quinta-feira, 31 de dezembro de 2015







terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Castelo de Azurara — Aragonez '2012

Este varietal Aragonês, também estagiado durante meio ano em madeira americana, mostrou-se o mais frutado e também o mais limpo e bem definido — o melhor dos três "Azurara" que bebi na semana passada.

É um vinho de dimensões medianas, fragrante sem ser super concentrado e possuidor de um fim de boca longo q.b., que trouxe consigo, de facto, as reminiscências de nozes que a ficha técnica prometia e eu tanto gosto de encontrar nos tintos secos. Tal como o do post anterior, deixa um pouco a ideia de ter sido feito a régua e esquadro, mas a suculência que evidenciou perdoaria muitas falhas, caso as tivesse.

Acompanhou uma feijoada vegan, onde os enchidos da praxe e/ou demais partes "vis" do porco teriam encaixado na perfeição, caso tal se tivesse proporcionado. Levou uma lata grande (800g) de feijão vermelho, cozido, 190g de tomate frito, também já preparado, duas cenouras, meia cebola, meio pimento vermelho, quatro dentes de alho e meia couve coração, de dimensões regulares, com a certeza de que também teria ficado bem com outras espécies.

A cebola refogou em meia colher, de sopa, de azeite, tendo-se-lhe juntado, por esta ordem, a cenoura, cortada em rodelas, o tomate frito, meia colher, de chá, de cominhos, e outra meia de paprika, depois o alho, sal e, por fim, o feijão, escorrido, bem como, eventualmente, um pouco de água. Por fim, após ter cozinhado um pouco, a couve e o pimento, em tiras finas.

5€.

16,5

domingo, 27 de dezembro de 2015

Castelo de Azurara — Touriga Nacional '2012

Em visita a um supermercado da região, encontrei três tintos diferentes da marca "Castelo de Azurara", produzidos e engarrafados pela Adega Cooperativa de Mangualde, e que aludem ao castelo que, nos tempos da Reconquista cristã das terras perdidas para os invasores árabes, durante a invasão muçulmana da península Ibérica, se situava no topo do monte onde actualmente assenta a ermida de Nossa Senhora do Castelo, entre a actual cidade de Mangualde e Quintela de Azurara.

A título de curiosidade, há quem defenda que esse castelo, "feito de pedra miúda, unida com cal e areia", conforme apontamento do vigário da freguesia de Mangualde, José Rebelo de Mesquita, em 1757, foi mandado erigir pelo mouro Zurara, do qual tomou o nome o concelho de Azurara, e mais tarde conquistado por Fernando I, Rei de Leão, em 1058. Outros atribuem-lhe origem anterior à da invasão islâmica, ou seja, visigótica, e consta existirem indícios de que, quando Fernando Magno tomou Seia, Lamego, Viseu e Coimbra, já o castelo de Mangualde estaria na posse dos cristãos há algum tempo.

Dos vinhos, o primeiro a ser consumido foi o monocasta Touriga Nacional de que cuida o presente post, cujo contra-rótulo indica a origem em vinhas com média de idades de 17 anos e estágio de 6 meses em barricas de carvalho americano. Está, acima de tudo, um tinto fino, polido. Apresenta aromas francos, muito característicos da casta e proveniência: o perfume terroso das violetas, frutos silvestres, negros, maduros, e ligeiríssimo tostado — marcas evidentes de madeira americana, nova, felizmente, não encontrei. Enfim, um "textbook touriga", de volume e densidade assim-assim.

5€.

15,5

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não gosto do dia de Natal. Olho para trás, até onde me lembro, e constato que, provavelmente, nunca gostei. Em criança, pequenino, havia o abrir dos presentes, com o mano, junto à árvore, de manhãzinha, ainda antes de os nossos pais acordarem. Depois, o dia em família, por vezes numerosa, que aparecia para almoçar ou lanchar. Comia-se, falava-se, viam-se uns filmes. Os adultos comentavam-se e às coisas deles, entre as quais nós, miúdos, também nos contávamos. Comparavam-se os rebentos e as respectivas virtudes, éramos todos promissores.

Ora, mesmo aos dez ou doze anos, não obstante aquilo que me tentavam incutir, provavelmente para que viesse a ter mais hipóteses de me tornar um adulto socialmente viável, já eu me recusava, por princípio, a "fazer a parte", de tal forma que, quando algo me parecia incorrecto, ou simplesmente palerma, não tinha qualquer problema em dizê-lo. Posto isto, acaba por ser natural que poucas fossem as datas festivas a não terminar em lágrimas. E os meus dias de Natal, aparte algumas ofertas, eram tão cansativos...

Cresci e comecei a ter os meus próprios conhecidos: meninos de fora, por assim dizer. Ainda vinha família, às vezes, mas já nao éramos dez a ver o "Sozinho em Casa" ou o "Beethoven" à volta da grande TV da sala de jantar. E se aí já tinha refinado as artes da hipocrisia, de tal forma que encarava com maior naturalidade o esforço necessário ao cumprimento das expectativas mínimas daqueles com quem mais directamente privava, eram outros, ou outras, que amargavam, não por serem chatos, mas por não estarem.

Eventualmente, o dia de Natal passou a ser sinónimo de um almoço de peru ou cabrito assado, apenas com pais e irmão; gambiarras, presépios e demais parafernália reduzidos ao mínimo, e depois a nada; as prendas convertidas em dinheiro, que não era surpresa, mas poupava o Pai Natal às minhas excentricidades.

E agora que sou velho e tenho guardada na memória do telemóvel uma lista de familiares, conhecidos fixes e outros mais ou menos, junto com contactos, por assim dizer, funcionais, não deixo de reparar naquilo que os conhecidos, digo, os fixes e os mais ou menos, não me dizem pelo Natal, continuando, também, sem lhes dizer nada, não obstante ter bem presente que podia tomar a iniciativa e o apontamento da S a reforçar que devia enviar uma mensagem de boas festas a X, Y e Z.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

La Réserve d'O '2012

Este tinto de Arboras, comuna do departamento de Hérault, no Languedoc-Roussillon, inserida na DO Terrasses du Larzac, foi feito por Fredéric e Marie Chauffray, que introduz o projecto assim:

"En 2004, je découvre un vignoble unique et original situé à 400 m d'altitude surplombant la Vallée de l'Hérault en Appellation Terrasses du Larzac. C'est un véritable coup de foudre, je vais enfin pouvoir produire mon vin! Avec Frédéric, mon conjoint, nous créons le domaine de La Réserve d'O. Les 10ha prennent racines dans un terroir de cailloutis calcaires, très pauvre et balayé quotidiennement par les vents du Nord. Notre travail en agriculture biologique et en biodynamie (ECOCERT et DEMETER) permet de développer la biodiversité et de trouver un réel équilibre entre la plante et son environnement. La vigne nous offre alors de magnifiques raisins, et le terroir s'exprime pleinement dans des vins élégants, racés et non uniformisés."

É composto por 45% de Grenache, 45% de Syrah e 10% de Cinsault, de cepas com mais de 30 anos. O mosto fermentou em inox e o vinho resultante estagiou, dois anos, em depósito de cimento.

