domingo, 16 de janeiro de 2011

Cape Mentelle — Shiraz '2003

As vinhas de Cape Mentelle localizam-se no extremo sudoeste da Austrália, nas imediações de Margaret River, junto ao Oceano Índico. Aqui, o clima é relativamente fresco, temperado pela influência marítima, sem grandes oscilações de temperatura ao longo do ano, e o solo é maioritariamente composto por camadas de cascalho dispostas sobre leito granítico, capaz de proporcionar às videiras boa drenagem. Monocasta Syrah parcialmente fermentado em madeira, este vinho passou 18 meses em barrica antes de ser engarrafado.

Primeira impressão: pouco aroma. Cheiros varietais, sobretudo ameixa preta, levemente apimentada, mais próxima da austeridade presente nos espécimes do Vale do Ródano que da calorosa opulência característica dos vinhos do sul do seu país. Com o aumento de temperatura, cresceram notas de especiarias quentes: canela, cravinho, noz moscada, pimenta?!, bem como curiosas nuances de mel de acácia. Tudo suave, fraquinho, mas muito bom.

Também na boca entrou pálido, de sabor esmaecido, sem grande volume, apesar da boa persistência e, mais importante ainda, do manifesto equilíbrio entre as partes. Juro que demorei a perceber que talvez se tratasse de uma questão de estilo, uma vez que falha evidente não lhe conseguia encontrar, e o certo é que, passado o choque da não correspondência com a coisa esperada, comecei a pensar nele, talvez com ele também, e a desilusão inicial foi diminuindo. Reparei que os 14,5% de álcool estavam mesmo muito bem integrados, que a acidez, não sendo vincada, estava presente, que a fruta, apesar do calor especiado que como que dela se libertava, se mostrava fresca, que o sabor, apesar dos cheiros melados, era limpo, seco, bastante elegante...

Está naquele ponto em que deixou de ser completamente primário, ainda revelando alguma aresta — não valerá a pena guardá-lo mais tempo. Não sendo um vinho fácil, o facto é que consegue agradar bastante, sobretudo quando nos concentramos naquilo que tem a dizer.

25€.

16,5