quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Meandro do Vale Meão '2009

Não resisto ao reparo: instalou-se entre o pessoal que escreve sobre o que bebe a estranha moda de publicar os rótulos consumidos com a indicação de que não têm nada de específico a observar sobre eles, e mais, que fazê-lo é artificioso, foleiro e está mais que visto. Que é um desperdício, pelo menos face a poder beber despreocupadamente, sem o encargo de tomar umas notas. Pensar? Ou sentir, conforme o caso, sim, mas a família, os amigos, o campo, o tradicional, velhas casas e lagares, as atitudes dignas e elegantes de cavalheiros mortos há sessenta anos, que já não há homens, acabaram-se os homens! O cão, o filho que esperneia no berço, ele que ainda vai fazer reviver a alma desses nobres cavalheiros, o Elvis, o que for. Fuckin' A, pessoal! Se não há nada de específico a adiantar sobre um vinho, para quê publicar o respectivo rótulo? Ia fazer diferença se o título a dar de comer aos agregadores fosse outro? Parece-me bem que não.

Ahm, Meandro. A volta do rio, que em sentido figurado pode também significar enredo, intriga. Velho conhecido da casa, guardo neste espaço reparos sobre as edições de 2005, 2006 e 2007. Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Sousão: castas vinificadas em separado, o lote resultante estagiado em barricas de segundo e terceiro ano — ficha técnica aqui. Vertido directamente no copo, vinho escuro, com ginja, frutos pretos, ligeira compota. Doçura solta, vagamente vinosa, muito lá no fundo. Madeira efectiva, em proporção correcta. Boca viva, de peso mediano, a mostrar taninos suficientes para continuar a mudar sem perder por 5 ou 6 anos mais. Em suma, outro bom vinho que, por algum motivo que não consigo precisar, me deixou algo indiferente.

10€.

16,5

domingo, 25 de dezembro de 2011

Pedra Cancela — Reserva '2008

Há muito que deixei de ter tempo para aqui deixar todos os vinhos que bebo. Também noto que, salvo raras excepções, pouco aqui vou deixando de mim. Posto isto, a coisa do enodiário, parece-me, falhou.

Este foi dos fotografados e anotados, para publicar, na verdade, ainda antes de aberto. Escuro, quase retinto. A fruta negra, densa, séria, quase sisuda, tingida por quantidades apreciáveis de madeira que, pelo menos na altura, pareceu-me, existia como que sem fim: nem solta, nem a mascarar, compor ou dominar. Mascarar, compor, dominar o quê? Estava, apenas, e como tal fazia-se notar.

Segundo dia: dark character. Mais redondo, os 15% de álcool melhor integrados. Tudo muito vinho, vinho que ao invés de remeter de imediato para aquilo que poderia ter feito lembrar, simplesmente pareceu cheirar e saber a vinho. Lá bem no fundo, que mais se lhe havia de pedir?

E apesar de, objectivamente, nem fruta nem madeira, flores, especiarias, farmácia, terra ou álcool, juraria que mostrou um pouco de cada. Nada sobressaiu, contudo — nem mesmo a falta. No fim, talvez a palavra para o definir seja coeso. E talvez mais importante, agradável.

Que me esquecia: Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alfrocheiro. (E Jaen?) O contra-rótulo di-lo engarrafado na Quinta por J.C. Gouveia, Oliveira de Barreiros, Viseu — produtor que por sinal tem presença na web, aqui.

10€.

16

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

For the ancient Greeks, the discovery of wine by men was the gift of Dionysos, the god of wine, the avatar who burst out of Thrace — or perhaps Phrygia — and brought the knowledge of wine to Attica. He disclosed the secret to a peasant called Icarios and his daughter Erigone, with whom he had lodged as a guest: the gift was his return for their hospitality. However, he commanded Icarios that, once he had successfully made wine, he was to teach the skill to others; the outcome was disastrous. Icarios shared his wine with a group of shepherds, who drank a very great deal and, unaccustomed to the effect it had on them, feared that Icarios had poisoned them. They grabbed their clubs and beat him to death. When his daughter returned, she looked for him in vain, and it was only when his faithful dog Moera led her to where her father had been buried that she realized what had happened. In despair, she hanged herself. But Dionysos rewarded them: Icarios became the star Boötes, his daughter was transformed into the constellation Virgo, and Moera became Canis or Sirius, the Dog Star. (Boötes has another title, “the grape gatherer,” because it rises in the autumn at the time of the vintage.) In truth, the vine was widely cultivated by the early Bronze Age — both Homer and Hesiod make it clear that wine was an essential part of life — and clay tablets dating from the late Bronze Age (about 1200 BC) connect Dionysos with wine, providing early evidence for his cult.

Is This Bottle Corked?
Kathleen Burk & Michael Bywater, Harmony Books, 2008

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Quinta dos Currais — Reserva '2003

2003, que ano tão quente. . . Este veio de relativamente perto da minha terra, tendo sido produzido e engarrafado na quinta que lhe dá o nome, em Capinha, Fundão. Composto por 50% de Touriga Nacional, 25% de Aragonês e outro tanto de Castelão, fermentou a temperatura controlada até aos 28ºC durante 5 a 6 dias, tendo posteriormente estagiado durante 18 meses em carvalho francês.

Fruta madura, densa e escura, parte em aguardente, folha de tabaco, borralha de azeite, casca de azinheira, terra e ligeiro balsâmico. Muito composto, com porte e elegância, a fazer lembrar, de certa forma, um Douro quente com alguns anos em cima. Já percorreu um belo caminho e vai sem dúvida aguentar, pelo menos, outro tanto. Mas beba-se. Ainda nos acontece alguma coisa, para quê guardar os que estão neste estado, que raio. . .

Bebi-o com bôla de carne de porco preto, entre outras coisas, ligação que correu bem.

8€.

16,5

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Anselmo Mendes — Alvarinho Contacto '2009

O nome deriva do processo de elaboração: primeiro, uma razoavelmente longa maceração pré-fermentativa a frio; depois, prensagem; por fim, algumas uvas inteiras acrescentadas à fermentação. Não passou por madeira.

A princípio, uvas brancas super doces e montes de maracujá; depois mais cítrico. Enche a boca de forma muito agradável, sem ser pesado. Está bonito: tem boas formas, cheira bem, tem certo fundo salgadinho que se encontra em alguns espécimes da sua terra e a que alguns gostam de chamar mineral. Tem frescura, podia ter mais. Por outro lado, já vai mostrando mel e chá. Bom!

Bebeu-se com camarões grelhados e assim.

10€.

16,5

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Borges — Touriga Nacional '2005

Este vinho foi produzido pela Soc. dos Vinhos Borges na Qta. de São Simão da Aguieira, perto de Nelas. Monocasta Touriga Nacional de vinhas novas, estagiou durante um ano em carvalho francês antes do engarrafamento. Para os eventuais interessados em mais pormenores, aqui fica um atalho para a respectiva ficha técnica, presente no sítio do produtor na internet, e que diz respeito à edição mais recente, de 2009. Como de qualquer forma, comparando, as diferenças são mínimas, a presente serve bem.

O conteúdo da garrafa experimentada foi primeiro vertido directamente no copo, depois deixado a arejar num decantador. Já vai mostrando algumas notas de tabaco e couro velho, coisa comum num vinho com seis anos, embora continue a ser a fruta a predominar, preta e vermelha, bem madura, ainda sem grandes indícios de transformação. Apesar da boa meia-surpresa no nariz, é no entanto a passagem pela boca que mais surpreende. Vinho grande, robusto por natureza, amaciou com a permanência em garrafa, mas não perdeu firmeza, nem frescor. O sabor, agradável, acompanha os cheiros, revelando bastante persistência.

Aparenta ter evoluído bem: para quê mais guarda? Beba-se agora, com bife.

15€.

17

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

@ 1. In order to speak of oral poetry I must necessarily speak of written poetry.

@ 2. Let me then begin at the beginning: the notion of poetry on which I'll stake my claims here does not emerge until after the fall of the trobar.

@ 3. The trobar, or the art of the troubadours, finds expression in the canso, a form that unites word and sound.

@ 4. The trobar indissolubly interlaces a particular language and its music. The Provençal term for this craft is entrebescar.

@ 5. The breaking of the bond between word and sound, which occurred during the fourteenth century, brought about a new double form called poetry. This form would combine the words of a language in writing and in speech such that they would be indissociable.

@ 6. That other form which brings word and sound together has by no means disappeared; we call it song.

@ 7. A song is not a poem and a poem is not a song.

@ 8. The words of a song deprived of their sounds may constitute a poem; or not. The words of a poem put to music may constitute a song; or not.

