quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Alión '1996 e '98

Estes vinhos dão pano para mangas, mas, porque estou de ressaca, não esperem grande merda.

Ora bem, esta marca pertence ao grupo Vega-Sicilia, sobre o qual bem podia tentar escrever qualquer coisa bonita, que são um mito vínico, o maior do país vizinho, que têm cento e cinquenta anos de história, etc., etc., etc.. Em vez disso, deixo aos eventuais interessados os enlaces que se seguem: um, a página oficial deles e dois, o artigo da wikipédia a seu respeito.

Citando o produtor, as ideias que levaram ao nascimento desta marca passaram, desde o início, para lá da simples necessidade de expansão, pela vontade de «crear una bodega que produzca, con viñedos propios, un vino con una filosofía diferente y una identidad independiente a la de Bodegas Vega Sicilia, por lo que se descarta la posibilidad de elaborar el vino en las instalaciones de Vega Sicilia; los Álvarez no desean crear una marca que pueda ser considerada como un segundo vino del nombre mítico.»

Talvez tenha interesse referir ainda que Alión é o nome (antigo) do concejo de León onde nasceu David Álvarez Díaz, o senhor que em 1982 comprou as Bodegas Vega-Sicilia e patriarca da família que ainda hoje define os seus destinos. Mais, aqui.

Enfim, indo direito ao que interessa — a nós, consumidores — Alión é sinónimo de uns tipos que em cada colheita conseguem produzir à volta de 250/300.000 garrafas de excelente tinto, que vendem a um preço bastante democrático — e penso que ainda o seria mais caso o senhor Parker gostasse (um bocadinho) menos dele.

Estes vinhos são feitos à base de Tempranillo — Tinto Fino na zona e Aragonês para nós — proveniente de cepas cujas idades oscilam entre os 15 e os 20 anos e envelhecidos em barricas novas de carvalho francês (das florestas de Nevers) durante 13 meses, passando depois mais uns tempos em garrafa antes de serem postos à venda.


Alión '1996

Houve historieta ao abrir esta garrafa. A rolha estava mole e partiu-se durante a extracção. Por sorte, o resto que ficou preso no gargalo aguentou uma segunda investida do saca-rolhas e o vinho fluiu límpido para dentro do decantador. Dei-lhe ar durante pouco mais de duas horas e servi-o a 16ºC. A cor pareceu-me algures entre o rubi e um granada escuro com reflexos avermelhados. Bonita. Nariz dominado por fruta doce — amoras-pretas e cerejas, suaves e persistentes — desde o primeiro instante. Dela se foram libertando outros aromas: uns como que em repentes, laivos mais ou menos intensos, de curta duração — feno seco, pêlo de coelho, sangue, fermento e massas cruas de pão e bolos — outros mais persistentes, espraiando-se a todo o comprimento do vinho, passando as suas sensações para o palato — caruma de pinheiro, chão de bosque, castanhas e madeiras e, acabando por predominar no tempo, tabaco, café e anis em sugestões várias. Boca extremamente sedosa, de acidez moderada e final longo, levemente terroso. Sobrou um restinho. Guardado no frigorífico, ainda estava vivo no dia seguinte. Muito bom vinho, sem dúvida.

Custou 40€. 18,5


Alión '1998

Passou igualmente duas horitas no decantador antes de ser servido a 16ºC. Cor intensa, a virar granada. Inicialmente ligeiras sugestões lácteas, a iogurte de morango ou coisa que o valha. Eventualmente suplantadas por ameixas e cerejas bem maduras no nariz e quase gulosas na boca, refrescadas por ligeiro balsâmico — resinas. Também notas de tosta de barrica, tabaco e café. Estava, contudo, à espera de um bouquet mais amplo. Sendo um vinho de sabor muito agradável (não me vou repetir), o que mais uma vez impressionou foi a sua estrutura, a sua relação «comprimento - largura - intensidade - peso». Os anglófonos têm uma palavra muito boa para isto — mouthfeel. Tudo muito redondinho e agradável — quanta harmonia... Final apenas razoável, tanto face ao esperado como comparado com o do irmão mais velho que, curiosamente (ou não), era dos dois aquele que parecia mais novo!

Em jeito de aparte, não resisto a referir que, em Dezembro de 2001, o vinho desta colheita — caramba, devo tê-lo bebido pela primeira vez em 2002 ou 2003 e ainda apresentava alguma dureza, traços de rusticidade; foi um ano difícil na zona, é bem sabido... — foi classificado com uns impressionantes 17 valores pelo painel de prova do ElMundoVino. Ora, estes provadores são famosos pelas razias autênticas que às vezes dão no que a notas toca. A título de exemplo, em Junho de 2007, deram 15 ao Redoma, 14 ao Quanta Terra Grande Reserva, 13,5 ao Quinta das Tecedeiras, 13 ao Duas Quintas Reserva — ...aunque el final es todavía un tanto tánico, dizem eles... — e 12,5 ao Meandro do Vale Meão (todos de 2004)! Está bem que muitos defendem a maior importância da nota de prova face ao valor numérico que a acompanha. Concordo: que interessa um número servido simples? Mas o valor numérico, se não pela sua maior visibilidade — está para o texto que acompanha mais ou menos como o título de uma notícia para o corpo da mesma —, pelo menos por uma questão de honestidade, tem de reflectir de modo fiel a apreciação do vinho... Tem de haver coerência: a diferença entre 13 e 17 valores tem de ser abismal! E sobretudo porque não acredito que se trate de chauvinismo — vd. a prova deste conjunto de vinhos italianos — nem de lobismo — por exemplo, deram um pobre 15 ao Vega Sicilia «Único» de '89 —, não consigo deixar de achar isto estranho.

Também custou 40€. 17,5



P.S.

E este é importante: à data de hoje, a página www.bodegasalion.com aparenta estar infectada com o virus HTML/Rce.Gen — o Google Safe Browsing avisou e o meu Avira confirmou. Pouco depois de lá ter entrado, já a página tentava «dar-me» lixo sem pedir licença. Passo — lol a citar:

Virus or unwanted program 'HTML/Rce.Gen [virus]'
detected in file 'C:\Documents and Settings\Meh\Local Settings\Application Data\Mozilla\Firefox\Profiles\vvs0hxrc.default\Cache\9E9F1F57d01.
Action performed: Delete file

Mais pormenores sobre o problema, aqui.

Acerca do Google Safe Browsing, aqui e aqui. Espero que tudo se resolva depressa; não sei que mais dizer — que diabo de forma de terminar.