Verti meia garrafa para dentro de um decantador e deixei-o respirar quase duas horas. Francamente generoso, trouxe consigo groselha e pimenta, negras, mato seco, tabaco e um toque vagamente almiscarado, animal. Escuro, rico, texturado, apesar de algum nervosismo, deixou-se beber muito bem. Talvez auxiliado pelo meu estado de espírito na altura, foi um vinho que só evocou coisas boas. Fora ele mais fino!

Ao segundo dia, continuou forte, alegre, cheio de si. Menos complexo que quando aberto, mas, ainda assim, repleto de fruta fresca e doce, agora com toque lácteo e de sangue, seguido de chocolate branco, mais no final.

14€.

17

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015





sábado, 19 de dezembro de 2015

Tulga — Crianza '2009

O dia decorreu dentro da normalidade: acordei à hora habitual, mudei a água e atestei a tigela dos biscoitos do gato, empurrei o pãozinho com fiambre do pequeno-almoço com uma generosa almoçadeira de Darjeeling. Depois, banho, quinze minutos de rua e umas horas de trabalho, sem incidentes.

Mais tarde, a volta habitual até ao bosque, convém ir cedo porque a maior parte do percurso a pé não possui iluminação artificial. Por fim, casa e as coisas de casa, porco e vinho tinto ao jantar. Para mim, que ela tornou-se vegan.

O vinho do dia, este, foi produzido na adega que o gigante espanhol Pagos del Rey possui em Morales de Toro, Zamora, onde antes operou a cooperativa vitivinícola Nuestra Señora de las Viñas, a maior da região no seu tempo, e que, consta, representa actualmente 36% da produção total de vinho da denominação de origem.

De ataque firme e permanência breve, pautado pelo álcool, trouxe consigo amora e cereja, negrume e calor. Em segundo plano, uma amálgama de tostados e baunilha, cremosa, a denunciar basto contacto com carvalho americano. Sem ser forte, mostrou um pouco de grão, na boca.

Como deixei de acreditar no conceito de vinho "bom para o preço" — um vinho ou sabe bem ou não sabe, de tal forma que ou vale a pena ou não, independentemente do preço — concluirei dizendo que, enfim, se bebeu.

4€.

14,5

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015





terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Foral de Évora '2011

Alentejano de Évora, produzido pela Fundação Eugénio de Almeida, na Adega Cartuxa, este tinto, lote de Trincadeira, Alicante Bouschet e Aragonês, traz no contra-rótulo a indicação de ter sido vinificado em cuba de aço inox, com maceração prolongada, seguida de estágio de "cerca de 12 meses" em barricas, novas, de carvalho francês.

Depois de meia hora de arejamento, pareceu-me predominar fruta, silvestre, madura, ligeira compota misturada, e vegetal seco, este muito alentejano, a fazer lembrar rama de tomateiro e casca de árvore. A barrica, bem medida e ainda melhor integrada, trouxe tostados e baunilha. Presença de razoável persistência, de corpo e concentração medianos, surpreendeu que tivesse 14,5% de álcool, dado aparentar menos.

Em Outubro de 2010, deixei aqui as minhas impressões a respeito do seu antecessor da colheita de 2007 e a ideia mantém-se: não obstante apenas ser produzido desde 2000, este vinho tem pinta de clássico. Um clássico de gama média, mais coeso que complexo, obviamente talhado para acompanhar comida, talvez um pouco perdido num mundo de novidades, onde não param de surgir referências interessantíssimas.

Para terminar, foi interessante que se tenha dado tão bem com a sopa, uma espécie de caldo verde "reinventado": inicialmente creme de alho francês, que depois de superar, a solo, as expectativas, levou couve britada.

8€.

16

sábado, 12 de dezembro de 2015







Da manhã ao princípio da tarde: restos de boletins de apostas, maços de tabaco amarrotados e preservativos usados numa mancha de arvoredo perto de Soito; chuva miudinha e muito vento, frio, nas ruínas do Sabugal Velho; uma cruz à beira do caminho, algures no Campo de Azaba: "?? una mano alevosa hizo una muerte cruel, te pide alma piadosa que pidas a Dios por el (...) murió el año 1749".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Quinta das Maias '2012 (Branco)

Bebido fresquinho, mostrou mais flores que frutos tropicais, mas ambos estavam presentes. Ligeiro em peso e volume, de acidez suave e toque arredondado, não sendo branco de guarda, pelo que já terá vivido dias de maior firmeza e definição, ainda suportou, e bem, o nian gao que lhe fez companhia.

A propriedade que lhe dá o nome está situada nas faldas da Serra da Estrela, a uns 600m de altitude, mais concretamente, entre as localidades de Nabais e S. Paio de Gouveia, sendo as uvas vinificadas na adega da Quinta dos Roques, que também pertence ao produtor. Compõem o lote 50% de Malvasia Fina, junto com Verdelho, Encruzado e Cercial; foi engarrafado sem passar por madeira.

Faz tempo que o suspeitava, mas acho que hoje confirmei que, por oposição a bebê-los, que nunca cansa, não gosto muito de escrever sobre vinhos, sobretudo quando, por preguiça ou outro motivo qualquer, não descubro coisas interessantes sobre eles e com pouco mais fico com que partilhar para além do desfile organoléptico da prova.

No entanto, continuo a vir aqui com gosto, mesmo quando é para pôr os vinhos. Ora, se o blog passasse a conter apenas as outras coisas, porque não ter antes um Tumblr fixe, com música, filmes, gajas e um link para o 4chan? Mas até um Tumblr desses poderia beneficiar do ocasional apontamento dedicado à "drink of the day", e aí, provavelmente, continuaria a ser preferível um blog, como isto que temos. Assim vou ficando; até à próxima!

5€.

16

domingo, 6 de dezembro de 2015

Filmes (65)




É um filme espanhol, low budget, de ficção científica, sobre viagens no tempo, passado no campo. Face a estas premissas, esperei, sinceramente, que fosse uma merda — mas, pelo contrário, resultou montes de fixe: entretém, dá que pensar e passa num instante. Muito bem!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Cistus — Reserva '2011

No Douro, o Inverno de 2010/11 foi chuvoso e a Primavera que se lhe seguiu, quente e seca. O Verão, mais fresco que o habitual, Setembro incluído, e não houve chuva de relevo antes da vindima. Um grande ano vitícola, dos melhores deste novo século.

Vinificado na Quinta do Reboredo, em Torre de Moncorvo, este tinto consiste num lote composto por 42% de Tinta Roriz, 38% de Touriga Nacional e 20% de Touriga Franca, de várias parcelas situadas nas encostas do rio Sabor, com uma média de idades de 24 anos. Abri a garrafa nº 8945 de 26718 produzidas, enviada para prova pelo produtor, a Quinta do Vale da Perdiz, que tem presença na internet.

Servi-o logo depois de aberto, num copo, por assim dizer, de jeito bordalês. Não sendo retinto, apresentou cor bem carregada, escura, consentânea com as lágrimas deixadas no rebordo do copo. Quis parecer-me estar muito primário, com montes de frutos negros "in your face" logo no ataque e um brilho de juventude, uma certa explosividade que se apôs muito bem ao carácter mais redondinho que mostrou na boca.