@ 9. It’s an insult to poetry to call it song. It’s an insult to song to call it poetry.


@Prelude: Poetry and Orality, Jacques Roubaud, trad. por Jean-Jacques Poucel, in The Sound of Poetry, the Poetry of Sound, ed. por Marjorie Perloff e Craig Dworkin, The Univ. of Chicago Press, 2009.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Auchan "Sabores de Portugal" — Porto 10 Anos

Cor atijolada, mais puxada ao laranja que a do vinho do PD, bonita. Pouco álcool no aroma, que me pareceu reter ainda algumas notas de fruta: quase só passas. Menos nozes, menos caramelo que no outro. Especiarias em expressão suave e algo indefinida. Alcaçuz?

Na boca, algum volume e glicerina, a anos-luz de poder ser considerado gordo — aliás, pareceu-me até um pouco mais ligeiro que o do PD. Frutos secos e travo de ranço no final, bem mais longo que intenso. No entanto, e apesar da tentação, não vos sei dizer se delicado será o termo.

Foi bebido a par com o da mensagem anterior, com o qual partilha a indicação de ter sido engarrafado pela Symington (mas em 2010). E comparado com ele, em poucas palavras, menos mel, mais xarope, resquícios de fruta. São do mesmo naipe, mas gostei um pouco mais do perfil do outro.

Também custou 8 ou 9€.

15

sábado, 10 de dezembro de 2011

Pingo Doce — Tawny 10 Anos

Da Symington, engarrafado em 2009: não é a edição mais recente, logo vai sendo cada vez mais difícil encontrá-lo nas prateleiras. Também já bebi uma garrafa do mais recente, engarrafado em 2010, e encontrei-lhes diferenças, mas isso poderá, talvez, vir a ser assunto para outro post. Do mesmo produtor, e também vendido pelo pê dê, já por aqui passou um LBV de 2003 que na altura não se portou nada mal.

Cor caramelo. Aguardente, mel e frutos secos. Boa untuosidade, intensidade e persistência. Alguma firmeza, e este tipo de vinho precisa tanto dela para não enjoar! Final mediano. É morno e confortável, pede cobertores, filhoses, castanhas assadas.

Curiosa a nota presente no caderninho negro do álcool que refere encontrar-me a ver isto aquando da "prova", como se pudesse ser relevante. Infelizmente, apesar do curto tempo volvido, já não me lembro. E se calhar fazia sentido, terei de procurar.

9€.

15,5

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cake — Prolonging the Magic

I've got wheels of polished steel, I've got tires that grab the road. I've got seats that selflessly hold my friends and a trunk that can carry the heaviest of loads.

I've got a mind that can steer me to your house and a heart that can bring you red flowers. My intentions are good and earnest and true, but under my hood is internal combustion power. . .



And Satan is my motor,

Hear my motor purr!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Quinta do Quetzal — Reserva '2008

Alentejano das proximidades da Vidigueira, foi elaborado a partir de Syrah (70%), Cabernet Sauvignon (15%) e Alicante Bouschet. O produtor tem presença na internet: aqui fica o respectivo enlace.

Da ficha técnica: As uvas (...) são arrefecidas até uma temperatura de 15ºC, depois são desengaçadas e ligeiramente esmagadas para dentro de um balseiro de carvalho francês. A fermentação ocorre durante 8 dias, a uma temperatura de 26ºC, com 4 ou 5 remontagens diárias (...) Após a fermentação alcoólica, o vinho é colocado em barricas de 225l, de carvalho francês, onde vai estagiar durante 12 meses.

Escuro e maduro, de perfil meridional, rico em manifestações de frutos negros doces, quase sumarentos, entremeados com notas de compota e especiarias. Bastante madeira — não pau, madeira, e bem integrada — trouxe ao conjunto tosta, caramelo e café. Mais curioso achei certo nítido traço de abacate que inicialmente pensei advir da barrica, mas não. Na boca, sem surpresa, revelou-se um vinho simples mas grande, intenso e muito composto, já com um mais que razoável nível de polimento e algum final. Novo-mundista q.b., sim.

Embora seja possível que venha a ganhar alguma coisa com uns anitos em garrafa, está mais que pronto a abrir e servir de imediato, sem arejamento de maior. Aliás, foi assim que bebemos esta garrafa, a acompanhar bifes grelhados e batatas fritas: comunhão feliz de coisas simples, mas não triviais.

A garrafa foi gentilmente cedida pelo produtor; o preço andará por volta dos 14 ou 15€.

16,5

domingo, 4 de dezembro de 2011

Julian Reynolds '2006

Alentejano de Arronches; o produtor tem presença na internet. Alicante Bouschet, Aragonês, Trincadeira e Syrah. Após desengace total, as uvas fermentaram em balseiros Seguin Moreau, sendo que parte do lote estagiou posteriormente em barricas da mesma tanoaria durante 12 meses. Isto conforme a ficha técnica que o produtor disponibiliza aqui.

Este é fácil de dizer: generosos frutos silvestres, vermelhos e pretos, maduros, sobre fundo de chocolate especiado. Passas e compotas, não encontrei. Madeira sim, mas só para temperar. Não é um vinho gordo, longe disso. Mas a firmeza, a frescura, a boa concentração de sabores que apresenta são suficientes para convencer. O final, mediano, fez-me lembrar papaia.

Enfim, ou o percebi mal ou este é um vinho que aparenta andar à procura de um estilo ainda pouco, mas felizmente cada vez mais fácil de encontrar na região de onde vem. E isto é louvável, e com as devidas afinações só pode prometer coisas boas. Vamos ver as próximas colheitas.

7€.

16

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Mezquiriz — Tempranillo '2009

Produzido por Vineris para o Lidl, trata-se de um varietal Tempranillo da DO La Mancha atenção, isto não faz dele um Valdepeñas, como li algures aí pelas internets. Sobre o processo de vinificação e subsequente estágio, como de costume, nada é adiantado. Porquê?

Foi servido a 17ºC. Citando directamente o caderninho negro do álcool: Frutos vermelhos, razoavelmente maduros, cerejas e outros, e especiarias, tudo suave e algo indiferenciado, sem grande impacto. Morde a acidez no ataque à boca, mas não se prolonga. No mais, corpo ligeiro, paladar seco; estrutura polida, mas negligenciável. O final, curto.

Sinceramente, achei-o muito menos interessante que o seu meio-irmão branco.

3€.

13

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

XXI

So the infant came and the rain stopped, and the vast black cloud parted across the firmament like a leaden curtain and all the people of the valley beheld the glory of the blue and saw the great sun in the sky. And they raised the babe heavenward so that she might be the first to feel the warm breath of atonement and so that their God would see that the incarnate token deposited upon the monument steps had not passed unnoticed and that the dual miracle was indeed fully understood, one to one and never to be forgotten. And, falling to their knees, wailing and weeping, it was God and the babe whom they praised and praised — this frail bundle juggled, hand to hand, so brightly glowing, bound in its swaddling cloth, this miracle, this reward of faith — upheld and jostled, thus, aloft.

Nick Cave, And the Ass Saw the Angel, 1989

domingo, 27 de novembro de 2011

Vila Flor '2010 (Branco)

Foi feito com Malvasia Fina, Gouveio e Rabigato. As uvas, desengaçadas, foram submetidas a uma prensagem suave, seguida de fermentação em cuba de inox, a 14ºC, durante 10 dias. Em jeito de complemento, aqui deixo aos eventuais interessados link para a respectiva ficha técnica. Encheram-se 6000 garrafas.

Persistente na frescura, na acidez quase mordente com que se fez à boca, prolongando-se pelo palato médio. Seco, pareceu-me essencialmente cítrico, com um curioso travo a fazer lembrar pólen de flores brancas. Acompanhou frango de churrasco sim, parece que a noite do churrasco + vinho branco se tornou por estes lados uma espécie de instituição e mais uma vez ficou bem.

Tal como a outra, esta garrafa foi gentilmente cedida pelo produtor; o preço expectável, 3,99€.

15,5

sábado, 26 de novembro de 2011

Vila Flor '2009

Produzido e engarrafado pela Soc. Agrícola da Casa D'Arrochella, Lda. para Quinta da Peça, Gestão de Exploração Agrícola e Turismo, Lda. Vila Flor. Esta marca associa-se usualmente a azeite, mas [do press release que acompanhava as garrafas] este produtor duriense quer transportar essa mais-valia também para um vinho criado através das mais recentes técnicas enológicas, levando a todos os consumidores a paixão posta num projecto marcado pelo estilo «Novo Douro».

Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Touriga Nacional. Citando a ficha técnica, a vinificação deu-se em lagar e vinificadores com pás rotativas, com tempos de rotação e temperaturas controladas. Não passou por madeira.

