sábado, 29 de dezembro de 2012

Strassmann proposed an elegant experiment whereby they would use barium chloride to carry the "parent" radioactive substance out of the irradiated uranium solution. Barium chloride precipitates in perfect crystals which can be relied upon to be clean of any of the numerous transuranic elements also unquestionably produced by the irradiation. The apparatus was simple and inexpensive: a tube containing a uranium compound was exposed to neutrons, emitted by a source comprising one gram of radium mixed with beryllium and slowed down by a block of paraffin wax, a source many times weaker than the cyclotrons at the disposal of foreign countries. The irradiated uranium solution, now containing the mysterious 3,5-hour substance among a host of other elements produced by the neutron bombardment, was mixed with barium chloride; the crystals formed now contained the minute quantities of what were believed to be radium isotopes. The presence of these isotopes was confirmed when the crystals were checked with Geiger-Müller counters whose pulses were amplified by a simple amplifier powered by scores of Pertrix HT batteries stacked under the wooden bench. The amplified pulses triggered clockwork counter-mechanisms, which Hahn, Strassmann and their two assistants read at fixed intervals, to establish the half-lives of the radioactive substances they had produced.

It was a difficult experiment; the minute quantities of these new radioactive substances were choked by masses of non-radioactive barium chloride crystals, and this led to a routine attempt to separate the supposed "radium" isotopes from the barium carrier, so that the radioactivity of the isotopes could be examined more conveniently. To separate the "radium", they would use their familiar process of fractional crystallization, the process which had originally been used by Mme. Marie Curie to isolate radium. Hahn and Strassmann had performed this experiment many times before, and were thoroughly familiar with it.

When they applied the method now, however, they found to their surprise that they could achieve no extraction of the supposed "radium" isotopes at all.

Was there some error in their technique? During the third week in December, Hahn decided upon a control experiment: he repeated the fractional crystallization, substituting this time a known radioactive isotope of radium — thorium-X — in the solution for their own supposed "radium" isotopes, and diluting the solution until it showed as little radioactivity as their "radium" had. This control experiment went just as it should: a few atoms of the genuine radium isotope could be separated from the barium carrier just as theory had predicted, so there was nothing wrong with their technique.

On Saturday, December 17, Hahn and Strassmann were stil thoroughly bewildered by this unexpected turn of events, but the truth was gradually dawning upon them; that day they repeated the two experiments, simultaneously this time, with both their artificial "radium" isotope and the natural radium isotope mesothorium-I in the same solution, the latter isotope acting as an "indicator". These radioactive traces were carried out of the uranium solution by the same barium carrier, precipitated and fractionally crystallized together — an extraordinarily complex experiment, confused and fouled at every stage by the production of families of radioactive decay products from all the ingredients. At each stage of the crystallization, samples of the barium crystal were tested for radioactivity: the Geiger–Müller counter showed beyond doubt that the mesothorium — the genuine radium isotope — was concentrating from one stage to the next as it should, while their own artificial "radium" isotope was not. The latter was uniformly distributed among the barium crystals sampled at each stage — as uniform as the barium itself. The uniformity was strange, but significant. That night, Hahn wrote in his diary: "Exciting fractionation of radium/barium/mesothorium".

He himself was in doubt no longer: what they had believed to be a radioactive isotope of "radium" could not be separated from barium by any chemical means, because it was in fact a radioactive isotope of barium.

The slow-neutron bombardment of uranium — the heaviest naturally occurring element on earth — had yielded barium, an element not much over half its weight. The uranium atom had burst asunder. Despite the costly equipment of the great foreign physical laboratories, it was a German chemist working with the most primitive of equipment who had made the discovery that was to throw the world of physics into pandemonium.

in The Virus House — Germany's Atomic Research and Allied Counter-Measures; David Irving; Focal Point, 1967.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Redoma '2010 (Branco)

Da Niepoort. As uvas Rabigato, Códega, Donzelinho, Viosinho e Arinto, entre outras, diz a respectiva ficha técnica, de cepas com 40 a 80 anos, plantadas em altitude, fermentaram em madeira, tendo o vinho resultante estagiado sobre as borras finas durante os 9 meses seguintes, sem bâtonnage e sem maloláctica.

Foi servido fresco, directo da garrafa para o copo, quase sem arejar. Flores brancas e tremoço — basto Cerceal? Mais distintos, lá no fundo, ligeiro fumo e cheiro a rosas.

Na boca, mais melão, ou talvez meloa, e um equilíbrio notável entre corpo e leveza, entre frescor e redondez.

No fim, sem que me tenha cheirado a nada para além de vinho branco, sóbrio, trouxe-me à memória uma data de coisas. Isto é complexidade e finura. Os vinhos que consigo trazem disto são sempre bons.

Acompanhou polvo assado, uma das muitas variantes sem vinho tinto no tempero.

14€.

16,5

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Filmes (47)




Body horror, heh.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Eskuadro & Kompassu '2010

Engarrafado por Kompassus Vinhos, Lda, de Cordinhã, Cantanhede, este tinto consiste num lote constituído maioritariamente por Baga (60%), a que se juntou 20% de Touriga Nacional, 10% de Merlot e 5% de Cabernet Sauvignon e Tinto Cão. Reza o contra-rótulo que foi vinificado em lagar aberto e engarrafado em Dezembro de 2011, após 9 meses de estágio em barrica.

Ora, surge nesse mesmo contra-rótulo uma breve lista de sugestões de emparceiramento à mesa: carnes brancas, peixes gordos condimentados, tapas e queijos. E se mesmo antes de abrir a garrafa, face aos predicados antes referidos, achei algo estranho que não lhe aconselhassem companhia mais substancial, acabei naturalmente por confirmá-lo à mesa, uma vez que se trata de um puro Bairrada, fresco e firme, de alguma forma generoso na fruta e repleto de sugestões terrosas e vegetais. Muito coeso, muito bem acabado, aguentou perfeitamente um lombo de porco assado em cerveja.

5€.

15,5

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Luís Pato — Vinhas Velhas '2010 (Branco)

Bairrada Branco de Anadia, feito por Luís Pato (o sítio da web está bem fixe). Metade do lote é composto por Bical criada em solo argilo-calcário, sendo o restante Cerceal e Sercialinho, em partes iguais, ambas provenientes de solos arenosos. Fermentou e estagiou em inox durante 9 meses.

Vinho de uma complexidade ao mesmo tempo alegre e austera, difícil de dizer. Por um lado, pedra, musgo, humidade. Por outro, toque de casca de laranja e muitas flores brancas. E o conjunto aguenta-se perfeitamente! Passa pela boca cheio e elegante, surpreendentemente fácil.

Quando aberto, acompanhou uma salada de bacalhau parecida com esta, mas com pimentos assados de conserva no lugar dos ovos cozidos. Sobrou um bocadinho para a manhã do dia seguinte, que empurrou um grande cogumelo Eringi, Pleurotus eryngii, partido em três bifes, no sentido do comprimento, e salteado num pouco de azeite e alho, só com sal e pimenta em jeito de tempero. E pickles. E um bocadinho de pão muito escuro. Também se portou bem.

8€.

16,5

sábado, 15 de dezembro de 2012

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Casa Ermelinda Freitas — Petit Verdot '2010

Mais uma das boas garrafas que por aqui se têm consumido (já desisti de falar das outras), este vinho é um varietal Petit Verdot produzido e engarrafado pela Casa Ermelinda Freitas. As uvas vieram de cepas implantadas nos solos arenosos de Fernando Pó, que será um bom lugar para o desenvolvimento adequado da casta, de amadurecimento tardio, que gosta de calor e precisa de solo com boa drenagem. Conforme reza a respectiva ficha técnica, a fermentação ocorreu em cubas-lagar de inox, a temperatura controlada, com maceração pelicular prolongada, tendo o vinho resultante estagiado durante um ano em meias pipas de carvalho americano e francês.

Potente e original, rico em maracujá e frutos silvestres maduros, muito escuros, também em passa. Terroso, com grafite e ligeiras notas lácteas que faz tempo não encontrava num vinho. De corpo apenas mediano, tanto em volume como em persistência, mostrou sabor intenso, firme e equilibrado. Com o passar do tempo, apareceram no copo notas de caramelo e café. É vinho para bife e foi bebido com um.

8€.

16

domingo, 9 de dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Burmester — Colheita '2001

Vintage tawny da J. W. Burmester & Cª, envelhecido em cascos de carvalho de 550l nas caves da empresa, em Vila Nova de Gaia.

Escuro, castanho avermelhado, com os 20% de álcool bem enterrados apesar da sua compleição delgada, mostrou equilíbrio q.b. entre passas e frutos secos, com boas notas de evolução, pele e um toque de vinagrinho. Este último, seria mesmo? Coisas finas.

