domingo, 8 de julho de 2012

Velharias (33)

As noites passadas a sós são diferentes.

Na parvónia, lauto jantar ido, whisky, talvez gin, cigarros, net.

Na net, fala-se com quem devia estar, e estará, mas até que volte.

Saudades satisfeitas não necessitam de contexto, afinal.

Pobres Irmãos de tempos idos, demasiado ocupados nas suas rotinas. . . quem as tem. . .

Quem as tem?

Hoje, como ontem, comi e na net falo à espera do nascer do sol.

Sol maior menor, nasce uns minutos depois do último sonho e nunca se põe.

E a rotina é tentadora.

Acordar, comer, net, banho, café, net, banho, comer, net, dormir.

E cigarros, cigarros, cigarros no decurso de —

Dormir, esperar que esta semana passe, esta semana de noites sós.

Dormir. Adormecer com a manhã,

Sem droga, quarenta cigarros por dia. (Tenho mesmo de pensar em reduzir.)

Depois, deitar-me, teclar, demasiado desinteressado pelo que quer que seja para o escrever.

Pesadíssimo, ler, a ler,

Hoy, ayer.

Sim, e que lês tu, menino?

Leio olhos sem olhar para eles. Perfurantes.

Como se pensasse "Inferno, meteram-me aqui, não pedi nada disto, só quero foder esta merda toda", mas em silêncio.

Porque são os olhos que não falam aqueles que mais magoam.

Aqueles olhos brancos, de cego, que dizem morte, ou nada, talvez.

Dizem que assim olhava Pound, às vezes, evidentemente.

Acontece-me pôr esses olhos, pensar Pound, sentir Pound, mas claro que não consigo.

Afinal, ainda não cheguei a velho.

A minha mulher está viva.

Ainda não me internaram na psiquiatria, pancada e choques eléctricos à hora do filet mignon.

Afinal, embora me sinta beaten, ainda não me sinto broken. Sou novito, e nem é aquela coisa related to ter tido uma vida melhor do que a dele.

Prende-se mais com não ter tido a d'Ele.

Ou, simplesmente, não ter tido. Não ter.

Também não sou anglófono. Como vós, vivo acorrentado a uma língua morta há tanto tempo que já nem esqueleto deve haver. Normalmente, não penso muito nisso.

Pound, anglófono. Os anglófonos nunca chegam a atinar bem com o género. Das palavras, nas nossas línguas latinas.

Taishan is attended of loves

under Cythera, before sunrise

and he said: "Hay aquí mucho

catolicismo
(sounded catolithismo)

y muy poco reliHión"


Poco? Ou Poca? Ou Paco?!

Ou atinou com o género e foi mal transcrito.

Ou atinou com o género e estava com o espírito certo. Prefiro pensar que foi assim.

Poca religión y mucha fantasía,

Chiça.

Rir, rir sem esquecer.

Posto lido, isto, e transcrito um bocadinho, ei-lo!

"Master thyself, then others shall thee beare"      
       
Pull down thy vanity

Thou art a beaten dog beneath the hail,

A swollen magpie in a fitful sun,

Half black half white

Nor knowst'ou wing from tail

Pull down thy vanity       
       
How mean thy hates

Fostered in falsity,        
      
Pull down thy vanity,

Rathe to destroy, niggard in charity,

Pull down thy vanity,

I say pull down.


But to have done instead of not doing        
      
This is not vanity

To have, with decency, knocked

That a Blunt should open       
  
To have gathered from the air a live tradition

or from a fine old eye the unconquered flame

this is not vanity.

     
Here error is all in the not done,

all in the diffidence that faltered...



Pronto,

Ezra Pound, Canto LXXXI, um bocadinho do fim.

Asneando, asneando, que mais esperavam?


Pronto.

CB, 6/2/2005