sábado, 31 de dezembro de 2016


24 horas de passagem pela terra natal antes do fim do ano. Decoração alusiva à época, simples mas engraçada, e uma feirola com farturas e carrosséis na praça principal. Mixed feelings! Os centros comerciais do meu tempo, meio mortos. Parece que, como tudo o que não é Lisboa e Porto, a cidade se plastificou para fora. Surgiram novos lugares, sobretudo na periferia, maiores e mais vistosos, que teriam constituído uma adição porreira caso não representassem o fim do que já existia. Mas as coisas são assim mesmo. As condições mudaram. O país, o mundo mudou. E uma dessas mudanças foi o abastardamento do que é dirigido às massas. Lembro-me, por exemplo, de ser puto e qualquer relojoaria de merda ter Omega e Longines na montra. E agora?


De manhã, antes de regressar, nova volta. O Praça Velha, que ficava no antigo Celeiro da Ordem de Cristo, fechou. Tinha um espaço porreiro, uma carta de vinhos bem composta, com alguns tintos de guarda no ponto ideal de consumo e não demasiado caros, tipo isto, e ficava num sítio super conveniente, mesmo ao lado do Património. Era, pois, possível jantar no melhor restaurante lá da terra, fumar uma ganza ao virar da esquina e ir logo para os copos, também no melhor bar lá da terra, sem grandes tropeções, arrumações ou outras complicações. Assim, almocei sushi de take-away, em casa, com uma cerveja. Mediano, muito mediano. O bolo xadrez, praticamente impossível de encontrar em Coimbra, continua, no entanto, bastante popular. Missão: store up, pig out.


Foi com certa mágoa que encontrei fechada a Conquilha, uma espécie de centro ocupacional para jovens que ficava na travessa Nuno Álvares e que foi onde aprendi a jogar xadrez. Já lá não passava há tantos anos, e mesmo que ainda existisse, de certeza que agora já não era "para mim", mas vejo através da porta meio escavacada aquele interior despojado, com sinais de largo abandono, e que melancolia! Na altura não o valorizava, mas terá sído dos poucos, pouquíssimos lugares onde, em pequeno, passei momentos realmente felizes. Sim, as aulinhas de xadrez ao Sábado, com o N. Abreu e depois os Wright, a par dos torneios de Magic e das reuniões do INTERACT, lol.


As viagens do "Intercidades" da Beira Baixa passaram a ser feitas exclusivamente por UTE — sim, automotoras. Parece que a CP poupa uns cobres, logo toda a gente (que importa) aprova. E não, montado nestes periquitos novos, o troço à beira Tejo não é a mesma coisa. Falta espaço, falta gosto. Em suma, uma merda.


Valha-nos que, do Entroncamento para cima, ainda é possível vir num comboio de verdade. Regresso e tanto ela como o gato me aguardam. Definitivamente, melhor que poder cabriolar ao sabor das mais amplas liberdades, é ter quem nos faça uma festa quando chegamos. Antes do recolher, aproveitamos para comprar vegetais.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Quinta do Sobral — Vinha da Neta '2011

Do contra-rótulo: "Homenagem do avô Nelson para a neta Maria Simões que perpetuará a tradição dos vinhos da Quinta do Sobral".

Tinto de Santar, Nelas, consiste num lote de Touriga Nacional, Alfrocheiro e Tinta Roriz, estagiado em barricas novas de carvalho francês.

Que vinho! Retinto, com reflexos arroxeados. Muito tourigão e ainda muito fechado também, com o alcatrão (guaiacol, 4-etil-guaiacol?!) e os fumados da barrica, os etéreos dos seus 15% de álcool e as violetas e bergamota da casta dominante a sobreporem-se à fruta, preta e surpreendentemente pouco faladora — persistente, o corpanzil troncudo é amparado por uma grande acidez.

Face a tantas coisas grandes, o primeiro impulso foi dizê-lo bom. Mas, vendo melhor as coisas, está tão fechado, tão alcoólico . . . ainda mais que o já algo difícil monocasta Touriga Nacional do mesmo ano . . . enfim, porque há-de a monumentalidade ter sempre tendência a ser sobrestimada?

Não gostando de bombas, sei que há quem as aprecie. E assim, mesmo não me tendo este vinho sabido lá muito bem — sem ir, contudo, tão longe quanto a S, quando lho dei a provar: "isto é só solvente e cascas de árvores, não é?" — o valor numérico que encerra o post volta a ser, e ainda mais que no caso do já referido Touriga, uma manifestação de fé.

14€.

16

domingo, 25 de dezembro de 2016

Filmes (76)

The Last Temptation of Christ



Adaptação da novela de Nikos Kazantzakis com o mesmo nome, este filme é um retrato (meio) alternativo da vida de Jesus Cristo, contado na primeira pessoa. Consta que a inefável Madre Angélica lhe chamou "a Holocaust movie that has the power to destroy souls eternally", avisando que a Califórnia seria submersa pelas águas do Pacífico caso viesse a ser exibido — sem especificar, no entanto, quando.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2012

A receita deste 2012 é afim da do 2009 que consta do post anterior: Baga e Touriga Nacional, com predominância da primeira, vinificação em lagar aberto e estágio em tonel avinhado.

Tal como o outro, foi servido sem cerimónias, directo da garrafa. E tal como nele, se o protagonista é fruta, vermelha mas bem doce, com rebuçado misturado e levíssimo floral e fumado que aparentam não querer separar-se, contributo provável da Touriga, o fio condutor é acidez e o espaço onde toda a acção se desenrola, mineral, ora a fazer lembrar terra seca, ora aparas de lápis.

É, pois, bastante parecido com o seu predecessor de 2009 — e já agora, 2010 — a grosso modo, pouco mais persistente que intenso, tão intenso quanto profundo e apenas um pouco mais profundo que volumoso. Não excluo a possibilidade de a observação anterior (ou a totalidade delas) poder ser vista como um valente disparate, mas foi exactamente esse o apontamento que tomei no calor do momento, com os vinhos e as carnes à frente, invadido pela pressa de comer que a gula traz e perpassado pela despreocupação de estar a fazer . . . nada. Como agora, relido dias depois, continua a fazer todo o sentido, pelo menos para mim, deixo ficar. É o meu mapa, tanto melhor se puder servir a mais alguém!

Então, a maior juventude deste vinho face ao de 2009 traduziu-se essencialmente num pouco mais de aresta e um pouco menos de harmonia, o que também o terá feito parecer mais forte. O tempo que passou exposto aos elementos, no copo, trouxe-lhe uns achocolatados que não detectei no outro, sempre mais balsâmico. Tudo diferenças pequenas. Relevante é serem dois Bairrada perfeitamente adultos, ao mesmo tempo simples, no bom sentido da palavra, e alegres, evidentemente com vários anos pela frente.

Para terminar: a) a comida foi javali estufado e pão com meia dúzia de tipos de queijo; b) a produtora mantém activa a sua página no Facebook, mas deixou cair o sítio que tinha em casadesaima.com, e que poderia ser boa ideia trazer de volta, mesmo com conteúdo redundante ou praticamente sem ele, caso a experiência do passado tenha mostrado não advir retorno de o desenvolver. Sempre dá um aspecto mais profissional e cosmopolita que uma presença em rede social com hiperligação para um sítio "clássico" que já não existe.

6€.