Mais: conseguiu parecer realmente fresco quando servido ligeiramente refrescado, o que não é, de todo, trivial.

No entanto, por muito que tenha gostado de algumas das coisas bonitas que me mostrou, não posso evitar a constatação de que no mesmo estilo e idade, já vi vinhos mais interessantes.

20€.

16

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Lavradores de Feitoria — Gadiva Reserva '2009

Douro moderno, honesto e bem feito, com aquela fruta e aquele mato que nem por um momento permitem que subsista qualquer dúvida sobre a sua origem, com corpo, textura e uma ponta de madeira solta. Mais intenso e troncudo que o colheita que lhe corresponde, terá, como o produtor adianta, algum potencial de envelhecimento — gosto sempre de perceber tal termo como margem de progressão.

As uvas, 50% Tinta Roriz, 35% Touriga Nacional e 15% Touriga Franca, fizeram-se vinho em cubas e lagares, com desengace total e macerações prolongadas, vinho esse que depois estagiou em barricas, novas e usadas, de carvalho francês.

Bebi-o ao cabo de um daqueles dias tristes, de chuva, em que só apetece ficar debaixo de cobertores, sem fazer nada, nem sequer pensar na vida que nos obriga a sair e enfrentar as feras lá fora, logo de manhã. Bebi-o com frango assado neste estilo. Comfort food.

6,50€.

15,5

domingo, 2 de dezembro de 2012

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quinta de Cidrô — Chardonnay '2010

Varietal Chardonnay da quinta que lhe dá o nome, sita em S. João da Pesqueira e propriedade da Real Companhia Velha. As uvas foram sujeitas a prensa pneumática e fermentaram primeiro em cubas com controlo de temperatura, depois em barricas novas de carvalho francês e americano. O vinho daí resultante estagiou sur lie, com bâtonnage, durante meio ano. Da colheita de 2010 resultaram 25000 garrafas.

De cor palha, carregada, abriu difícil, bafiento. Por baixo, e depois, com o tempo, cheiro firme e interessante. Espargos e manteiga, pão torrado, maracujá, caroço de pêssego. Na boca, fresco e encorpado, ao mesmo tempo, sem confusões. Não é um Chardonnay clássico. Nestes, espera-se fofura e delicadeza, ao passo que aqui, tudo aparece algo maior. Tem 14,5% de volume alcoólico! Mas não é desequilibrado nem mau. Antes, enfim, um branco com alma de tinto. Acompanhou salmão assado.

9€.

16

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Rogue Wave — Everyday


Everyday it's a-gettin' closer / Goin' faster than a roller coaster / Love like yours will surely come my way / A-hey, a-hey-hey. Tão bonito. Cover do clássico de Buddy Holly, por uma interessante (mas pouco falada, pelo menos por cá) banda de Oakland, CA, EUA — os Rogue Wave.

domingo, 25 de novembro de 2012

UDACA — Touriga Nacional '2008


Monocasta Touriga Nacional, será o topo de gama da UDACA. As uvas, de cepas implantadas em solos graníticos, fermentaram a temperatura controlada, tendo o vinho daí resultante sido apurado em barricas de carvalho Allier Fino, Americano e Russo, durante um ano. O produtor faz questão de referir que o vinho ainda estagiou mais seis meses em garrafa antes de ser lançado no mercado, mas isso, agora, já não conta muito.

Bom aroma, rico em fruta doce e bonita, ainda com toque sumarento, não obstante certa dose de transformação verificada. Algum licor, especiaria discreta. Na boca é gordinho e alegre, com a fruta a fluir fixe, a mostrar-se sem reservas. O final, médio/longo. Apesar do equilíbrio desde já mostrado, a sua acidez e estrutura levam a crer que virá a ser, provavelmente, mais interessante no futuro, pelo menos para mim.

Acompanhou um substancial Stoofvlees — esta receita é apenas uma possibilidade — feito com alcatra e Leffe Brune, e acompanhado de batatas fritas, que não tinha outro remédio senão brilhar. Ora, Stoofvlees foi o predecessor da evolução que se verificou da versão 2.5 para 2.7 de um dos meus motores de xadrez favoritos, Deep Sjeng. Para os curiosos, a este respeito, isto poderá ter o seu interesse. Mas, mais uma vez, para os curiosos, tudo tem interesse.

8€.

16

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Borges — Quinta da Soalheira '2007

Da Borges, foi feito a partir de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca provenientes da Quinta da Soalheira. Primeiro, o mosto fermentou em curtimenta a 28ºC. Depois, e uma vez separado das partes sólidas, sofreu a fermentação maloláctica. Diz a respectiva ficha técnica que "todo o vinho estagia em barricas de carvalho francês entre 9-12 meses".

Bebi-o na cozinha da avó, no segundo piso da casa do A', numa noite que recordo fresca e agradável, mas em que acabei por me ir deitar cedo.

De tom ainda rubi, trouxe consigo boa fruta vermelha, redonda, recordações vívidas de framboesa, flores rasteiras, secas, notas de licor e azeitona preta. Às vezes, pareceu-me, arriscando estar a escrever barbaridades, também um toque de roxo. Bebi-o em balão boludo, um bocadinho mais pequeno que os que costumo utilizar em casa. Na boca, volume, amplitude e peso medianos, e uma estrutura visível, não completamente polida, com textura, grão, mas civilizada. O final, apenas mediano, apareceu um bocadito mais curto que o que o demais mostrado faria adivinhar. Mesmo assim, um bom single quinta, provavelmente no momento ideal de consumo.

Foi melhor com polvo assado, baked beans e cebola que com a salsicha de churrasco braseada, acompanhada de pão, que os antecedeu.

6€.

15,5

terça-feira, 20 de novembro de 2012

domingo, 18 de novembro de 2012

Meio Século — Reserva '2007

Engarrafado pela Coop. Agrícola de Nelas. Dão de recorte clássico, com 12,5% de volume, alia à Touriga Nacional e à Tinta Roriz as menos comuns Jaen, Rufete e Alfrocheiro. Cor granada. A descrevê-lo muito sucintamente, fruta do Dão, preta, madura, e idade — pele, ranço, nozes, pinhões. Apetecível para os apreciadores do género, não obstante parecer já um pouco cansado. Apesar do tempo volvido, arrisco dizer que se me afigurou parecido, embora marginalmente mais interessante que este, quando o provei.

Nessa noite, não sei até que ponto movido por ele, produzi as seguintes linhas — escusadas?

Chove / Pouco depois da meia noite, o barulho do vento que passa / Arrasta consigo ânsias e recordações, medos e apreensões / Animais mortos, árvores retorcidas / O meu próprio respirar / Numa sala escura.

5€.

14,5

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Adega de Pegões — Colheita Seleccionada '2011 (Branco)

Lote de Chardonnay, Arinto, Verdelho e Antão Vaz, este vinho fermentou e estagiou (3 meses) em carvalho americano e francês.

Pêssego e citrinos, flores, mel, massa folhada, baunilha, ligeira tosta. . . sem ser exuberante, aparece bonito e razoavelmente complexo. E embora possua uma essência leve e fresca, tem aquela presença amanteigada característica do Chardonnay, redondez interessante, que logo lhe empresta outra seriedade. Manteve o estilo dos seus antecessores e está muito composto, disso não hajam dúvidas.

Foi o vinho do último frango de churrasco que se comeu cá em casa. A respeito de tal evento, talvez merecesse nota a inovação ao nível das batatas, mas, nah.

3€.

15,5

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

domingo, 11 de novembro de 2012

Bétula '2011

Bétula, da Quinta do Torgal, Barrô. Mais uma vez, mistura em partes iguais de Viognier fermentado em madeira e Sauvignon Blanc em inox. Segundo a respectiva ficha técnica, da vindima de 2011, resultaram 5000 garrafas.

Perfumado, limpo, complexo e cambiante, mostrou notas de nectarina, ananás e pêssego branco, mas também amêndoa, base de folhado e manteiga. Na boca, concentração e persistência, firmeza e frescor — ainda mais que na edição do ano passado, já de si excelente. Quando o produtor o enviou para prova, no princípio de Julho, recomendou-me que não fosse logo bebido, uma vez que havia sido engarrafado há pouco tempo. Passaram quatro meses, não podia aguardar mais para aqui deixar os meus apontamentos sobre ele. Mas, provavelmente, para o ver no seu melhor, não será ainda agora.

12-15€.

17,5

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

René Barbier — Reserva '2006

Catalão do Penedès, denominação de origem dos vinhos produzidos na zona situada entre as províncias de Barcelona e Tarragona. 85% Tempranillo, 15% Cabernet Sauvignon, consta que passou 14 meses em madeira antes de ser engarrafado. Apesar do nome, a marca pertence ao grupo Freixenet. Não tem nada a ver com Clos Mogador. Coisas do mundo.

