terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Velharias (29)

São três e trinta e sete da madrugada. Há três dias que M se foi embora, mas continuamos meio mortos em casa dele. Só temos saído para comprar tabaco. A droga acabou há cerca de doze horas. Tudo se decidiu em alguns minutos, no hiato entre o fim da charrada de Sexta-Feira à noite e o primeiro sol de Sábado, quando Z, um velho drogado sem emprego que carrega os estigmas de uma licenciatura em Direito e dois divórcios e que agora nos acompanha, tanto latiu e roeu que M lá acabou por transigir em deixá-lo a tomar conta da casa, com direito a chave e trinta euros de semanada no bolso: um extrazinho por ter sido um menino bem comportado nestes últimos dias. Mas agora M foi-se; e nós? Estaremos a tomar conta do Z? A manhã de ontem acordou animada. Tomámos banho com a janelinha que dá para o centro de emprego aberta, brinquei à porrada com A e ouvimos Nirvana em altos berros. Love Buzz! Comemos uma carbonara fixe. Mas, não sei porquê, fomo-nos desentendendo. Deixámos de nos falar. Tranquei-me ao fim da tarde neste quarto que já foi de A' e deixei-os a vegetar diante do televisor, sem tabaco. Já não os podia ver; tamanha a náusea. Tomei 60mg de buspirona para acelerar o tempo. Voltei há pouco à sala e ainda lá estavam, estão. A e Z, acordados, reclinados no sofá, não se moveram um centímetro. Drogadíssimos. Nenhum de nós tem motivos para permanecer aqui à excepção de Z, que não tem mais onde ficar.

(Mais 80mg de buspirona.)
Janelas abertas deixam passar o vento quente da noite que escoa por entre traseiras de escritórios bem no centro da cidade toda ela sombras recortes negros recantos lúgubres ruídos transportados por traços incandescentes chamados Asas, charcos de mágoa sobre rodas e seus retratos: ruídos: luz e som.

Zumbidos distantes sobre arcos, os automóveis cruzam a A1. Um morcego que habita as traseiras guincha, esvoaça, abeira-se da janela que deixei aberta. Chamará por mim? E se entrar? Diz Z que cada homem constrói o seu próprio Paraíso. "Não tanto realidades, eu vivo de realizações", diz ele. De realizações e do meu dinheiro, hah! O Paraíso! E o meu, onde está? Empurro mais doze unidades de Ansiten 10 com um resto de chá preto. Distracções: por vezes a verdade mascara-se de mentira. Confusões: as coisas existem, mas nada é verdadeiro, as coisas de pouco valem. Contradições: não devemos confundir a coisa em si com o valor que lhe atribuímos. Não?

Estou doente. Que força me prende a esta cama? O vento pegajoso lá de fora escorre por mim abaixo como se precisasse de a que se agarrar.

17/7/2003