Ademais, aromaticamente, apanhei-lhe mato seco, com tomilho e esteva, algum tipo de licor, talvez de cereja, e um travo reminiscente de coco, resultado mais que provável dos 14 meses que passou em barricas, metade das quais, americanas, antes de ser engarrafado. Apesar do recorte moderno, nem por um momento levantou qualquer dúvida relativamente à sua origem: todo ele, não podia ser mais Douro — ou quase.

Portou-se coforme esperado face a coisas simples: churrasco de frango, salsicha e entrecosto, junto com pãozinho de Rio Maior. Mas foi quando combinado com um dos bolos de chocolate mais simples do mundo que superou as expectativas.

PVP recomendado, 9,99€.

16,5

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Espécie de:
fragmento apócrifo
— do livro de Génesis


Deus, quando criou o Tempo, cortou-o, com uma lâmina muito afiada, — em duas metades.

A uma das metades, chamou Passado; à outra, chamou Futuro.

Depois, viu que à primeira metade se podia também chamar Saudade; e à segunda, Esperança.

E viu também que ambas elas, Saudade e Esperança, eram dois caminhos bons: duas maneiras, digamos: muito viáveis — de os homens caminharem ao encontro de Ele Deus.

*

Mas também viu que faltava ainda alguma coisa.

*

Será que Deus, aqui, Se lembrou que o seu "Tempo" (entre aspas); a sua Divina Eternidade, se chama — Eterno Presente?

O certo é que Deus põe-Se a olhar, pensativo, para a linha sem espessura em que o seu golpe de lâmina muito afiada separara o Passado e o Futuro.

Ora vai senão quando, Deus quis dar, a essa linha sem espessura, (portanto inexistente, portanto ausente!) — o nome de: — Presente.

E ora vai também senão quando:

Mal Deus a nomeou, a baptizou Presente, produziu-se o milagre da linha sem espessura — de súbito ganhar finíssima espessura ... espessura finíssima ... Simbólica, talvez, na sua fininha pequenez ... Simbólica, decerto na milagrosa finura da sua espessura... E porventura, quem sabe? quase mais do que simbólica!; Quase um pouco como participante!: qualitativamente-micro-participante — da outra Espessura Infinita — do Infinito de Espessura — do Eterno Presente, — do Presente Eterno, — do Eterno, Eterno, três vezes Eterno Deus.



Vicente Sanches,
Pós-Escrito em dois aforismos (teatrais) — precedido, sempre e obrigatoriamente pelo Escrito: Doze Aforismos (teatrais).

domingo, 29 de novembro de 2015

Dona Paterna — Alvarinho e Trajadura '2013

É um branco ligeiro, engarrafado sem passagem por barrica, com 11,5% de volume alcoólico. Muito simples: ataque limonado, depois frutos de polpa branca, com destaque para a pêra, junto com notas de flor de laranjeira, e um toque adocicado, de mel e madurez, a crescer mais para o final.

No mais, fresco e bastante persistente, apesar de já não ser vinho do ano, não acusa a idade. Servido directamente da garrafa, acabado de sair da porta do frigorífico, deixou algumas bolhinhas na superfície do copo, que não se reflectiram, no entanto, na boca.

Dá-lhe o nome a condessa Dona Paterna, que fundou um mosteiro, no espaço de uma quinta que possuía onde agora se situa a freguesia de Paderne, de onde este vinho provém. A este respeito, lê-se no "Dicionário Histórico, Biográfico, Bibliográfico, Heráldico, Corográfico, Numismático e Artístico" editado por João Romano Torres, em 1903, que:

"Houve aqui um mosteiro de cónegos regrantes de Santo Agostinho, fundado pela condessa Dona Paterna, viúva de Don Hermenegildo, conde de Tui, numa sua grandiosa quinta, que possuía nestes sítios, com outras propriedades e aldeias. Fundou o convento para nele se recolher com suas quatro filhas, e outras nobres senhoras de Tui, que as quiseram acompanhar.

(...) Em 6/8/1130, estando as obras concluídas, foi sagrada a igreja do mosteiro pelo bispo de Tui, Don Paio, que também nesse dia o dedicou ao Salvador, e lançou à condessa, suas filhas e mais companheiras, o hábito das cónegas de Santo Agostinho. Mandou para confessores e capelães sete clérigos que em 1138 se fizeram regulares da mesma ordem, vivendo em comunidade.

(...) A fundadora foi a primeira prioresa das freiras, e Don Ramiro Pais o primeiro prior dos religiosos.

(...) A povoação tomou o nome de Paterna, que depois se corrompeu em Paderne, porque ao convento se dava o nome de mosteiro de Paterna. Não se sabe quando deixaram de existir aqui freiras, mas sabe-se que em 1248 só havia frades, tendo por prior D. João Pires, grande partidário de D. Afonso III, pelo que este monarca fez grandes doações ao convento, concedendo-lhe muitos privilégios".

Acompanhou uns camarões, preparados de forma parecida com esta, e aguentou bem o prato. Houve um varietal Alvarinho, da mesma casa, da colheita de 2011, que um dia aqui passou e me pareceu bastante superior.

5€.

15,5

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Não costumo escrever sobre coisas do dia-a-dia, e de certeza que ia separar os vinhos, digo, o do post anterior do que aí vem, com outra coisa qualquer, não alcoólica. Mas às vezes escarafuncho onde já escrevi e do link para o fiambre no post infra saltei para outro, d' "A Loja em Casa", no sítio do ECI na internet. E aí vi o que agora partilho:



O "Flavor Chef" o quê?

Ainda assim, talvez insuficiente, só por si, para justificar um post. Mas depois, pouco, pouquíssimo depois, quase acto contínuo, acedi ao DN online. E na página de abertura,


Será Deus a dizer-me que vá dormir?

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Compañía de Vinos Telmo Rodríguez — LZ '2013

Estava a 14ºC no copo quando começámos, palavra de termómetro digital. Antes, meia hora de arejamento em decantador. Mais enfático no nariz que na boca, é muito frutado — "tão morangueiro!" — e rico em especiarias também. Os cheiros e sabores aparecem limpos, os taninos têm nervo e a acidez existe em quantidade suficiente para que não subsista calidez.

E está muito bem dimensionado, com uma fluidez que permite encarar a sua basta dose de concentração, sem o peso que habitualmente se lhe associa! Assim justifica a falta daquele extra de profundidade e persistência que são necessárias num grande vinho: face à dádiva da natureza, foi feito deliberadamente fácil, coisa que não consigo deixar de achar uma óptima opção de design.

Riojano de Lantziego de Álava, é uma das opções de entrada do produtor. Foi feito com Tempranillo, Garnacha e Graciano, dizem que a apontar à maneira dos vinhos tradicionais da região, nos anos 20 do século passado: fermentou por acção de leveduras autóctones, em depósitos de cimento, onde permaneceu uns meses, até ser engarrafado.