16

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Casa de Saima — Reserva '2009

Abri recentemente, em paralelo, duas garrafas de Casa de Saima "Reserva" que servirão de mote para este e o próximo post: um exemplar da colheita de 2009, já com sete anos de existência, e outro de 2012. Ora, exige o rigor que esclareça, desde já, que nem o Saima mais antigo está velho ou qualquer coisa que se pareça, nem o mais recente é um vinho novo. Aliás, pareceu-me notável a proximidade verificada entre estas duas garrafas, que se encontram, claramente, no mesmo patamar de evolução, apesar da diferença de idades.

Long story short, este 2009 fez-se de fruta vermelha — cereja, framboesa — e mineral — grafite, terra — só com um toque balsâmico, algum tipo de resina. De volume mediano e persistência satisfatória, está super fácil de beber, a idade bem mais sugerida (está tão fresco que não me atrevo a dizer denunciada) pela coesão do conjunto que pelas poucas, se algumas, notas de evolução apresentadas.

Será ainda digno de nota o facto de este vinho me ter parecido mais ligeiro e jovial que os "Reserva", por assim dizer, antigos da casa, aqueles do rótulo branco, produzidos aí até meados da década de 2000, quando o Dr. Carlos Almeida e Silva, ex-marido da actual proprietária, ainda integrava o projecto — coisa que já tinha notado neste 2010, quando o bebi, novinho, em 2013.

Os 18ha de vinha desta produtora não são contíguos, encontrando-se dispersos por várias propriedades da Bairrada, localizadas entre Fogueira, Paraimo, Ancas e S. Mateus, e não aferi de qual ou quais proveio a matéria-prima deste vinho. Facilmente acessível está a informação de ter sido criado a partir de Baga (60%) e Touriga Nacional, vinificadas de maneira clássica, com fermentação em pequenos lagares abertos seguida de um ano de estágio em tonéis antigos, de madeira de carvalho.

6€.

16,5

sábado, 17 de dezembro de 2016

Estufado de Vaca à Russa

Não é de todo habitual que aqui reproduza receitas de terceiros, mas o "Russian Beef Stew" do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, que acompanhou, num dos dias, o vinho do post anterior — num dos dias: a S tornou-se furiosamente vegana, já há mais de um ano, e estas coisinhas maiores, só para mim, duram várias refeições — impressionou-me tanto que tive de abrir uma excepção.

Traduzido às três pancadas, este estufado leva:

1,3 Kg de carne de vaca "para cozer", cortada em pedaços de 5 cm,
4 chávenas (1 US cup = 236,59 ml) de cebola Vidalia, picada,
1 chávena de cenoura "baby", ralada fina,
1 chávena de caldo de carne,
1 chávena de vinho branco,
½ chávena de preparado de preparado de raiz-forte,
½ chávena de creme azedo,
6 colheres, de sopa, de manteiga,
3 colheres, de sopa, de farinha,
2 colheres, de sopa, de mostarda de Dijon,
4 colheres, de chá, de alho picado,
2 folhas de louro,
sal, pimenta preta e salsa fresca.


E faz-se assim:

Derretem-se 4 das 6 colheres de manteiga numa frigideira antiaderente, grande, sobre lume médio, e lá se doura a carne, ao de leve, uns 30 segundos por lado, antes de se retirar para um prato e temperar com sal e pimenta a gosto.

Adiciona-se o alho, a cebola e a cenoura à frigideira, sem a limpar, e refoga-se, mexendo ocasionalmente, durante 5 minutos. Tempera-se, também, esta mistura com sal e pimenta.

Transferem-se os vegetais para dentro do recipiente do slow cooker (a receita refere um com 4 quarts de volume, o que dá aproximadamente 3,8 litros; presumo que não haja qualquer problema se for utilizado um maior) e deposita-se a carne por cima deles.

Misturam-se o caldo e o vinho e despejam-se sobre a carne. Junta-se o louro e deixa-se cozinhar, em "low", durante 7 horas, até a carne ficar macia, sem que, contudo, se desfaça.

Passado este tempo, transferem-se a carne e os vegetais para dentro de um qualquer outro recipiente, com uma escumadeira. Passa-se o líquido que ficou no fundo do slow cooker por uma peneira de cozinha, e reserva-se, juntando à carne todas as partes sólidas que lá tenham ficado retidas. Devolve-se a carne e os vegetais ao recipiente do crockpot, que se tapa para não perder calor.

Derretem-se as restante 2 colheres de manteiga, numa caçarola, em lume médio-baixo. Junta-se-lhes primeiro a farinha, como quem faz um roux, e depois os sucos da cozedura que se tinham reservado. Começando a mistura a ferver, reduz-se o lume para o mínimo e deixa-se cozinhar, mexendo constantemente, até o molho espessar, o que deverá demorar uns 10 minutos. Adiciona-se então o preparado de raiz-forte e a mostarda, e tempera-se com sal e pimenta.

Cobre-se a carne com este molho e deixa-se integrar, com o slow cooker ligado, no mínimo, mais 1 a 3 horas.

Antes de servir, junta-se creme azedo ao estufado até o molho ficar cremoso. Transfere-se tudo para uma travessa e polvilha-se com salsa cortada de fresco. Acompanha-se com batatas vermelhas, novas, ou, diz a autora, com "wide egg noodles". Ainda que possa ficar bem, descartei esta segunda possibilidade.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Quinta do Monte d’Oiro — Têmpera '2004

Segunda edição do varietal Tinta Roriz do produtor de Freixial de Cima, fermentou em cubas de inox, com maceração prolongada, e estagiou durante 15 meses, em barricas de carvalho francês, das quais três quartos novas, antes de engarrafado.

Não o provei em novo. Neste momento, e nesta garrafa em concreto, volvidos mais de doze anos sobre a data da colheita, encontrei um vinho limpo, fragrante q.b. e bem dimensionado — mas, acima de tudo, coeso.

De perfil cálido, não capitoso, conduzido por fruta escura, com generosa porção de notas terrosas e apimentadas à mistura, mostrou-se um caldo de cuja complexidade não consegui, no entanto, destrinçar muita coisa.

Não duvido ter-lhe encontrado compota e licor, bem como cacau, café, tabaco, baunilha, pimenta preta e fumo. No entanto, face ao conjunto e presumindo que o objectivo é tentar caracterizar esse mesmo conjunto, a nenhum desses descritores encontrei real interesse. Sem ir mais longe, por como variaram, no tempo, tanto a sua expressão (que baunilha, que tabaco) como a sua aparente quantidade.

Parece-me, então, mais útil comparar o presente retrato deste vinho àqueles estufados que levam basta variedade de ingredientes, mas onde, no final, não apanhamos o conjunto dos seus aromas/sabores isolados, antes uma mescla que apenas a grosso modo corresponde à soma das partes, e de onde, pontualmente, como que se evidencia ora uma, ora outra.

De taninos polidos e já perfeitamente integrados, retém vida (e aqui a acidez é só uma parte) suficiente para se preservar da mornidão. Ainda assim, guardá-lo mais tempo, só por curiosidade.

Acompanhou o "Russian Beef Stew" que consta do "Slow Cooker Classics from Around the World", de Victoria Shearer, e que fica para o próximo post.

20€.

17

terça-feira, 13 de dezembro de 2016


28/10, 8h06



8/11, 8h30



10/11, 8h30



17/11, 8h29



13/12, 7h52.

O Outono avança, mas as manhãs continuam bonitas.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Quinta de São Francisco '2010

Este tinto de Óbidos (DOC) foi produzido pela Companhia Agrícola do Sanguinhal na quinta de S. Francisco, que se situa junto da antiga freguesia de Outeiro da Cabeça. Afirma o produtor no seu sítio da internet ser esta a maior das suas propriedades e aquela onde, presentemente, vinifica e engarrafa todos os seus vinhos.