Rubi, escuro. Fruta jovem, creio que mais preta que vermelha, em corpo de esguio a mediano. Sóbrio, com boa acidez e alguma estrutura. . . taninos já maduros, beba-se. Final curto. Simples e correcto, acompanhou (boas) febras de porco grelhadas. Entre a prova, a comida, alguma má TV e a correspondente converseta, acabou por não chegar ao segundo dia.

O preço recomendado pelo produtor é de 3,99€.

14,5

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Filmes (37)





Outro filme sobre assassinos em série. Desta vez, inspirado neste indivíduo, que infelizmente ainda vive. Não sei até que ponto se poderá considerar um filme de terror. Se sim, então terá sido dos mais conviencentes que vi nos últimos tempos.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Quinta de Gomariz — Loureiro '2010

De volta ao vinho, às provas. Desta vez, o espécime testado, um varietal Loureiro da Quinta de Gomariz, Sub-Região do Ave. As vinhas estão implantadas em solos graníticos com exposição a Sul; o mosto fermentou em inox e o vinho resultante foi engarrafado sem passar por madeira. Nesta colheita, encheram-se 30000 garrafas.

Simples e directo, um pouco à imagem da coisa contada, encontrei-o intenso e muito fresco; persistiu na boca com agulha bem integrada. Louro, flor de laranjeira, ervas verdes, toranja, lima, alguma densidade, bastante equilíbrio e levíssimo amargor no final. Gostei.

Acompanhou frango no forno, muito simples. Sim, este branco não tão ligeiro assim, com 11,5% de álcool, acompanhou frango no forno com grande competência. Misturei numa taça uma colher de chá de orégãos com meia colher de chá de rosmaninho e outra meia de tomilho, quatro dentes de alho esmagados e duas colheres de sopa de manteiga derretida. Com essa mistura, esfreguei o espaço situado entre a pele e a carne do animal; na cavidade, chamemos-lhe assim, enfiei-lhe um limão. Seguidamente atei-o e esfreguei-o por fora com sal, pimenta preta recém moída e pimentón ocal (deste). Foi ao forno pré-aquecido a 220 ou 230ºC, algures entre uma hora e uma hora e meia, até ficar bem.

Para acompanhar, cozi bróculos ao vapor; batatas também. Depois de escorridos, salteei os vegetais com tomilho, azeite e alho.

5€.

16

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Some wines are made by assembly line; unflawed, perfect and perfectly boring. Others are less predictable, sometimes showing the little quirks that make wine lovers shiver with excitement.

Earth, usually the mark of a European wine, can add that frisson. In Burgundy, that means leaves rotting on the forest floor. It could also be rich, loamy compost. Or the dusty smell of bone-dry corrals and wind over the barren prairie. Oh, wait, that's my lawn.

Do you like your Riesling regular or unleaded? This grape is famous for developing aromas of diesel, although some people prefer to call it honeycomb, another waxy, petrol product. Cat pee shows up commonly in Sauvignon Blanc, especially in the twangy, New Zealand variety.

These are good things. A bad one is the cork-born contaminant, TCA, usually described as musty, dank basement, wet cardboard, or dirty gym socks.

If your nose tingles from lively acid or from the black pepper odors in wines like Syrah and Grüner Veltliner, that's lovely. If it prickles from sulfur dioxide, like when you smell a burnt match, or from the vinegary sting of volatile acidity, that's a problem.

Let's recap:

Damp Forest: good / Damp Cellar: bad.
Garage: good / Locker Room: bad.
Tingle: good / Prickle: bad.

How's a neophyte to know?

Often good and bad are the same chemical at work, in different concentrations. A small amount of ethyl phenol gives left-bank Bordeaux its sophisticated, mens-club aroma of tobacco and new saddle leather. Too much, and you get sweaty saddle and the horse it rode in on.

Since a hint of this can garner very high ratings, winemakers sit around figuring out how to encourage it without letting the responsible yeast and bacteria get out of hand and take over the winery.

The "correct" amount is purely subjective. Some people like more funk in their wine than others. It tends to be a European taste.

Which begs the question: do we expect, tolerate, even like funky stuff in wine simply because for so long it couldn't be prevented? Should wine, ideally, be totally clean, tasting only of fruit?

Might as well ask if blue cheese should be bleached, or if jerky should be re-hydrated. Lots of food that began as an accident ended up a delicacy.

Once you've been introduced to the gross things in good wine, you can decide for yourself what's a fault and what's a beauty mark. The only fault we can all agree upon — by far the worst — is the one where the cork is out of the bottle and there appears to be no wine inside.


Jennifer Rosen,
Waiter, There's a Horse in my Wine,
2005

sábado, 19 de novembro de 2011

Vinha da Pala '2008

Será o mais simples dos vinhos produzidos pela Soc. Agrícola e Comercial Vale da Corça — aqui fica o enlace para o respectivo sítio na internet. Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Franca e Tinta Barroca; o contra-rótulo indica estágio de dez meses em barricas de carvalho francês.

Alcoólico, acre e vegetal. E ainda assim, de alguma forma, quase plano, sem substância. No mais, o perfil achado foi o típico de qualquer Douro jovem, com madeira. Não ofendeu, mas também não conseguiu despertar-me qualquer tipo de interesse.

Face ao que me habituei a encontrar nos vinhos desta casa, fiquei desiludido.

3€.

13

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Valdazar '2005

Da Campolargo. Trincadeira da Bairrada, Touriga Nacional, Baga e Tinta Barroca. As uvas fermentaram juntas e o vinho resultante fez a fermentação maloláctica e posterior estágio em barricas de 300l, de carvalho francês, novas e usadas. Encheram-se 13536 garrafas em Setembro de 2006.

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Muita cor. Curiosas sugestões de marmelos e flores brancas, amargas, a par com as notas predominantes de ginja bem madura e demais frutos pretos. Também o vegetal terroso característico da casta Baga se fez sentir do princípio ao fim da prova. Folhas secas? Macio na boca, mas não gordo, perdurou pouco, com frescura. O suficiente para confirmar o engraçado conjunto mostrado ao nariz. Folhas secas, bergamota? Drink up.

6,5€.

15,5

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mudhoney — Superfuzz Bigmuff + Early Singles

Sweet young thing ain't sweet no more, mama found her draped over the toilet bowl.

Oooh!

Mama said, "child, what you done? Wake up and greet the midday sun!"

Sweet young thing ain't sweet no more, mama's little pills spilled all over the floor,

Oooh!

Mama can't handle her on her own. She says, "you just wait till your father gets home"!


#2, Sweet Young Thing (Ain't Sweet No More)

domingo, 13 de novembro de 2011

Quinta da Mata Fidalga — Prestige '2008 (Branco)

Bairradino da Quinta da Mata Fidalga; o sítio do produtor na internet justifica uma visita. O lote, 30% Chardonnay, 30% Maria Gomes, 30% Bical e 10% Arinto. Do contra-rótulo: Após arrefecerem em câmara frigorífica, [as uvas] foram desengaçadas e esmagadas, maceraram a 10ºC e foram prensadas sob vácuo. Após clarificação o mosto fermentou em barricas de carvalho francês e em depósito de aço inoxidável. Depois disso, passou 6 meses em madeira.

Por entre flores e frutos brancos indiferenciados, rosas e folha de louro. Travozinho adocicado na boca, em pano de fundo, que inicialmente me fez lembrar certo tipo de muscat cujo perfil nunca me agradou particularmente, mas que acabei por conseguir contextualizar — e era apenas disso que estava a precisar no momento. Fresco, com algum corpo. Final mediano. Se já entrou na curva descendente, estará no princípio. Beba-se, no entanto, por via das dúvidas.

7€.

15,5

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Salada de Bacalhau

Conforme prometido, indicado (ou o que for) no último post, aí fica a receita de peixe com que acompanhámos o respectivo branco. Nada de inédito ou especial, até acho que a tirámos de um folheto qualquer do Lidl, mas impressionou pela positiva.

Ingedientes: 600g de bacalhau, de preferência lombo; uma lata de grão de bico com aproximadamente 800g; quatro ovos cozidos; quatro dentes de alho finamente picados; uma cebola média, picada fina; 50 a 75ml de azeite; 3 colheres (de sopa) de maionese; sal, pimenta, salsa e azeitonas pretas a gosto.

