domingo, 14 de novembro de 2010

«Um homem muito célebre, que era ao mesmo tempo um grande tolo, coisas que andam muito bem juntas, ao que parece, como mais de uma vez terei, sem dúvida, o doloroso prazer de demonstrar, ousou, num livro sobre a Mesa, composto do duplo ponto de vista da higiene e do prazer, escrever o que se segue no artigo VINHO: "O patriarca Noé passa por ser o inventor do vinho; é um licor que se faz com o fruto da vinha".

E que mais? Mais nada: é tudo. Por mais que folheeis o volume, que o vireis em todos os sentidos, que o tenteis ler de trás para diante, da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, nada mais encontrareis sobre o vinho na Fisiologia do Gosto do ilustríssimo e respeitadíssimo Brillat-Savarin: "O patriarca Noé..." e "é um licor..."

Suponho que um habitante da Lua ou de qualquer outro planeta afastado, viajando pelo nosso mundo, e cansado das suas longas jornadas, pensa em refrescar o palato e aquecer o estômago. Quer pôr-se ao corrente dos prazeres e dos costumes da nossa terra. Ouviu vagamente falar de licores deliciosos com os quais os cidadãos desta esfera alcançavam à vontade coragem e alegria. Para estar mais certo da escolha, o habitante da Lua abre o oráculo do gosto, o célebre e infalível Brillat-Savarin, e ali encontra, no artigo VINHO, esta informação preciosa: O patriarca Noé... e este licor faz-se... Absolutamente digestivo. Muito explicativo. É impossível, depois de ter lido esta frase, não ter uma ideia justa e clara de todos os vinhos, das suas diferentes qualidades, dos seus inconvenientes, da sua força no estômago e no cérebro.

Ah! caros amigos, não leais Brillat-Savarin, Deus defenda aqueles que gostam de leituras inúteis, é a primeira máxima de um livrinho de Lavater, um filósofo que amou os homens mais do que todos os magistrados do mundo antigo e moderno. Nenhum bolo foi baptizado com o nome de Lavater; mas a memória deste homem angélico viverá ainda entre os cristãos, quando até os bons burgueses já tiverem esquecido o Brillat-Savarin, espécie de brioche insípido cujo menor defeito é servir de pretexto a uma taramelice de máximas tolamente pedantes tiradas da famosa obra-prima.

Se uma nova edição dessa falsa obra-prima ousa afrontar o bom senso da humanidade moderna, bebedores melancólicos, bebedores alegres, vós todos que procurais no vinho a lembrança ou o esquecimento, e que, não o achando nunca bastante completo para vosso gosto, só contemplais o céu pelo fundo da garrafa, bebedores esquecidos e ignorados, ireis vós comprar um exemplar e pagareis o mal com o bem, a indiferença com o bem-fazer?

Abro a Kreisleriana do divino Hoffmann, e nela leio uma curiosa recomendação. O músico consciencioso deve servir-se do champanhe para compor uma ópera cómica. Nele encontrará a alegria espumante e ligeira que o género reclama. A música religiosa pede vinho do Reno ou de Jurançon. Como no fundo das ideias profundas, há neles um amargo inebriador; mas a música heróica não pode dispensar o vinho de Borgonha. Tem a gravidade fogosa e o arrebatamento do patriotismo. Melhor do que tudo, e além do sentimento apaixonado de um bebedor, vejo aqui uma imparcialidade que muito honra um Alemão.

Hoffmann traçara um singular barómetro psicológico destinado a representar-lhe diferentes temperaturas e os fenómenos atmosféricos da sua alma. Nele se encontram divisões como estas: espírito ligeiramente irónico temperado de indulgência; espírito de solidão com profundo contentamento de mim mesmo; alegria musical; entusiasmo musical, tempestade musical, alegria sarcástica insuportável a mim mesmo, aspiração a sair do meu eu, objectividade excessiva, fusão do meu ser com a natureza. Escusado será dizer que as divisões do barómetro moral de Hoffmann eram fixadas segundo a sua ordem de geração, como nos barómetros comuns. Parece-me que há entre este barómetro psíquico e a explicação das qualidades musicais dos vinhos uma fraternidade evidente.

Hoffmann, no momento em que a morte o levou, começava a ganhar dinheiro. A fortuna sorria-lhe. Como o nosso caro e grande Balzac, foi só nos seus últimos tempos que viu brilhar a aurora boreal das mais antigas esperanças. Por essa altura, os editores, que disputavam os contos dele para os seus almanaques, tinham por costume, para lhe ganharem as boas graças, juntar à remessa de dinheiro uma caixa de vinhos de França.»


'n Les Paradis Artificiels, Charles Baudelaire, 1860,
trad. por José Saramago, 1971.