Composto por 60% de Castelão, 20% de Aragonês e 20% de Touriga Nacional, estagiou em barricas novas e usadas, de carvalho francês e americano.

Mais intenso no nariz que na boca, é um vinho simples, de volume e persistência medianos — talvez até a dar para o esguio. Em todo o caso, fácil de entender e bastante versátil à mesa.

Predominam aromas de fruta escura, amora e cereja ácida, a que se junta algum licor, provável consequência do tempo, e um pouco de tosta, certamente de barrica, que subsiste em pano de fundo.

Nota-se que leva Touriga Nacional, mais pelo toque terroso que acompanha toda a prova e se confunde, até certo ponto, com barrica, que pela vertente floral, porventura mais comum, da casta.

Aquece um pouco no copo e a faceta melada do Castelão começa a fazer-se notar, sobretudo no ataque ao nariz, mas o conjunto nunca perde o carácter sério que lhe é conferido pelo paladar bem seco e reforçado por um extrazinho de acidez que ainda hoje se nota.

Em suma, está um vinho agradável, a que me parece faltar distinção. Para já, envelhece harmoniosamente, mas não creio que tenha sido feito para ser envelhecido. Se brilhava mais em novo, não sei — por via das dúvidas, não deverá fazer mal bebê-lo quanto antes.

Acompanhou hambúrgueres de Wagyu com pão de centeio, um sacrilégio.

5€.

15

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Tome-se o conteúdo da etiqueta "velharias" e junte-se-lhe um décimo, escolhido ao acaso, do volume de "os meus discos" e "os meus livros". Adicionando mais meia dúzia de fotografias sortidas, muitas delas tiradas da web, teríamos o "blog antigo", o antecessor do puto que bebe. Mais sentido e cuidado que o presente, pelo menos no tempo dedicado a cada coisa. Mas, como produto acabado, julgo que mais fraco. Não por certa falta de polimento de que padecia, que era conhecida e tolerada, e menos ainda pela de inspiração ou motivos, que iam e vinham, e muitas vezes estiveram mais presentes que agora, apesar de sob máscaras diferentes. Acho que, na altura, o que faltava era plasticidade e perspectiva na maneira de ver e fazer as coisas. E mais ainda, contacto humano. Era assim, o predecessor do puto, um blogue autista, que, no entanto, era quase 100% eu, ao invés de isto que agora temos, onde o esperado pelos outros, sejam eles quem forem, tem um peso muito maior.

Apesar da idade que avança, sinto-me menos inadaptado, menos marreta que há dez anos atrás. "O J teve uma fase terrível! O J humanizou-se com a idade!" — quantas vezes tenho tido oportunidade de o ouvir! Ora, aí está algo com que concordo. De facto, devo ter-me humanizado qualquer coisa com o tempo e a convivência. Da mesma forma, também terei ficado menos estranho e caricatural, mais conforme a moda. Sei que desde sempre sinto empatia, e mais, verdadeiro amor, por algumas coisas, mas também um desprezo notável por outras, aquelas que, a dado momento, não me interessam. Por outro lado, se tempos houve em que não tinha qualquer problema em evitar conflitos, hoje já não é bem assim. Portar-me-ei, então, "melhor", mais conforme o que os outros gostariam, a priori, que lhes acontecesse nas suas interacções comigo. Mas, e eu? E ainda piora quando, não sei se em momentos de paranóia ou de uma maior lucidez, me interrogo se será possível recalcar sem sentir que o esteja a fazer.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Cedro do Noval '2011

Este tinto vem da Quinta do Noval, propriedade mítica, situada perto de Vale de Mendiz.

Bastante macio e persistente, entra comedido, mais vai-se desdobrando em sabor à medida que persiste.

Muito guloso, tem um toque na boca que usualmente associo a Douro de boa estirpe, de vinhas velhas — ligeiramente lácteo, amanteigado também — e bebe-se num ápice.

Acompanhou bem uma porção de "beef pizzaiola" cozinhado no slow cooker, mas foi à sobremesa que brilhou, acompanhado de chocolate preto (Hussel, com 70% de cacau, e Valor, deste).

Com ambos pareceu emanar uma nuvem etérea de lavanda e bergamota, antes e depois, mas não sobre a fruta — escura: amora bem nítida e outros que tais — com que se foi prolongando na boca.

Ademais, vagamente carnento, com ligeiros sinais de evolução.

Levou 20% de Syrah — curioso. Mas este não se destaca do nem no conjunto, que mantém o carácter de um bom multivarietal do Douro, já com a madurez advinda de cinco anos em garrafa: sem dúvida, num óptimo momento para ser consumido.

12€.

16,5

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Velharias (41)

É numa das nossas visitas mensais à mamã, na parvónia, que acabamos a falar do Barrocal e respectivo "gado", como se referia aos que lá viviam um velho conhecido da família.

Há doze anos atrás, o Barrocal estava bem mais cheio de calhaus e vazio de pessoas que agora, o que fazia dele um lugar porreiro para fumar ganza e apreciar a natureza.

Ora, existia lá uma tasca onde eu fazia questão de ir quase todos os dias, quando, por qualquer motivo, me demorava na casa paterna. Era a "Locomotiva" um sítio simples, com café de máquina e água das Pedras, verdadeira, onde podia estar sem ter de me esforçar por me portar bem.

Certo dia de neura, de café tomado naquela que então me pareceu a mais miserável das tascas, não obstante ser um dos meus lugares de eleição, registei as seguintes linhas:

Acabo de tomar café na mais miserável das tascas, naquela parte de Castelo Branco a que chamam Barrocal. Acabo de tomar café na mais miserável das tascas e, contudo, tenho bem assente que não gosto de tascas, e que não gostam de mim nas tascas, e que não preciso de as frequentar. Mas qualquer tasca é boa de mais para mim. Qualquer tasca é boa de mais para mim e ninguém o sabe excepto eu. E não gostam de mim naquela tasca, nem em qualquer outra, certamente porque sou um estranho, um alienígena de aspecto bizarro e olhar alterado, que não encaixa em lugar nenhum. Sou um insulto ambulante. Sou a pior forma de pedantismo. Sou a vaidade burra plasmada num rapazinho com horror às moscas e que insiste em pedir dois pires de tamanhos diferentes com a mesma chávena de café. Um elemento patológico. Um deslocado. Uma caricatura. Um freak. Um anormal.

Entro, mais uma vez, na tasca. Três trabalhadores da CP, fardados, o dono da casa e o respectivo filho, que não deve ter mais de catorze ou quinze anos, mas já trabalha. Sento-me e sou abordado pelo pequeno. "O que deseja?" Não tomarei o que quiser, mas o que desejar. Pêlo do mesmo cão, a dose, o kit de sempre. E o rapaz volta pouco depois com uma chávena de café ordinário, um bocadito queimado, assente em dois pires de tamanho distinto, sobrepostos, porque assim é que deve ser. Mas pergunta-me, como sempre, se quero um copo. E eu quero, de facto, um copo. Um copo para a água com gás.

Não consigo esconder o nojo das moscas, que são algumas, sempre, e em que todos (presumo!) fingem não reparar. E não procuro sequer esconder os meus olhos que faz tempo não dormem, os meus olhos estáticos, injectados de sono e Valium e haxixe. Tiro a carteira, quase com nojo de a depositar sobre esta mesinha de aparência inócua mas presumivelmente imunda, onde mal me atrevo a tocar, só de pensar em quem ali terá estado antes, no que ali se terá derramado e nos panos que terão usado para a limpar. E que raiva . . . UAU! Que MEDO, medo de que descubram o nojo que tenho, mas acima de tudo, de mim próprio, que afinal não sou respeitável, que sou o menos respeitável de todos eles, e que me odeiem ainda mais por isso!

