terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Casa da Passarela — Abanico, Reserva '2011

50% Touriga Nacional, completada com Alfrocheiro e Jaen. Após vinificação em cubas de cimento, com macerações pré e pós-fermentativa, parte do lote final estagiou, durante um ano, em barricas de 225 litros, novas, de carvalho francês.

A pequena estória que aparece no contra-rótulo (e no sítio do produtor na internet) é engraçada: "Conta-se que um dia um escultor ficou com o olhar preso num conhecido fenómeno da natureza: um pavão exibia o seu manto majestático de penas, só para chamar a atenção da fémea e saciar as suas vontades proibidas. O espectáculo fora de tal forma esplêndido, que dois dias mais tarde tinha já o artista esculpido uma peça baseada no que tinha visto. Deu-lhe o nome de leque. E para poder sobreviver, deu-lhe também uma utilidade simples. E os leques foram-se reproduzindo pelas modas, pelas gentes, pelos palácios, pelas óperas e pelas épocas, como um adereço imprescindível. Mas o mundo haveria sempre de usar o leque para expulsar o calor, nunca para o deter dentro de si. O mundo, excepto uma mulher: Teresa. Teresa sempre fora uma rapariga tímida e reservada, mas aos 21 anos recebeu um presente secreto, uma carta e um leque de um admirador, um nobre que vivia em Sevilha. Na carta, concedia-lhe o absoluto e em troca apenas lhe pedia que dormisse sempre com o leque por perto. No momento em que, pela primeira vez, pegou no leque, Teresa tornou-se numa imperatriz. Todas as noites sonhava com estranhos pavões a saciarem as suas vontades proibidas."

Agora que nada é verdadeiro, e por conseguinte, tudo é permitido, ainda mais que quando, no passado, se começou a materializar aquela vontade proibida, inerente ao espírito de cada um, de viver livre do jugo de outras vontades, mais ou menos inquestionáveis e mais ou menos invisíveis também, provindas directamente de Deus e concretizadas pelo verdugo, se necessário, temos TV em directo, web 2.0 e toda uma porrada de invenções que progridem no sentido da aproximação; sobrevivemos ao esvaziamento de todos os valores, e continuamos tão enfermiços de alma que acabamos a esmiufrar, novamente, as observações dos antigos, tamanha a necessidade auto-imposta de encontrar algo diferente, nem que para tal seja necessário regressar à prisão, interrogo-me se porque "isto que temos" nunca é bom que chegue ou se, simplesmente, para variar.

Quanto ao vinho, que é por causa dele que todas as observações supra aqui estão, encontrei-o repleto de frutos negros, sobretudo ameixa, junto com generosos apontamentos balsâmicos, fumados e especiados que, a todos os títulos, só poderia considerar interessantes. Está mais intenso que encorpado, bem mais longo que complexo e muito, muito fresco. Dão e Touriga quanto baste, tem a individualidade das coisas que sugere a perder-se, fundida, no todo, e isso, junto com ser assim "grande" sem depois possuir opulência a condizer, muito ajudam à percepção global de elegância, que será aquilo que dele mais facilmente fica, pelo menos neste momento.

7€.

16,5