terça-feira, 3 de março de 2009

EN334 — Luís Pato, Vinha Barrio '2000 & Muralhas de Monção '2007

Saímos ao fim da tarde sem destino traçado — É assim que gostamos dos nossos passeios, às vezes capazes de proporcionar gratas surpresas, quase sempre repletos de lugares desilusórios — Começamos por rumar a Norte, na direcção das terras dos leitões — Depois subimos a serra do Buçaco; paramos no Luso para tomar café, criar também a «oportunidade urbana» fora de Coimbra à nova peta impingida pelo telefone a meus ilustríssimos progenitores — Pois claro que sim, que estou muito doente, muito desanimado — E veja-se só, injustiça das injustiças, aguardo um autocarro urbano de fim-de-semana, apinhado, claro, só pode — É esta a minha aproximação romantizada ao cúmulo do azar — Pois encontrava-me sozinho em casa e muito deprimido e fui comprar qualquer coisinha à Telepizza por estar incapaz de cozinhar uma merda qualquer — E como se tal não chegasse, estar sozinho em casa enquanto a Sara apajeia (a duzentos quilómetros de distância!) a pobre mãe moribunda, ainda chuvisca e os cães ladram e os drogados e mitrosos passam com aqueles seus ares de quem me mataria de bom grado só para me roubar as moedas naquela sinistra paragem de autocarro perdida no quase escuro de lugar nenhum — Que filme à H.P. Lovecraft! — Mas a coisa pega, pega sempre, beijinhos beijinhos e as melhoras para vocês também, e desligo, vamos tomar café e resolvemos subir até ao Buçaco para tirar umas fotografias — Na verdade, o crepúsculo adivinha-se glorioso e há que aproveitar a luz.



Monumento à Batalha do Buçaco


Foi apenas o início de uma longa noite — Muitas voltas depois — Olha, caralho, tão giras as luzes lá em cima! É aquilo a adega da Quinta do Encontro! Não é o máximo? E ela responde-me que «para adega é gira, mas...» — Oh!, vamos mas é encostar e sair e fotografá-la também — E ao homenzinho que lá dentro, tão diminuto por força da distância, como que nos vigiava os movimentos — É que nós tínhamos zoom e ele não — Ou pelo menos era o que pensávamos! — Partimos em direcção ao mar mas paramos num cruzamento algures numa terriola próxima só porque sim ou para voltar para trás — Ou não, mas é assim que me lembro das coisas — Por fim (salvo seja), volvido um bom bocado, claro está, repleto de situações do mesmo género, capazes de encher o momento mas, objectivamente, dotadas de pouco interesse, de alguma forma acabamos mais uma vez na estrada que parte de Anadia e vai dar a Mira e que pelo caminho atravessa Vilarinho do Bairro, entre muitas outras pequenas terriolas mais ou menos engraçadas.





E é a Sara que vê o pequeno letreiro, discreto na sua ténue luminosidade branca, a anunciar qualquer coisa como "O Chicote, Restaurante Típico" — A princípio deixamo-lo passar — Não deve ser nada de especial, vamos antes voltar para trás e comer no hotel do (de!) Luso ou em algum daqueles monstruosos processadores semi-industriais de porcos bebés na Mealhada ou noutro sítio qualquer — Mas nem meia hora depois estamos de regresso.

Estacionamos então no quintalzito ajardinado (ou isso) do restaurante — Tudo muito parcamente iluminado e nem vivalma — Mas o mundo é quase sempre previsível, quase chato, e bastou aplicar um pouco de senso comum para, pouco depois, já nos encontrarmos comodamente instalados junto à lareira de uma salinha acolhedora e, mais importante ainda, completamente às moscas — Chegada a hora de escolher a bebida, folheio a carta e dou com um Luís Pato "Vinha Barrio" de 2000, coisa de que nunca tinha ouvido falar — Acabo a pensar tratar-se, provavelmente, de um Vinha Barrosa mal grafado — Olha só que básicos, merda para eles — Mas por via das dúvidas, e como também não me importava nada de empurrar o naco de vaca que entretanto decidira que ia ser o meu jantar com um Vinha Barrosa de 2000, chamo o empregado e atiro à queima: este Luís Pato — Aponto para a entrada na lista — É o Vinha Barrosa ou é outro? — Era outro — Sancta simplicitas! — Outro mas também muito bom, a surgir num tom granada pouco opaco que fazia adivinhar algo mais ligeiro e evoluído do que aquilo que realmente ali tinha — Bouquet de fundo terroso, bem constituído, repleto de sensações suaves de madeira e castanhas — Delicado (mas firme) suporte aos aromas florais finos e muito persistentes — E que acidez! Que capacidade de se bater com um tornedó com queijo da serra sem, no entanto, por uma única vez parecer verdadeiramente cheio, objectivamente intenso! — Quanta elegância a deste Baga que (vim depois a descobri-lo) veio de uma vinha que já não existe — À transparência, ainda se lhe notavam cerejas, e muitas! — 33€ — 17,5.

E a Sara não me acompanha a bebê-lo (mais uma vez, diz que não gosta) — Pede antes quatro coisas que, constando da lista, o restaurante já não tinha — Lá acaba por se resignar a um verde branco muito simples, quase proletário, mas que, de facto, raramente compromete — um Muralhas de Monção '2007 — De aroma herbáceo, herbáceo de ervas de cheiro — Sobretudo anis-estrelado e erva doce — Algures entre o cítrico e o tropical, pejado de impressões de melão e tangerina, limão e pêssego — Muito suave na boca — A fugir para o delgado, até — Um pouco oco, convenhamos — E levemente gaseificado — Mas, mesmo assim, com acidez suficiente para segurar o prato de bacalhau — Vinho de cooperativa, mistura de Alvarinho e Trajadura sem madeira — Numa palavra, di-lo-ia fácil — 14,5 — 4,50€ por garrafa de 375ml — Bem-aventurados os condutores responsáveis!



In conspectu Dei...


Para abreviar as coisas, apenas vos direi que saímos de lá sem sobremesa — Não tinham nada de jeito — Metemo-nos de novo ao caminho — Os peculiares acontecimentos que se seguiram talvez venham a ser assunto para outro post.