E apesar de tudo o mais aqui emanar um cheiro pútrido, adocicado, enjoativo, a restos de queijo bolorento e vinho derramado, é sobre mim que as moscas teimam em investir. Tento, em vão, espantá-las com a ponta do cigarro, com o jornal que alguém abandonou na mesa, com a carteira, com as mãos. Assim, como poderia pretender passar despercebido? Até as moscas reparam. Até as moscas sabem e parece que se unem para cair sobre mim. O miúdo sai, senta-se lá fora, à porta. O tasqueiro continua a sua conversa com os operários, todos eles completamente à vontade.

Falam de política, de economia, de mulheres. Quatro homens encostados a um pequeno balcão, entregues a uma indolência quase lasciva. Deixo cair a minha atenção sobre a massa informe que representam, qual escultura triste, vagamente animada. Falam com a segurança de um saber simples, mistura curiosa de senso comum com as paixões de cada. Olhos baixos, ouço-os falar, dizer merda — entretêm-se em horário de expediente.

Agora as saudades da moda são do Antigo Regime. Parece que as pessoas esqueceram os cravos que outrora aplaudiram. Sá Carneiro, um D. Sebastião morto: depois dele, o barco não mais parou de meter água. Antes, era necessária uma ordem. Deus, família, Fátima e o Benfica é que eram. Pita que levantasse a garipa, levava. Mas o vento mudou e muitos desses mesmos homens bons aplaudiram os comunistas, que finalmente havia liberdade! Quando a cena deu o berro, viraram, quase todos, centristas moderados. Foram-se aguentando as coisas universalmente fixes, Fátima e o Benfica, e mais o segundo que a primeira...

Não faz diferença. Estou na tasca porque quero, ou então porque não mereço mais. E todos aqueles sacos de tripas que me odeiam e de quem me rio em silêncio acabam por ser bem melhores do que eu. Porque têm as suas vidas, gente que os respeita, gente que gosta deles, gente, até, que depende deles. Muitos terão nascido em condições precárias e toda a vida caminhado na corda bamba, sobre um precipício terrível, mas foram e vão seguindo em frente, sem olhar para baixo. Pelo menos até que caiam, vão vivendo. E até ver, nenhum destes que aqui vejo terá caído realmente. E eu, a quem proporcionaram, desde bem cedo, uma sólida ponte de ferro para que pudesse atravessar sem perigo, abeiro-me da balaustrada, inclino-me perigosamente e vacilo — toda a vida olhei para baixo, empoleirado num corrimão, toda a vida tive tanto desprezo como medo do abismo, toda a vida fui um cabrão ainda menos que hedonista, cheiinho, pior que de medo, de preguiça de viver, uma alma completamente entregue à lei do menor esforço!

Quão desprezível me sinto perante estas ideias que me perpassam a alma, ou o que resta dela, e que talvez nem alma seja, mas um espelho, mais um, de um intelecto retorcido . . . E os meus "companheiros" de café, em pleno turno, felizes, relaxados! Que fiz eu para me poder ver, sequer, remotamente semelhante a eles? Consola-me que, no fim, vamos todos morrer. E se não sou ninguém para aspirar a morrer como eles, o facto é que aí, pelo menos aí, as hipóteses de igualdade entre os homens aumentam . . . Mas só aí, caralho! Ah, Deus deve, de facto, nutrir um amor especial pelos estúpidos! Pudera! Se esses nunca tentaram matá-Lo!

Suspiro. Balcão, pago e saio. Como sempre, o tasqueiro mostra uma boa educação simples, mas irrepreensível, que só me faz sentir pior. Chego a casa com vontade de escrever; creio que isso diz tudo. Merda. Nesta triste vida, como uma simples ida ao café pode ser má.

16/7/2004

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Barão de Vilar — "Statement" 20 Anos

Engarrafado em 2016.

Tive oportunidade de o beber em simultâneo com o vinho do post anterior e fiquei com a ideia de se tratar de um "rebrand" dele, apresentado com um preço de venda ao público — pelo menos no LIDL — ainda menor.

Verdade: abri uma garrafa, depois a outra, verti porções semelhantes para dentro de cálices iguais, cheirei e bebi.

Com e sem bolo, em mais que uma ocasião, em mais que um dia. E não percebi qualquer diferença relevante entre eles (um ano em garrafa, para um tawny destes, não é nada, desde que bem guardado).

Pessoalmente, sou daqueles que acreditam que quando algo parece bom de mais para ser verdade, deverá existir, oculto, algum motivo de alerta. Mas, enquanto consumidor, ainda não percebi "where's the catch".

Prefiro este tipo de vinho com bolos de frutos secos, mas também me tenho fartado de os beber a acompanhar castanhas, que preparamos de forma muito simples:

Cada aquénio leva um corte transversal, profundo, a meio. Imergem-se depois em água fria, saturada de sal, ou quase, por uns momentos, e levam-se ao forno, em tabuleiro pré-aquecido, a 210ºC, com mais umas pitadas generosas de sal por cima.

Quando assadas, e aí a cor que tomam diz tudo, deixam-se arrefecer um pouco, envoltas num pano, e estão prontas.

14€.

17,5

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Barão de Vilar — Tawny 20 Anos

Este tawny foi engarrafado em 2015, após filtração.

A cor, aloirada, ainda foge para o vermelho.

No nariz, melado, com toque de moca, predominam frutos secos, mas também aparece uma quantidade interessante de raspa de laranja, que balança os aromas mais quentes, mais pesados.

Na boca, tem a estrutura fina, o toque aveludado e a persistência que se esperam de um vinho do género, mas uma acidez, uma vida algo acima do que habitualmente mostram.

Em todo o caso, essa "relação peso/potência" elevada não lhe comprometeu o equilíbrio — é francamente bom.

No seu sítio da internet, lê-se que o produtor foi constituído em 1996, a partir de um stock de vinhos adquirido por Fernando van Zeller e cedido aos seus filhos.

Costumava comprá-lo no LIDL, onde se pode (ou podia) encontrar, pelo menos, dez euros mais barato que qualquer das propostas afins da concorrência.

Prefiro este tipo de vinho com bolos de frutos secos. Como, por exemplo, este, que não me farto de recomendar.

15€.

17,5

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Há dias, tomei vinte sementes de Argyreia nervosa, planta talvez mais conhecida como hawaiian baby woodrose ou trepadeira-elefante. Limpas mas não descascadas, esmagadas e empurradas pelas goelas abaixo por um copo de sumo de laranja. Sendo uma estreia, a S. optou por uma porção menor. Cromo como sou, tentando não cerebralizar, evitar a auto-referência, "tenho de pensar em como estou para o registar tão precisamente quanto possível e isso vai influenciar como estou ... ok, nota x", fui apontando umas coisas, que à falta de melhor tema, aqui partilho com os eventuais interessados.

Desde já, um primeiro reparo: apesar de, na altura, ter tido essa impressão, não me parece que tenha perdido lucidez durante a experiência.

. . .

Manhã sem pequeno-almoço, eles dizem que é importante tomar isto em jejum.

Quinze minutos após a toma, um ligeiro peso na cabeça, logo seguido de desequilíbrio.

As cores ficam mais interessantes. Não mais vivas, intrinsecamente mais interessantes.

