quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Velharias (26)

Abril - Maio de 2003




Porquê escrever? — Porque as coisas mudam.

Porque penso que estiquei ao máximo o fio da minha existência. Algo vai mudar brevemente, não sei se para melhor ou para pior, mas estas
férias não merecem ser esquecidas. Quero deixar gravado um pouco daquilo que agora sou para que as lições extraídas de cada dia neste fragmento de mundo dentro do mundo se não percam com o passar do tempo na penumbra de uma memória que já teve melhores dias.

Momentos.
Reflexões,
perversões.
Esquissos de instantes que não quis perder.



Um


Lx.

Amanhece. As sombras dos carros morrem na claridade cinzento-mate que lentamente se adensa, anunciando o dia. Luz de manhã muda — Faltam pessoas, pássaros, carros, falta vida à alameda que agora fito desta janela emprestada, incrédulo: nunca pensei que esta cidade pudesse ter horas mortas — Agora, apenas o frap frlap pianíssimo de um chuvisco, mais e mais intenso, apenas perpassado pelo vento que arrasta os uivos de sereias distantes: a cidade desperta.

Já nada resta da noite. Aqui vive-se depressa, não há espaço para fantasmas. Há muito que os rouxinóis se calaram. Dois pisos acima de mim, voltados para o sol que cresce forte sobre o parque, Mikel e Carolina encerram a noite com uma sessão de desenhos animados e gelado de noz.

Hodie ainda vai ser um grande dia.



Dois


Aviões e comboios: flechas apontadas para o futuro ou simples máquinas de ruminar?

Foram tempos danados, esses. Não tinha querer: simplesmente saía para me embebedar todos os dias. Seria o apelo da música, do álcool, das mulheres? Na noite, fazemos coisas acontecer sempre que não vislumbramos motivos para não o fazer. A noite é vida. Claro está que, apesar de toda esta azáfama aparente, o bêbedo da noite é praticamente inútil. Os dias repetem-se, sempre livres de planos, tanto que se vota ao esquecimento tudo o que ultrapassa a rotina. Fabricam-se amores e conflitos, pretextos para um próximo passo. Em que caminho? Não sei quantas vezes me perguntei que nome dar a tudo isto. Vyasa colecciona estados de espírito. Sente muito, mas pensa pouco. Tem tendência para querer ver o que lhe é oferecido, mas estar lá e ver é-lhe suficiente.

Vyasa, o degradé. Normalmente, saía um pouco antes do fim da festa. T & S, os meus amores. Porque brincavam tão cruelmente comigo? Nessas noites, bebia para esquecer. Regressava a casa pela manhã, podre de bêbedo e sem um tostão no bolso, ressacava lágrimas e Jeff Buckley — manhãs que podiam ser tardes, ou noites, diluídas nos vapores azulados do haxixe e de cigarros fumados só até metade enquanto me lamentava por ter nascido mau, pedia perdão a Deus por ter defraudado a minha família, os meus amigos, o mundo, por me ver trilhar uma via sem retorno em direcção ao suicídio. Dia após dia, durante meses. Desgosto? Desespero? Medo?

Que interessa?



Três


O parque dos baloiços.

Seriam umas quatro da madrugada, ninguém na rua. Fotografei ao acaso, sem convicção, tanto que não tardei a parar e sentar-me para fumar um cigarro. A dada altura, surgiu um velho ao dobrar da esquina. Acompanhava-o um pequeno cão preto, preso pela trela.

Silêncio.
Paz incómoda,
temperada de... esquece.

Poderá esta porcaria ser a minha casa há tanto tempo?
Se detesto este lugar assim tanto, porque é que ainda não fugi?
Afinal, porque haveria de querer fugir?
E para onde?

É aí que reside o meu maior medo —
muitas terras quer dizer nenhuma.