Cor granada. Maduro, mas sempre, essencialmente, seco e coeso. Simples e relativamente ligeiro, apesar da expressão séria e do inegável equilíbrio apresentado, nunca deixou grande espaço para a imaginação: base de ameixa preta, seca e madura, algum pimento, baunilha, talvez também alcaçuz e, claro, tosta e café, torrefacção.

Cumpriu sem reservas, chegada a hora de acompanhar um daqueles jantares simples, de todos os dias: sopa de cenoura e abóbora com umas rodelas de chouriço, pão escuro, batatas fritas e moelas de pato.

6€.

15

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

CARM '2010

O presente vem do Douro Superior, de Almendra, Vila Nova de Foz Côa. Consiste, dizem, num lote de Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, em partes aproximadamente iguais, uvas provenientes de várias propriedades da empresa que o produz, desengaçadas e fermentadas em cubas, com parte do vinho a fazer a maloláctica em madeira. Depois, um ano em barricas de carvalho americano e francês.

No nariz, o Douro: a expressão da fruta preta, ameixa e cereja, o mato seco, a flor de esteva. O sabor, sólido, com fruta, segue o cheiro. Apesar de ainda algo fechado, com ligeira aresta e acidez vivaz, deu uma prova bem agradável.

Bebi-o com peito de pato temperado com ervas (a S. é que sabe quais) e selado no panelão, com brandy de Jerez. Foda-se!

7€.

15,5

sábado, 3 de novembro de 2012

Quinta de la Rosa '2009

É o tinto padrão da quinta que lhe dá o nome. O contra-rótulo fala simples e claro: "empresa familiar, uvas de letra "A", Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca, apanha manual, envelhecido em cascos de carvalho francês", o que, sem deixar de ser boa publicidade ao produto da casa, é sem dúvida bem mais esclarecedor que certas merdas mega floreadas que se lêem em alguns dos seus pares.

Do vinho, gostei. Muito escuro. Grande e bem dimensionado, basto em sobriedade e persistência, e ao mesmo tempo fino, elegante mesmo. Ainda algo fechado, a prometer compensar a paciência daqueles que o deixarem repousar durante mais alguns anos. Com ginja, cereja preta e ameixa, fruta viva e fresca, às vezes com ligeiro toque lácteo e secundada por notas envolventes de toffee e baunilha. Trouxe de volta, por momentos, os (não tão) bons velhos tempos.

9€.

16,5

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Filmes (45)





A história de Mary Henry foi o filme do Halloween.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Pulo do Lobo — Antão Vaz '2010

Pulo do Lobo é um lugar escarpado, a montante de Mértola, onde o rio Guadiana se estreita de tal forma que, dizem, os lobos aproveitavam para saltar entre margens. Outra lenda fala de um camponês que se transformava em lobo para ir ter com a princesa do seu coração. No fim, parece que morreram os dois. A sério. De qualquer forma, relevante será tratar-se de um lugar invulgarmente bonito, que merece uma visita.

O vinho, da Soc. Agrícola de Pias, monocasta Antão Vaz vinificado em bica aberta e engarrafado sem passagem por madeira, apareceu como esperado, simples e gordinho, com cheiros maduros, essencialmente tropicais, até um pouco pesados. Bastante fresco na boca, no entanto, mesmo agora, que já tem dois anos.

Foi com robalo, grelhado na brasa, só com um molho de sumo de limão, azeite, sal, louro e pimenta preta. Portou-se bem.

O preço surpreende, não chega aos 3€.

15,5

sábado, 27 de outubro de 2012

Velharias (34)

Estava em casa com M, sem nada que fazer. Enfim, mais uma noite de ganza, igual a tantas outras. Resolvemos ir beber um copo ao Dixie.

Assim que entrámos, tive o desprazer de descobrir o bar invadido por um grupo de jovens felizes, armados com uma guitarra. Tão desinibidos se mostravam, cantando e tocando à vontade sem a mínima objecção do barman que, a princípio, pensei tratar-se de uma banda ali caída em noite de copos com os amigos.

Talvez! O certo é que não se calaram nas quase duas horas que lá permaneci. Devíamos ir a meio do segundo ou terceiro fino quando, talvez por coincidência, lá chegou o meu primo T, que também não tardou a mostrar-se perturbado pelos jovens vivos.

Felizmente, o andar de cima ficou vago pouco depois. Pudemos finalmente mudar-nos para um lugar de onde já não podíamos ver aquelas criaturas. Quanto a ouvi-las, a história era outra.

Impossível não pensar neles, foda-se. Putos novos, alegres, que vão beber ice-tea entre dois dedos de conversa e muitas cantorias ao bar dos pseudos, da cena gay "30-50", do underground politicamente correcto.

— Pá, de onde é que saíram estes gajos? — atirei para a mesa. — Pá, são o pessoal do grupo de jovens, respondeu T. — Grupo de jovens? — insisti — Como o INTERACT? Parecem mais indie kids à solta. — Que merda é essa?

Achei algo estranho que T não soubesse o que era o INTERACT, muito menos indie kids, mas também não havia de ser eu a perder tempo a explicar-lhe. — Pá, o INTERACT é um grupo de jovens.

M e T jamais se darão bem. Sair com os dois faz-me voltar aos tempos do liceu, onde tínhamos turmas divididas em grupos de amigos segundo a lógica das matilhas: os do meu grupo são meus amigos, os dos outros grupos, em princípio, não. E assim partilhamos uma mesa, em silêncio, porque dois dos meus bons amigos se detestam. Ambos me respondem, mas, entre eles, a conversa não flui. T acha M desprezível, M acha T um verdadeiro imbecil. E ambos têm razão.

Os jovens do grupo de jovens. Fascinante. Aproveitei o intervalo entre duas dentadas numa tosta para acender um Virginia fornecido por T. Reparei que me fitava enquanto acendia o cigarro. — Sim, sou um porco. A besta, a fumar e a comer.

M também comia, não respondeu. T notou que "aqueles lá de baixo" não comiam nem bebiam. Saíam para estar juntos, ao invés de se consumirem em grupo, como nós. Num repente, pareceu-me bem partilhar que gostaria de ir ter com os putos. — São limpos, sobretudo as gajas. Gostava de conhecer alguns. Chegava aos trinta gordo e feliz, com um puto no mundo.

T continuava de olhos presos em mim, e assim permaneceu mais um bom bocado, antes de responder: — Não quero que sejas infeliz. Começa a frequentar o CUMN, ou o Justiça e Paz, logo fazes novos amigos. — Duvido — e acendi outro cigarro. — Já não tenho paciência para conhecer pessoas. E eles iam achar-me montes de estranho, também não iam gostar. — Tu és o Drácula — cortou M, taxativo.

Lá em baixo, a vida cantava a vida, a "Casinha", os "Filhos da Nação" e outras merdas assim. A dada altura, uma jovem viva, fresca e talvez pura como uma rosa, propôs um brinde às pessoas que não têm vergonha na cara. Brindaram com a algazarra contida dos meninos limpinhos e continuaram, ora a falar ora a cantar, como se as pilhas não acabassem senão quando a noite os comesse.

Entretanto, nós vegetávamos no piso de cima, quase sempre calados. Para o fim, T brincava com o telemóvel enquanto M bebia como se fosse o seu último dia neste mundo. Como de costume.

— Vais pedir outro? —perguntei-lhe. — Ainda aí tens metade.

Respondeu-me que os finos eram coisas vivas, unidades vitais, por assim dizer. Emborcou o resto do que tinha por diante antes de continuar:

— É esquisito ter à frente um copo vazio. Um cadáver.
— É esquisita a impressão de estarmos a beber um reflexo de nós próprios — retorqui com um sorriso.

Fomo-nos embora por volta das quatro menos dez.

23/10/2003

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Dona Maria '2008

Alentejano de Estremoz, produzido por Júlio Tassara de Bastos na Quinta do Carmo (ou Quinta Dona Maria). Composto por 50% de Aragonês, 20% de Cabernet Sauvignon, 15% de Alicante Bouschet e outro tanto de Syrah provenientes de cepas implantadas em solos argilosos e calcários, foi engarrafado em Abril de 2011, após estágio de meio ano em barricas de carvalho francês e americano. Desta colheita de 2008, resultaram 114000 garrafas.

Nariz bonito, perfumado por bosque e especiarias. A fruta, preta, ameixa e assim, bem envolvida pelo demais, sem tostados ou fumados a quererem destaque, o cipreste, as notas de Cabernet, o vago floral que vai aparecendo em segundo plano, tudo muito agradável. Na boca mostrou-se um vinho sápido, de boa intensidade, com alguma estrutura, largura e final. Peso médio com um extra de complexidade, pareceu-me porreiro.