O banho, quase normal, mas estranho. Acentuado o desequilíbrio, relevada a acção da gravidade.

Depois a náusea. Lembro-me de ler sobre ela.

Deito-me. Ilusões visuais, ligeiras e só de olhos fechados.

Música: O Winterreise, muito agressivo; o Requiem de Mozart, idem. AIR, tão seco. Esta não é moca para música. Desligo-a.

Entretanto, as primeiras alucinações perceptíveis de olhos abertos. Ténues: padrões geométricos sobre o branco liso da parede; um passarinho etéreo que se solta do vermelho da toalha de banho estendida na porta do quarto e o atravessa a voar, em linha recta, antes de se evaporar.

O gato vem ter comigo. Pego no gato. O toque do gato é bom. Ronron. Mas não dura. Afasto o gato.

Irrequietude.

Pronunciado desconforto físico. Sinto-me envenenado. Que luta para não vomitar! Num primeiro juízo de valor, arriscaria que a carga exercida sobre o corpo por esta droga é demasiada para as contrapartidas.

Pão com Cheddar. Custa a engolir. Mas antes, cheira bem, e depois, sabe bem.

Depois de comer, o pico da náusea. Torpor, movimentos quebrados e imprecisos. Como se o meu corpo não me pertencesse. Deito-me outra vez, muito queitinho. De phones nos ouvidos e toda tapada, S não se mexe.

Os olhos fechados trazem-me linhas de luz, nas cores do arco-íris, que formam superfícies ondulantes, como Béziers em movimento lento, harmónico. Duas horas ou duas horas e meia após a toma, a náusea vai-se desvanecendo.

Os binaural beats (calhou ser isto) sugeridos pela S para a ocasião, em volume moderado, entram bem. Ligam bem com os visuais.

Torpe, mas sem peso. Fundido no toque das coisas. Tocar com as pontas dos dedos igual a fundir-me na coxa macia da S. A sensação de ser fluido. Mal comparando, aquilo que as claras em castelo sentiriam quando adicionadas ao creme de chocolate, na preparação de uma mousse. Que curiosa sensação de unidade! Sinestesias fixes.

Finalmente, algo fixe.

Ainda assim, da experiência enteogénica relatada por muitos no Erowid e afins, nem vislumbres. Terá sido o incómodo físico demasiado distractivo? Demasiado fodido para pensar o sonhar? Ou demasiado preguiçoso?

Adormeço.

Acordo. Mais binaurais. Engraçado como o tempo foi passando mais e mais depressa, importando menos e menos.

Adormeço de novo.

Sete horas após a toma, ainda me sinto adoentado. Não apetece comer, mas faço esse esforço. Em todo o caso, já razoavelmente lúcido.

Dez horas após a toma, passou. Estou cansado, moído, depois de praticamente ter passado o dia deitado.

Gloriosa, a sensação de ausência de peso e toda a carga sinestésica, depois de a náusea passar, sobretudo em t+3 ou t+4 horas após a toma.

Antes disso, porra...

No final, tudo considerado, meh. Comprámos 500 sementes, deixá-las repousar no frigorífico até novo surto de coragem.

sábado, 19 de novembro de 2016

Pasos de San Martín '2012

De manhãzinha, minutos depois de o sol nascer, o passeio diário pelo bosque. Voltar a casa, fazer a cama, preparar o embate com a civilização. Depois, tentar sempre regressar cedo, comer cedo. Almoço tardio, jantar precoce ou lanche avultado, como preferirem. Este formoso tinto foi o vinho dessa refeição, no dia em que o haxixe acabou. Acompanhou um estufado de carne de vaca que tinha feito no dia anterior, involuntariamente próximo de um calderillo bejarano.

Comecei a beber assim que abri a garrafa e não dei uso ao decantador. Encontrei um Garnacha tão sério quanto elegante e vivaz. O aroma, ainda muito primário, mostrou predomínio de frutos do bosque, bagas de vários tipos, maduras e em licor, mas também q.b. de mato seco e alcaçuz. Com o tempo, ganharam definição fumados e tostados, em todo o caso, sempre muito suaves, bem como aromas de gianduia e café. Na boca, entrada fresca, corpo mediano, bem macio, e final prolongado, com toque de amargor. Não sobrou nenhum para o segundo dia.

Menos bombom que qualquer dos Garnacha de Gredos que já experimentei, mas bem mais que o Porrera que abati em Janeiro, está um vinho muito bonito, pelo que, não obstante viva, e por conseguinte evolua, facilmente, mais meia dúzia de anos, não me parece que exista qualquer bom motivo para não se beber já.

Vino de pueblo de San Martín de Unx, terra de forte tradição vinícola, situada 45Km a sul de Pamplona, proveio de vinhedos com 35 anos de idade, implantados numa ladeira de solo argilo-calcário. Produzido pelas Bodegas y Viñedos Artazu, ramo navarro do Grupo Artadi, foi vinificado em depósitos abertos e fez a maloláctica em barricas, onde permaneceu até ser engarrafado, em Março de 2014.

17€.

18

quarta-feira, 16 de novembro de 2016







domingo, 13 de novembro de 2016

Château Moulin Bellegrave '2012

Tinto de Saint-Émilion, traz a assinatura de Antoine Mabileau, de Vignonet, e é mais um dos muitos franceses "genéricos", de gama média-baixa, que desde há alguns anos se encontram amplamente disponíveis da distribuição.

Procurando saber mais sobre ele, constatei que o produtor apresenta no seu sítio da internet um outro Château Moulin Bellegrave, também da colheita de 2012, mas possuidor de um rótulo diferente e da denominação "Grand Cru" que a este falta.

Isto, junto com a indicação, presente no contra-rótulo deste, de ter sido "mis en bouteille au Château par LPT à F.33650", levou-me a concluir tratar-se, provavelmente, de um lote de vinho "menos premium", oriundo das terras do Sr. Mabileau ou comprado por ele, que tratou depois de o engarrafar e vender (via La Passion des Terroirs, um grande négociant de Arsac) com o mesmo nome, mas uma imagem diferente e um preço três a seis vezes inferior ao do seu vinho estandarte.

Hmm.

Claro que o que acabei de referir não implica, necessariamente, que o vinho não preste. Mas, já à partida, quão honesto?

Presumo que se trate de um lote de Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, como habitual na região. Não apurei mais.

Em todo o caso, servido directamente da garrafa, a acompanhar churrasco, mostrou um nariz surpreendentemente generoso, com cerejas e outros frutos do bosque, pretos, bem maduros, a abeirar a compota, permeados de sugestões terrosas, especiado indistinto, doce, e um pouco, pouquinho, de baunilha. Na boca, sabores em consentaneidade com os cheiros, algum corpo, redondez e final curto, mas agradável.

Estava eu a comer, beber e tirar notas — má ideia — quando, de repente, foi como se o vinho me dissesse "se não conseguires destacar-te pelo talento, vence pelo esforço, foi o que fiz!" E, meu deus, que adágio de merda, mas, encontrando-lhe propriedade, lá o registei.

É que, não obstante a sua origem humilde e os caminhos que teve de trilhar até eu escolher, entre tantas alternativas próximas, levá-lo, a ele, para o grande além, os aromas estavam em equilíbrio, o sabor era agradável — enfim, um conjunto prazeroso, tanto sozinho como acompanhado, e que deixou, para cúmulo, no ar a promessa de poder evoluir mais um ou dois anos em garrafa. Assim sendo...

4€.

