terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Espécie de:
fragmento apócrifo
— do livro de Génesis


Deus, quando criou o Tempo, cortou-o, com uma lâmina muito afiada, — em duas metades.

A uma das metades, chamou Passado; à outra, chamou Futuro.

Depois, viu que à primeira metade se podia também chamar Saudade; e à segunda, Esperança.

E viu também que ambas elas, Saudade e Esperança, eram dois caminhos bons: duas maneiras, digamos: muito viáveis — de os homens caminharem ao encontro de Ele Deus.

*

Mas também viu que faltava ainda alguma coisa.

*

Será que Deus, aqui, Se lembrou que o seu "Tempo" (entre aspas); a sua Divina Eternidade, se chama — Eterno Presente?

O certo é que Deus põe-Se a olhar, pensativo, para a linha sem espessura em que o seu golpe de lâmina muito afiada separara o Passado e o Futuro.

Ora vai senão quando, Deus quis dar, a essa linha sem espessura, (portanto inexistente, portanto ausente!) — o nome de: — Presente.

E ora vai também senão quando:

Mal Deus a nomeou, a baptizou Presente, produziu-se o milagre da linha sem espessura — de súbito ganhar finíssima espessura ... espessura finíssima ... Simbólica, talvez, na sua fininha pequenez ... Simbólica, decerto na milagrosa finura da sua espessura... E porventura, quem sabe? quase mais do que simbólica!; Quase um pouco como participante!: qualitativamente-micro-participante — da outra Espessura Infinita — do Infinito de Espessura — do Eterno Presente, — do Presente Eterno, — do Eterno, Eterno, três vezes Eterno Deus.



Vicente Sanches,
Pós-Escrito em dois aforismos (teatrais) — precedido, sempre e obrigatoriamente pelo Escrito: Doze Aforismos (teatrais).