7,5€.

16

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Taylor's — LBV '2005

Primeiro fez lembrar cereja e ameixa, cobertas de chocolate com passas e pimenta preta. Com o tempo, percebi alcatrão, coisa pesada, de pendor mais vegetal. Bem firme e persistente na boca, com fruta carnuda, bonita, e o álcool a notar-se um bocado, sobretudo no final. Melhor ao segundo dia, e no seguinte, mais solto, mais expressivo, ou pelo menos foi o que me pareceu.

Veio vedado com uma daquelas rolhas que têm o topo de plástico, fácil de puxar, o que logo sugeriu tratar-se de um LBV filtrado, pensado para consumo imediato. Posteriormente, o resto veio a confirmá-lo. E a ser assim, embora este vinho, como coisa viva, programada para morrer, vá envelhecer na garrafa, existem boas possibilidades de tal amadurecimento não se revelar proveitoso — só por si, o polir de umas arestas acaba por não compensar a fruta e força que se perdem. Em todo o caso, pareceu-me um dos melhores LBV dos últimos tempos.

12€.

16,5

sábado, 20 de outubro de 2012

Eu vs Comp. (7)

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Adega de Pegões — Aragonês '2008

Outro Pegões varietal consumido nos últimos dias. Tal como o do post anterior, fermentou em cubas-lagar, a temperatura controlada, tendo depois permanecido mais algum tempo em contacto com os sólidos. O estágio que antecedeu o engarrafamento, dizem, foi feito em pipas de carvalho americano e francês, durante oito meses. Servido a 16ºC, foi bebido sozinho, com codornizes salteadas e com queijo Camembert. Intenso e carnudo, mais que o Syrah '09, mostrou frutos pretos bem maduros, sobretudo ameixa, especiarias e tosta doce. Enfim, os aromas da casta no perfil a que já nos habituaram os varietais da casa. Tão vago, eu sei, e não consigo detalhar melhor. Sabem, aquilo a que chamei "sopa de Pegões" quando publiquei as notas tomadas sobre o seu predecessor de 2005? Não sabem, nem têm porque saber. As especiarias, indefinidas. Meu deus. Quando um vinho não mostra algo que, pelo menos na altura, nos parece, de caras, x ou y, a coisa complica-se. Que se lixe. Aos eventuais interessados, mais alegre e redondo que o Syrah '09, terá sido, aliás, dos mais generosos varietais da Coop. de Pegões que me lembro de ter provado. Não me surpreende que tenha ligado melhor com as codornizes que com o Camembert, que pede coisas mais leves, vinho branco. E sozinho, não maçou.

5€.

16

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Adega de Pegões — Syrah '2009

Hm. Podia pôr-me a dizer que embora vinho de cooperativa ainda sugira bebida plebeia, produzida por e para o povo, com mais ênfase na quantidade e no preço que na qualidade, sem pretensões de mais que regar o quotidiano de gente simples, cada vez são mais aquelas que apresentam produtos interessantes, diferenciados, sendo notável o salto qualitativo dado face ao que existia há uns anos atrás. Mas isso já vocês sabiam, não é? Na verdade, nem sequer acho que a ideia de adega cooperativa ainda transporte consigo um garrafão de zurrapa. Basta olhar para as prateleiras dos grandes supermercados ou para os catálogos que vão surgindo online para perceber que o foco deles já não é esse. Claro que ainda existem algumas excepções, mas estas estão condenadas a desaparecer. É que ser uma curiosidade, só por si, já não chega para garantir a subsistência do que quer que seja. Caralho, estamos em 2012! E pelo menos no que toca ao vinho, o popular, o vulgar, se preferirem, já não é necessariamente mau.

Os monocasta da Coop. de Pegões, dos quais hoje vos trago, salvo seja, um exemplar, têm mantido lugar cativo cá por casa. Por norma, são vinhos redondos e relativamente gulosos, que trazem sempre algo mais que a soma da expressão frutada das castas que lhes deram origem com o tempero das barricas onde estagiaram. São bons, baratos e um bocado previsíveis também. Coisa que, a meu ver, não faz mal. Nem sempre. Um vinho não tem de ser sempre emocionante, pois não? O problema é que, quando o caminho escolhido é este, torna-se questão de tempo até que apareça quem venha dizer que são coisas fabricadas, sem alma. E daí à insinuação de que um vasto conjunto de vinhos diferentes, afinal, parecem todos iguais, pouco importando o ano ou as castas que lhes dão origem, vai apenas um pequeno passo. E do advento de um boato a que haja uma porrada de gente a tomá-lo em conta sem pensar, ainda menos.

Em particular, este Syrah da colheita de 2009, vinificado em cubas-lagar de inox, com maceração pelicular prolongada, e estagiado durante dez meses em meias pipas de carvalho, mostrou boa cor, fruta silvestre, escura e madura, misturada com especiarias quentes da casta e ligeiros torrados e outras sugestões que se nota provirem da barrica. De corpo mediano e sabor intenso, naturalmente gulosinho, passou pela boca firme e texturado, com presença. Mais uma vez, portou-se conforme esperado, e agradou.

5€.

15,5

domingo, 14 de outubro de 2012









sexta-feira, 12 de outubro de 2012

João Pato — Touriga Nacional '2007

85% Touriga Nacional, 15% Baga, fermentado e estagiado em inox (li por aí que com a ajuda de aduelas). Tourigo frio mas cheio de garra, de estrutura firme e persistência acima da média, com cereja amarga, maracujá e verdor. Logo depois de aberto, reparei que uma acidez despropositada lhe marcava a entrada na boca, com algum picor a fazer-se sentir na ponta da língua, quase como em alguns verdes tintos. Doze ou catorze horas depois de aberto, após ter pernoitado no frigorífico, apenas vedado pela própria rolha, todo ele tinha arredondado. E aí a fruta pôde mostrar-se sem distracções, algo sisuda, é certo, mas de expressão limpa e franca, acompanhada de sugestões de bosque e especiarias, em quadro simples, mas bonito. Não sendo um vinho para envelhecer, é um vinho que poderá, até certo ponto, ser envelhecido, com resultados possivelmente interessantes.

6€.

15

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Na sequência do post anterior, não resisto a deixar-vos aqui um desses jogos.

[Event "60mov/30 min"]
[White "Siberian Chess 2.15"]
[Black "Ferret 1.00"]
[Result "1/2-1/2"]
[ECO "C95"]

1. e4 e5 2. Cf3 Cc6 3. Bb5 a6 4. Ba4 Cf6 5. O-O Be7 6. Te1 b5 7. Bb3 O-O 8. c3 d6 9. h3 Cb8 Ruy Lopez, Breyer. 10. d4 Cbd7 11. Cbd2 Bb7 12. Bc2 Te8 13. Cf1 Bf8 14. Bg5 h6 15. Bh4 c5 16. dxe5 Ferret fora do livro. 16 ... dxe5 17. C3h2 Te6

Aqui, Siberian Chess ficou fora do livro de aberturas. Este programa, criado em 1994 por Eugene Nalimov, consiste num executável de 132KB, que é motor, interface e livro, sem qualquer ficheiro adicional. E isso é porreiro, ou melhor, verdadeiramente notável! 18. Cg4 De8 19. Cfe3 Este sacrifício do peão central vai levar a um jogo entretido no centro.



19 ... Cxe4 20. Cd5 Bxd5 21. Dxd5 Cd6 22. Bg3 Cb6 23. Df3 e4 24. De2 Td8 25. Tad1 f5 26. Ce3 Df7 27. Bf4 Cb7 [27... g5!?] 28. Txd8 Cxd8 29. Td1 Te8 30. Bd6 f4 31. Bxf8 Rxf8 32. Cg4



32 ... Dxa2?! [32... De6] 33. Bxe4 Cf7 34. Df3 Dxb2 35. Dxf4 Db3 36. Td3 Dc4 37. Tf3 Ferret jogou fixe, mas às vezes um pouco impreciso por exemplo, quando trocou a vantagem no centro por um potencial peão passado na ala de Dama, às jogadas 32 e 33. Apesar do peão a menos, Siberian Chess pareceu ter mantido a situação sempre controlada. 37 ... Txe4 38. Db8+ Te8 39. Dxb6 Dd5 40. Ce3 De6 41. Dxc5+

E o peão a menos está recuperado. O resto do jogo, com escaramuças aqui e ali, correu tranquilo rumo ao empate. 41 ... Rg8 42. Da7 Cg5 43. Tf4 Rh7 44. h4 Te7 45. Dd4 Ce4 46. Cd5 Td7 47. c4 Cd6 48. Cb6 Tc7 49. cxb5 axb5 50. Dd1 Tc5 51. Td4 Tc6 52. Cd5 Tc4 53. Ce3 Txd4 54. Dxd4 g5 55. Da7+ Df7 56.Da3 De6 57. hxg5 hxg5 1/2-1/2.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Conventual — Reserva '2008

Lote de Aragonês, Trincadeira e Alicante Bouschet, feito com maceração pós-fermentativa e estágio de 10 meses em barricas usadas de carvalho francês, pela Adega Coop. de Portalegre. Vinho mais intenso que volumoso, macio e aconchegante, mostrou boa fruta preta, alguma da qual já com sinais de transformação, especiarias e chocolate, este mais no fim de boca. Aparenta ter mantido o estilo do seu antecessor da colheita de 2006, já apreciado nestas páginas. Dei por ele pouco menos de 5€.

