sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Tudo está na natureza
Encadeado e em movimento —
Cuspe, veneno, tristeza,
Carne, moinho, lamento,
Ódio, dor, cebola e coentro,
Gordura, sangue, frieza,
Isso tudo está no centro
De uma mesma e estranha mesa —
Misture cada elemento
Uma pitada de dor,
Uma colher de fomento,
Uma gota de terror
O suco dos sentimentos,
Raiva, medo ou desamor,
Produz novos condimentos,
Lágrima, pus e suor
Mas, inverta o segmento,
Intensifique a mistura,
Temperódio, lagrimento,
Sangalho com tristezura,
Carnento, venemoinho,
Remexa tudo por dentro,
Passe tudo no moinho,
Moa a carne, sangre o coentro,
Chore e envenene a gordura
Você terá um ungüento,
Uma baba, grossa e escura,
Essência do meu tormento
E molho de uma fritura
De paladar violento
Que, engolindo, a criatura
Repara o meu sofrimento
Co'a morte, lenta e segura.



Chico Buarque & Paulo Pontes — Gota d'Água (1975)