16

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Destaque-se, na distribuição das culturas, a importância da vinha e do olival. Pelo menos desde o século XVIII que sabemos de Castelo Branco produzindo azeite e vinho.
É o que se depreende das actas camarárias da época e o que expressamente consta na Corografia do P. Carvalho Costa e, também, na resposta ao quesito 25 do inquérito ordenado pelo Marquês de Pombal e destinado a completar o Dicionário Geográfico do P. Luiz Cardoso.

Na acta camarária de 9 de Setembro de 1768 (S. II. 175) refere-se que os vinhos albicastrenses, muitas vezes, se transformavam em "quási vinagre" pelo facto de as vindimas se fazerem antes das uvas estarem maduras.

A esta antecipação da colheita não deviam ser alheias a escassez de pessoal e consequente alta de salários na época da vindima.
A hipótese que se formula parece obter confirmação no facto de a câmara nos aparecer a tabelar os jornais dos trabalhadores da vinha. Cardoso, "Vida Municipal", S. II. 169.

Na exposição de Paris de 1889, o azeite de Castelo Branco foi distinguido com seis medalhas de ouro, cabendo três à cidade, duas ao concelho e uma ao resto do distrito.


Na exposição industrial portuguesa de 1888 — secção agrícola — dos 26 expositores do concelho de Castelo Branco, 17 apresentaram vinhos tintos ou brancos.

Os vinhos do expositor Domingos José Roballo já tinham ganho prémios nas exposições de Viena de Áustria de 1873 e de Filadélfia de 1876. Exposição Industrial Portuguesa, Catálogo da secção agrícola, Imprensa Nacional, Lisboa, 1888, pag 269 e sgs..
Quanto a prémios obtidos nesta exposição agrícola de 1888, apenas sabemos que ao conjunto de vinhos da Casa Agrícola Abrunhosa foi atribuída uma medalha de cobre.

No concurso nacional "O Melhor Vinho" — produção de 1970 — foram concedidos prémios aos seguintes produtores do concelho de Castelo Branco: D. Maria Alda Godinho Pinheiro Dias Coutinho Vaz Preto — 1º prémio, vinho branco, classe B; Joaquim Domingos, vinho tinto, 2º prémio, classe A; João Esteves Lourenço Pereira, vinho tinto, 3º prémio, classe A; D. maria Alda Godinho Pinheiro Dias Coutinho vaz preto, vinho tinto, 2º prémio, classe B; e, na classe A, menções honrosas a Hrs. do Dr. José Nicolau Nunes de Oliveira e António Goulão Folgado.

No ano de 1929 ainda a vinha era numerosa, havendo tendência para aumentar a sua plantação. O vinho era muito alcoólico.
Tenente Elias da Costa, "Castelo Branco no Trabalho", Edição do A. Lisboa, 1929, pag 207.

José Vasco Mendes de Matos, "Esquema Para Uma Biografia da Cidade de Castelo Branco",
Edição do autor, Castelo Branco, 1972.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Quinta dos Termos — Fonte Cal, Reserva '2014

Fonte Cal é uma casta branca, autóctone da Beira Interior. Mais comum na zona de Pinhel, onde algumas fontes lhe apontam a origem, será na Quinta dos Termos, de Carvalhal Formoso, concelho de Belmonte — no mapa, fica aqui — que, actualmente, dá o seu melhor, traduzido naquele que, provavelmente, será o seu único varietal em comercialização.

Foi servido fresco, sem qualquer tipo de decantação ou arejamento prévio, a acompanhar um stir fry de inspiração chinesa, substancial mas de sabores suaves, que, entre outras coisas, levou generosa porção de bambu fresco e cogumelos orelha de judas e shiitake, frescos e maduros; a carne, vazia de vitela, grelhada no ferro e fatiada fina, só foi misturada no fim.

Mais expansivo na boca que no nariz, abriu com florzitas do campo, daquelas rasteiras, brancas e amarelas, a que se juntaram suaves notas verdes, herbáceas e limonadas, bem como muitas sugestões minerais, a evocar calcário e giz.

Mostrou-se gordinho e possuidor de boa acidez, viva mas madura, perfeitamente integrada no sabor, seco (de açúcar) e vagamente amanteigado, que terminou a fazer lembrar o amargor residual característico da camomila, em jeito de nota de fundo.

É, em simultâneo, um vinho discreto, peculiar e bom! Mas não teria conseguido desfrutar dele convenientemente, se não tivesse existido da minha parte algum esforço para o entender. Teremos, então, um vinho que, apesar de todas as qualidades já referidas, se presta a ser mal interpretado? Magnífico!

7€.

16,5

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Invulgar '2010

O vinho de hoje é um lote de Touriga Nacional e Alfrocheiro, estagiado durante um ano em barricas de carvalho Allier, produzido pela UDACA, que o introduz assim: "Invulgar é reunir 5 enólogos do Dão e criar em conjunto um único vinho. É reunir a magnitude dos vinhos das adegas cooperativas de Mangualde, Penalva do Castelo, Silgueiros e de Vila Nova de Tazém em torno da UDACA".

Abriu com montes de aroma sintético de uva, qual caneta ou champô fortemente aromatizado com antranilato de metilo, mas já sabemos que essa não pode ser a substância responsável.

Melhor percebido, o bouquet alargou-se para um floral "genérico", com bergamota pelo meio — o linalol é o mais representativo dos terpenos livres presentes na Touriga Nacional — e algo balsâmico também, combinado com bagas silvestres, bem doces, mas a manter sempre o enfoque em coisas azuis e roxas. Sweet, not savoury, e já conta com seis anos sobre a data da colheita.

Enfim, roxo e doce. Depois vieram frutos pretos. E na boca mostrou-se surpreendentemente sério, quase em choque com a jovialidade do nariz, com boa acidez. É um vinho cheio de impacto, de massa crítica, mau grado apresentar um volume bom, mas não excepcional, e uma persistência apenas mediana.

Não obstante a iniciativa que levou à sua elaboração me parecer bem mais invulgar que o produto acabado, este resultou porreiro e isso é o que mais importa.

6€.

16

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Filmes (75)

The Witch: A New-England Folktale





Estreia de Robert Eggers, que o escreveu e realizou, e da protagonista, Anya Taylor-Joy, que é qualquer coisa e aqui aparece com Ralph Ineson, o "Finch" de "The Office" convertido numa espécie de imitação de Cristo, Kate Dickie a fazer de esposa dele e três outras criancinhas, tão empenhadas quanto irritantes.




Passado na Nova Inglaterra do princípio do século XVII, mostra como o demónio se instala numa família puritana que se arriscara, sozinha, a desbravar os bosques, após abandonar a plantação que habitava, por divergências de fé.




Mas as colheitas falham, os animais apresentam comportamentos bizarros, um bebé desaparece. . . a dúvida alimenta a desunião. Realçam-se os podres que, afinal, já há muito existiam.




Em jeito de curiosidade: este filme foi oficialmente sancionado "a transformative Satanic experience" pelo Templo Satânico. Para aqueles que exigem que tudo traga um carimbo de certificação estampado no rabinho, aí está.

domingo, 30 de outubro de 2016

Vallis Queyras '2013

Lote de Grenache e Syrah, de terra calcária e cascalhenta, este vinho é o representante da região de Vaucluse no portefólio dos Domaines Pierre Chavin.

Fermentado, nos dizeres do produtor, com uma extracção "bem controlada", estagiou em tanques de aço, de grandes dimensões, durante meio ano, a que se seguiu uma breve passagem por barris de carvalho.

Refrescou no frigorífico, a garrafa ainda fechada, tendo depois repousado no copo até atingir os 14ºC indicados no contra-rótulo como início do intervalo de temperatura ideal para se beber.