Quatro


Mais um passeio (a Grande Catedral, já não muito longe de Madrid)

Na primeira de todas as Luas, um velho feiticeiro sem nome depositou o coração da Esperança num pequeno cofre, que enterrou no alto de um monte para que os homens jamais o encontrassem. Então as trevas abateram-se sobre a Terra: a Felicidade perdeu-se, substituiu-a a Volúpia. Livres, levantaram-se do mar a Corrupção e o Assassínio — a Humanidade ganhara consciência de si própria e o feiticeiro divinizara-se, conquistara a imortalidade. Mas não será a imortalidade a mais atroz das penas? A vida só faz sentido como é — efémera. Derrotado, o feiticeiro resolveu esconder-se no único sítio onde jamais o encontrariam: bem no fundo da alma de cada um daqueles que iluminara. Não sem ter deixado escrita a promessa de que um dia voltaria como a palavra que não se pode entender e assim cegaria os homens com a luz da sua própria ambição. Mataria os deuses, e com eles a sua própria memória. Desvaneceu-se, não se tornou a ouvir falar dele. Passou algum tempo: talvez milénios, talvez apenas um segundo — não serão iguais perante a eternidade? Não vimos palavra alguma; só sabemos que o sangue não mais cessou de jorrar. As culpas não se esquecem, mas o calor dos corpos comove e fascina: no mais encantador acto de cinismo alguma vez engendrado, contruiram-se no alto deste monte dois gigantescos ossários.

Ah, cão, não lhe chames Éter! Este frio nada mais é senão a Morte.

Sob os nossos pés, os ossos dos justos. Ao centro, uma enorme pedra cinzenta, rasa, coberta de runas que não quero compreender. Jaz aqui o generalíssimo. Pisaria um milhão de anónimos sacrificados à causa para poder acompanhá-lo uma única vez. Não presumo a sua inocência — os culpados também podem ser vítimas.

São uma mísera cifra, estas vítimas! Agora chamados de santos, no templo onde as mulheres se deslocam por entre pilhas de cadáveres e suspiram pois há muito que as lágrimas secaram. Suspiram, mas não deixam de querer viver.

Lutadores. Livres de tudo, até de uma consciência.

Ah, cão, chega-te mais a mim! Beijemo-nos como o faríamos no dia do Juízo. Quero sentir-te; não importa se o momento é oportuno. Aqui, o futuro anula-se e a Esperança é letra morta.

— Bazemos! A cidade aguarda-nos.



Cinco


Bilhetes, roupa suja de cinco dias, um laptop, um leitor portátil de discos compactos e uns vinte discos, baton protector, o carregador do telemóvel, óculos de sol, cheques de viagem, uma caixa com dez maços de JPS (preto).
Uma máquina fotográfica e três rolos de 24 fotografias.

Uma linha recta — uma marcha em frente para lado nenhum.

Tudo se resume a continuar vivo.
A escrever uma nova página.
A acrescentar, mais uma vez, a galeria de retratos desfocados.
Saudades.
Terríveis, saudades do que ainda não tenho.



Seis


Pois bem, M' foi-se e também decidi não acompanhar o Márcio a Budapeste.

Tento ir às compras durante a tarde; nada me atrai. As pessoas perturbam-me. O seu olhar, a sua presença, causam-me a mais viva repulsa. Olho-as de alto a baixo, como se fossem montes de esterco. Regresso a casa de táxi, doido de raiva. Janto copiosamente, embebedo-me com Bourbon ainda no restaurante. Nada mais me resta fazer senão esperar. Como ontem, uma vida à espera de nada. Dou voltas e mais voltas pela cidade, agora adormecida. Filmes atrás de filmes, nada de concreto. Continuo à espera.

U2 e um charro. Paz. Já andava a sentir-lhes a falta.

Agora compreendo as palavras do velho Zé Pedro: os maus tornar-se-ão bons e os bons estão destinados a perder-se.
Não nascemos bons nem maus, não somos monstros, não somos falhados, não defraudámos ninguém, limitámo-nos a ser. Não somos vítimas, apenas cumprimos o nosso destino da única maneira possível.

Passei anos a renegar o destino.

Sinto-te, mesmo quando estás longe. Filme, fantasia,
pastilha elástica.



Sete


Voltei a sentir vontade de escrever.

