domingo, 16 de agosto de 2015

Lustau — Los Arcos, Amontillado

Amontillado é um tipo de Xerez com origem em uvas Palomino Fino, criadas em solos de albarizas, ricos em carbonato de cálcio. Os mostos, uma vez fermentados, desenvolvem o chamado véu de flor, que lhes transmite pungência e secura características: muito resumidamente, é nisto que consiste a crianza biológica, estática, do vinho. Com o passar do tempo, estas leveduras, que cobrem o interior das barricas onde o vinho estagia, morrem, deixando o líquido muito mais exposto à influência do oxigénio do ar. Aí começa a fase oxidativa do envelhecimento, que por norma se associa ao estágio dinâmico em criaderas e soleras (merecem um link), que garante a uniformização do nível de qualidade do vinho, de colheita para colheita, e que, no caso de amontillados velhos, pode durar muitos anos.

Este vinho que serve de mote ao post, em concreto, é um amontillado comparativamente modesto, inserido comercialmente na linha "popular" do produtor, as Bodegas Lustau, de Jerez de la Frontera. Não sei se era fresco: quando procurei a garrafa, para tentar aferir a data de engarrafamento a partir do número de lote lá impresso, descobri que a tinha deitado fora. Frio, acabado de sair do frigorífico, e logo depois de aberto, fez lembrar tawny velho, por força da cor ambarina e do carácter melado, bem terciário, com toque de doçura, a untuosidade definida, mas nada frutado e de presença menos alcoólica, rico em canela e frutos secos, com notas de iodo e casca de laranja. De secura e salinidade muito mais comedidas que qualquer Fino — passou por aqui este, do mesmo produtor — não é necessariamente vinho para tapas ou sobremesa, de tal forma que acompanhou com sucesso este franguinho de que tanto gosto.

Um pouco mais quente, ganhou outro poder, outra envolvência, mas começou também a parecer menos fino e preciso, pelo menos na boca. Aí, empurrou uma fatia de bolo xadrez e um palmier, sem cobertura, da Vasco da Gama. Desta primeira incursão, sobrou quase meia garrafa, abatida com o lanche do dia seguinte: pão, manteiga, queijos Brie (Président, bonzinho) e Pecorino Romano (Zanetti, uma pilha de sal), fiambre e mortadela, tendo encaixado sempre bem. Veio vedado com uma simples rolha capsulada, semelhante às que se encontram no Porto corrente, mas apresentava algum depósito.

16€

17,5