Preparação: Utilizou-se bacalhau pré-demolhado, congelado: foi só descongelar, desfiar e colocar numa taça. Juntou-se ao bacalhau a cebola e dois dentes de alho, azeite e pimenta; rectificou-se o sal. Numa taça à parte juntou-se azeite, maionese e o resto do alho. Deitou-se o grão, fervido e posteriormente escorrido, na taça da maionese. Mexeu-se bem. Depois de o grão estar morno, juntou-se o bacalhau, azeitonas e ovos; levou-se a mistura resultante ao frigorífico. Tirou-se do frio duas horas antes de servir; polvilhou-se com salsa picada, decorou-se com este molho de pimento.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Bétula '2010

Da Quinta do Torgal, Barrô. À semelhança dos seus predecessores de 2008 e 2009, consiste numa combinação em partes iguais de Viognier fermentado em madeira e Sauvignon Blanc fermentado em inox. Produziram-se 5000 garrafas. Como o sítio web do produtor aparenta ainda não estar disponível, aqui deixo um enlace para a respectiva ficha técnica.

Foi servido a 12ºC. Maracujá e queijo? Ou maracujá e alperce, mais provavelmente. Outros aromas se foram levantando com o passar do tempo no copo, sempre em torno de sugestões de frutos de caroço e tropicais. Apesar dos predicados serem praticamente os mesmos, pelo menos no papel, algo me pareceu ter mudado face às colheitas anteriores. Mais fruta, mais peso, maior doçura, o verde mais discreto. Na boca, ainda assim, bom porte e frescura. Ligeiras notas de barrica, bem integradas. O final, médio/longo. Não me pareceu tão bom como o do ano anterior, que estava quase glorioso, mas não deixa de ser um belo branco. Uma segunda garrafa acompanhou a receita do post seguinte, surpreendentemente ou não, com grande competência.

O preço deverá situar-se na faixa entre os 12 e os 15€.

17

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Château Chanteloiseau '2006

Bordalês de Graves. Da Wikipedia (que boa fonte, e cada vez melhor, apesar de tudo o que de vez em quando uma ou outra alma iluminada se lembra de dizer) — The name Graves derives from its intensely gravelly soil. The soil is the result of glaciers from the Ice Age, which also left white quartz deposits that can still be found in the soil of some of the top winemaking estates.

Do mesmo produtor, já por aqui passou este tinto. Foi feito a partir de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc (60, 25, 15%) de vinhas com idades entre os 40 e os 50 anos e existe a indicação de que aproximadamente um quarto do lote estagiou em madeira.

Pouca fruta, verdoenga, e especiarias. Fresco e equilibrado, com certa presença / estrutura. Algum vegetal seco. Enfim, um vinho decente, fiel à origem, mas pouco mais que isso. O contra-rótulo aponta um prazo de envelhecimento de 10 a 15 anos. Preciso de provar um Graves assim, modesto mas sólido, com uns bons anos de garrafa em cima, para aprender. Bebi-o com perna de peru assada.

6€.

14,5

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sopa Fria de Pepino e Menta

Exemplo de comida para o vinho do post anterior; não estou com paciência para entrar em grandes detalhes. Digamos apenas que esta é uma sopa fria elaborada no espírito desta sanduíche. E não, a receita não é nova. Se tivesse grandes invenções para partilhar, sei lá, vendia-as?

Pelo menos, de certeza que não as punha aqui.


Ingredientes:

1 pepino grande; 380g de iogurte natural; 1½dl de nata; 6 folhas de hortelã-pimenta; 2 colheres (de sopa) de sumo de limão; 2 colheres (de chá) de vinagre balsâmico; sal e pimenta preta a gosto.


Preparação:

Rala-se grosseiramente o pepino com casca e junta-se-lhe a hortelã, cortada em juliana fina. Adiciona-se o iogurte, a nata, o vinagre e o sumo de limão; mistura-se tudo muito bem. Tempera-se com sal e pimenta moída na altura. Serve-se fria. Pode, inclusive, levar-se para a mesa com um ou dois cubos de gelo.

É comida de Verão, vem um bocado fora do tempo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quinta de Cabriz — Colheita Seleccionada '2010 (Branco)

Malvasia Fina, Encruzado, Cerceal Branco e Bical. Terá sido dos últimos feitos por Carlos Lucas na Dão Sul.

Clarinho e muito fresco, com predominância de sugestões cítricas, a fazer lembrar limão. Fugaz, no entanto. Pena.

E pronto, é só. Não tenho muito a dizer dele, o que nem por um momento quer dizer que o tenha achado mau. Aliás, não recordo uma única vez em que tenha feito má figura quando combinado com algo leve. Isto quer dizer, logo à partida, que é um vinho a que de vez em quando vou voltando. E que face ao seu congénere tinto, que tão bom nome tem, na minha humilde opinião, sai a ganhar.

3€.

15

domingo, 30 de outubro de 2011

Palomar Creek — Zinfandel "Old Vine" '2009

Varietal Zinfandel da Califórnia, one of the most diverse wine regions in the world, with almost 100 grape varieties grown in over 100 viticultural areas, including dozens of ­different microclimates and soil types, as well as a very individualistic set of ­winemakers, many with international experience, which adds to and deepens that diversityCellarTracker.

Como na maioria dos vinhos estrangeiros que se encontram no Lidl, quase nada é adiantado quanto ao produtor ou processo de elaboração. Falam apenas de vinhas velhas, pouco produtivas, sumo concentrado. Ainda bem, talvez.

Aberto e vertido directamente no copo. Cor rubi. No nariz, intenso e característico cheiro a frutos de polpa branca, especialmente pêras, misturado com notas de especiarias e bagas vermelhas, pouco maduras. Impressões que o sabor acompanha. Tem frescura, algum corpo, taninos macios e o final é médio / curto.

Segundo dia: Figo, cassis e as especiarias de ontem. Menos pêras. Curioso, parece que os frutos vermelhos enegreceram. Terá sido do sol? Fim de boca a fazer lembrar alcaçuz. Zin típico, vagamente adocicado. Pareceu-me mais fácil de beber que objectivamente bom.

Acompanhou codornizes, receita simples, com pão.

4€

15

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Milénio '2008

Outro da Coop. de Penalva do Castelo. Não os conheço pessoalmente, mas gosto deles. Motivos? Assim de repente, aqui ficam dois (1, 2). Foi feito a partir de Tinta Roriz e Touriga Nacional, fermentou a temperatura controlada (isto usualmente quer dizer que foi feito um esforço no sentido de a manter baixa) e passou por ligeiro estágio, 3 meses em carvalho americano e francês.

Simples q.b., mas rico em cor e corpo, cheiroso e sumarento. Ao contrário do sugerido pelo rótulo ao falar de nova abordagem do "Milénio", aparenta manter o perfil do de 2006. Ainda bem! Para quê mudar quando fazê-lo implica o risco de estragar algo bom?

Bebi-o com frango de churrasco.

3€.

15,5

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Casa Aranda — Malvasia Fina e Encruzado '2008

Ora aqui está um branco para os primeiros dias de frio. Não objectivamente branco de Inverno, pelo menos não corresponderá ao cliché do branco gordo e adocicado, de preferência velho, com falta de acidez. . . mas de alguma forma está lá. E o rótulo, como os demais da marca, tão giro.

Veio daqui. O contra-rótulo fala de "fermentação em inox e pequena parte em barricas de carvalho francês". Oh, o estilo, man, group. . . Carvalho francês, talvez a mais comum expressão neste blogue. Jesus, que amargo :)

Servido a 10ºC, foi aquecendo com o passar do tempo. Pouca cor. Seco e elegante, com algum corpo. Flores amargas, mijo de gato, tremoço e relva cortada de fresco sobre fundo persistente de casca de limão. Este o mais perpassante e definido aroma que lhe encontrei, um pouco como se fosse o pano de fundo a definir o cenário, mesmo não estando o palco vazio.

Pouca flor, pouca fruta. Mas bastante daquela neutralidade refrescante a que uns chamam mineralidade, outros vazio, outros coisa nenhuma. O álcool sente-se, mas não se impõe. E para não vos iludir, ou sabe-se lá se não deveria antes dizer dissuadir com a descrição desinspirada, para simplificar, terminarei dizendo, apenas, que gostei.

5€.

15,5

sábado, 22 de outubro de 2011

Filmes (36)





Um filme agradável. Sexploitation, my ass. Bem sei que as escolhas cinematográficas aqui do blog tornam fácil imaginar-me um velhinho sujo. Heh.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ACQUAINTANCE,

n. A person whom we know well enough to borrow from, but not well enough to lend to. A degree of friendship called slight when its object is poor or obscure, and intimate when he is rich or famous.