Encontrei-o muito Grenache, tanto na cor, escura mas pouco saturada, como no nariz, acima de tudo, doce, com fruta silvestre, escura, carregada, passas misturadas e também flores, caramelo e Ceregumil — o clássico, que me obrigavam a tomar em criança e nunca mais esqueci.

Ainda alguma terrosidade, discreta mas inequívoca, mais em pano de fundo que a envolver o que quer que fosse, e notas de oxidação, a fazerem lembrar, ao longe, xerez.

Fresco, macio e equilibrado na boca, apenas me pareceu pecar, não pela ligeireza, que será feitio, mas por certa fugacidade. E para mim, pessoalmente, por confirmar o estilo oxidado que já lhe tinha notado ao cheirar, com doçura residual.

5€.

14,5

sexta-feira, 28 de outubro de 2016





quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Beyra — Reserva '2012

Este tinto de Rui Roboredo Madeira foi feito com Tinta Roriz, Jaen e Touriga Nacional criadas nos solos xistosos de Vermiosa, freguesia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Estagiou nove meses em barricas usadas de carvalho francês e americano.

Foi aberto para acompanhar um "Russian Beef Stew" — a estreia do Crock-Pot cá em casa!

Sem surpresas, surgiu ensolarado, cheio de frutos negros, dos quais uma parte em compota, misturados com generosa porção de tostados e baunilha doce, ou talvez vanilina. Poderá esta barrica ainda vir a integrar-se?

Na boca, boa acidez e uma profusão de taninos que, mesmo já maduros, muito continuam a contribuir para a impressão de robustez que prevalece.

Apesar do seu carácter maduro, não pende, de todo, para o lado do álcool. Termina razoavelmente longo, com notas de chocolate.

Dito isto, o problema: é um vinho honesto, bom, que, de alguma forma, não me conseguiu cativar. Terá sido a barrica, que não sendo defeito, eu teria gostado, pessoalmente, de ver menos vincada?

Ou será algo mais profundo e de certa forma transversal à generalidade dos tintos da "alta" Beira Interior que tenho tido oportunidade de experimentar? Será necessária a uniformidade de estilo que vejo? Será necessário procurar fazer à semelhança do Douro, ali perto?

Ou serei eu que não estou a perceber bem as coisas? Oxalá assim seja!

6€.

16

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Château Haut-Landon '2013

Para que um blog valha a pena, há que ter algo a dizer. Essa é, julgo, a condição necessária. E não inclui, no caso específico dos eno-qualquer coisa, o puro e simples replicar das muitas notas de imprensa que nos vêm ter à caixa de email, a todos.

Na hora de escrever, será melhor não florear nem tergiversar. Ser conciso, procurar o tempo certo. Tempo e fio, ou uma pessoa perde-se.

A visão do instante pode valer ouro e a auto-referência é morte — dizer as coisas assim, não, mesmo que sejam verdade. Convém trazer certa fluidez ao discurso e um toque de indiferença, creio, não fará mal. O resto está nos livros.

Duvido que exista algum outro blog cujo autor esteja tão consistentemente sem vontade de o actualizar. Mas à pergunta "se assim é, porque o fazes?", continuo a não  saber (ou querer) responder.

Entretanto vou bebendo, tentando não repetir muito os álcoois. Vamos, então, ao cromo do dia:

Vinho de négociant, engarrafado por SAS Robin, de Saint Aubin de Blaye, este lote composto por 85% de Merlot e 15% de Cabernet Sauvignon vem da D.O. Blaye-côtes-de-bordeaux, na margem direita do Gironde, 40 Km a norte de Bordéus.

Sem tempo para respirar antes de servido, mostrou desde logo um conjunto de aromas muito bonito, rico em frutos do bosque, escuros — para não dizer negros: amora, cassis, ameixa seca — e generosamente especiados.

Na boca, o comportamento foi consentâneo com os aromas, confirmando-se um tinto prazenteiro, com boa concentração e algum nervo, que apenas pecou por não possuir maior substância, aquela de que precisaria para poder crescer e tornar-se realmente interessante.

Bem ou mal, o termo de comparação que no acto da prova me ocorreu foi um daqueles relógios chineses que ao longe parecem porreiros, mas em que uma observação mais cuidada acaba sempre por revelar um bisel mal alinhado, uma escala meramente cosmética ou que a pulseira, afinal, não é de crocodilo ou sequer couro, mas de plástico.

Acompanhou bifes do beijinho — ou sete da pá — grelhados e acompanhados de batata frita e molhos: um de alho picado, com sumo de lima, azeite e maionese, e outro de azeitona, cortada em rodelas finas e também misturada com azeite e maionese.

4€.

15,5

sábado, 22 de outubro de 2016

The Rose Garden

And afterwards she went very softly, and opened the window and looked out. Behind her the room was in a mystical semi-darkness; chairs and tables were hovering, ill-defined shapes, there was but the faintest illusory glitter from the talc moons in the rich Indian curtain which she had drawn across the door. The yellow silk draperies of the bed were but suggestions of colour, and the pillow and the white sheets glimmered as a white cloud in a far sky at twilight.

She turned from the dusky room, and with dewy tender eyes gazed out across the garden towards the lake. She could not rest nor lay herself down to sleep; though it was late, and half the night had passed, she could not rest. A sickle moon was slowly drawing upwards through certain filmy clouds that stretched in a long band from east to west, and a pallid light began to flow from the dark water, as if there also some vague star were rising. She looked with eyes insatiable for wonder; and she found a strange Eastern effect in the bordering of reeds, in their spear-like shapes, in the liquid ebony that they shadowed, in the fine inlay of pearl and silver as the moon shone free; a bright symbol in the steadfast calm of the sky.

There were faint stirring sounds heard from the fringe of reeds, and now and then the drowsy broken cry of water-fowl, for they knew that the dawn was not far off. In the centre of the lake was a carved white pedestal, and on it shone a white boy holding the double flute to his lips.

Beyond the lake the park began, and sloped gently to the verge of the wood, now but a dark cloud beneath the sickle moon. And then beyond and farther still, undiscovered hills, grey bands of cloud, and the steep pale height of the heaven. She gazed on with her tender eyes, bathing herself as it were in the deep rest of the night, veiling her soul with the half-light and the half-shadow, stretching out her delicate hands into the coolness of the misty silvered air, wondering at her hands.

And then she turned from the window, and made herself a divan of cushion on the Persian carpet, and half sat, half lay there, as motionless, as ecstatic as a poet dreaming under roses, far in Ispahan. She gazed out, after all, to assure herself that sight and the eyes showed nothing but a glimmering veil, a gauze of curious lights and figures, that in it there was no reality or substance. He had always told her that there was only one existence, one science, one religion, that the external world was but a variegated shadow, which might either conceal or reveal the truth; and now she believed.

He had shown her that bodily rapture might be the ritual and expression of the ineffable mysteries, of the world beyond sense, that must be entered by the way of sense; and now she believed. She had never much doubted any of his words, from the moment of their meeting a month before. She had looked up as she sat in the arbour, and her father was walking down between the avenue of roses bringing to her the stranger, thin and dark with a pointed beard and melancholy eyes. He murmured something to himself as they shook hands; she could hear the rich unknown words that sounded as the echo of far music. Afterwards he had told her what the lines were:


How say ye that I was lost? I wandered among roses.
Can he go astray who enters the rose garden?
The lover in the house of his Darling is not forlorn.
I wandered among roses. How say ye that I was lost?

