domingo, 4 de outubro de 2009

É com pena que desligo o elo para a (defunta) página de José A. Bragança de Miranda. Do seu (ainda mais antigo) Reflexos de Azul Eléctrico:



Quinta-feira, Setembro 04, 2003

embaciado

Antes de se voltar violentamente contra os espelhos, como o padre António Vieira que dizia que «o espelho é um diabo mudo», o cristianismo considerava o mundo como um espelho onde Deus se reflectia. Estou a referir-me a uma conhecida passagem de S. Paulo em que este esplêndido filósofo afirma que, a Deus, «por agora vemos embaciadamente num espelho, mas então veremos face a face». O espelho dava a ver, mas ao mesmo tempo que ocultava aquilo que deixava entrever. De algum modo servia de interposição relativamente ao invisível, que só através dele se tornava visível. Mas era uma interposição provisória que desapareceria com a epifania do juízo final. A recusa por Vieira do espelho revela-nos uma metade do segredo do embaciamento do espelho. O que embacia o espelho é a respiração demasiado próxima daquele que está diante dele, e que pretende passar para o lado de lá. Mas do lado de lá do espelho só existe o cobre com que era feito o espelho antigo, ou a fina película de prata com que são feitos os nossos. Pura matéria que, precisamente, o espelho tem de aligeirar, de duplicar, para que no vaivém entre a imagem e coisa possam surgir os deuses e os seus milagres. Se o espelho desaparecesse dissipava-se ao mesmo tempo o Deus que S. Paulo mostrava na superfície perfeita da sua escrita. Foi esse tipo de escrita que desembaciou o espelho, a pontos de fazer dele um objecto banal, para o qual olhamos sem grande sobressalto. É melhor aceitar o velho «espelho», fazê-lo durar todo o tempo que for possível, deixando-o entregue à sua missão misteriosa. Se calhar um dia, já sem homens por perto, ele surgirá novamente embaciado… por um outro respirar.

/RAE 12:11 AM


(...)


cobardia

Tenho pensado em deixar de fumar. Não o posso fazer por enquanto, pelo menos enquanto os fumadores estiverem a ser perseguidos. Seria sinal de cobardia. Tenho mais medo dos perseguidores do que do tabaco, apesar de «ser prejudicial para a saúde».

/RAE 12:21 AM




Por outro lado, é porreiro constatar o regresso deste senhor. Aweh!