sábado, 6 de agosto de 2016

"No Registo do Óbito, passado a 27 de Março de 1946, lê-se como causa da morte:

Asfixia por obstrução dos vasos aéreos superiores produzido por pedaço de carne.

Assinam este documento o declarante, Dr. Asdrúbal d'Aguiar, e a ajudante do Posto do Registo Civil, Maria Teresa da Costa Monteiro de Figueiredo.

O que, desde já, achamos estranho é a posição tranquila do corpo de Alekhine. Custa-nos a acreditar que uma pessoa vítima de asfixia morra com a serenidade que as fotografias mostram e os relatos confirmam. O próprio Dr. António J. Ferreira afirma que o asfixiado cai no chão. É, segundo supomos, fácil de entender que, numa situação dessas, a vítima estrebuche e se agite convulsivamente. Nada disto se nos patenteia nas fotografias.

Dispomos de duas fotografias tiradas de ângulos diferentes: uma publicada no livro de hans Müller e A. Pawelczak, Schachgenie Aljechin, Leben und Werk (foto junto da p. 272) e outra reproduzida na revista Jaque (Nueva Época, nº 319, 2a Quincena, Diciembre 1991, p. 10). Tal como vimos nas descrições já referidas, Alekhine está tranquilamente sentado num cadeirão parecendo dormir. A cabeça pende-lhe ligeiramente sobre o ombro esquerdo e não se apoia nas costas do cadeirão, que tem um naperon de renda.

(...)

Qual é a diferença de uma para a outra fotografia? Na da revista Jaque, deparamos com um jornal, ou revista, sobre o livro na prateleira do toucador onde está o copo.

Não sabemos a ordem por que foram tiradas as duas fotografias; todavia, o que é um facto indesmentível é que alguém colocou, ou retirou, um objecto, o que se nos afigura estranho, uma vez que, num caso como este, em que se suspeitou de homicídio, nada poderia ser retirado ou acrescentado."

Dagoberto L. Markl,
Xeque-mate no Estoril, A morte de Alekhine
Ed. Campo das Letras, 2001