordei grato por me sentir tão bem, ou por me ter lembrado de me ter sentido tão bem, mesmo não o aparentando.

Hoje, só tenho um esqueleto para lhe dar. Um quadro. O retrato de um momento que me ofereceu. Uma coisa de outro, talvez de ninguém, que se tornou minha por um momento.

Aprender a sentir? Não. Dar um passeio. Por lugares só acessíveis a quem tem alguém a seu lado.