segunda-feira, 15 de junho de 2015

Château Segue Longue Monnier '2010

Fundado em 1992, o produtor possui 31 hectares de vinha com 20-30 anos, localizada num planalto de solo rochoso, em Jau-Dignac, e enche cerca de 60 mil garrafas por ano, boa parte das quais vai para o Lidl. Este vinho de agricultura biológica, lote de Cabernet Sauvignon, Merlot, Petit Verdot e Cabernet Franc, com 18 meses de estágio em barrica, trazia no rótulo a designação de Cru Bourgeois, o que me chamou a atenção. Valerá a pena fazer um parêntesis a esse respeito.

A primeira lista de Cru Bourgeois, classificação concebida para incluir produtores do Médoc que não entraram na classificação de 1855, foi elaborada em 1932 e incluía 444 produtores, divididos por três patamares, presumivelmente de qualidade: crus bourgeois exceptionnels, crus bourgeois supérieurs e simplesmente crus bourgeois. Apesar de nunca ter sido ratificada oficialmente, representava, de facto, certa garantia de qualidade, e como tal tornou-se cara ao público, de tal forma que a maioria dos produtores abrangidos fazia questão de a utilizar nos seus rótulos. Mas com o tempo, e com certas pessoas também, o padrão foi decaindo, com ele a sua representatividade, e as coisas tiveram de ser revistas. Mas talvez não o tenham sido da melhor maneira  a lista de produtores abrangidos pela classificação de 2003 tinha caído para 247 e os excluídos não gostaram. Após várias voltas legais, a classificação Cru Bourgeois foi anulada por um tribunal em 2007 e o uso comercial do termo, ilegalizado pela DGCCRF. Mas a Alliance des Crus Bourgeois não desistiu e a designação foi reintroduzida em 2010, sendo agora concedida anualmente, como marca de qualidade sem patamares, a vinhos, e não a produtores, com base numa avaliação tanto do método de produção como do produto acabado.

Ora, dado que 2010 foi um grande ano em Bordéus e este vinho, todo tão certificado, estava a menos de 8€, trouxe-o comigo. Servido logo depois de aberto, e aberto por impulso já bem tarde, em dia de semana, apesar de desde logo ter dado a perceber tratar-se de um Médoc de estilo ligeiro, focado na fruta, mais cereja que morango, cereja escura, para beber já, o facto é que me pareceu um pouco fechado. Reparei na madeira, que estava bastante presente, mas como era bonita, não me importei. Peso médio, mostrou frescura q.b. e uma firmeza interessante, mais relacionada com tensão que com textura (quem não compreender, apesar de se importar, que culpe a minha cabeça, se tal o fizer sentir-se melhor). Nesse dia, apontei no caderninho que se bebia quase como água. Doze horas depois, estava bem melhor, com a fruta a tomar contornos mais avermelhados e muito balsâmico, a fazer lembrar montes de coisas diferentes, como maçã "bravo" e marmelo, cedro, pinho, flores secas, chocolate e café, um bouquet mesmo bonito.

Resumindo, apesar de não ser um vinho "grande" em nada, bebe-se com imenso prazer, que é o que mais importa. E poderá justificar mais um anito em garrafa, só pela curiosidade.

8€.

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