terça-feira, 18 de setembro de 2012

Flor de Nelas — Reserva '2008

Quando este vinho se popularizou, há um ano ou ano e meio atrás, mais coisa menos coisa, foi provado por quase todos os i-enófilos da nossa praça, tendo os elogios sido unânimes. Era um honesto tinto do Dão, sóbrio, com fruta e equilíbrio, a que se adivinhava alguma capacidade de guarda, e custava mais ou menos 3€ por garrafa, sendo que por vezes era possível adquiri-lo em regime de "leve dois, pague um".

Ora, na altura também o provei, mas não publiquei nada. E isto porque apesar da sua incontornável relação qualidade/preço, não me convenceu. Embora fosse um vinho limpo, sem pontas soltas, apresentava certo abaunilhado parasita, mais límpido que intenso, é verdade, mas terrivelmente deslocado, a tingir o conjunto de artificialidade. Algo que, sem ser inédito ou objectivamente feio, e que, pior ainda, não constituiu objecção noutras situações, ali, por algum motivo, me causou não negligenciável dose de repulsa. E não voltei a ele, talvez pela experiência menos boa, talvez pela diversidade de coisas para provar e beber, talvez por preconceito, talvez por um pouco de tudo isto e mais.

No que concerne ao preconceito, importa relevar que não o sinto — acho — relativamente a este vinho ou aos seus congéneres de marca branca em geral, antes ao caminho que na maioria das vezes os levam a tomar. O distribuidor x pretende vender n garrafas de um vinho dirigido ao público y num determinado intervalo de tempo. Uns contactos depois, algum produtor, usualmente conhecido, de dimensão considerável, aloca à tarefa parte do seu mar de vinho excedentário, a preço de saldo. Inventam um rótulo, emprestam-lhe elementos que — esperam — o vão aproximar do respectivo público-alvo. Normalmente, as manobras de lançamento ficam por aí. A relação qualidade/preço vai fazer o resto.

Este processo terá as suas semelhanças com o de construir um personagem, e poucos são os personagens convincentes que foram inventados de um dia para o outro. Que representam estas marcas? Que garantem? Que implicam a médio ou longo prazo, tanto para a concorrência como para o consumidor? Só que estas são questões que, por norma, a audiência não costuma colocar. A saúde do mercado pouco lhe diz, os seus problemas são outros. Premiar a inovação? A perseverança? Valores? Meh. Nasceu mais uma estrela das prateleiras dos hipermercados.

Acontece que isto me deixa doente, e não sei porquê. Porque reconheço que se trata de um recurso legítimo, compreensível e até desejável, nem que seja porque um produtor não pode comer princípios ou pagar aos seus fornecedores com, por exemplo, distinção. Se é verdade que um produtor mítico, falido, está condenado a desaparecer, deixando de fazer as coisas que o tornaram mítico, tenha muita ou pouca originalidade, história, ou o que for, e se, tantas vezes, é preciso recorrer a isto para rentabilizar o negócio, porquê achar feio? Que merda de mundo este!

Enfim, voltando ao tinto que serviu de mote a estas divagações, aconteceu que há dias, também não vos sei dizer porquê, de passagem por um Lidl aqui das redondezas, voltei a trazê-lo comigo. Abri-o sem reservas e gostei. Acima de tudo, claro, porque a madeira me pareceu ter-se fundido no corpo do vinho. Comparando com há um ano e meio atrás, se a fruta perdeu viço, ganhou notas de evolução e a companhia de um leque de especiarias quentes e escuras, de bosque, humidade, não mais aquela irritante vanilina de síntese. Ligeiras notas de pele. Delgadito, algo curto, ainda fresco. De facto, não dá para dizer mal.

15,5