sábado, 7 de novembro de 2015

Velharias (40)


Se os olhos pudessem ver os demónios que povoam o universo, a existência seria impossível.
Talmud



Tudo se me afigurava claro.

Abri a torneira da água fria e esvaziei um frasco de gel na banheira. Depois fui à cozinha, preparei litro e meio de whisky-cola com sumo de limão e fechei-me no WC, para me envenenar em paz (todas as luzes acesas).

Sentia-me bem. Quase conformado. Embora a sombra da morte não me tivesse abandonado, conseguia agora aceitá-la sem incómodo algum, e, mais importante ainda, sem desespero, logo, sem pressas.

Ainda a seco, engoli umas unidades e comecei a beber. O primeiro contacto com a água teve o seu quê de desagradável. Nunca gostei de água fria. Depois, todos os reflexos se fundiram num clarão branco à minha volta. Eram quase sete da manhã, faltariam pelo menos três horas para que algum dos meus progenitores se levantasse. Fui-me medicando sem pressa, como quem goza o que faz.

Adormeci.

O bar tem uma grande parede de vidro fosco que dá para a rua, à altura de um primeiro andar. Chuvisca e há um cão que acelera e desaparece do meu campo de visão; os peões não se deixam perturbar, mecânicos, abatidos, é permanente o carácter da infelicidade.

Do outro lado da rua há um rio. O demónio Katavi disfarçado de rio. Vejo monstros negros cobertos de escamas que espreitam sob a cortina velada de uma enorme mancha de petróleo que o cobre em toda a sua extensão.

Um atrasado mental mija para dentro do petróleo, que começa a arder. Gases incandescentes levantam-se da piscina de fogo e alastram. Toda a cidade em chamas, o céu negro-mate dá as boas vindas aos horrores que se levantam.

Milhares e milhares de mortos, a terra vermelha de sangue, animais tresloucados tomam de assalto a cidade. (Onde está o rio?) Fuligem. Cadáveres carbonizados por toda a parte. Estou farto, farto de tudo. Tired of walking to&fro around this wellknown insignificant maze, I feel the goodold apathy taking over me & drown in the muddymisty waters of joyfulmisery.

Dias depois, é uma carcaça trémula que aborda o comboio das cinco e vinte, para Faro. Em silêncio, espera, pede uma garrafa de água, não consegue beber. Não consegue segurar o copo. O medo de nada é uma condição muito peculiar.

bip
bip

e a pequena luz azul de uma nova mensagem recebida. É M que pergunta por mim.

Ainda no Norte, dissera-lhe que não se preocupasse, que não tardaria a ir ter com eles. Demorara dois dias pelo caminho e não dera notícias. O que não tem nada de anormal, bem vistas as coisas.

E ali estava, enfiado num comboio, a descer em direcção a mais algumas horas de nada, porque podia e não havia nada melhor para fazer.

Noite anterior:

"Abriu um whiskybar novo no Tivoli. Ainda não fui lá."

Fomos.

Meia noite e qualquer coisa, átrio deserto, uns pretos em amena cavaqueira na entrada que dá para o lobby. Lá dentro, o barman e uns centro-europeus, talvez alemães, de ar abrutalhado. Conversa sobre a vida, o estado do mundo. Havia no ar um estranho inconformismo com "tudo isto".

"A distribuição de poderes está a voltar ao que era na Idade Média: feudalismos" dizia. E eu

"Feudalices, caralho. Uma tirania adocicada. Nem sequer subtil. Como pensamos sempre por via das dúvidas, até as maiores barbaridades nos parecem razoáveis quando acontecem. Depois olhamos para o passado e parece fácil "prever" o rumo que algo tomou. Mas só porque é como olhar para um problema resolvido.

Bah, não sou assim tão pessimista. Repara no sistema que estás a tomar, o mundo! Há sempre imponderáveis, e com mais gente a fazer mais merda, haverão cada vez mais. A informação flui como nunca, todos vêem mais. Há tempos li algo, um estudo, acho que de uns tipos de Berkeley, que tentava medir a quantidade de informação produzida no mundo, por ano. Pois é cada vez mais, a crescer depressa."

"Mas ver mais não é poder mais. Nós não sabemos controlar essa informação. Estamos perdidos nela."

"E que interessa? Há quem saiba."

"Sim. Mas esses são aqueles que mandam servi-la às massas. E aos seus bobos. Dos políticos aos publicitários."

"É inevitável. As pessoas consomem sempre o que lhes é colocado à frente. Não por serem burros, que são, mas talvez por não terem outra alternativa. E para quem manda, é fundamental que pensem que podem escolher, que se sintam confortáveis, mesmo que não possam, não saibam fazê-lo."

