sexta-feira, 7 de maio de 2010

poesia? de inverno

Às vezes ainda preciso destas manhãs de escrita. Esgravatar: cortar, colar, fingir que crio, sei lá. Às vezes, ainda me dá para isto.


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Foi-se C, caminho agora sem destino à beira-rio. Afinal, tudo, na cidade de ninguém. E vou recordando devagarinho, sem descolar os olhos do chão, sem risos nem passos forçados, alheio às famílias de princípio de tarde que comigo partilham o madeirame do passeio. Contra a água, a sombra das pedras arrasta-me para outro tempo e outro lugar, para algo que vivi. E fazem-me querer chorar, mas não consigo.


Noite
sem lua
húmida
nevoeiros localizados
luzes perfeitas
almas desfeitas
corpos consumidos
percorridos ao largo por carros
vazios
para mim, breves traços
luminosos ecos que rasgam a escuridão
por onde vagam almas
perdidas
ansiosas por fazer ouvir os seus gritos
evocando chamas
estrelas
restos de céu
linhas direitas
cinzas
de sonhos teus e meus
é noite e vaga C
sozinha
pela encosta do burgo acima
escondida das palavras mal entendidas
entra num café onde a não aguardo
e os nossos olhos tocam-se
pinta minha noite com duas palavras apenas
e sai tão fugazmente como chegou
qual enguia, desliza
para o frio da noite lá fora
chuvisca
escorre
volta
novos desejos anseia
enredos
novelos
mordaz e percuciente
sempre ciente
de falsas certezas
vidente
donzela imaculada de birras e ares
adivinhará quem lhe mente?
tanto faz
saio
entro
subo
em casa prepara-se o remédio segundo a prescrição antiga
uma linha de pó castanho e água
transparente
como o vidro quebrado
diante de nós
espraiado
o reflexo retorcido de toda uma geração
de sonhos perdidos
de redundâncias
de frustrações
mágoas, traições
pois sejamos y! —
destruamos o paraíso com um simples click
destruamo-lo em nome do amor
apaguemos a luz da vida
mais ainda
mais ainda que o sal das lágrimas que há muito saboreamos
no escuro
enquanto esperamos
em silêncio
e pensamos
penso
procuro pensar
e sinto que já nada sei
que aquilo que sinto
por maior que seja
de nada passa também
sonhar?
os sonhos são rascunhos de caminhos futuros
com que semeamos dia após dia
a incerteza de bem querer
amemo-los, não os possuamos
que só se pode amar aquilo que se não tem
ouvem-se passos

volta C
abre a porta
passa
surge vulto negro
urde teias
meias de seda em pezinhos de lã
perde-se por momentos contra a parede, agora em silêncio
devolve-me a mirada brilhante
lacrimosa
vai-te C,
fecha meus olhos para te não ver
discreta carícia que não se sente
docemente
traga-me a morte um instante
seja ele de teus olhos feito
infinitamente distante
mais passado que presente
talvez
mas por ora
livra-me Deus do amargor
de ver outros à tua roda
e torno ao meu canto
sozinho
sombrio
odeio
odeio tudo
e rio-me.

12/3/2004


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Rio-me. Satanice estouvada, já a estou a imaginar, delfim do mal a cavalgar as trevas, sangue, dores, carvão, a espalhar o desespero, a espelhar o desespero, a morte, Jesus!

E mais loguito, enfim, voltar ao mundinho da vidinha e ir trabalhar.