'n The Devil's Dictionary, Ambrose Bierce, 1911 e antes.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Marquês de Marialva — Selecção do Cinquentenário '2003

Continuam a perguntar-me porquê ainda e só notas de prova, porquê vir para aqui falar de vinhos como se tivessem caído do céu já engarrafados. . . Olhem, porque não sou um académico. Não tenho pepitas de sabedoria vitícola ou enológica a partilhar convosco. E porque as histórias do vinho que sei, são velhas, estão mais que contadas. E porque, no mais, isto do vinho é um negócio. Dinheiro. Paixão? Alguma, aqui e ali. Mas no geral, paixão o caralho, a menos que seja pelo dinheiro. E afinal, que interessam os boatos do ano? No fim, o post sai igualmente inútil. Mas, se por um lado menos sumarento, por outro também muito menos feio. Talvez seja a Natureza a procurar repor o equilíbrio. Enfim, adiante.

Um dos vinhos da semana passada: monocasta Baga da Coop. de Cantanhede. Diz o contra-rótulo que as uvas foram criadas em protecção integrada, que o mosto fermentou 18-20 dias a 22-25ºC e que o líquido resultante estagiou durante 6 meses em barricas de carvalho francês antes do engarrafamento. Relevante será também o estágio em garrafa, mais de meia dúzia de anos que muito terão contribuído para o seu estado presente.

Baga evoluída, com ginja e folha de tabaco, especiarias quentes, indefinidas, azeitona parda. . . A fruta ainda rica, escura. Muitas passas, licor também. Os aromas e sabores que foi proporcionando mostraram-se acessíveis, de tal forma que chegou a parecer um vinho fácil. Um vinho com estes predicados, fácil! A acidez aguenta o perfil morno sem sobressair (isto é difícil, sobretudo quando a temperatura sobe) e os taninos, claramente amaciados pelo tempo, ainda dão de si. Terminou com bonitas sugestões de framboesa. Não tendo impressionado, aconchegou-me durante um jantar de cabrito assado — a sua missão foi cumprida.

9€.

16

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Morgado de Sta. Catherina — Reserva '2008

Arinto de Bucelas, da Quinta da Romeira. Fermentou a 18ºC em barricas de carvalho francês, 80% das quais, novas. O estágio deu-se sur lie, com bâtonnage. O que um gajo faz para evitar a palavra borras.

Intenso e razoavelmente complexo. Por ordem de chegada: abacaxi doce, maracujá, pêra-nashi . . . ligeiro fumado, talvez pimenta? . . . tremoço, palha? Já a presença de flores, curiosamente, foi coisa que não notei por aí além.

Sabor amanteigado, com peso, mas, mesmo assim, bastante fresco. A madeira nota-se mais que no nariz. No entanto não é coisa que lhe fique mal, traz-lhe certo ar de solenidade. O final é longo — faz tempo que não punha aqui um vinho do qual pudesse dizer isto.

É branco de Outono, um branco muito bom.

8€.

17

domingo, 16 de outubro de 2011

No-Knead Bread

Adapted from Jim Lahey, Sullivan Street Bakery
Time: About 1½ hours plus 14 to 20 hours’ rising

3 cups all-purpose or bread flour, more for dusting,
¼ teaspoon instant yeast,
1¼ teaspoons salt,
Cornmeal or wheat bran as needed.




1. In a large bowl combine flour, yeast and salt. Add 1 5/8 cups water, and stir until blended; dough will be shaggy and sticky. Cover bowl with plastic wrap. Let dough rest at least 12 hours, preferably about 18, at warm room temperature, about 70 degrees.

2. Dough is ready when its surface is dotted with bubbles. Lightly flour a work surface and place dough on it; sprinkle it with a little more flour and fold it over on itself once or twice. Cover loosely with plastic wrap and let rest about 15 minutes.

3. Using just enough flour to keep dough from sticking to work surface or to your fingers, gently and quickly shape dough into a ball. Generously coat a cotton towel (not terry cloth) with flour, wheat bran or cornmeal; put dough seam side down on towel and dust with more flour, bran or cornmeal. Cover with another cotton towel and let rise for about 2 hours. When it is ready, dough will be more than double in size and will not readily spring back when poked with a finger.

4. At least a half-hour before dough is ready, heat oven to 450 degrees. Put a 6- to 8-quart heavy covered pot (cast iron, enamel, Pyrex or ceramic) in oven as it heats. When dough is ready, carefully remove pot from oven. Slide your hand under towel and turn dough over into pot, seam side up; it may look like a mess, but that is O.K. Shake pan once or twice if dough is unevenly distributed; it will straighten out as it bakes. Cover with lid and bake 30 minutes, then remove lid and bake another 15 to 30 minutes, until loaf is beautifully browned. Cool on a rack.

Yield: One 1½-pound loaf.


Originalmente publicado na secção Dining & Wine do New York Times de 8/11/2006.

sábado, 15 de outubro de 2011

Quinta de Covela — Colheita Seleccionada '2001

Touriga-Cabernet estagiado em barrica, de S. Tomé de Covelas, Entre-Douro-e-Minho. Em jeito de predicado, link. Bem, falemos antes do vinho.

A cor, granada, surpreendeu pelo tom escuro, bem mais jovem que o esperado. Assim que o levei ao nariz, presenteou-me com tamanha carga de futum (volátil) que fiquei na dúvida sobre se estaria próprio para consumo. Acontece no entanto que este começou a levantar bastante depressa, deixando para trás um vinho seco, todo ele feito de impressões verdes e castanhas, azeitonas e especiarias, sem traços de flores ou fruta, mas ainda cheio, estruturado, com acidez, firmeza de sabor, até alguma envolvência. Um pouco acre, mas que desde logo deixou a impressão de ter aguentado bem os anos em garrafa. Ocorreu-me uma experiência: abri outra garrafa e deixei-a pernoitar com a rolha voltada ao contrário, no frigorífico.

Segundo dia: mais vivo à hora do almoço, de certa maneira a fazer lembrar este. Bebi 1/3 com fiambre e tomate temperado com sal, azeite e orégãos (há dias em que almoço assim) e devolvi o restante ao frigorífico. Ao jantar encontrava-me perante um vinho ainda mais limpo. Mais especiarias, menos azeitona, muito vegetal carnento de Cabernet atlântico e ainda alguma fruta negra. Coeso e muito bonito, convenceu.

9€.

16,5

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Marquês dos Vales — Grace Vineyard '2007

Algarvio da Quinta dos Vales, baseado em Aragonês, Cabernet Sauvignon e Castelão. A ficha técnica, que se pode consultar aqui, fala de maceração a frio, fermentação alcoólica em inox e maloláctica em barricas de carvalho francês, seguida de estágio. Dele se encheram 13000 garrafas, não numeradas.

Foi bebido a 16/18ºC. Das impressões deixadas, destaque para bons frutos vermelhos, envoltos em notas de flores e especiarias, não só mas sobretudo abaunilhados, traço indelével dos dezoito meses que passou em barrica. Revelou-se um vinho de perfil fino e delicado, bem mais próximo do Dão que do vizinho Alentejo, que tanto na expressão da fruta como na forma como a barrica a compõe me trouxe à memória este, quase de caras.

No entanto, tal comparação não o beneficiou, já que acabou por evidenciar certa falta daquele misto de força e concentração a que eu, simplificando, sempre gostei de chamar miolo. Também deixou mais à vista que, provavelmente, a barrica nunca vai chegar a integrar-se por completo.

12€.

15,5

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Daddy

You do not do, you do not do
Any more, black shoe
In which I have lived like a foot
For thirty years, poor and white,
Barely daring to breathe or Achoo.

Daddy, I have had to kill you.
You died before I had time

Marble-heavy, a bag full of God,
Ghastly statue with one gray toe
Big as a Frisco seal

And a head in the freakish Atlantic
Where it pours bean green over blue
In the waters off beautiful Nauset.
I used to pray to recover you.
Ach, du.

In the German tongue, in the Polish town
Scraped flat by the roller
Of wars, wars, wars.
But the name of the town is common.
My Polack friend

Says there are a dozen or two.
So I never could tell where you
Put your foot, your root,
I never could talk to you.
The tongue stuck in my jaw.

It stuck in a barb wire snare.
Ich, ich, ich, ich,
I could hardly speak.
I thought every German was you.
And the language obscene

An engine, an engine
Chuffing me off like a Jew.
A Jew to Dachau, Auschwitz, Belsen.
I began to talk like a Jew.
I think I may well be a Jew.

The snows of the Tyrol, the clear beer of Vienna
Are not very pure or true.
With my gipsy ancestress and my weird luck
And my Taroc pack and my Taroc pack
I may be a bit of a Jew.

I have always been scared of you,
With your Luftwaffe, your gobbledygoo.
And your neat mustache
And your Aryan eye, bright blue.
Panzer-man, panzer-man, O You


Not God but a swastika
So black no sky could squeak through.
Every woman adores a Fascist,
The boot in the face, the brute
Brute heart of a brute like you.

