quarta-feira, 3 de junho de 2009

José Maria da Fonseca — Garrafeira RA '1999

Após uns dias de repouso — as entranhas assim o ditaram — reabri as hostilidades com um «Garrafeira» da José Maria da Fonseca. Trata-se de um Castelão proveniente dos solos arenosos da região de Algeruz — daí o nome RA — e do qual apenas se encheram 11402 garrafas. Estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho francês, tendo sido engarrafado em Novembro de 2001 e lançado no mercado em Janeiro de 2003.

Ora, entre o princípio de 2003 e há apenas meio ano atrás, por onde terá andado este vinho? Como o terão conservado? Duvidando que com os devidos cuidados, foi apenas com relativa expectância que, tendo-o visto sozinho, perdido na prateleira de um supermercado dos arredores, me resolvi a acolhê-lo.

E quis o destino que a sua viagem terminasse há dias, acompanhando com muita dignidade umas coxas de pato confitadas. Deixei-o duas ou três horas na varanda para que se refrescasse com o vento suave da noite — ainda fechado, claro está — e decantei-o com muito cuidado imediatamente antes de o trazer para a mesa.

Logo notei que apresentava um tom granada, bem bonito por sinal, ainda bastante escuro. Bom pronúncio, talvez. Que acabou por se confirmar. O nariz vinha repleto de notas meladas — açúcar de cana em bruto — e muito fresquinho, muito balsâmico, com agulhas de pinheiro, alcaçuz e menta. Pouco depois, resquícios de algo que me evocou vida animal, cheiros de pastelaria, sobretudo de massas frescas, e licor de café. Quanto à fruta, deliciosamente licorada, tanto a encontrei muito discreta, quase transparente, como também sempre presente — de tal forma que acabou por transmitir a ideia de ser ela o fio condutor de todos os outros cheiros mais intensos, como que a manter a coesão, a harmonizar o leque aromático.

Também a boca estava muito evoluída, mas ampla e ainda dotada de certa viscosidade, muito macia, inicialmente com mostras de grande equilíbrio, mau grado o final mais discreto que aquilo que o resto fazia antecipar. Pena que, nem uma hora ida sobre a abertura da garrafa, o vinho tenha começado a evoluir incrivelmente depressa para notas de fruto seco e café — apenas. Estava praticamente morto quando acabámos.

Resumindo: aparte as mazelas da idade, cansaço terminal de que já não há recobro, o facto é que se revelou um belo vinho. Quão mais bonitos se deverão mostrar os seus irmãozinhos mais viçosos, melhor guardados!?...

Custou 20€. 16,5



Destes «Garrafeira» classificados com letras de código também já por aqui andou o TE — Tinto Especial — do mesmo ano.