segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Velharias (30)

"Onze, quarenta e seis... onze, quarenta e seis... onze..."
Não sei porque o faço, mas sempre que aguardo um comboio no cais de uma estação, dou por mim a repetir maquinalmente a combinação carruagem/lugar que me está reservado, possuído de um certo nervosismo que me é imposto por força superior à minha vontade, como se tivesse medo de algo, sem que lhe possa chamar medo, uma vez que é um medo sem objecto. No fundo, nada.

Adoro passear de comboio. Viciei-me nestas escapadinhas clandestinas a que de vez em quando me proponho, não pelo desejo de conhecer lugares novos, muito menos por haver alguém a esperar-me no destino. De facto, não sei o que me leva a continuar, mesmo depois do rebate de consciência que me aguarda no regresso, que eu devia ter ido às aulas, ou estudado, ou simplesmente ficado quieto, obedecendo à rotina podre que me ofereceram, faz já três anos.

Lembro-me, por vezes, de visitar Lisboa. Qualquer Lisboa, a cidade impossível onde não aceitaria morar por nada deste mundo, o imenso reciclador de sentimentos que me aborrece quando, ao chegar, decido não avisar ninguém e abraço o nada que se me depara, facilmente traduzível num "e agora? como é que vou passar o tempo?" que nunca satisfaz.

Sinto-me morrer, perdido num mar de gente que não me diz nada, cada um deles com a sua vida, algo em que pensar, algum sítio para onde ir, todos tão iguais em quase tudo, tão ínfima... tão indefinidamente diferentes quando pensam no colectivo e se esquecem de que são únicos. E eu, não o faço? Pois claro que sim. Só me sinto único nos grandes momentos, quando estou perdido e desamparado no meio da multidão, sempre a tentar convencer-me de que não me encontro no lugar certo.

E talvez tenha razão. A Lisboa de plástico enoja-me. Não consigo deixar de pensar em gado humano, em campos de concentração, em formigas, almas de plástico moldadas em massa, cada vez menos únicas, aparentemente felizes com as mesquinhezes a que se entregam. Ferem-me com a sua presença. Odeio-os. Oh, como se estas reflexões não fossem elas próprias o produto de coisas pequenas e pouco comendáveis...

A Lisboa mais in deprime-me. Parar no Gambrinus ou ficar a vegetar durante boa parte da tarde no bar de um hotel qualquer, sozinho, é triste. Apenas triste. Como regressar do funeral de um amigo. Por outro lado, esta Lisboa mais cara é também menos movimentada, um gajo fica um pouco mais à vontade. E não raras vezes tento mesmo acreditar na boa vontade dessas pessoas que tão arduamente tentam mascarar a vulgaridade que representam, talvez até distanciá-la um pouco, claro que apenas e só em troca de dinheiro. Nunca consegui.

Invariavelmente desinteresso-me, resolvo partir. 533! Esforço-me sempre por voltar no 533 "Braga". É um comboio diferente: por um lado, acalma-me, por outro, como que me absorve a vontade, faz deprimir. Talvez por ser o comboio que apanho, por necessidade, quando regresso a Coimbra, vindo das visitas à família. Viagens que não são passeios, as estadias em Castelo Branco costumam ser pouco simpáticas, e é no 533 que tento pôr-me de novo em ordem, ciente de ter saído de um mal para me ir meter noutro, enviando uma mensagem pré-definida ao bom do Mário, a encomenda de mais uma placa.

Podia perfeitamente significar o princípio do esquecimento de uma realidade amarga, não fosse isso a face daquilo a que chamam desespero. Prefiro sorrir de mim para mim, quando não puder mais há sempre a morte, morte, morte que vejo reflectida nos meus companheiros de viagem, na maioria gente de uma certa idade, que já pouco pode esperar da vida, queira ou não, aceite ou não, heh, tudo o que foram agora ensombrado pela morte que se aproxima, cada vez mais, até que realmente os apanha, os convence da sua presença. Não há a quem pedir ajuda, resta-lhes seguir aquilo para que foram programados. Foram, fomos. Resta-lhes, resta-nos. Olho para eles e sorrio colaboradores.

Hoje, o 533 vai invulgarmente vazio. Abro o FT, mas não o consigo ler. Sinto uma profunda náusea, como se nenhum lugar fosse o meu, como se toda a minha vida fosse uma escapadinha à procura de nada. Vejo o rosto de uma rapariga reflectido no vidro à minha direita. Vai sentada no lugar imediatamente anterior ao meu e não me pode ver, pelo que me decido a segui-la com os olhos durante o resto da viagem.

É impossível que me consiga ver, mas age como se se soubesse observada. Posso estender o olhar para o infinito, aí deixo de vê-la, apenas fica a paisagem monótona que passa como que por um tempo diferente, o contrário de um still. Por pouco tempo. O espelho, transparente, teima em mostrar-me um rosto belo e triste, adivinha o que quero ver nele, e eu não o recuso. Não se mexe, limita-se a compor o cabelo de tempos a tempos.

Para ela, não existo, dado que não me vê. Estou, assim, infinitamente longe, embora a distância que nos separa não seja superior a um metro. Para mim, ela existe, observo os seus movimentos, sei-a. Hoje é o meu reality show privado, revejo nela o meu próprio representar, a comédia que forço perante uma audìência que talvez nem sequer exista. Constato, algo perplexo, que ela pode ser sem fazer a mínima ideia de para quem está a ser. Mais: pode ser, para mim, sem o saber ou mesmo sentir, e reflectir-me, a mim, no que dela procuro descortinar, naquele vidro meio transparente, meio espelhado, sem fazer absolutamente nada por isso. Para mim ou para qualquer outro que ocupasse o meu lugar, claro está. Poderia esse lugar ser tomado? Mas ser não é "conhecer e ser conhecido"?

Como pode ela existir para mim sem que eu exista para ela? Ao ganhar forma na minha consciência, torna-se bem mais que uma mera percepção, é em mim, o que implica conhecer-se, conhecer-me, e não apenas em potência. E poderá conhecer-me só pela minha vontade, só por mim, sem sequer ver em mim um objecto, dado que não me vê? Poderá ser e sentir, ser por si, só porque eu quis? Estranho, não é?

Acordo ainda antes de chegar a Coimbra. O sol põe-se num banho de sangue e ouro, um brilho que a vista não pode suportar. Encontro a cidade banhada nesta luz de dor, contraste perfeito com a frescura emanada pelo Mondego, sobre o qual passamos antes de terminar a viagem. Prometo-me uma sanduíche de presunto e um fino no Garcia, às vezes tenho gostos canalhas.

20/5/2002