sexta-feira, 24 de abril de 2015

Em referência aos primeiros tempos da luta política de Hitler, Sir Winston Churchill escreveu nas suas Memórias: «A derrota, a falência da lei e da ordem, o triunfo francês, causaram àquele cabo uma tortura que consumia o seu ser e que acabou despertando dentro dele essas portentosas e desmesuradas forças do espírito que podem aplicar-se poderosamente à salvação ou à perdição do género humano.» É possível que Hitler, procurando atingir a primeira, não conseguisse evitar a segunda. Poucas figuras houve jamais que, como ele, concitassem à sua volta nem mais fervorosos entusiasmos nem ódios mais implacáveis; desde o sopé ascendeu até ao cume, para descer de novo até baixo. Se tivesse triunfado, Hitler seria um herói universal; derrotado, conta para muitos como um dos maiores criminosos da História. Com muitas coisas certas e inauditos erros, Hitler não foi provavelmente nem um malvado nem um louco: talvez caiba afirmar com maior exactidão que, defraudador do seu próprio destino, por erros de táctica ou pela intromissão de imponderáveis que não pôde ou não soube vencer, desatou sobre a Europa a própria tempestade, à qual ele desejara servir de pára-raios.

Pedro Gómez Aparicio trad. por J. Pinharanda Gomes,
in "Construtores do Mundo Contemporâneo", Vol.4,
Lello Editores, 1982.