"E pior, será que "esses" que controlam a informação o fazem em consciência? Sem dúvida que querem, e até agora tem corrido bem. Mas nenhum status quo se mantém para sempre."

"Claro que não. Nenhum establishment possui um plano de orientação único. Poder é uma forma de estar na vida, não um ofício. As traves mestras do sistema são coisas profundamente humanas, aspirações. As orientações implementativas são instrumentos do desejo humano. Não existe um "big brother", ou melhor, existe, mas é uma entidade fragmentária. Nem sequer é uma entidade, é um conjunto de pessoas com ideias e objectivos diversos, que partilham uma mesma forma de consciência de classe, uma educação assente em bases até certo ponto comuns e, enfim, a própria natureza do homem.

Os que caem vão sendo substituídos. Queira deus que continuem a fazê-lo pontualmente e sem demasiados danos colaterais.

E mais, quem está no topo da pirâmide é humano, semelhante aos que constituem a base. Olha para a base, para como a base se vê a si mesma. Para isso, passar no Vasco da Gama continua a ser uma experiência elucidativa."

"É. Pão e circo! O povo não se importa de ser cada vez mais escravizado. O que mais me irrita é que parece que ninguém se apercebe do que está a acontecer. Antes do 11 de Setembro, andava tudo doido. Saía à rua e perguntava-me "o que é que esta gente tem?" Tinha de acontecer algo, e aconteceu. Agora tudo parece mais calmo, embora quase ninguém note a diferença. Andam ocupados, coitaditos. Mas a tendência para virmos a acabar como personagens do 1984 não desapareceu."

"Mas achas que abrandou?"

"Não sei. Aí tens o efeito dos imponderáveis. Embora seja difícil não ser venenoso ao pensar até que ponto o ataque ao WTC terá sido ou não consentido, talvez esperado por quem necessitava dele, de um motivo para que as hordas se unissem outra vez porque o "inimigo" estava a ganhar — talvez — uma imagem demasiado simpática. Não sei se é a palavra certa, não deve ser. Bem, estou-me a cagar para a palavra certa.

"Seja como for, é tabu não ver o ataque ao WTC como um imponderável. E ajuda esta minha teoria vê-lo como tal, pelo que sim, foi. Aí tens um exemplo do seu poder. Bah... odeio teorias da conspiração. Fodido cair nisso."

Fomos conversando, mas também fui ficando mais lento. O barman, sepulcral, passava longos minutos sem se mover um centímetro. De vez em quando, destacava-se de entre o grupo de alemães algo parecido com uma voz que pedia mais qualquer coisa.

"Os políticos tornaram-se palhaços. O seu poder é real, mas sabem muito bem que não devem morder a mão que os alimenta. Pensa na União Soviética, em Cuba. O governo pensou que podia substituir os grandes senhores, aqueles que realmente fazem acontecer coisas.

Pensaram que podiam criar uma classe social hermética, protegida pela desinformação: desde que a consciência global permanecesse doente ao ponto de o povo se julgar imprescindível, o estatuto dos que ocupavam os lugares cimeiros estaria garantido.

Protegeram-se com toneladas de burocracia, propaganda, enfim, repressão. Os que estavam empoleirados na torre de marfim não souberam prever o seu próprio bem a longo prazo e acabaram. Agora são passado, e em casos como o velho Fidel, esse proletário que vive dos estranjas capitalistas que lhe compram charutos e temporadas na praia, autênticas piadas vivas.

Ah, que talvez o cinismo não leve nunca a situações sustentáveis, mas é preciso ser-se cínico para sobreviver. No fim, talvez sejamos como todas as outras espécies, naturalmente auto-destrutivos. Aparecemos, crescemos e depois morremos, e nada poderemos fazer contra isso porque é a nossa natureza."

"Podemos ir-nos reproduzindo. Olha os chineses."

"Ya, os chineses. Os chineses são todos fodidos."

E depois, muito Glenfiddich "Havana" depois:

"Olha o barulho que estes cabrões fazem. Mas são o motor da Europa. Inatacáveis, sempre, na sua seriedade. Depois, de vez em quando, tentam atacar os vizinhos. Serão alemães?"

"Ou suíços?"

"Os suíços ainda são piores que os alemães. Os suíços, os anal-retentivos"

E eu a ouvir. E a responder quase só com monossílabos. Desde que me conheço, quando estou todo fodido, só quero que me deixem em paz, eu e a carga que tiver em cima. Nada mais interessa muito.

"A net não é um bom modelo. É um oceano com dois centímetros de profundidade. É uma consequência — como tal, demasiado simples para funcionar como modelo da vida — suficientemente complexa para gerar confusão."

