sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Velharias (24)

/me was going down the drain,
/me was going down the drain

. . .

la la lah

. . .

down the drain,

la la lah . . .

me.


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5/3/2003


Deito-me por volta das sete da manhã, após uma noitada de pizza, cartas e droga com os tristes do costume, mas cheio de vontade de acordar relativamente cedo, preferencialmente ao princípio da tarde, a tempo de almoçar e ir às aulas, ou pelo menos estudar alguma coisa em casa. Que sucede? Desperto ao anoitecer, cheio de medo da minha própria sombra. Da necessidade de controlar tais fobias advém que, naturalmente, a primeira coisa que faço depois de lavar os dentes é enrolar um charro, a que se segue um Lexotan para começar bem o dia. Um pouco mais tarde, durante o banho, constato, ou talvez tenha só redescoberto, que quaisquer projectos de estudo, por hoje, arderam. O que não invalida a minha necessidade de comer, prontamente satisfeita com um bife magnífico, na Taberna. Como ainda é muito cedo para acordar o M', subo os Combatentes a pé, vegeto pelas tascas da Sé Nova (Zé, Garcia, Pinto, Couraça), onde emborco cafés uns atrás dos outros, quatro ao todo, sempre acompanhados da respectiva garrafa de água com gás. Por fim, o meu drug buddy envia-me a mensagem do costume. Imediatamente apanho um táxi para casa dele, onde me aguardam uns drunfs novos (fluoxetina), tinto, pizza e haxixe, sem esquecer a TV e o omnipresente Alonso & Finn. Mas o nosso drogatório, sem a A', é demasiado aborrecido, pelo que decidimos sair para beber. Táxi, para Celas. Arco Bar. Mais comida, agora moelas. Mais cerveja, uma ganza fumada à porta do Mayflower e outra nas traseiras do Melià, por sinal um belíssimo spot para mijar. Entretanto faz-se suficientemente tarde para descer à Praça, ou seja, para beber a sério. Táxi, OAF. Um tasco ordinaríssimo. Cerveja, salgados, imensos bêbedos.

Deve haver aqui alguma festa. Com a S'? Com o olhos fechados? E o B'? Do T'?! E não me convidou, caralho?! No entanto, como não vejo mais ninguém conhecido, é provável que a festa nem sequer seja realmente dele e que o pequeno pulha se tenha colado a um grupo e agora esteja apenas a tentar, mais uma vez, ser o centro das atenções. Ao menos podia ter-me falado, mas não deve precisar de dinheiro. Enfim, que se dane, há nacos melhores a fazer horas debaixo do viaduto. Talvez até nem seja nenhum deles.

Prefiro seguir por esse caminho. Ora, o princípio de identidade pode ser um sacaninha inconveniente. Ignoro-o e passo a hora seguinte a tentar convencer-me de que me estou realmente a divertir. Hoje estamos particularmente conversadores. O M' a tudo acede, desde que não me veja exarcebar demasiadamente o sentimento de direita: chega mesmo a oferecer-me dois drunfs, cada um com 10mg de buspirona, simplesmente os azuis, e brindamos a Hitler, Einstein, Bach, Dirac. . .

E chega, aliás, AH QUE ÓDIO! Isto é, acabo por me sentir ridículo, embora no OAF o ridículo esteja em tudo o que não encaixar perfeitamente naquela moldura de devassidão barata. Está tudo bem quando um energúmeno solta meia dúzia de grunhidos aos céus antes de se vomitar para cima dos companheiros, no outro extremo da sala, mas dois indivíduos calmos e bem vestidos, ainda capazes de falar, têm necessariamente que despoletar olhares curiosos. Pouco me importa. Subitamente fiquei chateado, não brindo mais, e chega de drunfs. Por pouco tempo. Entusiasmo-me quando a conversa toca em Goebbels, no grande Goebbels, e sem perceber muito bem porquê, diria mesmo sem vontade, como a lamela de Lexotan que restava, inteira. E 60mg de bromazepam podem servir de pretexto para elevada discussão!

— Beeeeesta! Merda! Vais ficar CINZENTO!
— Bah, respondo-lhe.

Abandonamos o OAF porque o M' teme que eu entre em coma. De imediato o tranquilizo, digo-lhe que não é nada, não haverá azar desde que vá falando comigo. Por solidariedade, amigos são amigos, diz ele, saca da caixa de buspirona e toma cinco unidades. Pergunta-me se quero mais, nay, não quero mais azuis. São amargos: de psicose já engatilhada, não quero estar na presença da priminho e lá a espécie de mulher-armadilha que às vezes é dele quando tudo isto começar a actuar, ainda que nenhum deles seja, de facto, o próprio. Saímos do OAF, vamos para casa, mas acabamos na Via.

E da Via já não me lembro. Talvez fique bem dizer que as luzes cor-de-laranja do primeiro piso são engraçadas: parece um daqueles pubs de cidadezinha industrial, muito Manchester-nos-80s. Gosto.

Eh, e cenas. . .

Táxi, casa, deito-me à hora do costume, sem qualquer esperança de ver em amanhã o dia do meu regresso a uma vida útil. Quinta-Feira é um belo dia para dormir.


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Coisas da minha outra vida, mas não tão antigas assim. E do mal, mas não interessa. Quem julga é paneleiro: boa, assim é que os panças que te lêem te vão levar a sério e gostar de ti, pequeno J. Não resisto, contudo, a partir sem deixar meia dúzia de curiosidades "históricas": 1) A Taberna continua a ser um bom lugar para comer, mas é foleiro auto-denominar-se "excelente restaurante tradicional" logo no cabeçalho do seu website. Porquê? Porque é isso que aparece em destaque nos resultados do Google quando alguém procura por eles, e para quê parecer-se pedante a quem ainda nem pôs os pés em nossa casa? A polir, digo eu, que sei pouco. 2) O Garcia, na Alta, civilizou-se. Fui lá no princípio deste Verão e fiquei abismado com o que encontrei. Tudo tão limpo! Ademais, deve ser dos poucos sítios aqui na terrinha que vende bolo xadrez, embora de imitação, um pouco desenxabido. Do Zé e do Pinto, não sei, mas, francamente, também não tenho pena. 3) Alonso & Finn, link, mítico! O meu não é exactamente a versão para onde aponto, é em espanhol, tem outra capa. . . mas não me apetece procurar mais. 4) Menciono tinto, não especifico, menos ainda me lembro. Estes escritos são anteriores à fase da enochatice, pelo que o mais provável seria tratar-se de Callabriga ou Esporão Reserva do final dos '90, que eram os vinhos da casa na casa dos drogados. 5) O OAF também se civilizou, mas isso é irrelevante, dado que nunca lá fui por motivação própria. Nunca cheguei a saber se era uma festa "do" primito T', merda para ele, mas acho que não. O que me leva a pensar que talvez já estivesse a alucinar há um bom bocado: going down the drain, lol. 6) Não fiquei cinzento: sobrevivi. E se o mesmo aconteceu a este rascunho medíocre, é porque o descartei como trivial. Mais e melhor foi entretanto publicado, tanto aqui como no outro lugar, mas o que lá vai, lá vai.