15

Portou-se bem quando emparelhado com costeleta do cachaço na brasa, e salsicha de porco e ervas, reboluda e bem curada, e pão com alho e azeite. Mas não se ficou por aí. De barriga cheia, deixei-me ficar a bebê-lo à frente do computador pela tarde dentro, de tal forma que boa parte dele acabou por ir sem outra companhia que não a de uns interessantes jogos de xadrez entre motores antigos. Se pudesse, passava assim o resto da vida!

sábado, 6 de outubro de 2012

Colinas '2006

A principle of wine commentating is that certain consumers wish to learn about actual wines to purchase and also wine culture. A tough fact is that the higher-earning demographic sectors buy more wine and also higher priced wine and they are busy people who want a businesslike presentation of wine list suggestions and wine stories. Often they are time-poor. It is pretty clear from browsing blogs that the commentators and readers are not time-poor and they have a predilection for cheaper wines. (...) I've spent a lot of time reading blog reviews of wines I know. There are two problems. First, the reviews are very long, with lots of personal lifestyle comment that is irrelevant to the wine. Second, the reviews are not very good; they are usually gushing in enthusiasm and technically poor. I've read wonderful accounts of taste in wine that i know is faulty and smelly (and beginners in my wine appreciation class picked up this unpleasant taste immediately, so I'm not being obscure). I found it difficult to get a calibration on quality, because writers use terms such as "sound", "good booze", "serious booze", and a browser can't get a relative rating. in Writers, Bloggers & Tweeters, artigo de Andrew Corrigan, MW, na Winestate 33/4 de Jul/Ago 2010. E é mentira? Não estranhem a introdução: pouco tendo para vos dizer, sobre este vinho ou o que quer que seja, pareceu-me que a citação supra aqui encaixava como uma luva.

O vinho, bairradino, foi produzido e engarrafado por Colinas de S. Lourenço, de S. Loureço do Bairro, Anadia, ainda no tempo de Sílvio Cerveira. Não apurei quase nada sobre ele, também, mas não só, porque não perguntei. Do contra-rótulo, só a parte em português são 9 linhas cheias de nada e www.colinas.pt está offline. O seu correspondente de 2007 aparece explicado no sítio que a Idealdrinks mantém na internet, mas sobre este... Li por aí que terá levado Touriga Nacional, Baga, Merlot e mais qualquer coisa; depreendi da prova a possibilidade de ter passado algum tipo de estágio em madeira, à partida, curto. De cor ainda rubi, mostrou alguma fruta preta genérica, mas boa, secundada por notas de pinho, menta e baunilha. Mais forte que gordo, retendo algum do carácter que a influência atlântica traz aos vinhos da região, pareceu-me, no entanto, bastante acessível. Como se fosse um tipo grande e sério, mas simpático. (Como a comparação não surgiu espontaneamente no feminino, presumo tê-lo sentido um vinho masculino.) Enfim, adiante. A caminho da meia dúzia de anos, continua relativamente jovem, e nada indica que se vá estragar tão depressa. Termino bem à blogger: não tendo ficado espantado, gostei.

5€.

15,5

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sempre colado ao muro (boa idéia, ter vestido a roupa clara) o ladrão aproximou-se dos sete esquifes. O primeiro deles, bem à frente do portão da entrada, era preto e havia sido trazido às cinco da tarde. O seguinte — o claro e pequeno — era o que procurava. Ajoelhou-se ao pé dele, desatarraxou-lhe a tampa e, contendo a respiração, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mãos da morta, pois ouvira falar no famoso solitário de brilhante — Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha não viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e não viu nenhum broche. No pescoço, nenhum colar... Numa  relutância supersticiosa focou o rosto do cadáver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lábios começaram a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, nítidas: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma". O ladrão soltou um grito abafado, ergueu-se rácido, deixou cair a lanterna acesa e o pé-de-cabra, e rompeu a correr na direção dos campos desertos...

Quando viva, Quitéria Campolargo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite — "garimpando estrelas", como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelações — Orion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do coração e da memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela Antares, pensava no seu diâmetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melancólica ou entediada e vinham dizer-lhe que alguém a chamava ao telefone, respondia: "Diga que não estou em casa, que fui para Aldebarã..."

Agora, estendida no seu esquife, D. Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosário, que tem entre as mãos enlaçadas, e seus lábios se movem formando as palavras duma prece.

Um vaga-lume esvoaça no campo de sua visão e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabeça. Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno — a solidão da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...


 Érico Veríssimo, Incidente em Antares, 1971

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Lavradores de Feitoria — Três Bagos '2007

"Um vinho de lote, proveniente das quintas associadas à empresa, distribuídas pelas três sub-regiões da região demarcada do Douro", nas palavras do produtor. Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca. Circunspecto, algo verde e duro, mau grado a franqueza com que se deixou beber. De relevar alguns bons apontamentos de frutos silvestres, também em compota, a par de cacau e especiarias, químico pesado, alcatrão, e fumo. Na boca, frescura e rugosidade. Manteve o estilo do seu antecessor de 2005, mas estará um furo acima dele.

Bebi-o com pernil fumado, primeiro cozido, depois levado ao forno com acompanhamentos vários. Algo mais ou menos assim. E o conjunto, de facto, não desiludiu.

7€.

15,5

domingo, 30 de setembro de 2012








O gato preto é bicho, o outro tem olho de incendiário.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Reguengos — Reserva '2009

Versão de 2009 do tinto Reserva produzido pela coop. de Reguengos de Monsaraz. Lote de Trincadeira, Aragonês, Tinta Caiada e Alicante Bouschet, fermentou com curtimenta, tendo posteriormente descansado "de um a dois anos", conforme reza a respectiva ficha técnica, parte em depósitos de grande capacidade, parte em barricas de carvalho português e francês.

Franco, trouxe consigo boa fruta negra, fresca e madura, passas, um toque de especiaria, equilíbrio, alguma estrutura e um final razoável. Tanto quanto me pareceu, manteve o perfil fresco e jovem dos seus predecessores de 2007 e 2008, pouco diferindo deste último.

Acompanhou o nosso histórico frango com cogumelos e vinho tinto, que nunca desilude, desta vez acompanhado de batatas assadas com alecrim — aí fica uma possível receita, para os interessados.

4€.

15,5

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Catedral — Encruzado '2010

Varietal Encruzado das Caves Velhas. A respectiva ficha técnica refere "desengaçe total, prensagem pneumática, defecação estática natural [ou seja, débourbage, clarificação do mosto por floculação e sedimentação das partes sólidas, antes da fermentação] e fermentação alcoólica a 16ºC". Surpreendeu a ausência de nota a qualquer tipo de passagem por madeira, posto o que percebi do vinho quando o bebi — e sim, estou perfeitamente consciente de que posso ter percebido pouco ou mal.

Cor esmaecida. Simples mas agradável no nariz, com discreta acidez citrina a envolver frutos de polpa branca e suaves notas de baunilha a temperar o conjunto. Na boca, algum frescor, o suficiente, ia acompanhando a untuosidade que caracteriza os varietais da casta e que aqui apareceu com alguma timidez. Apesar de algumas impressões bonitas e do equilíbrio global evidenciado, a imagem que dele no fim prevaleceu foi a de um vinho pequeno e porventura mais débil que delicado, passe o abuso semântico. Acompanhou salema no forno, com batatas, que desta vez não terá provocado, tanto quanto conseguimos perceber, qualquer efeito ictioalienotóxico.

5€.