"A confusão é necessária."

"Mas tu achas bem que o monstro continue a crescer, a simplificar as pessoas?"

"Nunca disse isso."

"Passaste a noite a dizer que te sentias conformado!"

"E vais tu mudar o mundo? Ou alguém?"

O whiskybar não ficava aberto até de madrugada. Acabámos por ir para outro sítio.

E agora, remoer, escrevinhar.

A, M, N, L, T, R, dispensam apresentações. Não são bem personagens, nem figurantes: antes cenário, importantes quando estão presentes. Contudo, sem eles, a história seria outra, isto se ainda houvesse história ou alguém para a contar.

Chegamos, enfim, ao destino. M, bolo, C, R. R é fodido, sobretudo agora que o acidente o azedou. Já não as papa todas, só quase, e claro que não lhe chega. Mas continua a chamar e que diabo, não terei vindo para isso? No mais, ficar na cidade sozinho, onde não conhecia mais ninguém, ainda faria menos sentido.

No monte:

"Vocês ficam?"

"Ficamos."

Na solidão daquele enorme terraço empoleirado no cimo do monte, recordei A em silêncio. "Eu tenho calma", disse-me. "Demasiada."

Ocorreu-me essa estranha ideia de o corredor da morte ser talvez a mais perfeita representação da vida, pela própria. O condenado que aguarda sabe o seu destino. Pode lutar por um adiamento, pode consegui-lo ou não. As celas podem ser estritamente individuais, mas o condenado à morte tem companheiros de corredor, guardas, correspondência. Por todos os meios, é levado a sentir que não está só, embora lhe seja impossível não descortinar a realidade, uma solidão fantástica, que afinal é a de cada um de nós, todos os dias, apresentada a frio, concretamente, sem rodeios ou eufemismos.

É certo que o condenado à morte sabe a data programada para a execução. Um dia, o último adiamento é indeferido. Depois o tempo passa cada vez mais depressa. E não são poucos aqueles que chegam com a esperança de um milagre à hora de enfrentar o grande talvez.

Mas milagre para quê, porra? É tão mais fácil antever a morte, mesmo o suicídio, como uma sombra difusa que aguarda algures no futuro. E não há possibilidade de comutação de pena.

Delírios. Devaneios de bêbedo.

Seguimos sem esperar pelos outros.

"Ainda te lembras das coisas que dizíamos no princípio? Somos psiconautas. Fazemos isto para apagar. Apagamos momentos a tentar registar cópias aproximadas de momentos. Não vivemos, contamos vida, a nossa.

O que sentimos não são palavras, sons... não interessa o que sentimos. Não interessa o que pensamos ou pensamos ser. Pensamos apagar ser. Apagar, escrever. Apagar, reescrever."

Deixei-me cair no sofá. Não valia a pena esperar por uma resposta. Fizesse o que fizesse, tudo ficaria na mesma. A vida é uma velada imutavelmente feliz. Nascemos à espera. Já nessa altura sabemos que a ordenação é uma espada de dois gumes atravessada na garganta. Depois inventamos esperanças, vivemos distraídos e, antevendo a cerimónia, chamamos evolução ao grande nada de sonho que vemos no lugar dos outros.

Depois morremos. E é só isso, a vida. É triste registá-la.

Um restolhar de folhas e gritos de pássaros entrou frio pela janela nas minhas costas. Ouvi um cigarro que se acendia. Depois, uma voz pura, neutra, branca, insípida de alabastro polido... a voz daquele busto de Schubert com que às vezes falava na Parvónia,

"São coisas da vida. Agora estamos bem.

Estamos bem, não pensamos.

Devia ser sempre assim, não achas?

Jorge?"

E assim, enquanto os meus pais me julgavam adormecido em Coimbra, após mais um dia de aulas, o meu cérebro explodia em bolas de neve luminescente, lá em baixo, naquela casa sobre as colinas, junto ao mar.

5/9 - 4/10/2004



Epílogo, sort of:

Não falei mais com M. L e A desapareceram. Diziam que L se tinha suicidado. As coisas que me prendiam à terra natal, aqui tantas vezes Parvónia, foram decaindo e morrendo. O meu gato, nunca cheguei a arranjar engenho suficiente para falar sobre ele como deve ser. O Barrocal, dinamitado para ampliarem uma circular. E R e todos os outros. Deixei de ter bons motivos para lá voltar. A casa paterna, hábito que se cumpre, pontualmente. Tornei-me trabalhador e caseirinho. Deixei de ligar à noite. Apaguei o blogue antigo. Amansei. Se hoje em dia me virem na rua, é possível que não esteja ganzado. Fiquei com a S. Continuei a jogar xadrez, online.