quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sempre colado ao muro (boa idéia, ter vestido a roupa clara) o ladrão aproximou-se dos sete esquifes. O primeiro deles, bem à frente do portão da entrada, era preto e havia sido trazido às cinco da tarde. O seguinte — o claro e pequeno — era o que procurava. Ajoelhou-se ao pé dele, desatarraxou-lhe a tampa e, contendo a respiração, ergueu-a, fazendo-a depois escorregar de mansinho para um lado. Tirou a lanterna do bolso e acendeu-a. Focou primeiro as mãos da morta, pois ouvira falar no famoso solitário de brilhante — Opa! Naqueles dedos cor de cera de abelha não viu nenhum anel. Os pulsos estavam sem pulseiras. Iluminou o peito da defunta e não viu nenhum broche. No pescoço, nenhum colar... Numa  relutância supersticiosa focou o rosto do cadáver da dama e estremeceu. Os olhos dela estavam abertos, seus lábios começaram a mover-se e deles saiu primeiro um ronco e depois estas palavras, nítidas: "Senhor, em vossas mãos entrego a minha alma". O ladrão soltou um grito abafado, ergueu-se rácido, deixou cair a lanterna acesa e o pé-de-cabra, e rompeu a correr na direção dos campos desertos...

Quando viva, Quitéria Campolargo gostava de ficar às vezes contemplando o céu da noite — "garimpando estrelas", como ela própria costumava dizer. Era uma espécie de jogo divertido que de certo modo a aproximava mais de Deus. Mantinha longos namoros com as constelações — Orion, o Cão Maior, o Sagitário, o Triângulo Austral, o Centauro e principalmente o Cruzeiro do Sul que, por misteriosas artes do coração e da memória, ela não considerava uma constelação universal, mas parte do patrimônio brasileiro. Quando lhe acontecia alguma coisa que a entristecia, levando-a a descrer das criaturas humanas, ela procurava no céu o Escorpião e, se ele já estivesse visível, localizava a estrela Antares, pensava no seu diâmetro mais de quatrocentas vezes maior que o do Sol, comparava essas grandezas astronômicas com as mesquinharias de sua terra e de sua gente e acabava encontrando no confronto um profundo consolo que a punha de novo em paz com o mundo e a vida. E sempre que se sentia melancólica ou entediada e vinham dizer-lhe que alguém a chamava ao telefone, respondia: "Diga que não estou em casa, que fui para Aldebarã..."

Agora, estendida no seu esquife, D. Quitéria está de olhos abertos e parece contemplar um pedaço do firmamento da madrugada. Apalpa as contas do rosário, que tem entre as mãos enlaçadas, e seus lábios se movem formando as palavras duma prece.

Um vaga-lume esvoaça no campo de sua visão e acaba pousando na ponta de seu nariz. Ela o enxota com um movimento de cabeça. Depois, agarrando ambas as bordas do caixão, soergue-se devagarinho, permanece um instante sentada, olhando em torno — a solidão da esplanada e da noite, e aquela mancha luminosa e redonda num muro branco...


 Érico Veríssimo, Incidente em Antares, 1971