quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Velharias (25)

Uma pessoa não é um mapa à espera de ser lido. Nunca nada está realmente dito. Todos podemos mudar.

— Jorge, aceita um conselho de um homem dez anos mais velho do que tu, peço-te. Não largues a felicidade. Agarra-te a ela com as duas mãos. Não a deixes escapar.

Disseste-mo bem devagarinho, firme mas suavemente, de olhos nos olhos, embora prostrado sobre a minha cama em pleno acesso de amargura custosamente contida, enquanto eu, naquele momento, por acaso, só por acaso, escrevinhava qualquer coisa sentado à secretária. Não me surpreendi, tãopouco te respondi; limitei-me a anotar fielmente o que ouvira numa margem da folha, que datei: 18/11/2003. Apenas um minuto antes admirávamos juntos e em silêncio as luzes da cidade espraiada a nossos pés, Luís.

Sim, Luís, estás triste. Estás doente, Luís, não te fizeste compreender. Não progrediste. E certo é que mesmo quem vive à espera, como que perdido no tempo, não é de forma alguma imutável. Nem mesmo nós.

Mas, ao contrário do Luís, bastava-me parar para descansar um pouco. Aspirar um cheirinho a liberdade e, talvez, tomar como verdadeiro aquilo que sinto. Ser simples e livre — simplesmente livre, para além do bem e do mal.

2005? 6? Tão seguro, tão enganado. Bem, o facto é que ainda cá ando; e bebo.