You stand at the blackboard, daddy,
In the picture I have of you,
A cleft in your chin instead of your foot
But no less a devil for that, no not
Any less the black man who

Bit my pretty red heart in two.
I was ten when they buried you.
At twenty I tried to die
And get back, back, back to you.
I thought even the bones would do.

But they pulled me out of the sack,
And they stuck me together with glue.
And then I knew what to do.
I made a model of you,
A man in black with a Meinkampf look

And a love of the rack and the screw.
And I said I do, I do.
So daddy, I'm finally through.
The black telephone's off at the root,
The voices just can't worm through.

If I've killed one man, I've killed two

The vampire who said he was you
And drank my blood for a year,
Seven years, if you want to know.
Daddy, you can lie back now.

There's a stake in your fat black heart
And the villagers never liked you.
They are dancing and stamping on you.
They always
knew it was you.
Daddy, daddy, you bastard, I'm through.


12 October, 1962.
(S.Plath)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Union de Producteurs de Saint-Emilion '2008

Produzido pela Cave Cooperative de L'Union de Producteurs de Saint-Emilion (link). Embora o rótulo não adiante absolutamente nada a respeito do conteúdo da garrafa para além da proveniência, rapidamente se nota tratar-se de um lote com elevado teor de Merlot, provavelmente em redor dos 70%, complementado com os costumeiros Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon. Também o método de produção terá sido o usual, com fermentação alcoólica em cubas de cimento e maloláctica em barrica, seguida de estágio, muito embora este vinho não tenha brilhado no que concerne a manisfestações objectivas de identidade regional. Mas isso são outras histórias.

Inicialmente bastante fechado, o nariz repleto de notas de especiarias, noz moscada, cravinho, canela, tabaco, acabou por revelar com o arejamento uma dose não negligenciável de fruta vermelha, framboesa e cereja, sempre delicada, com certa ligeireza. Ao mesmo tempo, na boca, fruta mais escura, roxa e negra, mais robusta, embora longe de sumarenta, complementada por algo vagamente especiado mas não verde, ligação bonita que acaba por harmonizar dois conjuntos com diferenças bem perceptíveis.

Com o avançar da refeição que o vinho foi acompanhando, e ainda mais ao segundo dia, as coisas como que se uniformizaram. É aqui que se emite um juízo de valor: fruta decente, alguma complexidade, um porte mais que razoável, taninos, finura, estrutura, comprimento idem. . . equilíbrio agradável, aliás, até alguma elegância. E de forma alguma durará mais 20 anos mas, muito provavelmente, estará melhor daqui a 4 ou 5.

Ou seja, não emocionando, é porreirinho.

10€.

16

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Rol de Coisas Antigas '2008

Da Campolargo. As uvas, Baga, Castelão, Trincadeira da Bairrada, Sousão, Bastardo, Alfrocheiro, Tinta Pinheira e Alicante Bouschet de vinhas com idades entre os dez e os quinze anos, dizem, fermentaram juntas "tanto quanto possível", em pequenos lagares com pisa mecânica. O vinho daí resultante sofreu a fermentação maloláctica em barricas usadas, onde depois foi repousou durante um ano.

Escuro, focado em frutos negros, sobretudo ameixa e figo, apresenta agradáveis notas de ligeiro mentol, terra e chá. Maduro, mas também sério, com grande acidez. Robusto, cheio de taninos densos e ainda jovens. Com o tempo mostrou sugestões razoavelmente nítidas de framboesa, bem como chocolate amargo e algo a fazer lembrar almíscar.

É um vinho de recorte clássico, certamente ideado para acompanhar comida. Que comida? Praticamente qualquer prato de carne não light, arriscaria dizer. É ainda um vinho que apresenta dualidades curiosas: apesar do carácter maduro, não é nada doce. Sendo inequivocamente profundo, não é, nem creio que alguma vez venha a ser um portento de complexidade. E não obstante o esforço de afinação que se nota, os taninos ainda parecem granulosos... coisa que, neste caso, não representa vulgaridade!

É daqueles vinhos, enfim, sobre os quais é fácil falar pouco. Comece-se no entanto a tentar escavar e tudo se turva, instala-se a confusão. No fim, serão mais coisas do vinho, da palavra ou minhas? Provavelmente, o melhor será calar-me. Podia ter poupado tempo, o meu e o vosso, se tivesse resumido tudo isto em meia dúzia de palavras: frutos pretos, acidez, intensidade, juventude, coesão. E para parecer mais humano, podia ter terminado: bebam à mesa. Certamente não estaria a enganar ninguém.

9€.

17

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

In the popular mind the so-called voodoo doll is the most well-known of such effigies, and many tourists have brought such souvenirs home from their visits to New Orleans or Haiti where Voudun (Voodoo) is practiced as a religion. Over the years, the portrayal of a voudun priest or priestess sticking pins into a doll that represents someone who has incurred their wrath has become so common that such effigies or puppets are known collectively as voodoo dolls. Actually, such figures have no role in the religion of voodoo, and the practice of sticking pins in dolls or poppets (puppets) is a custom of Western European witches, rather than the Haitian or Caribbean practitioners of voudun. Perhaps the misunderstanding arose when outsiders who witnessed certain rituals saw the followers of voudun sticking pins in the figures of saints or guardian spirits. Such acts are done not to bring harm to anyone, but to keep the good force of magic within the object.

One method of effigy cursing calls for the magician to fashion a wax or cloth skeleton and to inscribe the name of the intended victim on its back. The image is then pierced with a thorn or a sharpened twig in the area corresponding to the victim's body part that the sorcerer desires to inflict with pain. Once pierced, the skeleton is wrapped in a shroud and prayed over as if it were a deceased person. When the death rites have been accomplished, the effigy must be buried in a spot over which the intended victim is certain to walk.


Brad & Sherry H. Steiger, The Gale Encyclopedia of the Unusual and Unexplained, vol. 1; Thomson Gale, 2003; ISBN 0-7876-5383-7.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Marquês de Marialva — Maria Gomes '2009

100% Maria Gomes da Adega Coop. de Cantanhede. A ficha técnica respectiva fala de prensagem suave, separação das partes sólidas por flotação, fermentação a baixa temperatura durante duas semanas e bâtonnage em cuba por 4 meses.

Cor citrina. No princípio, cheirinho doce a rosas e outras flores. Depois, e cada vez mais, sobretudo com a passagem pela boca, limonete e pomóideas maduras, de polpa mole e sumarenta. Ainda curiosas notas de fósforo de riscar, só uma ou outra, nada de perturbador. Agradavelmente untuoso, de corpo não negligenciável e acidez melhor integrada que o do post anterior, junto com o qual foi aberto. O final, médio / longo.

Ambos os vinhos acompanharam bifes de frango e pães de queijo: desta vez, a receita da Wiki parece boa o suficiente.

E de vinho em vinho se vai mantendo o tasco aberto. Mas, o vazio! Por um lado, ao repetir milhentas vezes a mesma receita, sinto o interesse a perder-se. Por outro, parece-me fútil pretender dar cara de novidade a coisas que na verdade não o são. Talvez deva, simplesmente, deixar aqui mais de mim. No entanto, para quê?

3€.

15,5

Encosta de Mouros — Bical '2010

Hoje ponho aqui os vinhos de um dos jantaritos da semana passada. Dois brancos varietais da Bairrada, dois vinhos cheios de carácter, francamente capazes de agradar, e ainda por cima, duas excelentes relações qualidade-preço. Primeiro abriu-se este monocasta Bical da Adega Coop. da Mealhada, sobre cujo processo de vinificação nada de conclusivo encontrei.

Foi servido a 10ºC. Pouca cor. No nariz, pêssego, tremoço, erva-cidreira, flores amargas, alguma sapidez. Um nariz atlântico, estivera eu tentado a divagar! No mais, faz-se de frescura em corpo curto e magro, mas não esquálido, e sabor limonado, com toque de fundo curioso, a fazer lembrar grão cozido. Limpo e seco, branco para comida. Ainda muito jovem, deixou-me curioso sobre como reagiria a um par de anos em garrafa.

2€.

15

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

The kid survived. He survived the best or the worst the enemy had to offer. Among his captors he became an awesome legend, an insane, grinning devil. Once they put the screws to him and he agreed to confess. He confessed that he had been snatched from a mental institution for violent patients. "Hell," he said, "that's where the U.S. Army got most of us. I thought you people knew that. We either came from nut houses or joints where they got the worst hoodlums locked up. You don't think they'd send anybody over here they gave a damn about, do you?" For some time this prize confession created a considerable stir among the Red big domes. He was full of stunts like that until starvation and mistreatment beat him down almost to the point of death. Still he grinned and hate sustained him.