15

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre as gajas burras (e outros pequenos animalejos desta casta)

I would more willingly, quoth Panurge, consult with and be advised by a dumb woman, were it not that I am afraid of two things. The first is, that the greater part of women, whatever be that they see, do always represent unto their fancies, think, and imagine, that it hath some relation to the sugared entering of the goodly ithyphallos, and graffing in the cleft of the overturned tree the quickset imp of the pin of copulation. Whatever signs, shows, or gestures we shall make, or whatever our behaviour, carriage, or demeanour shall happen to be in their view and presence, they will interpret the whole in reference to the act of androgynation and the culbutizing exercise, by which means we shall be abusively disappointed of our designs, in regard that she will take all our signs for nothing else but tokens and representations of our desire to entice her unto the lists of a Cyprian combat or catsenconny skirmish. Do you remember what happened at Rome two hundred and threescore years after the foundation thereof? A young Roman gentleman encountering by chance, at the foot of Mount Celion, with a beautiful Latin lady named Verona, who from her very cradle upwards had always been both deaf and dumb, very civilly asked her, not without a chironomatic Italianizing of his demand, with various jectigation of his fingers and other gesticulations as yet customary amongst the speakers of that country, what senators in her descent from the top of the hill she had met with going up thither. For you are to conceive that he, knowing no more of her deafness than dumbness, was ignorant of both. She in the meantime, who neither heard nor understood so much as one word of what he had said, straight imagined, by all that she could apprehend in the lovely gesture of his manual signs, that what he then required of her was what herself had a great mind to, even that which a young man doth naturally desire of a woman. Then was it that by signs, which in all occurrences of venereal love are incomparably more attractive, valid, and efficacious than words, she beckoned to him to come along with her to her house; which when he had done, she drew him aside to a privy room, and then made a most lively alluring sign unto him to show that the game did please her. Whereupon, without any more advertisement, or so much as the uttering of one word on either side, they fell to and bringuardized it lustily.

The other cause of my being averse from consulting with dumb women is, that to our signs they would make no answer at all, but suddenly fall backwards in a divarication posture, to intimate thereby unto us the reality of their consent to the supposed motion of our tacit demands. Or if they should chance to make any countersigns responsory to our propositions, they would prove so foolish, impertinent, and ridiculous, that by them ourselves should easily judge their thoughts to have no excursion beyond the duffling academy. You know very well how at Brignoles, when the religious nun, Sister Fatbum, was made big with child by the young Stiffly-stand-to't, her pregnancy came to be known, and she cited by the abbess, and, in a full convention of the convent, accused of incest. Her excuse was that she did not consent thereto, but that it was done by the violence and impetuous force of the Friar Stiffly-stand-to't. Hereto the abbess very austerely replying, Thou naughty wicked girl, why didst thou not cry, A rape, a rape! then should all of us have run to thy succour. Her answer was that the rape was committed in the dortour, where she durst not cry because it was a place of sempiternal silence. But, quoth the abbess, thou roguish wench, why didst not thou then make some sign to those that were in the next chamber beside thee? To this she answered that with her buttocks she made a sign unto them as vigorously as she could, yet never one of them did so much as offer to come to her help and assistance. But, quoth the abbess, thou scurvy baggage, why didst thou not tell it me immediately after the perpetration of the fact, that so we might orderly, regularly, and canonically have accused him? I would have done so, had the case been mine, for the clearer manifestation of mine innocency. I truly, madam, would have done the like with all my heart and soul, quoth Sister Fatbum, but that fearing I should remain in sin, and in the hazard of eternal damnation, if prevented by a sudden death, I did confess myself to the father friar before he went out of the room, who, for my penance, enjoined me not to tell it, or reveal the matter unto any. It were a most enormous and horrid offence, detestable before God and the angels, to reveal a confession. Such an abominable wickedness would have possibly brought down fire from heaven, wherewith to have burnt the whole nunnery, and sent us all headlong to the bottomless pit, to bear company with Korah, Dathan, and Abiram.

You will not, quoth Pantagruel, with all your jesting, make me laugh. I know that all the monks, friars, and nuns had rather violate and infringe the highest of the commandments of God than break the least of their provincial statutes. Take you therefore Goatsnose, a man very fit for your present purpose; for he is, and hath been, both dumb and deaf from the very remotest infancy of his childhood.



F. Rabelais, Gargantua and Pantagruel, Book III, ed. 1546, trad. por Sir Thomas Urquhart of Cromarty e Peter Antony Motteux, 1693.

sábado, 22 de setembro de 2012

Amoras — Reserva '2008

Outro vinho consensual, que me deixou a ideia de ser melhor bebido jovem, este tinto da Casa Santos Lima, de Alenquer. O contra-rótulo diz serem a Touriga Nacional, o Castelão e o Syrah os constituintes principais do lote, que após a vinificação passou 9 meses em barricas de carvalho português e francês.

Fruta negra no ataque, doce, com traços de compota, sempre a par de algum álcool. Caramelo e chocolate de leite com a evolução no copo. Passou fácil na boca, sem grande volume mas boa concentração de sabores, acidez equilibrada e taninos maduros. Final mediano.

Acompanhou a nossa piza, desta vez com uma variação ao nível da massa, que levou alguma farinha integral e foi polvilhada com carolo de milho, aquando da montagem, como vimos certo tasqueiro de sucesso explicar num episódio recente de Diners, Drive-Ins and Dives.

2€.

14,5



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Filmes (44)





"Eu não sou um demónio, eu sou um ser humano!" A banda sonora, a cargo de Hikaru Hayashi, é digna de nota.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Flor de Nelas — Reserva '2008

Quando este vinho se popularizou, há um ano ou ano e meio atrás, mais coisa menos coisa, foi provado por quase todos os i-enófilos da nossa praça, tendo os elogios sido unânimes. Era um honesto tinto do Dão, sóbrio, com fruta e equilíbrio, a que se adivinhava alguma capacidade de guarda, e custava mais ou menos 3€ por garrafa, sendo que por vezes era possível adquiri-lo em regime de "leve dois, pague um".

Ora, na altura também o provei, mas não publiquei nada. E isto porque apesar da sua incontornável relação qualidade/preço, não me convenceu. Embora fosse um vinho limpo, sem pontas soltas, apresentava certo abaunilhado parasita, mais límpido que intenso, é verdade, mas terrivelmente deslocado, a tingir o conjunto de artificialidade. Algo que, sem ser inédito ou objectivamente feio, e que, pior ainda, não constituiu objecção noutras situações, ali, por algum motivo, me causou não negligenciável dose de repulsa. E não voltei a ele, talvez pela experiência menos boa, talvez pela diversidade de coisas para provar e beber, talvez por preconceito, talvez por um pouco de tudo isto e mais.

No que concerne ao preconceito, importa relevar que não o sinto — acho — relativamente a este vinho ou aos seus congéneres de marca branca em geral, antes ao caminho que na maioria das vezes os levam a tomar. O distribuidor x pretende vender n garrafas de um vinho dirigido ao público y num determinado intervalo de tempo. Uns contactos depois, algum produtor, usualmente conhecido, de dimensão considerável, aloca à tarefa parte do seu mar de vinho excedentário, a preço de saldo. Inventam um rótulo, emprestam-lhe elementos que — esperam — o vão aproximar do respectivo público-alvo. Normalmente, as manobras de lançamento ficam por aí. A relação qualidade/preço vai fazer o resto.

Este processo terá as suas semelhanças com o de construir um personagem, e poucos são os personagens convincentes que foram inventados de um dia para o outro. Que representam estas marcas? Que garantem? Que implicam a médio ou longo prazo, tanto para a concorrência como para o consumidor? Só que estas são questões que, por norma, a audiência não costuma colocar. A saúde do mercado pouco lhe diz, os seus problemas são outros. Premiar a inovação? A perseverança? Valores? Meh. Nasceu mais uma estrela das prateleiras dos hipermercados.

Acontece que isto me deixa doente, e não sei porquê. Porque reconheço que se trata de um recurso legítimo, compreensível e até desejável, nem que seja porque um produtor não pode comer princípios ou pagar aos seus fornecedores com, por exemplo, distinção. Se é verdade que um produtor mítico, falido, está condenado a desaparecer, deixando de fazer as coisas que o tornaram mítico, tenha muita ou pouca originalidade, história, ou o que for, e se, tantas vezes, é preciso recorrer a isto para rentabilizar o negócio, porquê achar feio? Que merda de mundo este!

Enfim, voltando ao tinto que serviu de mote a estas divagações, aconteceu que há dias, também não vos sei dizer porquê, de passagem por um Lidl aqui das redondezas, voltei a trazê-lo comigo. Abri-o sem reservas e gostei. Acima de tudo, claro, porque a madeira me pareceu ter-se fundido no corpo do vinho. Comparando com há um ano e meio atrás, se a fruta perdeu viço, ganhou notas de evolução e a companhia de um leque de especiarias quentes e escuras, de bosque, humidade, não mais aquela irritante vanilina de síntese. Ligeiras notas de pele. Delgadito, algo curto, ainda fresco. De facto, não dá para dizer mal.

