quinta-feira, 11 de julho de 2013

Não é impunemente que o fumador coloca a sua inteligência diante da ideia única e total: essa é uma contemplação fatigante, que pode tornar-se perigosa caso façamos dela uma rotina. Com efeito, em vez de se casar com a Ideia Única, o fumador arrisca-se a casar com uma só ideia, ideia talvez superior, talvez vulgar, mas que, no seu ilusório sonho, se reveste da perfeição suprema. Não se trata de uma crise de orgulho, estando o fumador tão despojado de si mesmo quanto do seu próximo; mas é a crise da ilusão e da ideia fixa. Em redor desta tudo se afunda, tudo é abolido, tudo desaparece. Depois, a faculdade de associação de ideias já não precisa de intervir; enferruja e a inteligência recusa-se (primeiro por desdém, depois por impotência) a considerar várias idieias nas suas relações e nas suas influências recíprocas. É uma diversão da atenção, da penetração, de todo o entendimento; é a dissociação intelectual no que ela tem de mais penoso; porque, ao fim de pouco tempo, tendo desaparecido o "desdém" superficial, o fumador toma consciência desta dissociação e da inferioridade geral a que ela o condena. Se quisermos transpor de forma um pouco ousada a terminologia médica, é exactamente a caquexia mental.

Devo no entanto dizer que nenhum destes efeitos é durável e profundo. Todos eles cessam (à excepção talvez da anemia nervosa) com a causa que lhes deu origem, ou seja, com a suspensão das sessões de fumo. Um organismo saturado de ópio liberta-se inteiramente em seis semanas... caso o queira; mas será que o quer, e, sobretudo, poderá querê-lo?



in O Livro do Ópio (Le Livre de l'Opium), de Albert de Pouvourville, sob o pseudónimo de Nguyen Ted Duc, 1925; trad. de Jorge P. Pires, ed. Frenesi, 2000.