Bebi com pizza de base fina e estaladiça, feita em casa, generosa no queijo e nos orégãos, e coberta com cubinhos de fiambre (acho o da marca própria do ECI, da perna, satisfatoriamente próximo do "Libra", que adoro, mas não encontro à venda aqui), cogumelos frescos e azeitonas pretas, oxidadas, daquelas de que muita gente que escreve sobre comida gosta de dizer que não gosta.

7€.

16

segunda-feira, 23 de novembro de 2015








Coisas da chuva: alguns dos últimos cogumelos deste Outono e uma lesma (Arion ater?) a almoçar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Domaine de la Rectorie — Cuvée Pierre Rapidel '2006

Outro vinho doce! Andarei deprimido? Mas este é especial, o primeiro Banyuls do blog.

Produzido de forma similar ao Porto, através de um processo em que a fermentação do mosto é interrompida por adição de aguardente, teve origem em uvas Grenache Noir (90%) e Carignan, provenientes da região de Banyuls-sur-Mer, no sudoeste do Roussillon, perto da fronteira com a Catalunha. Estas são, de certo modo, vinhas de montanha, à beira mar.

A acreditar no que diz a internet, da presente cuvée, o produtor terá enchido umas 6000 garrafas, de 50 e 75cl, após 6 anos de estágio em grandes barris de madeira avinhada, foudres.

Servido a 12ºC, apesar de um bocado funky no princípio, não tardou, porém, a mostrar montes de cheiros interessantes, terciários, de carácter oxidativo. Trouxe, por um lado, e acima de tudo, cerejas maceradas em álcool, junto com passas, várias, de ameixa, figo e tâmara, amêndoas tostadas, mel e especiarias quentes, como canela e caril; por outro, em jeito de contraponto mas não em pano de fundo, madeira velha, açúcar queimado, verniz.

Fez lembrar um bom ruby, de menor porte e limpeza, é certo, mas também mais vivaz, a deixar perceber verdadeira frescura, mau grado tratar-se de um generoso com 16,5% de volume alcoólico. A apontar, certo desvio para o amargo, mais presente no paladar e que encontrei muito interessante. Ainda não está no ponto, e por muitos anos, posto que deverá viver entre mais 30 e 50 em garrafa, mas duvido que venha a conseguir dar a alguma a guarda devida.

Com castanhas assadas, assim, foi excelente, mais ainda que com chocolate preto, que calhou ser deste.

Portes fora, 20€ por cada 50cl.

17

quarta-feira, 18 de novembro de 2015







domingo, 15 de novembro de 2015

José Maria da Fonseca — Moscatel de Setúbal "Superior" '1911

Âmbar escuro, com rebordo esverdeado, mostrou-se um vinho enorme, muitíssimo concentrado, de toque oleoso e peso condizente, mas possuidor de uma acidez extraordinária, capaz de o elevar, de fazer cada bocadinho vibrar na boca.

Muito complexo, evocou coisas tão díspares como mel e iodo, passas, licor, café, cravo-da-índia e outras especiarias de tons afins, junto com elementos químicos e medicinais. Um vinho de meditação, verdadeiramente elegante e que perdurou muito, muito tempo no palato, com recuerdos de frutos secos no final.

Tentei sentir-lhe o Moscatel, aquela uva branca de floral adocicado e fácil, que faz brancos secos perfumados e generosos super doces, e por incrível que pareça, ao fim de mais de cem anos em madeira, o Moscatel ainda estava lá, o cheiro doce que tanto gosto de encontrar à sombra de certos arbustos floridos, em fins de tarde quentes, no "nosso" bosquezinho habitual: nem por isso intenso, mas profundamente entranhado.

Atribuir-lhe um numerozinho da qualidade não foi fácil. Como a bitola de cada um se faz da sua experiência pessoal, dou-lhe a classificação mais alta por ser o melhor vinho que alguma vez bebi, independentemente do género, e por não lhe ter percebido nada em que devesse melhorar.

E isto traz-me à memória um professor de matemática que tive no liceu, homem severo, cirunspecto, mas de trato fino, que era conhecido entre os alunos como o "testa de ferro" e que por vezes afirmava, naquelas lavagens da alma que eram as aulas de auto-avaliação no final dos períodos, que "havia vintes e vintes". Ora, estes vinte valores não querem dizer que não espere vir a cruzar-me com vinhos ainda melhores; significam, apenas, que este, agora, para mim, esteve perfeito.

Na foto, a amostra que o produtor me remeteu em Novembro de 2014, num tubo WIT porreiro, junto com um convite para o respectivo leilão de lançamento, onde foram vendidas 100 das 180 garrafas de meio litro produzidas — as restantes permanecem na colecção privada da empresa. Ainda é relativamente fácil adquiri-lo, mesmo online, na Garrafeira Nacional, por exemplo, onde cada unidade de meio litro custa 780€.

Em 1911, os impérios russo e otomano ainda existiam; o comunismo era teoria. A Convenção Internacional do Ópio ainda não tinha sido assinada.

20

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Biosphere — Patashnik

Biosphere é um pseudónimo de Geir Jenssen, um norueguês nascido em 1962.

Em 1994, este foi o seu segundo álbum.

Li por aí que o autor apresentou patashnik como termo russo para um cosmonata perdido no espaço, mas parece que a palavra, afinal, não existia nessa língua.

Agora que conseguiu reunir algum interesse, já tem tudo para existir.

Noutro lugar, vi chamarem-lhe spaced out ambient techno.



A faixa nº 4, Novelty Waves, serviu de banda sonora a um anúncio da Levi's.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Quinta do Infantado — Tawny 10 Anos

Engarrafado em 2014. Macio, cálido, levemente aguardentado. Possuidor de alguma profundidade e um muito bom equilíbrio entre os tons de frutos secos e maduros, com os inevitáveis caramelo e café presentes, pareceu-me relativamente pouco doce (cof) para "dez anos".

Tentando não efabular, poderei dizer que apresentou as características que usualmente se associam ao estilo, aparte o sabor e a persistência, esses acima daquilo que será a média dentro do género.

De novo, não me é fácil escrever sobre estes vinhos, todos parecidos q.b. entre si — a diversidade é bem mais perceptível nos lotes com 20 e mais anos, já ignorando o mundo que são os "Colheita".

Sim, dentro do género, este pareceu-me dos melhores. No entanto, e isto tem ficado tão mais claro quanto mais vinhos tenho experimentado, não creio que seja possível afirmar com justeza que algum Porto datado, mesmo aqueles excedentes que acabam com as marcas das cadeias de supermercados que os vendem, é ou tem jeito de coisa standard.

Acompanhou mini palmiers, daqueles secos, que se vendem em caixas grandes a preço de desconto, chocolate em barra, o "Crunchy Nougat" Lindt, que é fofo e merece um link, fumo e conversa. CC gostou muito e a S também me pareceu convencida. Procurando por ele, online, encontrei isto.

15€

17

sábado, 7 de novembro de 2015

Velharias (40)


Se os olhos pudessem ver os demónios que povoam o universo, a existência seria impossível.
Talmud



Tudo se me afigurava claro.

Abri a torneira da água fria e esvaziei um frasco de gel na banheira. Depois fui à cozinha, preparei litro e meio de whisky-cola com sumo de limão e fechei-me no WC, para me envenenar em paz (todas as luzes acesas).

