sábado, 11 de abril de 2009

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«Passamos essa noite a cantar e a berrar canções à luz do candeeiro o que é porreiro mas de manhã a garrafa está vazia e eu acordo outra vez em pleno delírio alcoólico, precisamente o mesmo que senti ao acordar naquele quarto de hotel rasca de Frisco antes de fugir para aqui, compreendo agora que me deixei enredar outra vez nesta armadilha e ouço a minha voz que geme «Oh Deus, porque me atormentas?» Mas uma pessoa que nunca tenha sofrido de delirium tremens, nem sequer nos seus estádios mais precoces, não é capaz de entender que não se trata tanto de uma dor física mas sim de uma angústia mental inconcebível aos olhos dos ignorantes que não bebem e acusam os alcoólicos de irresponsabilidade A angústia mental é tão intensa que nos invade a sensação de termos atraiçoado aqueles que nos fizeram nascer, de não sermos dignos dos esforços ou antes das lancinantes dores do parto que a nossa mãe sofreu quando nos pôs neste mundo, de termos atraiçoado todo o trabalho que o nosso pai teve para alimentar-nos, criar-nos, ajudar-nos a crescer e até mesmo, meu Deus, educar-nos para a «vida», e atormenta-nos um remorso tão profundo que nos identificamos com o demónio e Deus parece estar muito longe e ter desistido de dissipar as trevas da nossa estupidez doentia Sentimo-nos doentes no sentido mais profundo do termo, como quem respira sem acreditar no que faz, DOENTES, a nossa alma geme, contemplamos as nossas mãos paralisadas como se elas estivessem em fogo e não pudéssemos mexer-nos para obter alívio, contemplamos o mundo com olhos mortos, há no nosso rosto uma expressão de sofrimento infinito como um anjo com prisão de ventre pousado na sua nuvem O olhar que lançamos ao mundo é na verdade um olhar de canceroso, toldado pelas crostas castanho-acinzentadas que nos cobrem os olhos O aspecto da nossa língua é branco e repugnante, os dentes estão manchados, o nosso cabelo parece ter secado enquanto dormíamos, temos enormes remelas nos cantos dos olhos, manchas gordurosas no nariz e espuma nas comissuras dos lábios: em suma, aquela aparência hedionda e repugnante, bem conhecida de quantos já se cruzaram com um bêbado estendido no passeio das Bowery deste mundo Mas não há réstia de alegria em tudo isto, as pessoas dizem «O tipo está feliz da vida, deixá-lo cozer a bebedeira» E enquanto isso o pobre bêbado está a chorar Está a chorar pela mãe, pelo pai, pelo irmão mais velho, pelo grande amigo, por alguém que o ajude Tenta recompor-se arrastando um sapato para perto do seu pé e nem isso consegue fazer em condições, deixa cair o sapato, ou derruba alguma coisa, faz invariavelmente um gesto que o põe a chorar outra vez O seu desejo é esconder o rosto nas mãos e implorar misericórdia mas sabe que não a vai alcançar Não só porque não a merece mas porque tal coisa nem sequer existe Porque ao erguer os olhos para o céu azul ele nada vê ali senão o espaço vazio a contorcer-se numa careta disforme Ele fita o mundo e este deita-lhe a língua de fora e quando essa máscara cai o mundo põe-se a olhá-lo com uns grandes olhos vermelhos e parados semelhantes aos seus Ele vê que a Terra gira mas esse facto não se reveste de qualquer significado especial Um sussurro inesperado nas suas costas fá-lo arreganhar raivosamente os dentes Ele puxa e repuxa a sua pobre camisa manchada Sente o desejo de esfregar o rosto até fazê-lo desaparecer por completo. As suas peúgas cansadas estão cobertas por uma crosta de lama húmida A barba por fazer arranha-lhe os lábios feridos e provoca-lhe um intenso prurido que as gotas de suor vêm agravar Invade-o uma sensação confusa de «chega, nunca mais, agh» As coisas que ontem eram belas e puras converteram-se de forma irracional e inexplicável num sinistro montão de porcaria Os pêlos que lhe cobrem os dedos assemelham-se aos pêlos hirtos de um cadáver A camisa e as calças colaram-se-lhe ao corpo como se a sua bebedeira fosse durar para sempre O aguilhão do remorso penetra no seu ser como se alguém estivesse a espetá-lo com toda a força As lindas nuvenzinhas brancas do céu ferem-lhe os olhos A única coisa a fazer é virar-se, colar o rosto ao chão e chorar A boca está tão maltratada que ele nem sequer consegue ranger os dentes Não lhe restam sequer forças para puxar os cabelos.»

Jack Kerouac — Big Sur (1962)