The gentle and courageous young chaplain who had ministered to the kid following his capture and who had been a special target for persecution by the enemy was attacked by a raging fever and dysentery. A living skeleton now, it was obvious he wouldn't live long unless he received prompt medical attention. Notified of his condition, the guards either pretended not to understand or shrugged indifferently. The kid called on the last of his strength to raise hell and to get the others to do the same until he was allowed to talk with the camp's military commander and its chief political officer, both of whom spoke English. (This was at a time when peace talks had been renewed and the Reds were all seeming benevolence. On some levels, that is.)

"The padre needs a doctor bad," the kid said. "I think he's dying."

"No doctor," the political officer said.

The kid grinned and murder glittered in his sunken eyes. "You want him to die, don't you, you bowlegged little bastard?"

The slap cracked like a snapped tree branch.

"Pig! American slime! I should have you shot for insolence! The political officer's pitted face was mottled with rage. He barked some words of command in Chinese to one of the guards. This scowling fellow stepped forward, his submachine gun ready.

"Go ahead," the kid taunted, still grinning. "Tell your pinheaded stooge to shoot. And then tell the world what supermen you are. Uncle Mao'll probably give you a medal. But get the padre a doctor!"

The political officer, recalling with a shudder how earlier encounters with this fearless, imbecilic one had ended so disastrously, shook his head helplessly. "You handle this insane American dog," he snapped, and stalked off, vowing doubtless to take care of the kid when the present soft policy was canceled.

"Well?" the kid said.

The commandant was tough but not cruel. His look was speculative and a quirk of a smile appeared fleetingly at the corner of his lips. "I wasn't aware you were a religious man," he said.

"I'm not. What the hell's that got to do with it?"

"Nothing. I'll send a doctor."

"Thanks."

The commandant kept his word. Two hours later a Chinese doctor came to see the delirious chaplain.

"Hopeless case," the doctor said in pidgin English. "Die soon. Too bad." He left.

The kid cursed — and kept a long vigil. Some time after dawn the delirium slowly lifted and the chaplain's fever-bright eyes, set in a gaunt face, began to focus.

"It's me," the kid said. "How do you feel?"

"All right."

"Then that damn slant-eyed sawbones was wrong. You're going to be okay."

The chaplain knew the Chinese doctor hadn't been wrong. He didn't doubt that he was dying. But this was no cause for alarm. He waited for the end calmly, without fear. He prayed and then he spoke in a whisper to the kid about an unwrathful God, an unviolent future, a better world. His last words to the kid were "Seek Him, put hate behind you, and try to find yourself."

The kid looked long at the chaplain's wasted body with its bloated abdomen. The padre was a good guy, the kid thought. He had guts.

And faith.

And he was dead. The kid wasn't.

Caryl Chessman, The Kid Was a Killer, 1960.

domingo, 2 de outubro de 2011

Casa da Passarela '2008

Apesar de apenas agora se estar a relançar — afinal, quem ou o que é que o levou à queda? — este produtor de Lagarinhos — Gouveia tem uma longa história, isto é, simplificando, quiçá de mais, vinhos muito bons durante muitos anos. Reza a lenda que se usaram uvas desta quinta na elaboração do Barca Velha e é facto que no presente, é de uma das suas vinhas que sai parte da matéria-prima do também sobejamente conhecido PaPe, de Álvaro de Castro.

Quanto ao exemplar abatido, trata-se de uma proposta de posição intermédia no portfolio do produtor. Nele predomina a fruta ao mesmo tempo madura e fresca que é usual encontrar-se nos tintos jovens do Dão. Mais vermelha que preta, arriscaria dizer. Mais concentração que peso ou persistência. Tudo redondo, tudo correcto, o álcool bem integrado e o final curto. Simples, limpo e apelativo, precisamente aquilo que se espera de um Dão jovem da sua gama.

3€.

15

sábado, 1 de outubro de 2011

:)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Vallado '2010 (Branco)

Rabigato, Verdelho, Viosinho e Arinto. O mosto fermentou em bica aberta, ou seja, depois de prensadas as uvas, separado das partes sólidas, durante cerca de um mês, a uma temperatura entre 16 e 18ºC, tendo a maior parte do vinho resultante sido sujeito a um estágio de cinco meses em cubas. Diz ainda a ficha técnica resumida com que o produtor nos presenteia no seu sítio da internet que 10% do lote final passou igual período a apurar em meias pipas de carvalho francês.

Foi servido a 10ºC. A cor fazia lembrar sumo de maçã. Se tivesse de o reduzir a meia dúzia de palavras, uma delas teria de ser cítrico, dado que me trouxe recordações de lima e coisas que aconteceram em lugares e momentos com cheiros de lima presentes: estas associações enganam muito menos que aquilo que um indivíduo inicialmente é levado a pensar.

Cítrico, então, mas pouco, pelo menos de forma objectiva. E de tropical, não lhe encontrei nada. Pareceu-me mais expressivo nas flores silvestres, nas folhas e ervas molhadas, um cheiro algo primaveril, a campo depois da chuva. Diferente do habitual, felizmente cada vez menos. No mais, encontrei-o macio, fresco e equilibrado, de final agradável. Notei-lhe ligeiríssima doçura, em pano de fundo e apenas na boca. É um vinho a que não falta presença, apesar da expressão suave e de um peso, se tanto, apenas mediano.

6€.

16

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Giroflé — Loureiro '2010

Da VDS. A ficha técnica fala de uvas da casta Loureiro entre os rios Sousa e Tâmega, em vinhas com exposição predominante sul-poente de encosta, fermentação com tecnologia a frio, em ambiente redutivo, com temperatura controlada por volta dos 16ºC, recorrendo a processos muito suaves de esmagamento e prensagem sob atmosfera inerte, seguido de maceração pelicular e estágio de 5 meses em inox.

Quase sem cor. À vista, levíssima agulha, que depois praticamente não se nota. Sempre muito fresco, com lima, louro, flores brancas, sal — maresia, no nariz e na boca. Ainda algo vagamente carnoso, ou talvez umami, fonte de interesse adicional. Final médio, a amargar um pouco. Na minha humilde opinião, um bom representante da casta. Para marisco grelhado.

5€.

15,5

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Para que se me comprenda mejor debo recordar aquí un momento crucial que los actores y yo vivimos durante el rodaje de La montaña sagrada: después de dos meses de preparación, encerrados en una casa sin salir a la calle, durmiendo sólo cuatro horas diarias y haciendo ejercicios iniciáticos el resto del tiempo, más cuatro meses de intenso rodaje, viajando por todo México, ya habíamos perdido la relación con la realidad. El mundo cinematográfico había tomado su lugar. Yo, poseído por el personaje del Maestro, una especie de Gurdjieff injertado con el mago Merlín, me había convertido en un tirano. A toda costa quería que los actores lograran la iluminación. No estábamos haciendo un filme, estábamos filmado una experiencia sagrada.

¿Y quiénes eran esos comediantes que, atrapados también por la ilusión, aceptaban ser mis discípulos? A uno, un transexual, lo había encontrado en un bar de Nueva York, el otro era un galán de telenovelas, y luego mi mujer, cargando su neurosis de fracaso, y un admirador americano de Hitler, y un millonario deshonesto que había sido expulsado de la Bolsa, y un homosexual que creía hablar sánscrito con los pájaros y una bailarina lesbiana y un cómico de cabaret y una afroamericana que, avergonzada de sus antepasados esclavos, decía ser piel roja. Mi idea, al contratar este ramillete, me había sido inspirada por la alquimia: el estado primero de la materia es el lodo, el magma, el «nigredo». De él, por sucesivas purificaciones, nace la piedra filosofal, que transforma los metales viles en oro.

Estas personas, sacadas del montón, de ninguna manera artistas teatrales, al finalizar la película debían estar convertidas en monjes iluminados. Buscando los sitios mágicos, habíamos escalado todas las pirámides aztecas y mayas que los servicios de turismo en gran parte han reconstruido. Así es como llegamos a Isla Mujeres y pudimos contemplar las maravillosas aguas azul turquesa del mar Caribe, por fin algo auténtico. Decidí entonces realizar una experiencia fundamental: después de lograr que todos se raparan, yo inclusive, hice que nos embarcáramos en un pequeño barco camaronero. Al cabo de una hora de viaje, estuvimos en altamar. Un círculo verdiazul resplandeciente nos rodeaba. El maravilloso océano llegaba hasta el horizonte circular con sus enormes pero tranquilas olas.

