sábado, 18 de julho de 2009

Condessa de Santar '2006

Há muito que sonho com uma cidade enorme e que é sempre a mesma. Uma cidade que se estende do mar aos montes, e para lá deles, sobre as planícies. De velhos bairros medievais e grandes torres de aço e vidro escuro. É uma cidade de túneis superlativos, uma Houston ideada por extraterrestres. É uma cidade de colinas imensas e por vezes sombrias, um Rio de Janeiro em tons pastel. E o porto — meu Deus, que porto! — simplesmente não pode existir.

É uma cidade sem ponta de sol. Não sonho com dias de sol. Quando acordo, regresso de entre castanhos industriais, laranjas de ferrugem, cinzentos, brancos e amarelos sujos... Só existem cores brilhantes ao longo dos túneis, lá bem no fundo. Túneis que vão do mar ao deserto.

Frio. Existe um véu de tristeza russa nas paisagens que trago dentro de mim.

Era noite. Jantávamos. Prato leve, carne branca, tempero simples — é aqui que entra este vinho. Encruzado, Cerceal e Arinto, sem barrica e a caminhar para os três anos de garrafa. Nunca o tinha provado, podia apenas fazer uma vaga ideia do que ia encontrar, mas pareceu-me apropriado. Ou, em última análise, porque não?

Refrescado, aberto, vertido, límpido. A cor clara, tão clara, apresentava uns primeiros tons de oxidação. Aquele amarelo, dourado, aquele laranja acastanhado...

Cheirei. Estava vivo. Jovem, até. Frio e discreto, todo ele lima e limão. E maçã ácida, marmelada, casca de laranja amarga e banana seca, perfumadas por notas que faziam lembrar baunilha e nougat.

Levei-o à boca. Uma maravilha. Potente mas fino, de sabor profundamente cítrico mas ao mesmo tempo tão redondo, tão untuoso sem que lhe conseguisse perceber qualquer vestígio de álcool... Tão leve e tão cheio, tão agradável, tão fácil de beber! E lá no fundo, saídos de algum lugar secreto daquele corpo tão eminentemente correcto, tanto que belo, belo e quase assustador, começaram a despontar alicorados laranja e castanho-ferrugem — até a dama de gelo tem coração.

Após deglutido, insistia em deixar na boca um melado de incrível finura, suave mas percuciente, de doçura limpa e provocadora. Inebriante, talvez mais à alma que aos sentidos.

Quem sabe? (Que importa?)

E não devia. Não devia?, mas levantei-me triste da mesa. Acabei a fumar na varanda, olhos parados sobre a grande avenida quase deserta lá em baixo. Fumar na varanda um pauzinho Dunhill. Como após todos os jantares, em todo o lado, todos os dias, de há uma década para cá.

Mais tarde, já de madrugada, a insónia.

Começa de mansinho, preocupação residual desfocada; também um toque de melancolia, talvez.

Depois instala-se a angústia. Em crescendo, em turbilhão. Agridoce, de travo pegajoso mas frio e fino recorte melado — ouro e ferrugem.

Cansado e alerta — Gotas que caem, portas que batem — O elevador — O vento e o escuro. Um choro distante.

Entretanto, ela dormia.

Quanta estranheza quando experimentamos as coisas que sonhámos ou julgámos sonhar! Que sensação terrível, a de termos passado a vida a construir o filme da nossa própria morte!

Não sei como pôde este nobre vinho trazer-me de volta essas velhas sombras. Talvez tenha calhado, apenas. De estranhas associações se faz o dia-a-dia de um indivíduo e não é saudável acreditar em tudo o que se vê.



Custou 15€.

17,5