15,5

domingo, 16 de setembro de 2012

Abençoados carolas que sacrificais tempo e dinheiro a este belo passatempo que é o xadrez de computadores, aqui vos deixo o meu louvor! Este jogo foi retirado de um match recente entre dois motores que, a dada altura, foram dos mais fortes do mundo. Talvez mais importante ainda, ambos estiveram bem presentes naquele momento da história em que os computadores nos ultrapassaram. Quem não se lembra de Junior em 8x 1,6Ghz com 8GB de RAM a empatar com Kasparov no New York Athletic Club? Ou de Hiarcs, então algures entre as versões 8 e 9, num simples Athlon 1,8GHz com 1GB de RAM, a fazer igual resultado num encontro de 4 jogos com Evgeny Bareev? Ninguém? Eia, ninguém se lembra! A surpresa, lol.

Agora que os humanos já não alimentam ilusões de poderem voltar a vir a dar luta a qualquer um dos, digamos, melhores dez ou vinte motores disponíveis, montados no hardware disponível em qualquer casa, com um Stockfish de código aberto e toda uma família de Robbolitos que não se sabe bem de onde vieram, as coisas estão diferentes. Ainda assim, as actualizações destes programas têm continuado a sair com relativa frequência, e ainda bem, porque se já não dominam em termos de força de jogo pura e simples, continuam, pelo menos, a ser muito interessantes de observar.

Este jogo que aqui vos deixo foi o oitavo de um match de 50, jogado com 2h + 30s por lance para cada lado, com ambos os envolvidos a correr em dual Xeon X5660, a 3,06GHz. Os livros de aberturas utilizados foram os originais de cada um dos programas, a função ponder, que permite ao motor continuar a calcular no tempo do adversário, estava ligada, Junior jogou com 4GB de memória alocada a hashtables e Hiarcs com 2GB. No fim, Deep Junior ganhou o encontro, 30 a 20.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Piornos — Reserva '2007

Da Adega Coop. da Covilhã. Feito de Trincadeira e Jaen, cepas implantadas em solos essencialmente xistosos, fermentou em cuba, mosto junto com as películas, a temperatura controlada, tendo estagiado durante seis meses em carvalho francês e americano antes do engarrafamento. Nada de estranho.

À mesa, cumpriu, sem reservas. Vinho correcto, de porte mediano, com alguma textura e bastante equilíbrio, mostrou fruta de razoável densidade, eu diria que preta, às vezes a tomar tons carregados, o que não surpreende quando se pensa no calor dos verões da região. Com ela, algum vegetal, pareceu-me, e caramelo e baunilha, estes sim, sem dúvida. Tal como o Alorna do post do último dia dez, pareceu-me gulosinho, pensado para agradar a muitos. E tal como ele, também é um vinho barato, que nem sempre chega aos 3€, e relativamente fácil de encontrar, pelo menos por aqui. Comparando-os, talvez este seja menos polido, talvez mais raçudo. No fim, pareceram-me do mesmo naipe.

Apesar de ligar bem com sardinhas assadas (com batatas e pimentos), pelo menos de acordo com o interessante Harmonias ComProvadas, preferi bebê-lo com salsichas de churrasco. "Ele é mais porco e vinho tinto", nunca ouviram dizer? :)

15

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O tipo-delinquente é o tipo do homem em condições desfavoráveis, um homem forte que adoeceu. Falta-lhe a jungla, uma certa natureza e forma de existência mais livre e mais perigosa em que tudo o que é arma e defesa no instinto do homem forte tenha existência legal. As suas virtudes são banidas pela sociedade; os seus impulsos mais vivos, que ele consigo traz, desenvolvem-se directamente com as emoções deprimentes, com a suspeita, o medo, a desonra. Mas esta é quase a receita para a degenerescência fisiológica. Quem tem de fazer secretamente, com tensão prolongada, prudência, astúcia, o que melhor pode e mais gostaria de fazer, torna-se anémico; e porque dos seus instintos unicamente colhe o perigo, a perseguição, a fatalidade, também o seu sentimento se vira contra estes instintos — experimenta-os de modo fatalista. É na sociedade, na nossa sociedade domesticada, medíocre, castrada, que um homem natural, o qual vem da montanha ou das aventuras do mar, degenera necessariamente em delinquente. Ou quase necessariamente, porque há casos em que tal homem se revela mais forte do que a sociedade: o corso Napoleão é o caso mais famoso. Para o problema que aqui se apresenta, é importante o testemunho de Dostoievski, sim, o único psicólogo, diga-se de passagem, de quem eu poderia aprender alguma coisa; é ele uma das mais felizes ocorrências da minha vida, mais ainda que a descoberta de Stendhal. Este homem profundo, que tinha dez vezes razões para subestimar os superficiais alemães, recebeu impressões muito diversas das que esperava por parte dos condenados siberianos, entre os quais viveu durante muito tempo, verdadeiros delinquentes graves, para os quais já não havia nenhum retorno à sociedade — quase como se fossem talhados da melhor, mais dura e mais valiosa madeira que, em geral, cresce no solo russo. Generalizemos o caso do delinquente: pensemos em naturezas a que, por qualquer razão, falta a aprovação pública, que sabem não ser consideradas como benéficas, como úteis, — esse sentimento Tschandala de não serem semelhantes, mas banidos, indignos, impuros. Todas as naturezas assim têm nos pensamentos e nas acções a cor do subterrâneo; tudo nelas é mais pálido do que naqueles sobre cuja existência se derrama a luz do dia. Mas quase todas as formas de existência, que hoje realçamos, viveram outrora na meia luz sepulcral: o cientista, o artista, o génio, o espírito livre, o comediante, o mercador, o grande descobridor... Enquanto o sacerdote surgiu como o tipo mais elevado, todo o tipo de homem superior foi desvalorizado... Chega o tempo — sou eu que o prometo — em que figurará como a espécie mais baixa, como o nosso Tschandala, como o tipo mais embusteiro, mais indecente de homem... Chamo a atenção para o facto de como, ainda hoje, sob o mais suave reino dos costumes que alguma vez dominou na terra, pelo menos na Europa, toda a separação, toda a subjacência longa, demasiado longa, toda a forma de existência excepcional e impenetrável se aproxima daquele tipo que consuma o delinquente. Todos os inovadores do espírito levaram por algum tempo na fronte o sinal lívido e fatal do Tschandala: não porque assim foram considerados, mas porque eles próprios sentiam o temível abismo que os separa de tudo o que é tradicional e persiste no meio de honras. Quase todo o génio conhece, como um dos seus desenvolvimentos, a "existência catilinária", um sentimento de ódio, de vingança e de rebelião contra tudo o que já é, o que não mais será... Catilina — a forma de preexistência de cada César.

Friedrich Nietzsche — Crepúsculo dos Ídolos, ou como se filosofa com o martelo (Götzen-Dämmerung oder Wie man mit dem Hammer philosophiert), 1888; versão portuguesa das Ed. 70, trad. por Artur Morão, imp. 1985.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quinta da Alorna '2009

O animal chega moído e enervado da rua, sentiu no pêlo durante mais um dia aquilo a que o grande W. S. Burroughs certa vez chamou de "experiência embrutecedora da idade adulta". Costuma trazer fome. A comida, peito de frango aos bocadinhos, cozinhado com quiabos, feijões de soja e ervilhas, estes últimos previamente tratados na panela de vapor. Azeite, tempero, vinho branco para refrescar. Arroz. Tudo pronto em mais ou menos meia hora.

Acompanhou-se com tinto. Este iluminou a noite. Só não digo que surpreendeu porque já esperava que se portasse bem. Tinta Roriz, Castelão, Syrah e Alicante Bouschet, parcialmente estagiado em barricas de carvalho americano. Cheiroso, gulosinho e macio, rico em fruta negra, madura, revelou-se um vinho alegre, feito ao estilo do novo mundo, para ser fácil de beber e gostar. Presentemente, será das melhores propostas disponíveis na gama de preços em que se insere. Aliás, o compromisso entre volume, preço e qualidade que o produtor tem vindo a conseguir com mais que razoável consistência dá que pensar. Ou devia, pelo menos a alguns.

3€.

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sábado, 8 de setembro de 2012

Fiuza — Cabernet Sauvignon '2007

Monocasta Cabernet Sauvignon, de vinhas com aproximadamente dez anos, implantadas no solo argilo-calcário da Quinta da Granja, sita nas imediações da cidade de Santarém, fermentou em inox a 25ºC e estagiou durante 8 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Nariz morno, com passas, especiarias e balsâmico. De tal forma que foi com relativa surpresa que o verifiquei de sabor seco e volume razoavelmente fresco na passagem pela boca, possuidor de uma estrutura ao mesmo tempo firme e madura, daquelas que agradecem comida com alguma substância. Cabernet evoluído, revelou alguma complexidade e, pareceu-me, toda a afinação a que alguma vez poderá ter aspirado. O pimento estava lá — aliás, nunca provei nenhum vinho da casta que, de todo, não o sugerisse, mesmo espécimes de zonas bem quentes, onde as uvas conseguem, supostamente, amadurecer o suficiente para que as quantidades de pirazinas presentes se deixem de poder notar — e bem ligado a especiarias várias: leque difuso, mas bastante engraçado. Poderá, assim, ser defeito? Final médio/longo.

