domingo, 14 de fevereiro de 2010

Recado

1. Havia uma sala comprida e escura onde só tocava o príncipe com orelhas de burro. Tocava o príncipe depois de mandar matar as donzelas por quem se apaixonava. Tocava o príncipe para não ouvir os gritos delas, e pior, para não as ver quando depois, desobedientes, lhe apareciam a sorrir.


2. E assim chorava, exalando intimidade naquela obscuridade partilhada, o corpo aquoso delatado pela luz branqueada de estranhos candeeiros. Tentou fechar-se. Tentou, mas não pôde, como tantas vezes tão-pouco pôde deixar de correr. E no entanto, agora algo estava diferente. Sem querer, sem saber, mudara. Amadurecera, talvez.

Fechou-se para fora, mas derramou-se para dentro.


3. Não, pequeno príncipe, nunca tiraste pecados do mundo. Mas também nunca tiveste uma propensão especialmente acentuada para lhe acrescentar fosse o que fosse.

Viver para a grande máquina não compensa. És um visionário [como me custa admiti-lo].

Fins després.