Sentia-me bem. Quase conformado. Embora a sombra da morte não me tivesse abandonado, conseguia agora aceitá-la sem incómodo algum, e, mais importante ainda, sem desespero, logo, sem pressas.

Ainda a seco, engoli umas unidades e comecei a beber. O primeiro contacto com a água teve o seu quê de desagradável. Nunca gostei de água fria. Depois, todos os reflexos se fundiram num clarão branco à minha volta. Eram quase sete da manhã, faltariam pelo menos três horas para que algum dos meus progenitores se levantasse. Fui-me medicando sem pressa, como quem goza o que faz.

Adormeci.

O bar tem uma grande parede de vidro fosco que dá para a rua, à altura de um primeiro andar. Chuvisca e há um cão que acelera e desaparece do meu campo de visão; os peões não se deixam perturbar, mecânicos, abatidos, é permanente o carácter da infelicidade.

Do outro lado da rua há um rio. O demónio Katavi disfarçado de rio. Vejo monstros negros cobertos de escamas que espreitam sob a cortina velada de uma enorme mancha de petróleo que o cobre em toda a sua extensão.

Um atrasado mental mija para dentro do petróleo, que começa a arder. Gases incandescentes levantam-se da piscina de fogo e alastram. Toda a cidade em chamas, o céu negro-mate dá as boas vindas aos horrores que se levantam.

Milhares e milhares de mortos, a terra vermelha de sangue, animais tresloucados tomam de assalto a cidade. (Onde está o rio?) Fuligem. Cadáveres carbonizados por toda a parte. Estou farto, farto de tudo. Tired of walking to&fro around this wellknown insignificant maze, I feel the goodold apathy taking over me & drown in the muddymisty waters of joyfulmisery.

Dias depois, é uma carcaça trémula que aborda o comboio das cinco e vinte, para Faro. Em silêncio, espera, pede uma garrafa de água, não consegue beber. Não consegue segurar o copo. O medo de nada é uma condição muito peculiar.

bip
bip

e a pequena luz azul de uma nova mensagem recebida. É M que pergunta por mim.

Ainda no Norte, dissera-lhe que não se preocupasse, que não tardaria a ir ter com eles. Demorara dois dias pelo caminho e não dera notícias. O que não tem nada de anormal, bem vistas as coisas.

E ali estava, enfiado num comboio, a descer em direcção a mais algumas horas de nada, porque podia e não havia nada melhor para fazer.

Noite anterior:

"Abriu um whiskybar novo no Tivoli. Ainda não fui lá."

Fomos.

Meia noite e qualquer coisa, átrio deserto, uns pretos em amena cavaqueira na entrada que dá para o lobby. Lá dentro, o barman e uns centro-europeus, talvez alemães, de ar abrutalhado. Conversa sobre a vida, o estado do mundo. Havia no ar um estranho inconformismo com "tudo isto".

"A distribuição de poderes está a voltar ao que era na Idade Média: feudalismos" dizia. E eu

"Feudalices, caralho. Uma tirania adocicada. Nem sequer subtil. Como pensamos sempre por via das dúvidas, até as maiores barbaridades nos parecem razoáveis quando acontecem. Depois olhamos para o passado e parece fácil "prever" o rumo que algo tomou. Mas só porque é como olhar para um problema resolvido.

Bah, não sou assim tão pessimista. Repara no sistema que estás a tomar, o mundo! Há sempre imponderáveis, e com mais gente a fazer mais merda, haverão cada vez mais. A informação flui como nunca, todos vêem mais. Há tempos li algo, um estudo, acho que de uns tipos de Berkeley, que tentava medir a quantidade de informação produzida no mundo, por ano. Pois é cada vez mais, a crescer depressa."

"Mas ver mais não é poder mais. Nós não sabemos controlar essa informação. Estamos perdidos nela."

"E que interessa? Há quem saiba."

"Sim. Mas esses são aqueles que mandam servi-la às massas. E aos seus bobos. Dos políticos aos publicitários."

"É inevitável. As pessoas consomem sempre o que lhes é colocado à frente. Não por serem burros, que são, mas talvez por não terem outra alternativa. E para quem manda, é fundamental que pensem que podem escolher, que se sintam confortáveis, mesmo que não possam, não saibam fazê-lo."

"E pior, será que "esses" que controlam a informação o fazem em consciência? Sem dúvida que querem, e até agora tem corrido bem. Mas nenhum status quo se mantém para sempre."

"Claro que não. Nenhum establishment possui um plano de orientação único. Poder é uma forma de estar na vida, não um ofício. As traves mestras do sistema são coisas profundamente humanas, aspirações. As orientações implementativas são instrumentos do desejo humano. Não existe um "big brother", ou melhor, existe, mas é uma entidade fragmentária. Nem sequer é uma entidade, é um conjunto de pessoas com ideias e objectivos diversos, que partilham uma mesma forma de consciência de classe, uma educação assente em bases até certo ponto comuns e, enfim, a própria natureza do homem.

Os que caem vão sendo substituídos. Queira deus que continuem a fazê-lo pontualmente e sem demasiados danos colaterais.

E mais, quem está no topo da pirâmide é humano, semelhante aos que constituem a base. Olha para a base, para como a base se vê a si mesma. Para isso, passar no Vasco da Gama continua a ser uma experiência elucidativa."

"É. Pão e circo! O povo não se importa de ser cada vez mais escravizado. O que mais me irrita é que parece que ninguém se apercebe do que está a acontecer. Antes do 11 de Setembro, andava tudo doido. Saía à rua e perguntava-me "o que é que esta gente tem?" Tinha de acontecer algo, e aconteceu. Agora tudo parece mais calmo, embora quase ninguém note a diferença. Andam ocupados, coitaditos. Mas a tendência para virmos a acabar como personagens do 1984 não desapareceu."

"Mas achas que abrandou?"

"Não sei. Aí tens o efeito dos imponderáveis. Embora seja difícil não ser venenoso ao pensar até que ponto o ataque ao WTC terá sido ou não consentido, talvez esperado por quem necessitava dele, de um motivo para que as hordas se unissem outra vez porque o "inimigo" estava a ganhar — talvez — uma imagem demasiado simpática. Não sei se é a palavra certa, não deve ser. Bem, estou-me a cagar para a palavra certa.

"Seja como for, é tabu não ver o ataque ao WTC como um imponderável. E ajuda esta minha teoria vê-lo como tal, pelo que sim, foi. Aí tens um exemplo do seu poder. Bah... odeio teorias da conspiração. Fodido cair nisso."

Fomos conversando, mas também fui ficando mais lento. O barman, sepulcral, passava longos minutos sem se mover um centímetro. De vez em quando, destacava-se de entre o grupo de alemães algo parecido com uma voz que pedia mais qualquer coisa.

"Os políticos tornaram-se palhaços. O seu poder é real, mas sabem muito bem que não devem morder a mão que os alimenta. Pensa na União Soviética, em Cuba. O governo pensou que podia substituir os grandes senhores, aqueles que realmente fazem acontecer coisas.

