terça-feira, 16 de outubro de 2012

Adega de Pegões — Syrah '2009

Hm. Podia pôr-me a dizer que embora vinho de cooperativa ainda sugira bebida plebeia, produzida por e para o povo, com mais ênfase na quantidade e no preço que na qualidade, sem pretensões de mais que regar o quotidiano de gente simples, cada vez são mais aquelas que apresentam produtos interessantes, diferenciados, sendo notável o salto qualitativo dado face ao que existia há uns anos atrás. Mas isso já vocês sabiam, não é? Na verdade, nem sequer acho que a ideia de adega cooperativa ainda transporte consigo um garrafão de zurrapa. Basta olhar para as prateleiras dos grandes supermercados ou para os catálogos que vão surgindo online para perceber que o foco deles já não é esse. Claro que ainda existem algumas excepções, mas estas estão condenadas a desaparecer. É que ser uma curiosidade, só por si, já não chega para garantir a subsistência do que quer que seja. Caralho, estamos em 2012! E pelo menos no que toca ao vinho, o popular, o vulgar, se preferirem, já não é necessariamente mau.

Os monocasta da Coop. de Pegões, dos quais hoje vos trago, salvo seja, um exemplar, têm mantido lugar cativo cá por casa. Por norma, são vinhos redondos e relativamente gulosos, que trazem sempre algo mais que a soma da expressão frutada das castas que lhes deram origem com o tempero das barricas onde estagiaram. São bons, baratos e um bocado previsíveis também. Coisa que, a meu ver, não faz mal. Nem sempre. Um vinho não tem de ser sempre emocionante, pois não? O problema é que, quando o caminho escolhido é este, torna-se questão de tempo até que apareça quem venha dizer que são coisas fabricadas, sem alma. E daí à insinuação de que um vasto conjunto de vinhos diferentes, afinal, parecem todos iguais, pouco importando o ano ou as castas que lhes dão origem, vai apenas um pequeno passo. E do advento de um boato a que haja uma porrada de gente a tomá-lo em conta sem pensar, ainda menos.

Em particular, este Syrah da colheita de 2009, vinificado em cubas-lagar de inox, com maceração pelicular prolongada, e estagiado durante dez meses em meias pipas de carvalho, mostrou boa cor, fruta silvestre, escura e madura, misturada com especiarias quentes da casta e ligeiros torrados e outras sugestões que se nota provirem da barrica. De corpo mediano e sabor intenso, naturalmente gulosinho, passou pela boca firme e texturado, com presença. Mais uma vez, portou-se conforme esperado, e agradou.

5€.

15,5