quinta-feira, 15 de março de 2012

Marquês de Marialva — Arinto, Reserva '2010

Saio de manhãzinha e, foda-se, que cheiro a merda! Como se o próprio Pantagruel tivesse um esgoto para o Mondego! Ter-se-ia o bom sr. hm hm, finalmente, vaporizado? Seria a alma da cidade a materializar-se? Não, era apenas humidade: veio o Sol, a temperatura subiu e o cheiro dissipou-se. E de todo o meu dia, foi isto o que reservei para vos contar.

Muito depois do Sol e do tédio, à hora do jantar, abri este vinho, um Arinto parcialmente fermentado em barrica e engarrafado sem estágio, novidade (mais ou menos) da Adega Cooperativa de Cantanhede. Servi-o muito fresco, conforme recomendado pelo produtor, primeiro sozinho, depois a acompanhar besugo assado no forno. Sobre o animal, peixe ósseo da família Sparidae, de nome científico Pagellus acarne, habitante carnívoro de leitos de algas marinhas, não muito longe da costa, encontrei uma observação curiosa na página que lhe dedica o Oceanário de Lisboa: "é hermafrodita, pois a maioria quando nasce tem sexo feminino. Transformam-se em machos numa fase posterior da sua vida".

O vinho, muito clarinho no copo, trouxe consigo recordações de limão amargo, limonete, musgo e flor de laranjeira. Todo ele verde e amarelo, mostrou-se essencialmente cítrico e musgoso, com um bocadinho de baunilha e pão torrado a transmitirem uma calidez vestigial. Fresco, foi deixando certa agradável salinidade no fundo da língua. Delicado no nariz e algo fechado na boca, apresentou-se com uma mistura de austeridade e meiguice que, apesar das virtudes concretas, nem todos acharão fácil apreciar. E definitivamente a precisar de tempo.

5€.

15,5