quinta-feira, 26 de março de 2009

>

Saímos de casa para uma voltita e, não interessa como ou porquê, chegamos a Góis ao fim da tarde, já estava escuro — Rolando devagarinho pela vila, reparo num letreiro que diz «Havaneza Goiense» — Loja razoavelmente grande em edifício bonito, de traça antiga, teria algum interesse? — Paramos lá ao lado; à medida que nos aproximamos, começa a perceber-se ser uma espécie de supermercado — Ok, talvez tenham algum bom produto da zona — Zurzidos pela fome, começavam a tomar-nos ideias recorrentes de belos queijos, enchidos, talvez vinho — Mas entramos e damos com um lugarzinho despojado, uma espécie de mini-mercado em ponto grande, quase vazio de gente e imerso na semi-obscuridade — Olhando para as prateleiras, rapidamente nos desiludimos: de comer, nada de jeito — E vinho? Às vezes, as lojitas pequenas proporcionam-nos boas surpresas . . .

Então, de repente, muito alto, num tom algures entre o rude e o simplesmente estúpido, a idosa que aparentava estar a tomar conta do lugar pergunta-nos da caixa: «O que é que andem aí à procura?!»

Lacónica, a S. responde: «Vinho» — A velhota, sem se mover, «Hã!?» — Abençoada mouquice! — Nisto, a S. repete, agora alto e bom som: «Vinho!» — E novo «Hã!?» como resposta! — Foda-se, minha senhora! — Aproximamo-nos e, desta vez, a S. berra-lhe «VINHO!» para cima — A resposta da mulher deixa-nos perplexos: «Ah, entã se quer vinho nã tem d'ir lá pó fundo! O vinho tá aí!» — E aponta para uma prateleira próxima da entrada, por sinal a primeira coisa que havíamos visto — Só que a pobreza era tal que pensei tratar-se de alguma forma de destacar produtos que quisesse escoar mais depressa, tendo-me embrenhado (salvo seja) mais profundamente no estabelecimento à procura da «verdadeira» prateleira das bebidas.

Perante tal cenário, tornou-se evidente que nem uma pastilha lhe íamos comprar — Que outros a ajudem a pagar os fraldões geriátricos, ora foda-se — Sem uma palavra, limitamo-nos a sair — Mas a estranheza do momento não se podia deixar ficar por aí — Enquanto saíamos, a antipática mulherzinha começou a rosnar! — Dinheeeiro . . . dinheeeiro . . . — E fê-lo num tom tão bizarro, tão inumano, que parecia um zombie a vir atrás de nós!

Depois de uma introdução destas, infelizmente, cometemos um erro de julgamento vital — Não nos pusemos imediatamente dali para fora — Logo à esquina da «Havaneza», reparo numa ementa na parede — Ah, um sítio aberto, e logo um snack-bar! — A porta pequenina a dar para uma salinha inundada de quente luz amarela deve ter agido dentro das nossas cabecinhas como contraponto do negrume envolvente, na altura exacerbado pela estranha experiência que acabáramos de ter — Por algum motivo que agora não consigo discernir, o lugar conseguiu parecer-nos promissor — Entrámos.

Vazio, também — O dono, aparentemente simpático, não tardou a revelar-se estranhamente expansivo — E aqui mais um calafrio: que parecença doentia com o psicopata do Wolf Creek! — Não só na aparência, mas em toda a maneira de estar! As piadas forçadas, simpatia de pechisbeque, risadas alarves — Enfim! Tomei café — estava a precisar — e resolvemos ficar para comer qualquer coisa ligeira — Um lanchinho — Nessa altura, ainda aspirávamos ir jantar a um sítio qualquer «melhor» — Mandamos vir pão e um pratinho com rodelas de paio — A empurrar com o vinho da casa — O paio estava bom — Os pãezinhos, infelizmente, eram simples papo-secos, embora frescos — E o vinho, que nos fora apresentado como «bom vinho local, do lavrador» — Bem, que filme de vinho! — Repleto de partículas em suspensão! — Quase mudo de aromas, apenas ligeiro fruto vermelho com traços de iogurte — Para cúmulo, embora bastante espesso, não aparentava ser «nada»! — Fazia lembrar, que Deus me perdoe, água engrossada com um qualquer polímero inerte e levemente perfumada de vinho! — De qualquer forma, e em abono da verdade, já bebi coisas engarrafadas que conseguiram portar-se pior.

Comidos e bebidos, paga a conta, vamo-nos levantando da mesa — E o homem começa a mexer na máquina registadora como se a quisesse esganar — Aparato de modelo antigo, tilintava tanto que parecia uma máquina papa-moedas, daquelas a que os espanhóis chamam tragaperras, a dar o dinheiro do bónus — Depois de tamanha «simpatia», saímos e nem uma palavra nos dirige, só aquele TLIM TLIM TLIM! — Bolas, que perturbador — E foi assim que resolvemos sair dali, rumar à Pampilhosa (da Serra).

Que dispensa comentários — Depois de Góis e de uma porrada de quilómetros de estrada em zig-zag «que vai valer a pena porque aquilo deve ser giro», casas, casas, casas e mais casas, casinhas, casinhotos e casotas — Tudo assoberbado por um puto edifício enorme, com parque de estacionamento a condizer — O quartel dos bombeiros — Apenas — Nove da noite e tudo fechado, não se detectava uma alma de coisa viva na rua — Céus!

Regressámos pela Lousã e ainda tentámos ir papar ao «Burgo», mas encontrámo-lo fechado — Pena, até porque o sítio nos pareceu muito bonito — To cut a long story short, chegámos a casa bastante tarde e meio mortos de fome.

Tínhamos roubado uma couve algures no caminho — Perfeita para caldo verde — Tive ainda um atrofio chato envolvendo chouriço, a procura de chouriço — E para quem me souber dizer onde é que se arranja chouriço de verdade em Coimbra à uma da manhã, o meu contacto está ali na coluna da direita, ao fundo.

Pois apesar das condições adversas, encontrámos um ersatz quase bom — E a sopa fez-se, juntamente com outras coisas.

E se me pusesse a contar como passámos deste aparente ponto de estagnação sem volta a, nem volvidas duas horas, estarmos cinco a comer bifes grelhados na varanda — com muito vinho à mistura, claro — Ninguém acreditaria — Por isso mesmo não o vou fazer (e porque já estou a ficar farto de escrever, também) — Não resisto, apenas, a deixar meia dúzia de impressões de momento, como tentativas de instantâneos por escrito — Ou a diversidade da fauna local — Um drogado inveterado que gosta muito de Cohibas e nos aparece «lá em baixo» num Opel Kapitän com suspensões mexicanas — Um matemático de cabelo revolto e óculos, tipo ainda mais metódico que Mr. Monk e menos sociável que eu . . . que luxo de combinação, que nem na net consegue viver! — A acompanhante do nosso amigo dos carros clássicos, que por isso mesmo dispensa comentários (heh) — A S. e eu, dois baralhos de cartas e a saquinha das drogas — O kit, como lhe chamamos, mas que nada tem a ver com aqueles que dão (ou davam) aos junkies nas farmácias.

Direitos, então, à vinhaça, que o resto não interessa, bebeu-se . . .