His voice, murmuring the strange words, had persuaded her, and now she had the rapture of the perfect knowledge. She had looked out into the silvery uncertain night in order that she might experience the sense that for her these things no longer existed. She was not any more a part of the garden, or of the lake, or of the wood, or of the life that she had led hitherto. Another line that he had quoted came to her:


The kingdom of I and We forsake, and your home in annihilation make.

It had seemed at first almost nonsense, if it had been possible for him to talk nonsense; but now she wasthrilled and filled with the meaning of it. Herself was annihilated; at his bidding she had destroyed all her old feelings, and emotions, her likes and dislikes, all the inherited loves and hates that her father and mother had given her; the old life had been thrown utterly away.

It grew light, and when the dawn burned she fell asleep, murmuring:
"How say ye that I was lost?"


Escrito em (ou até?) 1897 e editado somente em 1924, Ornaments in Jade é um conjunto de histórias curtas, da autoria do grande Arthur Machen.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Quinta da Soalheira '2012

Situada perto de S. João da Pesqueira, a Quinta da Soalheira é uma propriedade com cerca de 340ha de área, atravessada pelo Rio Torto, e que pertence à Soc. dos Vinhos Borges desde 1904.

Os seus solos são predominantemente xistosos e o clima da região, continental, com Invernos frios e Verões quentes e secos.

Vinificado em Vila Real e engarrafado em Felgueiras, este vinho consiste num lote de Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Touriga Franca, Tinto Cão e Sousão.

O produtor menciona desengace total da fruta, uma breve maceração pré-fermentativa, fermentação em curtimenta, a temperatura controlada, seguida de separação das partes sólidas e estágio em barricas de carvalho francês, de 9 a 12 meses.

Redondo, de complexidade e corpo medianos, é um Douro típico, onde ainda predominam as notas de frutos silvestres, azuis e negros, mas que também mostra mato seco, esteva, violetas e especiarias doces, com um lado mais evoluído e mineral, mais "savoury", de terra e couro, em crescendo com a exposição ao ar.

É aceitável a acidez que evidencia, mas insuficiente para contrariar a impressão geral de calidez deixada. Face a isto e aos taninos já maduros, não deverá valer a pena dar-lhe mais guarda.

Acompanhou as coxas de frango, picantes, no forno, de que Luisa Weiss fala no seu "My Berlin Kitchen" e no blog que mantém online.

Consumi uma garrafa do seu antecessor da colheita de 2007, em Novembro de 2012, e a acreditar no que ficou para ler, gostei mais desse, então, que deste, agora.

5€.

15

domingo, 16 de outubro de 2016

Soligamar — Reserva '2009

É a fruta, bem escura, que predomina neste Rioja "moderno", de aroma cálido, onde surge misturada com basta dose de barrica ainda evidente como tal: sobrepostos ao toque especiado "quente" que acompanha toda a prova, muitos tostados, a inevitável baunilha, e tabaco.

Encorpado na boca, está bem macio, com a acidez finamente integrada. Mais amplo que longo, termina com um travo "salgado" muito interessante, que já tinha encontrado neste seu antecessor, da colheita de 2006.

Com meia dúzia de anos, está para durar: nem evidencia grandes caracteres terciários, como aparenta ter estaleca — no caso, álcool e extracto — mais que suficiente para os vir a desenvolver com harmonia.

Consiste num lote de Tempranillo, Garnacha e Mazuelo, criados no solo barrento e pedregoso de Tudelilla, nos contrafortes da Sierra de la Hez. Estagiou durante 24 meses em carvalho francês, com trasfegas a cada meio ano.

Seria fácil associar o seu perfil "meio madurão" ao facto de provir da dita Rioja Baja, a mais mediterrânea, e, por conseguinte, a mais amena das três Riojas. Mas as cepas estão plantadas a mais de 600m de altitude, num lugar onde a temperatura média anual ronda os 13ºC (com Verões bastante quentes) e onde neva todos os anos, ainda que pouco.

A marca pertence a Carmelo Ortega, que também produz Ortega Ezquerro e Saxa Loquuntur.

9€.

16,5

quinta-feira, 13 de outubro de 2016









segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Quinta Vale D. Maria '2010

Foi aberto em casa do T, para acompanhar um almoço vegetariano: salada com falsa maionese de abacate, lentilhas vermelhas em molho masala, com espinafres, tipo isto, acompanhadas de arroz jasmim, e uma mousse de chocolate preto que achei muito engraçada quando levada à boca junto com o molho de abacate supra, sem misturar. A resposta à pergunta "mas com esta comida, porquê tinto, seu burro?", sem dúvida pertinente, é que nenhum dos presentes, excepto eu, bebe vinho, de tal forma que não havia nenhum branco fresco e, dos tintos existentes, era este ou um daqueles "reserva" do Continente que se encontram eternamente em promoção.

Imaginem agora o meu esforço para me portar bem, imaginem-me a dizer àqueles simpáticos velhotes que "só para mim não, não vale a pena" e eles a replicarem que estivesse à vontade, que "não vale a pena ficar aí, que ninguém a bebe" e "mas bebe, bebe toda"! Alguém lhe tinha escrito um três, a esferográfica, por cima do zero original do rótulo; não sei nem perguntei porquê.

E foi assim que, sem decantar, me apareceu no copo um tinto sério, escuro e muito integrado, de excelente volume e estrutura compacta, com taninos ainda jovens. Um pouco mudo, no entanto, mau grado a densidade e força que deixava entrever; para cúmulo, a fruta e os tostados que iam despontando não tardavam a ser oprimidos pela intensa componente especiada do prato principal. A solução foi beber o menos possível até à sobremesa, onde, mau grado o conjunto continuar um pouco preso, finalmente senti harmonia.

Foi sozinho e já bem depois da refeição que mostrou o melhor de si, com as arestas a arredondar e o aroma como que a concentrar-se: andava eu com o que dele sobrara pelo quintal, a fotografar gatos, quando comecei a notar a fruta mais viva, com nuances límpidas, de groselha e mirtilo, que antes não estavam lá, as especiarias mais fragrantes, mais envolventes, e o café, nota dominante no fim de boca, mais alegre, com pontuais laivos de chocolate, a fazer lembrar um bom moca.

Acabei a tarde com a S, a não encontrar a entrada para a escombreira de uma mina. Já de noite, um som estranho, alto e arrastado, que a princípio suspeitámos advir do funcionamento de algum tipo de bomba, mas que provavelmente seria o ressonar de um animal que não chegámos a ver: parou quando nos parecia termos chegado à sua origem, imediatamente seguido do barulho de algo a mover-se pelo alto do que resta das paredes do convento arruinado de Sacaparte.

De acordo com ficha técnica que o produtor disponibiliza no seu sítio da internet, este tinto é "um blend de 41 castas diferentes", procedentes de vinhas com mais de 60 anos. As uvas foram "pisadas em lagares de 1 a 3 dias antes da fermentação, e vinificadas depois durante 7 a 10 dias" e os vinhos daí resultantes fizeram a fermentação maloláctica e posterior estágio, de 21 meses, em barricas de carvalho francês, "sendo os diferentes lotes obtidos de cada fermentação mantidos completamente separados até à composição do lote final, cerca de um mês antes do engarrafamento", que foi feito em Julho de 2012.

O PVP ronda os 35/40€.

17,5

sexta-feira, 7 de outubro de 2016




Waldemar Weimann & Otto Prokop: Atlante di Medicina Legale — traduzido do alemão pelo Prof. Fortunato Jacopino,
Edizioni PEM, Roma, 1966.