Talvez não devesse. Nestas horas tristes, a beleza escapa-se-me por entre os dedos. Nada mais tenho a afirmar. Tento desesperadamente pensar em ti sem ódio, recalcar o monstro que se levanta das minhas entranhas para implorar as tuas lágrimas, o teu sangue, a tua alma. Tento desesperadamente acreditar em ti, que te amo.

Livre de rodeios, simplesmente.



Oito


Necessito de tempo para vencer a confusão. Compreendo-me melhor quando me releio, quando volto ao passado.

Que fazer? Tornar-me um deles? Ser ovelha ou trancar-me para morrer? Só comecei a ponderar esse recurso posteriormente, nas horas livres que o haxixe me cedia, e ainda foram algumas...



Nove


Nos últimos dias tenho passado algum tempo com um colega de curso chamado Artur. Hoje, resolvemos fazer uma noite alternativa — seguimos o percurso dos freaks que costumam parar à porta do Zé. Muitos conhecidos, muita ganza, pouco tabaco, pouco dinheiro. Todos aparentavam ter droga, mas o tabaco e as mortalhas escasseavam. Ambiente razoável. A polícia apareceu por volta das duas e um quarto da madrugada.

— Há barulho na rua. Têm duas escolhas: dispersar ou ser autuados. — Será que mais alguém ali sabia o que era ser autuado? Não me pareceu. Dispersámos em grupo para junto da Baco. Jam session. Cheirava a festa. Tambores, duas guitarras: primeiro uma acústica, mais tarde a eléctrica.

— Meu Deus, eles estão a fazer trance com tambores e uma guitarra! — Admirável. Ambiente tribal em plena cidade antiga, celebrava-se o eclipse em noite de lua cheia.

Uma gaja brincava com argolas (na realidade são pêndulos) em chamas, um pouco como quem se diverte com um par de iô-iôs. Pouco depois, juntou-se-lhe outro indivíduo: este incendiou ambas as pontas de uma barra metálica bastante espessa, que segurava com o auxílio de outras duas barras, mais pequenas, mantidas em constante movimento, uma em cada mão. Ou seja,
double stick. Juntos executaram uma verdadeira dança do fogo para a plateia que os observava das escadas da igreja de S. Bartolomeu. Que bonito. Anéis de fogo, círculos incandescentes, formas perfeitas de morte, destruir para voltar a criar. É a ordem natural das coisas, representada, ritualizada. Estariam eles cientes do sabbat em que tomavam parte? É inegável que andava qualquer coisa no ar. O sopro de Moloch. Outro retorno. Senti crescer dentro de mim um desejo antigo. Mais uma noite entre as feras. — Lord! Esta luz, esta humidade, este som, esta gente, conseguirá esta gente ser daqui? — Também eles andam fugidos. Penso mais uma vez nas tuas palavras. Estes sim, optaram por seguir o caminho mais fácil. Que interessa? Também eles acabarão por se fartar. Bobos da sociedade. Estes punkies são giros. Mas não são a minha cena. Perturbam-me. Já presenciara um ritual semelhante. BW — Há quase quatro anos — Estás aqui, sinto-o — Dizias que querias vir estudar para esta terra, se vivesses para tal. Poderei ter-te ajudado a viver. Que me deste tu em troca? A falsa consciência de ser o semi-deus que tanto podia oferecer a vida como a morte? Conforto?! Mas quando a ti se opôs o meu orgulho, tomei-me de brios, fiz-te desaparecer — E quantas vezes não esperei em vão por notícias tuas depois disso! Viveste por mim, disseste-mo uma vez. E agora, terás morrido? Ou recomeçado? Estarás aqui? Muitos destes freaks vieram de fora. S & C. Uma praia deserta onde já me cansei de esperar o teu retorno. Sempre por mim, que te fiz eu? Que o meu egotismo seja também a minha tumba. Por mim. Sorrio-me, e chamo-vos mentirosos. O tempo adocica a alma, mas há chagas que se recusam a sarar. Há tanto tempo! Por mim, fugirei desta gente como quem foge da morte. Porque a morte vive dissimulada entre eles. Persegue-me. São memórias, são noites em claro. Que nojo. Eu não sofro um décimo daquilo que mereço.

— Artur, é melhor deixar os mortos dormir. Vou-me embora.

30/5/2003