Pensaram que podiam criar uma classe social hermética, protegida pela desinformação: desde que a consciência global permanecesse doente ao ponto de o povo se julgar imprescindível, o estatuto dos que ocupavam os lugares cimeiros estaria garantido.

Protegeram-se com toneladas de burocracia, propaganda, enfim, repressão. Os que estavam empoleirados na torre de marfim não souberam prever o seu próprio bem a longo prazo e acabaram. Agora são passado, e em casos como o velho Fidel, esse proletário que vive dos estranjas capitalistas que lhe compram charutos e temporadas na praia, autênticas piadas vivas.

Ah, que talvez o cinismo não leve nunca a situações sustentáveis, mas é preciso ser-se cínico para sobreviver. No fim, talvez sejamos como todas as outras espécies, naturalmente auto-destrutivos. Aparecemos, crescemos e depois morremos, e nada poderemos fazer contra isso porque é a nossa natureza."

"Podemos ir-nos reproduzindo. Olha os chineses."

"Ya, os chineses. Os chineses são todos fodidos."

E depois, muito Glenfiddich "Havana" depois:

"Olha o barulho que estes cabrões fazem. Mas são o motor da Europa. Inatacáveis, sempre, na sua seriedade. Depois, de vez em quando, tentam atacar os vizinhos. Serão alemães?"

"Ou suíços?"

"Os suíços ainda são piores que os alemães. Os suíços, os anal-retentivos"

E eu a ouvir. E a responder quase só com monossílabos. Desde que me conheço, quando estou todo fodido, só quero que me deixem em paz, eu e a carga que tiver em cima. Nada mais interessa muito.

"A net não é um bom modelo. É um oceano com dois centímetros de profundidade. É uma consequência — como tal, demasiado simples para funcionar como modelo da vida — suficientemente complexa para gerar confusão."

"A confusão é necessária."

"Mas tu achas bem que o monstro continue a crescer, a simplificar as pessoas?"

"Nunca disse isso."

"Passaste a noite a dizer que te sentias conformado!"

"E vais tu mudar o mundo? Ou alguém?"

O whiskybar não ficava aberto até de madrugada. Acabámos por ir para outro sítio.

E agora, remoer, escrevinhar.

A, M, N, L, T, R, dispensam apresentações. Não são bem personagens, nem figurantes: antes cenário, importantes quando estão presentes. Contudo, sem eles, a história seria outra, isto se ainda houvesse história ou alguém para a contar.

Chegamos, enfim, ao destino. M, bolo, C, R. R é fodido, sobretudo agora que o acidente o azedou. Já não as papa todas, só quase, e claro que não lhe chega. Mas continua a chamar e que diabo, não terei vindo para isso? No mais, ficar na cidade sozinho, onde não conhecia mais ninguém, ainda faria menos sentido.

No monte:

"Vocês ficam?"

"Ficamos."

Na solidão daquele enorme terraço empoleirado no cimo do monte, recordei A em silêncio. "Eu tenho calma", disse-me. "Demasiada."

Ocorreu-me essa estranha ideia de o corredor da morte ser talvez a mais perfeita representação da vida, pela própria. O condenado que aguarda sabe o seu destino. Pode lutar por um adiamento, pode consegui-lo ou não. As celas podem ser estritamente individuais, mas o condenado à morte tem companheiros de corredor, guardas, correspondência. Por todos os meios, é levado a sentir que não está só, embora lhe seja impossível não descortinar a realidade, uma solidão fantástica, que afinal é a de cada um de nós, todos os dias, apresentada a frio, concretamente, sem rodeios ou eufemismos.

É certo que o condenado à morte sabe a data programada para a execução. Um dia, o último adiamento é indeferido. Depois o tempo passa cada vez mais depressa. E não são poucos aqueles que chegam com a esperança de um milagre à hora de enfrentar o grande talvez.

Mas milagre para quê, porra? É tão mais fácil antever a morte, mesmo o suicídio, como uma sombra difusa que aguarda algures no futuro. E não há possibilidade de comutação de pena.

Delírios. Devaneios de bêbedo.

Seguimos sem esperar pelos outros.

"Ainda te lembras das coisas que dizíamos no princípio? Somos psiconautas. Fazemos isto para apagar. Apagamos momentos a tentar registar cópias aproximadas de momentos. Não vivemos, contamos vida, a nossa.

O que sentimos não são palavras, sons... não interessa o que sentimos. Não interessa o que pensamos ou pensamos ser. Pensamos apagar ser. Apagar, escrever. Apagar, reescrever."

Deixei-me cair no sofá. Não valia a pena esperar por uma resposta. Fizesse o que fizesse, tudo ficaria na mesma. A vida é uma velada imutavelmente feliz. Nascemos à espera. Já nessa altura sabemos que a ordenação é uma espada de dois gumes atravessada na garganta. Depois inventamos esperanças, vivemos distraídos e, antevendo a cerimónia, chamamos evolução ao grande nada de sonho que vemos no lugar dos outros.

Depois morremos. E é só isso, a vida. É triste registá-la.

Um restolhar de folhas e gritos de pássaros entrou frio pela janela nas minhas costas. Ouvi um cigarro que se acendia. Depois, uma voz pura, neutra, branca, insípida de alabastro polido... a voz daquele busto de Schubert com que às vezes falava na Parvónia,

"São coisas da vida. Agora estamos bem.

Estamos bem, não pensamos.

Devia ser sempre assim, não achas?

Jorge?"

E assim, enquanto os meus pais me julgavam adormecido em Coimbra, após mais um dia de aulas, o meu cérebro explodia em bolas de neve luminescente, lá em baixo, naquela casa sobre as colinas, junto ao mar.

5/9 - 4/10/2004



Epílogo, sort of:

Não falei mais com M. L e A desapareceram. Diziam que L se tinha suicidado. As coisas que me prendiam à terra natal, aqui tantas vezes Parvónia, foram decaindo e morrendo. O meu gato, nunca cheguei a arranjar engenho suficiente para falar sobre ele como deve ser. O Barrocal, dinamitado para ampliarem uma circular. E R e todos os outros. Deixei de ter bons motivos para lá voltar. A casa paterna, hábito que se cumpre, pontualmente. Tornei-me trabalhador e caseirinho. Deixei de ligar à noite. Apaguei o blogue antigo. Amansei. Se hoje em dia me virem na rua, é possível que não esteja ganzado. Fiquei com a S. Continuei a jogar xadrez, online.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

SantoWines — Assyrtiko '2014

O meu primeiro vinho grego, um Assyrtiko de Santorini! Sobejamente conhecida como destino de sonho para aqueles que gostam de praia e ao mesmo tempo são capazes de tolerar gregos, é a maior ilha do arquipélago com o mesmo nome, localizado no extremo sul das Cíclades, no mar Egeu, uns 200Km a sudeste de Atenas: o remanescente da ilha original, após a chamada erupção minoica, uma das maiores explosões vulcânicas de que há registo — há quem suspeite ser a origem verdadeira das histórias sobre a Atlântida, adivinhem lá porquê.

