sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Dalva — Colheita '1982

Perdoem-me a fotografia. Garrafa vazia, o rótulo todo fodido, assim a encontrei na manhã seguinte. Manhã às quatro da tarde, zumbido irritante nos ouvidos, a boca enlameada de baba velha e malcheirosa. O sabor da morte, blhec! A vozinha minguada que me pergunta se "Mi, abres a janela?" O barulho de uma torneira mesmo ali ao lado, tão alto. Uma lufada de vento frio, que porra, devem estar uns cinco graus lá fora e há que abandonar o cafum. A carne dorida recusa-se a responder, o seu próprio peso parece demasiado. As tripas cantam. Ah, que beleza! E depois a faina habitual. Aspirar, passar a pano. Cagar e tomar um longo banho perfumado. Mas em todas as notas de perfume consigo descobrir ou inventar traços anisados que me enchem de náuseas. . . Traumas antigos. Amarelo como a cera, ir ao café já de noite: ao café dos betinhos aonde a doença mental não me permite levar uma simples combinação de fato de urso e Kispo. E as vestes de gente civilizada a comprimirem-me a pança. . . Céus, detesto quando passa um dia sem que possa sair à rua a tempo de ver o sol!

Ora um dos bandidolas responsáveis pelo holocausto visceral que em torpes palavras acabo de relatar foi este tawny "Colheita" da C. da Silva, engarrafado em 2004.

Comprado e bebido no mesmo dia. Tinha calhado ir aos Olivais, acho que comprar argolas folhadas de chocolate, talvez também para um cafezito no Capri. Mas acabei por descer a Bernardo de Albuquerque e pouco depois dou por mim a olhar para as botelhas expostas na garrafeira de Celas. Não tinha em mente comprar nada, mas, que raio, proporcionou-se. Existe certa estranha forma de poesia em abater uma garrafa do ano em que viemos ao mundo.

Seria pura e simplesmente estúpido se depois desta lengalenga me limitasse a dizer algo como "cor dourada; nariz intenso de". . .

Mas fugir à estupidez é a sempre falhada missão de uma vida para todos nós, e mesmo assim poucos se apercebem disso. Se o tawny velho era dourado à vista? Sim. Se intenso de cheiro? Yup. E perpassante, cheio de caramelo melado e passas, nozes e evocações de massas frescas de pastelaria. E álcool livre, sim, algum, mais que perceptível. E um certo "quê" de acidez, mais ainda que mais que perceptível — definidor. Definidor e curioso.

E saboroso?, terá o tawny velho sido saboroso? Oh sim, sem dúvida! Quase magnífico! Lembro-me do longueur, da frescura, da doçura contida . . . da acidez "marcante para tawny". No calor do momento registei no meu caderninho negro do álcool: "proporciona uma muito boa amplitude de impressões no intervalo de sabores que se espera que um vinho deste estilo possa transmitir. mais austero, menos bombom que a larga maioria dos tawnies desta idade que me lembro de ter bebido. caralho, gostei mesmo".

Quando estou na boa (ou a cagar.me) como vírgulas. Troco hífenes por pontos. Borrifo-me para as maiúsculas, a la al berto. Viro um egomaniacozinho de merda, daqueles que dão vontade de matar a pontapé.

Ok, foda-se, estava drogado. Ainda assim, straight enough to the point. E como, de qualquer forma, nem me pagam para dizer bem de Dalvas velhos como duvido que algum coleguinha da concorrência venha fazer melhor. . .

. . . acreditem em mim, busquem e comprem. Ou fiem-se no belo caos que rege a natureza. . . e busquem e comprem porque sim.

50€.

17


P.S.

Yah, o 20 anos da semana passada é objectivamente melhor, mas hoje estou mais falador. Algum dos caros leitores me quer mandar um mail?

Ou, tipo, garrafas?

Ganza também serve.

Pronto, doações em geral.

Quando era puto, era bués fã de um graffiter lá da parvónia que curtia tagar caixas de electricidade: assinava Zoinks.

Zoinks, onde quer que estejas, man, peace.

Já viram que cromice, italizei sempre a palavra tawny?