quarta-feira, 8 de junho de 2011

Física e Filosofia, por L. de Broglie

Depois de terem assim lançado por terra algumas das antigas concepções da Física que nos pareciam sólidas, as teorias quânticas, realizando uma obra de reconstrução, introduziram outras concepções novas, cujo carácter de originalidade e profundeza é incontestável. Procedendo assim, essas novas teorias contribuíram poderosamente para o pensamento filosófico no que ele tem de mais geral.

Uma destas ideias novas é a de complementaridade, introduzida por Bohr. A dupla natureza corpuscular e ondulatória que tivemos de atribuir aos elementos da matéria levou-nos a pensar que uma mesma realidade se nos pode apresentar sob dois aspectos que, a princípio, pareciam irreconciliáveis, mas que, na realidade, nunca se encontram em conflito directo. De facto, quando um desses aspectos se patenteia, o outro esvai-se exactamente na medida necessária para que uma flagrante contradição possa sempre ser evitada. Uma complementaridade desta natureza, traduzida pelas incertezas de Heisenberg, existe entre o aspecto "onda" e o aspecto "corpúsculo" dos elementos últimos da matéria; uma outra parece existir para um sistema físico complexo entre o aspecto global, em que ele nos aparece como uma unidade orgânica, e o aspecto que no-lo faz considerar como um agrupamento de elementos autónomos. N. Bohr não receou generalizar a ideia de complementaridade mesmo para além dos limites da Física, como, por exemplo, para o domínio biológico. Para ele, num ser vivo, o aspecto vital e o aspecto físico-químico seriam por qualquer forma complementares. A descrição físico-química completa de um ser vivo exige uma análise tão radical das suas partes que, necessariamente, havia de produzir a morte do ser estudado, ao passo que o estudo das funções vitais obrigaria a ignorar grandemente as evoluções físico-químicas que se operam no mais íntimo dos tecidos e das células; seria, portanto, tão impossível descrever a vida unicamente pelas evoluções físico-químicas, como é impossível, em física atómica, descrever o corpúsculo unicamente pela onda, ou inversamente. Qualquer que seja o valor que se deva atribuir a tais extensões do conceito de complementaridade, não resta dúvida de que esse conceito é, em si mesmo, de grande importância, e parece susceptível de abrir horizontes completamente novos à reflexão filosófica.

Uma outra ideia nova é a impossibilidade de atribuir um determinismo rigoroso à sucessão dos fenómenos, pelo menos na escala corpuscular. O determinismo aparente das escalas macroscópicas deve, nas pequenas escalas, ceder lugar a um probabilismo que se contenta com calcular as eventualidades possíveis e as suas respectivas probabilidades. No estado actual da ciência, os físicos não podem passar para além deste probabilismo e encontrar nos fenómenos de escalas microscópicas o fio de um determinismo rigoroso. Podê-lo-ão um dia? Apesar da prudência que se deve usar em matéria de previsões desta natureza, pode-se, no entanto, afirmar que isso parece agora pouco provável. Os filósofos terão de discutir em que medida esses resultados são compatíveis com o princípio da causalidade e verificar se eles permitem manter tal princípio sob a sua forma clássica, ou obrigam a modificá-lo um pouco. Como já procurei mostrar numa comunicação que fiz ao Congresso Descartes de 1937, subsiste certamente na Física quântica uma causalidade fraca, no sentido de que todo o efeito tem sempre uma causa e que a supressão da causa tem sempre como consequência o desaparecimento do efeito; não se encontra, porém, ali a causalidade forte, em que o efeito resulta necessariamente da causa e lhe está ligado por um determinismo rigoroso. A causalidade fraca permite supor que uma mesma causa possa produzir um ou outro de vários efeitos possíveis, apenas com uma certa probabilidade de que tal efeito se produza, e não outro. Os físicos, numa escala tão reduzida, não chegam a encontrar senão esta causalidade fraca: aos filósofos pertence examinar se podem contentar-se com ela.

Partindo do princípio de que os fenómenos mais importantes da vida se passam no interior das células, ou mesmo dos núcleos celulares, em escalas de natureza atómica, a impossibilidade de estabelecer, em tal escala, um determinismo rigoroso aparecerá sem dúvida como um factor capaz de desempenhar um papel essencial na evolução das nossas ideias pelo que diz respeito à vida, e talvez seja mesmo susceptível de trazer novos elementos para muitos problemas tradicionais da filosofia.

Há ainda uma outra questão sobre a qual o desenvolvimento da Física lançou uma nova luz. Poderemos conhecer a realidade física de uma maneira objectiva, independentemente dos processos empregados para a conhecer? Por outras palavras: podemos desprezar ou, pelo menos, pôr à margem as perturbações que os nossos métodos de observação ou de medida podem introduzir no estado das entidades físicas que pretendemos descrever? A estas perguntas, a Física actual responde negativamente. Em consequência da existência do quanta de Acção, é impossível diminuir indefinidamente a reacção dos nossos processos de observação sobre os elementos muito subtis que temos de observar para descrever o mundo atómico. É fácil verificar que, reduzindo mesmo ao mínimo essa reacção, ela terá sempre como resultado introduzir no nosso conhecimento do estado das entidades físicas elementares as incertezas previstas pelas relações de Heisenberg. Esta impossibilidade de considerar separadamente o objecto observado e o processo de observação conduz, portanto, ao indeterminismo quântico tal como acima se definiu. Esse indeterminismo está intimamente ligado ao quanta de Planck e desaparece praticamente quando se trata de escalas macroscópicas em que o quanta se torna desprezível. Os partidários da causalidade forte podem pensar que, se fosse possível examinar mais pormenorizadamente as interacções entre o objecto observado e os meios de observação, se restabeleceria o determinismo, visto que o indeterminismo aparente seria então simplesmente atribuível à insuficiência dos nossos conhecimentos; mas a existência do quanta de Acção parece ter como resultado o ser completamente impossível proceder-se a tal análise. O determinismo não parece, portanto, demonstrável para a ciência humana e, se ainda esse princípio se mantém, é simplesmente como um postulado metafísico.

Sugerindo-nos a complementaridade das noções de elemento e de sistema, e mostrando-nos que o indivíduo perde a sua personalidade à medida que se funde num organismo que a engloba e volta a encontrá-la à medida que se isola, a Física nova fornece-nos sugestões de uma originalidade e de uma riqueza de conteúdo extremamente grandes, das quais a Filosofia em geral e a Sociologia podem tirar grande proveito. É certo que, para utilizar tais sugestões, se torna necessário ultrapassar o sentido literal dos resultados fornecidos, sempre sob uma forma prudente e precisa, por essa ciência exacta que é a Física; mas o papel dos filósofos não foi sempre tentar essas extrapolações audaciosas, que muitas vezes repugnam ao espírito mais positivo dos sábios?


Louis de Broglie, 'n Para Além da Ciência (L'Avenir de la Science), trad. portuguesa do Prof. Eduardo Pinheiro, (Livraria Tavares Martins, Porto, 1942), pp. 37-41.