Geograficamente, domina o conjunto uma grande lagoa, vagamente rectangular, com 400m de profundidade, a caldeira do vulcão, onde actualmente ancoram grandes navios de recreio, rodeada em três dos seus lados por penhascos íngremes e separada do mar no quarto por uma outra ilha, menor, chamada Terásia. Os solos de lava, xisto e pedra-pomes são pobres em humidade e matéria orgânica, de tal forma que as cepas, muitas delas plantadas em pé franco, conduzidas pelo método Koulara, que consiste em enrolá-las em círculos contínuos, como que em formato de cesta, de modo a protegê-las tanto quanto possível do sol intenso e dos ventos fortes da região, subsistem durante o Verão graças ao orvalho que resulta das neblinas matinais. E podem durar muitos anos.

Conforme a receita tradicional, o produtor engarrafou este vinho sem passagem por madeira. Aberto e bebido assim que retirado da porta do frigorífico, trouxe consigo notas de sumo e raspa de limão, algumas delas bem amarelas, meladas, e talvez tremoço, também. Com jeitinho, sal. Possuidor de algum corpo e untuosidade — o teor alcoólico é de 13,5% — persiste bem. Mas a acidez, que esperava assertiva, só funcionou realmente enquanto bebido frio. Aliás, quando lhe recusei um balde de gelo, ele retribuiu com um fundinho adocicado, persistente, de que não gostei. Com uma receita simples de camarão, dominou. Com queijo de cabra não tão curado assim, bebeu-se. Acredito que não seja um exemplar destacado do que se faz por lá, mas deu para ter uma ideia, e é interessante.

5€

15

domingo, 1 de novembro de 2015

Filmes (64)




Desta vez, nem o filme é de terror nem se contou entre aqueles que efectivamente vi na noite de 31 para 1, e que foram bem fracos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Terlano — Montigl, Pinot Noir '2012

Servido após dupla decantação — verti o vinho da garrafa para dentro de um decantador e daí de volta para a garrafa — mostrou cor granada, escura, dotada da saturação discreta que normalmente se associa à casta. Fragrante, apesar de no princípio apenas ter mostrado fruta vermelha de contornos ácidos e madeira um pouco crua, melhorou quando boa parte desta, após basto arejamento, se esbateu muito consideravelmente, deixando um toque fumado e de resina.

Com o passar do tempo, também a fruta melhorou, tendo chegado a mostrar, no seu melhor momento, notas límpidas de framboesa, a par de algo tão vago quanto interessante, que me sugeriu coisas roxas. A acompanhar peito de pato, salteado na frigideira, com cebolinho e xerez, trouxe consigo praticamente tudo o que esperava de um bom exemplar da casta: a frescura, o toque macio mas denso, o sabor agradável, o final prolongado. Tivera mais substância, mais complexidade, e seria grande. A outra garrafa que existe cá em casa será guardada durante um par de anos, provavelmente com vantagem.

Monocasta Pinot Noir, proveio do Alto Ádige, mais em concreto, daqui, lugar que o produtor introduz da seguinte forma na ficha técnica que tem online: "Terlano is a wine-growing village located halfway between South Tyrol’s main towns of Merano and Bolzano where the Adige flows through a wide valley in a south-easterly direction. The village and vineyards nestle against the red porphyry rock of Monte Tschöggl on the orographically left side of the valley".

As uvas, de vinhas com idades entre 8 e 60 anos, fermentaram em inox após desengace, tendo o vinho resultante feito a maloláctica e subsequente estágio em madeira: metade do volume em barris grandes e a outra metade em barricas, um terço das quais, novas. Da colheita em apreço, resultaram 33200 garrafas, não numeradas.

20€.

16,5

segunda-feira, 26 de outubro de 2015








Ao princípio da tarde, quase duas horas na areia. Quando vínhamos embora, surgiu uma aberta quente. Vi uma lagarta de Hyles euphorbiae, talvez para outro post.

sábado, 24 de outubro de 2015

Covela — Avesso '2014

Eu e esta neura melancólica que me toma quando percebo que os dias cheios de sol estão a acabar, começamos por esta altura do ano a insistir em coisas de Verão, deliberadamente já meio fora do tempo, como andar de t-shirt ao vento e jantares de salada e bichos do mar acompanhados por brancos bem frescos.

De tal forma que dois dias depois de ter bebido o do post anterior, voltei a ver-me no centro comercial, decidido a obter uma quantidade generosa de sushi low-cost e na contingência de procurar um branco a condizer. Assim que vi este Avesso da colheita de 2014, não tive dúvidas quanto a trazê-lo comigo.

A primeira impressão foi estranha: parecia o de 2013, mas mais velho.

Depois notei que o principiozinho opulento, de maçã caramelizada e algum tipo de geleia, responsável por essa sugestão de maturidade, rapidamente se viu diluído em frescura limonada e outras sugestões vegetais de carácter sério, a caminho de austero, como se o vinho, com vergonha do toque decadente, fizesse por disfarçá-lo.

Muito agradável na boca, vivo, expressivo, confirmou o perfil cítrico e a concentração que a mostra ao olfacto fizera adivinhar.

Ligeiramente mais manso que o do ano anterior, compensa com precisão e complexidade, de tal forma que, no fim, é bem capaz de estar um furito acima dele, mau grado o perfil aparente ter-se afastado do meu gosto pessoal.

6€.

16,5

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Covela — Avesso '2013

A propriedade está localizada na parte mais austral da região dos Vinhos Verdes, na fronteira entre o Minho e o Douro, junto a S. Tomé de Covelas — dá para o rio, tem um solar renascentista, lagares e a necessária capela, tudo do sec XVI e em ruínas, e pertenceu a Manoel de Oliveira, o cineasta.

Adquirida por Nuno Araújo no final dos anos 80, foi ganhando nome com muitas colheitas seguidas de vinhos porreiros, como este, por exemplo.

Mas a empresa que a explorava faliu na sequência de um projecto imobiliário falhado, que passava por integrar uma dúzia de moradias de luxo, para habitação, nos terrenos da quinta, e o banco credor ficou com ela em leilão.

Ora, o banco em apreço, também sem liquidez e entretanto nacionalizado, teve de a vender aos outros interessados, à data, o duo Anthony Smith e Marcelo Lima, e as operações foram reiniciadas em 2011, com a antiga equipa, enólogo incluído.

Este branco, monocasta Avesso sem madeira (passou parte do Inverno sobre as borras finas) vai a caminho dos dois anos, mas continua bem intenso, repleto de tons limonados, várias histórias de sumo e casca, e possui paladar seco e acidez vibrante. Muito, muito fresco.

Poderei ter-lhe percebido certa mineralidade, mas essas são coisas do demo, de que prefiro não falar. O fim de boca pareceu-me bastante prolongado. Em suma, um "Verde", não Alvarinho, com extra de corpo e alma. Gostei!

6€.

16

domingo, 18 de outubro de 2015





quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Pirineos Selección — Merlot & Cabernet, Crianza '2007

As uvas, Merlot e Cabernet Sauvignon, provieram de parcelas diversas, localizadas entre Barbastro, onde fica a adega, e Salas, um pouco a Norte. O vinho passou para barricas novas, de carvalho americano, após a fermentação alcoólica, e lá fez a maloláctica, a que se seguiu um ano de repouso.