Agrupé a los actores alrededor de mí y les dije, en un estado de trance: «Vamos a saltar y sumergirnos en el océano. El alma individual debe aprender a disolverse en aquello que no tiene límites». No sé lo que pasó en ese momento. Ellos me miraron con ojos de niño, ofrendándome una fe que en verdad no merecía. Di entonces un grito de karateka y salté, empujando al grupo hacia el mar. Apenas me hundí recibí una gigantesca lección de humildad. Nos habíamos arrojado disfrazados de peregrinos estilo sufí. Calzábamos gruesas botas, pantalones bombachos, fajas alrededor de la cintura, camisas amplias y abrigos largos, también sombreros alones. Los sombreros no fueron problema, simplemente no se hundieron. Pero los trajes, en un segundo se empaparon de agua adquiriendo un peligroso peso. Me sentí caer hacia las profundidades marinas como una piedra, un descenso que duró una eternidad. De golpe el mar entero se comprimió contra mi cuerpo, con su inconmensurable potencia, su insondable misterio, su monstruosa presencia.

Estaba atrapado en ese vientre sobrehumano sintiéndome más pequeño que un microbio. ¿Quién era yo en medio de ese colosal ser? Me agité cuanto pude, sin tener la seguridad de salvar mi vida, era posible que continuase hundiéndome hasta el oscuro fondo. No se me ocurrió rezar ni implorar ayuda, no tuve tiempo. La enorme masa de agua me lanzó hacia la superficie. La zambullida había durado escasos segundos y sin embargo emergimos todos a unos quince metros del barco. En tierra quince metros son poca cosa, en altamar equivalen a kilómetros. No se me había ocurrido pensar que allí moraban tiburones y otros peces carnívoros. En la embarcación los pescadores, tratándonos de gringos locos, se agitaban improvisando un salvamento. Nosotros en cambio, adiestrados por esos meses de ejercicios iniciáticos, esperamos calmadamente, con la parte individual borrada por las olas, convertidos en un ser colectivo.

La piel roja, dando suaves manotazos, declaró que no sabía nadar. El nazi resultó campeón de natación: la tomó por la barbilla y la hizo flotar. Corkidi, el fotógrafo, olvidando completamente que su tarea era filmar tales trascendentales momentos, lanzando maldiciones, ayudó a arrojarnos un salvavidas atado a una larga cuerda... El que estaba más cerca de la embarcación, el millonario, lanzó el flotador hacia su vecino, el pajarero, que, recitando un mantra, a su vez se lo lanzó a otro, y así y así nos fuimos uniendo agarrados a la cuerda. Sin esa calma habríamos podido ahogarnos todos.

Subimos al barco en medio de un silencio religioso. Nos desvistieron, nos envolvieron en toallas. Comenzamos a temblar. Cuando recuperaron el uso de sus mandíbulas, los actores, más el fotógrafo, sus ayudantes y los pescadores de actores, más el fotógrafo, sus ayudantes y los pescadores de camarones, comenzaron a insultarme. Sólo dos se quedaron silenciosos. El cómico, que en el filme tenía el papel de un ladrón, símbolo del Yo primitivo y egoísta, se había comportado como tal: sin preocuparse del grupo, apenas emergió del agua nadó con toda la fuerza de su desarrollada musculatura hacia la nave. También falló mi mujer: fue la única que no saltó. Se quedó en la cubierta, mirándonos, paralizada o bien incrédula. A causa de esto, algo entre nosotros se cortó para siempre. Allí mismo nos dimos cuenta de que nuestros caminos seguían derroteros diferentes. Comprendí que, para llegar a mí mismo, tenía que despojarme de esa lepra que era el terror al abandono y aceptar mi soledad para poder llegar un día a una genuina unión con los otros.

En cambio los intérpretes declararon que se habían dado cuenta de que les importaba un pepino llegar a ser monjes iluminados, y que lo único que deseaban era convertirse en estrellas de cine. La inmersión en el mar Caribe había sido un error que les serviría de lección: ya nunca más obedecerían a mis locuras de director. Para comenzar, exigieron un buen desayuno, con zumo de naranja, huevos, tostadas, cereales, mantequilla, mermelada, más el cese de toda improvisación ajena al libreto. En caso contrario, dejarían de filmar... Para mí aquello fue una experiencia esencial. Supe que de ahí en adelante tendría el valor de enfrentarme al inconsciente, sin dejarme invadir por el terror, sabiendo que siempre la barca de mi razón arrojaría una cuerda para recuperarme.

A. Jodorowsky, La Danza de la Realidad, 2001.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

João Pires '2010 (Branco)

Falar do que se bebe pode ser engraçado, mas também acaba por se tornar cansativo. Então quando se tenta manter um registo exaustivo daquilo que se vai consumindo! Então quando o que se consome nem sempre tem muito a dizer! Oh amores, e para quê? É esta a pergunta que se impõe: para quê? Abençoada S- que viu a luz. Julgam que a gaja deixou de cozinhar? Que me deixou? Deixou foi de ter paciência para as belinhas e luisinhas deste e doutros mundos, lol. E eu, que raio ainda aqui ando a fazer? Muito pouco, fofinhos, muito pouco.

Querem coisas de mim? Ora tomem: ando a tentar emagrecer. Abater a pança. E hoje dormi mal. Mas dormi mal de propósito, planos alternativos, à preto velho que quer ganhar dinheiro para levar vida honesta na terra dos brancos, preto velho a tentar levar vida honesta e não tem sorte, tché! :P

Anteontem vi o belíssimo Teorema, um Pasolini, coisa usualmente entendida pelo imaginário popular como um peso com potencial nutritivo, algo como pães de queijo para o pensamento, mas a que encontrei uma enorme capacidade de entreter. Que coisa sexy, caralho. Acompanhou na perfeição um humilde Cruz "Colheita" que trouxe da Figueira e mais um ou dois canequitos de Havana Club . . . as respectivas postas acabarão, eventualmente, por passar por aqui, garante-mo esta vidinha saudavelmente pouco preenchida :)

Dizia, adorei o filme. Lavou-me a alma. Melhor, só se estivesse sentado por trás da Mi a mexer-lhe nas mamas, em vez de deitado mais ou menos ao lado dela, mole e cheio de gases, enquanto o via. Então se tivesse haxe do fixe! Ah, por falar nisso, meu deus, como me apetece fazer uma valente temporada de ganza, andar por aí todo senil, a fazer asneiras, cambalear pelas ruas às sete da manhã, velhinhas que passam a caminho do mercado a chamarem-me desgraçado! E a vizinhança, na terra natal, a comentar entre dentes. . . coitadinha, ela não era assim, enlouqueceu porque tinha um filho que se meteu na droga . . .

Ui, o pavor! :P Hum, olhem, tenho andado a gostar da deliciosa menina Dahl. A princípio tomava-a como apenas mais uma representante do chamado food porn, isto é, basicamente, um entretém para panisgas, enfim, vós, leitores, gente educada, sabeis a que me refiro. Mas não, a gaja é porreira, só que é necessária alguma abertura de espírito para se lhe chegar. É daquelas gajas muito girly, coisa que frequentemente traz mal entendidos. No outro dia falou sobre playlists e deu-me vontade de fazer uma. Vocês iam curtir milhões se publicasse! Pelo menos aqueles que de entre vós não forem completamente estúpidos — nisto das internets, um gajo nunca sabe ao certo quem o visita.

Beeem! Depois blá blá blá o hate mail, não me poderei queixar. Mas porque raio isto tudo antes de falar de um vinho? O post ia ser só sobre o vinho, aliás, já tinha o texto preparado no CryptEdit, só que depois colei-o aqui e, de súbito, o resto apeteceu-me. Quanto a vinho, enfim, têm apetecido brancos! Talvez seja de saber que vem aí a chuva.

E há dias comprei este, que é um varietal Moscatel produzido e engarrafado por José Mª da Fonseca — já agora, porque é que não o mencionam no respectivo sítio web? Adiante! Moscatel, nota-se assim que se leva ao nariz, pelas flores! É ligeiro, fresco, seco e sem sinais de barrica. Muito simples, muito simples. . . Louro, maracujá, um corpito vagamente untuoso, nem de desportista nem voluptuoso, talvez como eu, médio/médio, com uma panceta. Um magro gordo. Como diriam as velhinhas amigas, compostinho. A acidez pareceu-me cítrica, não objectivamente refrescante, e apesar de bem casada com os restantes elementos do conjunto, face a apenas 11,5% de álcool, podia ter feito outra figura. O final, curto. No global? Simples, correcto e em todo o caso, eficaz quanto baste. Sou bem capaz de voltar a comprar.

Bebemo-lo com carapaus grelhados.

4€.

14,5