7€.

15,5

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Coldfinger — Beauty of You

Sempre gostei de X. Não me arrogando a adivinhar ao pormenor a alma daqueles que comigo partilham ou partilharam momentos, arriscaria dizer, no entanto, que sempre lhe percebi uma enorme resignação, de tal forma que aparentava procurar viver em círculos, como se cada dia fosse por si só uma vida, sem passado e sem futuro. Ele dizia que só queria que o deixassem em paz, deixar toda a maluquice em que vivíamos e ter um casebre e uma horta, ver as couves crescer. Bem vistas as coisas, talvez X apenas quisesse poder viver no campo, comer, dormir e foder, como, aliás, qualquer outro animal. Quem poderia censurá-lo por isso?

Essa sua presença pacífica e complacente, aliada a possuirmos alguns interesses em comum, fazia dele um óptimo companheiro, sobretudo quando não apetecia andar em bolandas. Eram noites geralmente sem brilho, que provavelmente seriam de depressão caso me encontrasse só. Noites de loucura introspectiva, como começámos a chamar-lhes, a dada altura. Esta loucura introspectiva é coisa que vive connosco, mas não há como a registar. Sente-se num dado momento e por norma sabe bem, mas não perdura na memória por não ser algo que se pense. Evoco X neste momento e apenas consigo chamar reflexos daquilo que por vezes sentia quando discutíamos algo que nos fazia vibrar.

Tal como eu, X não se importava de ir ficar triste para lugares agradáveis, entre pratinhos de broa com queijo e taças de cerveja. Um dos nossos poisos favoritos era o Dixie: pouca gente, álcool de qualidade e um aquário, tudo imerso em luz azulada e música um bocado fora das escolhas habituais, mesmo em lugares do género, o que, de todo, não desagradava. Mais tarde fui lá com a S, mas por algum motivo ela não ficou fã do lugar. Depois descobri que tinha fechado.

Certa noite, discutíamos um pesado problema matemático, coisa completamente fora do nosso alcance, mas por isso mesmo especialmente apelativa aos jovens cromos que éramos na altura, ainda cheios de vontade. Era um dos problemas com que o famoso Ulam contribuiu para o chamado Livro Escocês, que na verdade nasceu polaco, numa terra que agora faz parte da Ucrânia. Enfim.

O enunciado era algo como: se um sólido permanecer em equilíbrio, independentemente da posição em que se encontrar, sobre uma superfície plana e horizontal, terá de ser necessariamente uma esfera? E X a tentar, com uma folhita, acho que um guardanapo, e eu a leste, a reparar na música. Lembro-me de ter pensado "eia, que coisa" quando o barman me disse ser produto nacional. Um dia, descobri que havia um videoclip. Com o tempo, esta noite e este pedaço de música de que vos falo, e o bom velho Stan Ulam também, foram-se diluindo no volumoso repositório de conhecidos fixes que alguém que viva nesta época inevitavelmente acaba por reunir. Hoje, assim de repente, lembrei-me.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Quinta de Camarate '2007

Lote de Touriga Nacional, Castelão e Aragonês, parcialmente estagiado em barrica, foi aberto aproximadamente um mês depois do da edição mais recente, de 2009, enviado pelo produtor para divulgação, e cuja nota de prova, caso assim lhe queiram chamar, se pode consultar aqui. Sim, o comportamento da amostra despertou-me a curiosidade para a prestação de um exemplar mais evoluído da mesma marca. As amostras também servem para isso, sabiam? :)

Denso, pesado até, de madurez pronunciada. Predominam notas de ginja, secundadas por compota e azeitona preta. Um pouco por todo o lado, cacau e especiarias; folha de tabaco mais no final. É morno e enche a boca — revela certa maturidade, sem sinais de decadência. Final agradável, bastante prolongado.

Acompanhou entrecosto no forno, preparado com azeite, alho e pimentón de la Vera, e acompanhado de batatas vermelhas, novas, cortadas com casca e ligeiramente cozidas antes de tostadas, também no forno, com azeite, alho, tomilho fresco e pimenta preta. Mais coisas simples. A vida não está para invenções.

7€.

15,5

domingo, 2 de setembro de 2012

Encostas de Estremoz — Grande Escolha '2008

Alentejano produzido por Encostas de Estremoz, a partir de Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Touriga Franca e Cabernet Sauvignon. O mosto fermentou em cuba, tendo depois permanecido em contacto com as películas durante vinte dias, ao cabo dos quais ocorreu uma suave prensagem. O estágio deu-se em barricas de Allier, novas e usadas, e durou dezoito meses.

Nariz grande, farto, com frutos negros e especiarias, álcool vaporizado, folha de tabaco. Na boca é muito intenso, macio e volumoso, de generosidade considerável (não confundir com guloso). Inevitável o reparo a alguma madeira que talvez o tempo venha a integrar por completo. Final longo e cálido. Alentejano de boa raça, feito em estilo moderno, é para acompanhar comida com peso.

10€.

16,5

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Filmes (43)





Um Melville, com Delon. Deste, retive ladrões e alguns objectos giros.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Altas Quintas — Crescendo '2005

Lote de Aragonês (80%) e Trincadeira, fermentou em balseiros Seguin Moreau, tendo depois passado 12 meses em barricas de carvalho francês e americano.

Foi servido a 16ºC. Cor granada. Lembro-me de o ter provado há três ou quatro anos atrás. Redondo e gulosinho, tinha uma acidez relativamente discreta, que primava por bem medida face ao que se pretendia no produto acabado. Agora que se deixou evoluir em garrafa, aparenta ter ganho seriedade, um perfil mais seco, se é que tal coisa é possível. A fruta fresca deu lugar a tons mais pesados, com pele e passas a juntarem-se aos compotados de frutos pretos que esperava encontrar. Passou morno e harmonioso pela boca, com persistência mediana, mostrando uma estrutura já completamente madura. Para o meu gosto, não passou ainda o momento ideal de consumo. Porém, já não é o vinho que foi em novo. E daqui em diante, espera-se que tome o caminho descendente.

8€.

15,5

domingo, 26 de agosto de 2012

Venâncio da Costa Lima — Reserva '2008

Castelão de cor avermelhada, não muito carregada. A respectiva ficha técnica, disponível no sítio que o produtor mantém na internet, indica que fermentou com maceração prolongada e estagiou durante 8 meses em carvalho francês antes do engarrafamento (o contra-rótulo refere apenas 6 meses de estágio). Inicialmente a parecer querer afastar-se do lado mais melado da casta, o que acabou por não confirmar, mostrou-se, no entanto, sempre muito fresco, de estrutura firme, com boas notas de frutos silvestres bem maduros, vermelhos, especiarias quentes, algum químico aromático, a fazer lembrar cola, e interessantes notas florais, vincado aroma a alfazema. Intenso, de final longo. Acompanhou bife da vazia, grelhado, guarnecido com batata frita e salada — ligação tão previsível quanto feliz.

7€.

16

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Kruder & Dorfmeister — The K & D Sessions

Foi um sonho recorrente ainda durante algum tempo. Dois anos ou três, talvez mais, já não consigo precisar. Estava longe, numa planície gelada e deserta. Não havia neve, não havia terra. Nem qualquer forma de vida, ou mesmo pedras. A imensidão da planície, completamente destituída de relevo, era avassaladora. Não descortinava sequer o perfil de uma montanha ao longe. Encontrava-me no meu Limbo pessoal, esse lugar que não é Céu, nem Terra, nem Inferno e onde dizem penar certas almas. Sozinho e talvez perdido, embora duvide que quando acontecia me sentisse mal com isso. Digo-o baseado na suposição de que tal teria gerado stress, e eu acordado e pensado no assunto. E agora, provavelmente, lembrar-me-ia. Não, só e perdido no meio do nada, curioso nada esse que fabricava, às vezes com coisas "não relacionadas" a entrarem-me pelos ouvidos. Podia ser a música que estava a ouvir ou outra coisa qualquer. Mais tarde, no princípio da fase má, comecei a encontrar elementos de dor neste lugar, mas no princípio, em '98, por exemplo, era, para mim, talvez o único verdadeiro recanto de paz disponível. Pelo menos, o melhor. E as coisas que a dada altura fiz para tentar chegar lá! Coitadinho :)


Enfim, dei por mim a ouvir este grande álbum e ocorreram-me as notas supra. O remix de Roni Size, Heroes, que aí deixo para quem quiser ouvir, continua a ser das minhas faixas de entrada preferidas. Devia tentar dizer mais?