sábado, 18 de fevereiro de 2012

De tempos a tempos, quando me vêm saudades da minha infância oceânica — dos gritos das gaivotas e do cheiro a sal — um amigo mais solícito mete-me no carro e leva-me ao horizonte marinho mais próximo. Afinal de contas, não há ponto da Inglaterra que fique a mais de cem ou cento e poucos quilómetros do mar. «Pronto», dizem-me então, «lá está ele». Como se o mar fosse uma grande ostra que pudesse ser assim servida de bandeja, sempre com o mesmo sabor, em qualquer restaurante do mundo. Saio do carro, estico as pernas, farejo o ar à minha volta. O mar. Mas não é a mesma coisa, não é nada a mesma coisa.

A geografia está toda errada, para começar. Que é feito do polegar cinzento da estação elevatória à minha esquerda, do banco de areia (de pedras, mais precisamente) em forma de foice, no sopé da torre, e da prisão de Deer Island no extremo do promontório, lá longe, à direita? A estrada que eu conhecia avançava até às ondas numa curva larga, com o mar aberto de um lado e a baía do outro, e a casa da minha avó, a meio do promontório, era voltada a leste, cheia de sol vermelho e luzes marítimas.

Nunca mais me esqueço do número de telefone da minha avó: OCEAN 1212-W. Repetia-o à telefonista, do extremo mais abrigado da baía onde ficava a minha casa, como uma fórmula mágica, um belo verso, quase esperando que o auscultador preto me devolvesse, como um búzio, o murmúrio sussurrante do mar, lá fora, juntamente com o «Está lá» da minha avó.

E depis, a respiração do mar. E depois as luzes. Seria um gigantesco, um radioso animal? Mesmo de olhos fechados sentia as cintilações dos seus espelhos luminosos que me rendilhavam as pálpebras. Dormia num berço de água, e os lampejos do mar procuravam as frestas da persiana verde-escura, brincando e bailando, ou repousando e tremendo ao de leve. À hora da sesta entretinha-me a fazer tinir com a unha os varões ocos, de latão, da cabeceira da cama, para lhes ouvir a música, e um belo dia, num êxtase de descoberta e surpresa, encontrei a junta do novo papel de parede às rosinhas e, com a mesma unha curiosa, pus à mostra um grande espaço de parede nua. A proeza valeu-me um raspanete, além de umas boas palmadas, e depois o meu avô arrancou-me às fúrias domésticas para um longo passeio até à praia, por sobre montões e montões de pedras roxas que resvalavam e rangiam sob os nossos pés.

OCEAN 1212-W, Sylvia Plath, 1962