quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Velharias (15)

Estas linhas chafurdaram pela primeira vez (?) no lamaçal da rede a 10/3/2006.

Assim as introduzi na altura:


«Antigo, estava posto de lado, arrumado no fundo de um caderno mais usado para fazer listas de compras. EPA — 1 deriva de 2 [ou o contrário], isso é claro, mas qual terá acontecido primeiro? O facto é que já não me lembro.»



Escatologia Poética do Atrofio (2)


Em lume brando, a la Jack Kerouac.


Eu hoje acordei assim
A recordar
Foi-me dito que nada era verdadeiro;
(Não me disseram que tudo era falso)
Aparência viva
O sim pelo sim
Levar e esquecer
Sem fazer crescer
O deserto em mim.

Hoje a Lua desceu à Terra
As árvores fugiram
As sombras pintaram-se de rosa
E morri mais um pouco

Cobertos de nuvens, os céus ruíram
Fechei os olhos e neguei:
Finura ou asneira grossa?
Que interessa, morrerei.

Cada vez mais distante de mim,
Quem sou? Um "que" —
Qualquer coisa —
O que quiserem que seja —

Sou nada.
O nada que quiserem:

Sou o que querem
E quando não consigo,
Afastam-me:
Não sou.

Não posso ser
E já não sei escrever...
Deus libertou-me da forma
E não me deixou nada em troca
Nem esquecer —

Que importa?
Se sou nada?

Sou o que sou,

E foges-me


Maldita raiva!

Que nos consome, não nos deixa ver
O que queremos e não nos deixamos ser.

(Quando durmo, ainda habito este mundo, mas tudo está bem.)

Acordo.
Continuas a evitar-me.
Continuas zangada comigo
É natural:
Fiz mal.

Talvez me desculpes amanhã,
Talvez nunca —
Resta a fé na memória do que disseste:
Tudo passará.


*


E por fim, a boa conclusão:

Não se "refina" ou "corrige" poesia [por mais não- que a dita possa ser].