Uma primeira impressão, logo depois de aberto, foi "bastante tostado", e apesar de ter ganho alguma fruta, negra, com o arejamento de meia hora em decantador, esta nunca chegou a parecer-me o tom dominante.

Já na mesa, com comida, cheirando melhor, balsâmicos e especiarias, caramelo e café — na fronteira com a imaginação, alcatrão e grafite. A caminho dos oito anos, retém certa vivacidade no paladar, ademais correcto, equilibrado, de razoável persistência. Ficou a ideia de amargar um pouco no final.

É necessário reconhecer que ajudou a proporcionar bons momentos, apesar de a madeira continuar presente (bebi-o em novo, no princípio de 2010, mas, nessa altura, o "ai jesus" aqui pelo blog já me tinha passado e acabei por não o publicar) e se notar que o tempo em garrafa não lhe trouxe grande acrescento em complexidade, agora que estará no princípio da curva descendente.

Sobre a comida: perninhas de frango e batatas: comuns, doces e roxas, estas últimas bem terrosas, tudo temperado com "Pinchos Mix" do Mercadona, sal, azeite e alho (a imprecisão na enumeração das batatas foi propositada). Para ter menos uma coisa para lavar, comi do tabuleirinho de ir ao forno e desta vez, dispensei a salada.

O Nando's peri-peri sauce de alho esteve presente e concluí com queijo de cabra. Pecado :)

7€.

15,5

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Eu vs Comp. (10)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sempar '2011

Se atentasse apenas na informação que existe a seu respeito na internet, teria de considerá-lo um verdadeiro vinho virtual. Bairradino, provém da Quinta de Baixo, localizada em Cordinhã, concelho de Cantanhede, propriedade que a Niepoort adquiriu em 2012.

O rótulo é original q.b. e inclui uns bonequinhos, a denominação de origem, o nome do produtor, a indicação de que cada garrafa contém 75cl de líquido, que por sua vez contém sulfitos e 12,5% de teor alcoólico. Se é um produto de transição, dado que as uvas foram colhidas em 2011, ou uma versão light deste, não sei ao certo.

Não lhe encontrei marcas declaradas de passagem por madeira e é ou levou quantidade não negligenciável de Baga, mas Baga acessível, fresca e tão frutada e polida quanto possível, com mais enfoque na satisfação imediata, o cheirar e saber bem logo depois de aberto, sem grande evolução subsequente, que na longevidade ou profundidade. Essas ficarão para vinhos maiores.

No fim, não empolgou nem comprometeu. Mais que OK para o quotidiano, sobretudo se emparceirado com pratos compatíveis, coelho assado ou bife de atum braseado, por exemplo, poderá constituir, também, uma introdução interessante aos que ainda não conhecem os vinhos aqui da zona, onde a concorrência no escalão de preços em que o colocaram é, felizmente, feroz.

Se a memória não me atraiçoa, estará mais alegre, logo menos solene que este, quando o bebi. No mais, parecidinho, até.

6€

15,5

terça-feira, 6 de outubro de 2015

When the Creator created the earth, the bear was made the master of all the beasts. The wolf, the fox, and the wolverene paid homage to him. But the wild reindeer refused to obey him, and ran about free, as before. One day the Forest-Owner was hunting five reindeer-does; and one doe, in running, brought forth a fawn. The Forest-Owner caught it and wanted to devour it. The Fawn said, "Please give me a respite. My flesh is too lean. Let me grow up to be a one-year-old."--"All right," said the Forest-Owner, and he let him go.

After a year the Forest-Owner found the fawn, and wanted to devour it; but the fawn said once more, "Do not eat me now! Let me rather grow a little and be a two-year-old." — "All right," said the Forest-Owner, and he let him go. Another year passed, and the reindeer fawn had new antlers, as hard as iron and as sharp as spears. Then the Forest-Owner found the fawn and wanted to devour it. He said, "This time I am going to eat you up." — "Do!" said the fawn. The Forest-Owner drew his knife and wanted to stab the fawn. "No," said the fawn, "such a death is too cruel and too hard. Please grasp my antlers and wrench off my head." The Forest-Owner assented, and grasped the fawn's antlers. Then the fawn gored him and pierced his belly through, so that the intestines fell out and the Forest-Owner died. The fawn sought his mother. "Oh, you are still alive! I thought you were dead." — "No," said the fawn, "I killed the Forest-Owner, and I am the chief of the reindeer." Then the bear sent a fox to the fawn. The fox said, "All the beasts pay homage to the bear, and he wants you to do the same." — "No," said the fawn, "I killed the Forest-Owner, I also am a chief."

After that they prepared for war. The bear called together all those with claws and teeth,--the fox, the wolverene, the wolf, the ermine. The reindeer-fawn called together all those with hoofs and antlers — the reindeer, the elk, the mountain-sheep. Then they fought. The bear and the reindeer-fawn had a single fight. The fawn pierced the bear through with its antlers of iron. Then it stood still and felt elated. But its mother said, "There is no reason to feel elated. Your death is at hand." Just as she said this, a wolf sprang up from behind, caught the fawn by the throat and killed it.

Because the reindeer-fawn gored the Forest-Owner to death, no reindeer dies a natural death. It lives on until a wolf, creeping up from behind opens its throat and kills it.

Told by Innocent Karyakin, a Tundra Yukaghir man, on the western tundra of the Kolyma country, winter of 1895.


Waldemar Bogoras, Tales of Yukaghir, Lamut and Russianized Natives of Eastern Siberia
Anthropological Papers of the American Museum of Natural History, Vol. XX, Part I,

New York, 1918.

sábado, 3 de outubro de 2015

Castello D'Alba — Vinhas Velhas, Grande Reserva '2012

As uvas, de castas misturadas na vinha, com predominância de Touriga Nacional, Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinta Francisca, Tinta Roriz, Touriga Franca e Sousão, mas presença de outras, provêm de cepas com mais de 40 anos de idade, plantadas no Douro Superior, a uma altitude média de 350 metros, sendo as parcelas escolhidas em função da colheita, refere o produtor no seu sítio da internet. Estagiou em barricas de carvalho francês, novas e usadas, durante ano e meio.

Ainda jovem, mas já pronto a beber, está um tinto fino e macio, bastante concentrado mas nem por isso pesado, capaz de transmitir uma envolvência muito agradável sem nunca se tornar morno ou chato, e que termina longo e saboroso. No nariz, a par da fruta negra (cerejas e?) bem madura, muitos tostados e fumados, e ainda aquela panóplia de aromas químicos e florais que é comum encontrar em durienses de vinhas velhas, ricos em tourigas: da violeta ao verniz, passando pelo álcool, a baunilha e mais tarde, após basta evolução no copo, chocolate de leite.

Tendo reparado ser daqueles vinhos que frequentemente colocam em destaque — e em promoção — nos supermercados "Continente", comprei-o meio desconfiado, apesar da boa experiência que um branco da mesma casa e gama proporcionou recentemente. Mas é, de facto, um bom vinho, ainda capaz de melhorar qualquer coisa nos próximos três ou quatro anos, integre-se ele com o tempo, como promete.

9€.

16,5