quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Exercícios — Sugestões (1)

Depois da breve discussão que tomou lugar aqui, ficou no ar o convite para sugestões de exercícios — ou melhor, tipos de exercício — que, de alguma forma, nos tentassem aproximar um pouco mais daquilo por que realmente passamos quando estamos diante do tabuleiro, temos um gajo (ou menina) a olhar fixamente para nós (ou a passear pelas imediações, muitas vezes em largos círculos), o «tic tac» de muitos relógios como música de fundo, a presença do nosso próprio relógio e, mais importante ainda, apenas uma tentativa para resolver vários problemas que, na altura, nunca parecem fáceis.

Dito assim, parece complicado. E é. Para mais, dado que é a primeira vez que faço isto, vamos lá ver se não sai asneira...

Pensando nas duras vicissitudes — e só nomeei algumas — a que um tipo está sujeito durante um jogo «a sério», torna-se clara uma coisa: há que complicar os exercícios se queremos aproximá-los da prática real! Porém, «complicar um exercício» não significa necessariamente colocar sob a forma de exercício um maior número de lances até um mate forçado... ou coisa que o valha. Pode complicar-se (e muito!) um exercício, por exemplo, propondo situações — que até são as mais comuns — em que nada, ou quase, é realmente forçado... Enfim, adicionar aos exercícios puramente tácticos um chapisco, por assim dizer, de planeamento. Afinal, como um grande jogador disse há muitos anos, «Alekhine's combinations are not that hard to find; if I had the positions he gets, I would find the combinations as easily as he does. The real trick to his games is: "How does he get the positions he manages to wind up with?"». Normalmente, obter posições capazes de exercitar «também isto» implicará, apenas, recuar umas poucas jogadas em relação à posição de partida da maioria dos exercícios puramente tácticos — que, regra geral, são retirados da fase «de execução» das partidas que lhes servem de fonte.


Então, em jeito de exemplo e para começar, um nico da minha produção pessoal:



Alho Prata
Coimbra, 2000



Depois de

1. d4 Cf6 2. c4 g6 3. Cc3 d5 4. Cf3 Bg7 5. e3 O-O 6. cxd5 Cxd5 7. Bc4 Cxc3 8.
bxc3 Cc6 9. O-O Bf5 10. a4 Dd6 11. Ba3 Dd7 12. Cd2 Be6 13. Be2 f5 14. c4 Bf7
15. Tb1 b6 16. Cf3 Tfe8 17. Cg5 e5 18. d5 Ca5 19. e4 c5 20. exf5 gxf5 21. Cxf7
Dxf7 22. Bh5 Dd7 23. Bxe8 Txe8 24. Dc2 e4 25. Bb2 Bd4 26. Tfd1 Dg7 27. Bxd4
cxd4 28. c5 Tc8 29. c6 De5 30. Dd2 d3 31. Dg5+ Rh8 32. Tb5 Tg8,

as brancas tinham o jogo praticamente ganho.

Nesta altura, após uns minutos de reflexão, jogaram

33. Dh5




Enfim, um erro.

Vindo de um jogador da craveira do Diogo, ainda por cima com tempo no relógio, não podia, contudo, ser um erro «injustificado». Assim sendo, logo se levantam duas questões:

1. Que pretendia o condutor das brancas com esta jogada?

2. Qual é o plano correcto para ganhar isto?

De volta à partida, seguiu-se

33. ... e3

34. fxe3




3. Esta jogada é forçada? Porquê?

4. E agora, o que é que as pretas fazem?

5. E o que é que conseguem?