segunda-feira, 25 de março de 2013

Fui profeta da sabedoria e da verdade. Possuía as chaves da cidade. Senhor dos mares e dos pescadores. Sou hoje um cemitério de terracota. O mais belo cemitério onde vem desenvolver-se a loucura, onde dormem homens loucos de bondade, doentes por amor, doentes de razão.

Eu sou o louco d'Aïcha
mais formosa que a lua
pura como a loucura
tivemos filhos mortos com as flores
aqui estão eles
suspensos na minha barba
eu sou o louco de Rahma
saborosa como o pão
fértil como a terra
pássaro dos meus olhos
eles dizem que estou doido
mas não é verdade
grito choro e calo-me
danço sobre a labareda
e falo com os mortos

eu sou um segredo que estremece
um livro aberto para crianças medrosas
sou o cemitério dos necessitados
mas não sou uma aparição
dizem
depois de eu ter adormecido no regaço de Rouhania
ele é filho da solidão
sabes
quando Nachoude, o velho pescador, morreu, levado
pela espuma suja
fizeram-lhe um pomposo funeral
os gatos choraram
e o mar retirou-se a perder de vista e a lua velou muito tempo
a sepultura

eu sou a inércia criminosa e o exílio dos cães
tenho a amizade dos gatos e dos pobres
todas as minhas esposas me foram infiéis
soçobraram numa insensível loucura
das imagens e não das almas
eles dizem que estou doido
mas o que estou é sozinho
um pouco triste
escutai-me
vou contar-vos tudo...
eu tinha-lhe dado uma cabra...
não
não estou doido
se me deres um cigarro eu continuo a história...


Arzila: Estação de Espuma, Tahar Ben Jelloun, Trad. de Al Berto, Hiena, 1987